quinta-feira, 14 de abril de 2016

Segue a farsa da C`PI contra o CIMI e contra os povos indígenas


Em depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Assembleia Legislativa do Mato Grosso do Sul contra o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), na última quarta-feira, 13, o presidente da entidade, o arcebispo de Porto Velho (RO) dom Roque Paloschi, negou as acusações de que o Cimi incita, organiza e financia ocupações de terra no estado. Ainda, o dignatário eclesiástico reafirmou o compromisso da organização com a luta dos povos indígenas pela vida e pelos direitos constitucionalmente garantidos em séculos de resistência.
Dom Roque explicou que, entre outras questões que mobilizam o Cimi a atuar entre os indígenas, a desigualdade e a violência sofrida por eles no país são centrais. "Os dados das violências contra os povos indígenas no Brasil e também no Mato Grosso do Sul falam mais alto do que tudo", afirmou aos deputados que compõem a Comissão. Paulo Correa (PR) e Mara Caseiro (PSDB) questionaram sobre a validade das estatísticas de violência (regularmente publicadas pela entidade em relatórios públicos), argumento que baseia a necessidade do Cimi em atuar junto às comunidades indígenas no país e, sobretudo, no estado.
"Nós ficamos perplexos, porque nós estamos aqui acolhendo a convocação à CPI, e respondendo. Agora, dizer que é o Cimi quem inventa esses dados… O estado recebeu a visita de uma representante dos povos indígenas da ONU, por que será que ela veio? Não tem problema nenhum aqui?", rebateu dom Roque. "Nao é novidade para ninguém, os números de assassinatos, o número de suicídios, entre os povos do estado. A morte, o extermínio dos povos indígenas, esse é o ódio que nós entendemos que existe".
Os deputados também o inquiriram sobre as acusações de que o Cimi promove o uso de armas e incita a violência entre os indígenas. Dom Roque foi taxativo: "nossa missão é justamente promover caminhos de fraternidade, de paz, de verdade", explicou o presidente da entidade indigenista. "Eu tenho consciência de que nenhum missionário do Cimi está incentivando o uso de drogas ou contrabando, como o deputado Paulo [Correa] dizia, nem de armas e nem a violência. Tenho consciência absoluta e, mais, coloco a mão no fogo".
"A retomada das terras que os indígenas estão fazendo, nao é uma decisão do Cimi. É uma decisão deles. A senhora sabe, deputada [Mara Caseiro]. Por mais que tentem dizer que é o Cimi, a senhora sabe, é a autonomia deles, e nós temos que respeitar", disse Dom Roque.
No sentido de contribuir com os esclarecimentos, junto ao depoimento, o presidente do Cimi encaminhou um ofício explicitando os mecanismos estatutários da entidade, suas organizações financiadoras, o quadro de missionários e funcionários e também o Relatório de Auditoria Institucional Consolidado do Cimi, com as prestações de contas audidatas da entidade.

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Ministro da Defesa vai a CPI para constranger antropólogos e defensores de indígenas. Por Alceu Luiz Castilho

Reproduzo na íntegra o texto de Alceu Luiz Castilho sobre as falas do Ministro da Defesa, Aldo Rabelo, na CPI da Funai e do Incra onde ele compareceu de forma "oferecida" para depor, com a única intenção de responsabilizar os povos indígenas por sua própria desgraça bem como os antropólogos e e apoiadores da causa indígena. Sinceramente me sinto profundamente constrangido e desrespeitado na fala deste que, mesmo sendo ministro, não merece qualquer forma de consideração.
Em ato voluntário, Aldo Rebelo voltou a se aliar com ruralistas para colecionar delírios que seriam inadequados para um deputado; quanto mais à sua função no governo
Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)
No que se refere à questão agrária, tema que acompanho de perto, nenhuma vez fiquei tão constrangido ao ver a fala de um político quanto agora, ao assistir o vídeo de Aldo Rebelo na CPI da Funai, na quarta-feira. E olhem que ele tem sérios concorrentes. Tivemos o deputado Luís Carlos Heinze (PP-RS) chamando índios, gays, quilombolas de “tudo que não presta”. E falas absurdas da ministra Kátia Abreu, principalmente do tempo em que era senadora; ou do líder da milícia UDR, hoje senador, Ronaldo Caiado (DEM-GO).
E por que a fala de Rebelo é pior?
Porque ele é ministro da Defesa. Suas curiosas concepções sobre “antropologia colonial” já seriam particularmente bizarras por ele se declarar comunista – ele é um dos líderes do PCdoB. Mas este é um assunto menor: que esses comunistas específicos se virem com sua consciência e com suas leituras, diante das diatribes do ex-deputado. Que se olhem no espelho e tentem encarar, depois disso, uma liderança indígena, um antropólogo sério, sem passar profunda vergonha. Agora, repito: Rebelo é ministro da Defesa.
E, por isso, sua fala é indefensável. Vejamos.
“Dos três troncos, o indígena é o mais sofrido, o mais esquecido pelo Estado brasileiro. Enquanto os outros troncos alcançaram, de certa forma, seu espaço na construção da sociedade nacional, os índios foram ficando à margem desse processo, e carregando maior as penas e o sofrimento da construção da nossa pátria. Cabe, portanto, esse registro pra que essa injustiça possa ser reparada, para que nós possamos, de forma consequente, socorrer, amparar essa parcela da nossa população. Exatamente para que ela não fique à mercê [eleva a voz] da manipulação de demagogos, da manipulação de interesses espúrios internos e externos, como, lamentavelmente, vem acontecendo.
É preciso que o Estado brasileiro ampare a população indígena do Brasil, para que organizações não-governamentais interesseiras, muitas vezes agentes do próprio Estado, agindo contra o Estado, manipulem o sofrimento e o abandono das populações indígenas. Falo, senhoras e senhores, com a experiência de quem palmilhou, nas fronteiras do Brasil mais remotas da Amazônia, as terras indígenas e quem pôde dialogar com suas populações. E de quem pôde testemunhar, exatamente, aquilo que acabo de dizer. (…)
Nossa tradição, naturalmente, não nega as violências, não nega as brutalidades, não nega as injustiças, não nega tudo que de errado nós fizemos contra as populações indígenas. Mas isso também afirma a natureza da nossa civilização de buscar incorporar, não apenas no sangue, mas na cultura, na história, na literatura, na culinária, no imaginário e na psicologia do nosso povo a presença dos nossos queridos e das nossas queridas irmãs e irmãos indígenas.
Por essa razão, senhores, é inaceitável [eleva novamente a voz] a doutrina esposada por certos setores da antropologia, principalmente da antropologia colonial, antropologia criada na França e na Inglaterra exatamente para melhor realizar o trabalho de dominação das chamadas populações aborígenes. Antropologia que depois foi incorporada pelos exércitos coloniais como parte do esquema de dominação. Essa corrente antropológica neocolonial é que procura apartar da sociedade nacional e da integração à sociedade nacional as populações indígenas. E é preciso que se denuncie com vigor e com coragem, para que o Brasil não se ponha no papel de vítima dos crimes que, de fato, ele não cometeu. Basta aqueles que nós já cometemos.
Essa antropologia que influencia estruturas do próprio Estado brasileiro, que incorpora setores importantes da nossa mídia, que incorpora setores importantes de correntes religiosas trata de estabelecer um abismo entre a sociedade nacional, entre o Brasil e as populações indígenas, contrapondo ao esforço de integração a ideia de segregação. Como se na escala evolutiva da humanidade o índio pudesse ser contido e parado nos estágios anteriores à evolução de toda a humanidade.
Tenho amigos europeus que fazem estudos em populações tribais e que descobriram, aqui na região da Amazônia, como é óbvio, uma população indígena que não sabe contar, que não domina a aritmética como qualquer povo ágrafo. Eu dizia para ele: seus antepassados também não sabiam contar. Contam no máximo 1, 2, 3 e muito. (…) O que eu perguntava para esse amigo antropólogo era o seguinte: as crianças dessa tribo devem ter o direito de aprender matemática? Ou elas devem ter negado esse direito, para que a antropologia continue dispondo de estudo de caso para registrar nas suas teses de mestrado ou doutorado? (…)
A manipulação das causas nobres e justas, como é a causa da proteção dos índios, não é a única no mundo. Ela tem paralelo com a manipulação da causa do meio ambiente. É muito parecido. As potências usam o meio ambiente, as causas indígenas, os direitos humanos, a democracia, a liberdade como usaram o anticomunismo no passado. O que era o anticomunismo? Era o pretexto para se fazer golpes de Estado, para defender interesses econômicos em função da defesa da liberdade e da democracia. Depois que o comunismo deixou de ser o pretexto, porque não era de fato ameaça, eles procuraram outros pretextos: a causa indígena é um deles, o ambientalismo é outro”.   
E assim por diante, como se pode ver no vídeo. De forma voluntária, sem que o ministro Aldo Rebelo tivesse sido convidado ou convocado à CPI, instalada pelos ruralistas para combater direitos indígenas e a reforma agrária. Como porta-voz do governo, portanto?
aldorebelo
Bancada ruralista, comissão ruralista, ministro ruralista (Reprodução/ YouTube)
Note-se que ele chega a combater a demarcação contínua da Raposa Serra do Sol, em Roraima. Em determinado momento, pergunta: “Quem é índio e quem não é índio onde tudo já se misturou?” E cita um estudo de pedologia na Universidade Federal de Viçosa que considera não existir mais ali uma civilização indígena, “mas uma civilização miscigenada”.
É como resume o antropólogo Henyo Barretto Filho, do Instituto Internacional de Educação do Brasil: “Se o governo não desautorizar de modo igualmente público e expresso tal depoimento, fica sendo essa a versão do governo sobre os povos indígenas, a política indigenista e o papel da antropologia no reconhecimento dos direitos territoriais”.

quinta-feira, 31 de março de 2016

Quem se mistura a porcos, farelo come

Por: Lindomar Dias Padilha

Dilma e Katia - Imagem de internet
Quem me conhece sabe que sempre fui um democrata, entendendo que um democrata não é apenas uma pessoa que apoia determinado modelo de organização política, mas sobretudo alguém que se comporta como um democrata, livre. Que aceita uma sociedade democrática. Que aceita a diversidade de opiniões e comportamentos, ainda que contrários aos seus. E que aceita essa diversidade de modo natural, com boa vontade, sem ilusões e sabendo que mesmo as aberrações de uma sociedade livre são preferíveis aos desmandos da falta de liberdade. Por isso mesmo, sempre fui capaz de me abrir ao debate e às polêmicas sem jamais perder a ternura, mas firme nas convicções e propósitos.

Entretanto, nestes últimos tempos, a postura maniqueísta e, por isso mesmo anti-democrática, tem batido à minha porta com muita insistência na forma de agressões e acusações contra minha pessoa e os princípios aos quais estou ligado por caráter, situação ou por escolha. Estranha-me muito que alguém julgando defender a democracia haja com tanta fúria justamente contra um democrata, contra pilares da própria democracia que é o debate sensato e, lamentavelmente eu não sou o único a ser agredido mas, há milhões de brasileiras e brasileiros nestas condições. Quero dizer portanto, que o que está em curso com a ascensão do maniqueísmo entre nós, os santos e deuses, versus eles, os pecadores e demônios, nada tem com a democracia. Ao contrário, este maniqueísmo é uma afronta à democracia e a fere de morte. Mesmo com essas considerações, sigo propondo o debate e, por isso me dispus a escrever estas linhas sobre o que penso (se isso interessar) sobre o momento crítico em que estamos atravessando por uma tormenta em mares nunca antes navegados sob essas condições.

Por primeiro preciso esclarecer que não escrevo sobre o passado e por ele mesmo. Escrevo sim para um futuro que sei que virá, pois, o amanhecer nos encontrará felizes depois da atormentada noite e ai estaremos nós dançando e festejando a nossa liberdade. A história é um retrovisor que precisamos, de tempo em tempo, olhar mas o furo é o pára-brisas e é por ele que veremos o amanhecer. No momento o nosso retrovisor está menos turvo que o pára-brisas e, aliás, o que nos atinge não é o que podemos chamar de brisa, por isso o futuro também está bastante turvo. Neste momento precisamos ver o que não se vê. Pensar em possibilidades, em vias alternativas e não ficar insistindo ainda mais no mesmo. Essa insistência é sinal de falta de abertura ao novo, é o velho se impondo. É o pessoal sobre o coletivo. É a anti-liberdade, porque sentencia o futuro exclusivamente com os pecados e erros (argumentos) do passado sem lhe dar qualquer chance de defesa. O futuro tem o direito de se defender e nós a obrigação de defendê-lo. Mais: temos a obrigação de construí-lo.

Chamo a atenção para a necessidade de uma reflexão sobre nossas ações, considerando não apenas nossos interesses singulares e pessoais, mas suas implicações e relações com o outro, com a sociedade e seus impactos no ambiente, na vida mesma e de todos. Isso significa nos vermos novamente seres humanos em sua totalidade, integrados em suas múltiplas dimensões, não só politico-ideológicas, pertencentes a uma sociedade e uma natureza, e construindo formas de vida que integrem essa totalidade de modo harmônico, afinando suas necessidades e possibilidades particulares, às necessidades e possibilidades da coletividade, notadamente no amparo aos empobrecidos e mais vulneráveis. A isso chamo de democracia ativa e concreta, que vai além do discurso fácil do "eu contra eles e todos contra nós". Só espíritos desarmados se abrem ao outro e se doam na construção deste futuro que, sei e reafirmo, virá e nos encontrará felizes porque com nossos deveres cumpridos, ainda que muitos não creiam e muito menos trabalhem para isso.

Venho de uma militância junto às Comunidades Eclesiais de Base onde aprendi que não há salvação individual e devemos sempre nos atentar para que o pecado do sistema não nos tome pela mão e nos conduza por caminhos indignos aos seres humanos. O poder por ele mesmo é sempre mesquinho e contra a vida dos demais, assim como toda sorte de acumulação, nos leva a defesa das mais variadas formas de latifúndios, frutos da ganância. Quando ganância e poder se juntam, então temos uma obra que, na linguagem que aprendi nas comunidades, nada mais é que manifestação do reino do mal, do ódio, e isso não é democracia, é poder pelo poder e neste ponto se igualam os de cá com os de lá, usando a linguagem maniqueísta que tem sido preferida por aqueles que se supõem estarem debatendo democracia e como se democratas fossem.

Milito desde o limiar da década de 80 tendo minha primeira relação político-partidária em 1982 com o recém criado PDT do saudoso trabalhista Leonel de Moura Brizola. Agremiação partidária que marcou profundamente minhas convicções e escolhas, só não tão decisivas quanto o foram as CEBs. Nesta mesma década militei junto ao MAR - Movimento Anarquista Revolucionário, participando inclusive de ocupações de casas e apoiando ocupações de terras no Estado do Rio de Janeiro, chegando a morar com meus pais em uma dessas ocupações conhecida como Vila Bakunin, em homenagem ao pensador anarquista Russo  Mikhail Aleksandrovitch Bakunin. Uma pequena narrativa sobre este tempo pode ser lido AQUI em um texto escrito por Yasmin, que à época tinha 13 anos. Não me lembro da Yasmin mas pelo que ela escreve, compreendeu muito bem a importância daquele momento. Não relembro isso por saudosismo, senão para esclarecer de onde falo, qual a base de meu discurso.

A partir do engajamento no MAR, participei de diversos congressos e eventos estaduais da CUT - Central Única dos Trabalhadores, membro de uma corrente denominada PT/PT, de onde fomos expulsos, eu e mais alguns poucos, ainda em 1987 durante o IV Congresso Estadual da CUT/RJ, ocorrido entre os dias 28 a 30 de agosto daquele ano no Fundão, justamente por acreditarmos mais na liberdade democrática que nas estruturas de poder. Em 2017 completarei 30 anos de opção por militância fora de agremiações político-partidárias, salvo um curtíssimo período de apenas uma semana, em que estive nas fileiras do Partido Comunista do Brasil, PC do B, em 2003.

A luta contra toda forma de autoritarismo marcou e marca minha opção política fundamental e minha relação com os demais na construção de um mundo bom para todos e todas e não pode haver mundo bom que não baseado na justiça e na liberdade. É por essa marca fundamental que compreendo os ataques e as violências dos discursos, sem no entanto, concordar com eles.

Há mais de 20 anos venho tentando contribuir na defesa da vida dos povos indígenas e meu grito maior tem sido o de demarcação das terras indígenas já! mas também vou às ruas por reforma agrária, por reforma política, por reformas na educação, por reforma tributária, por reforma urbana, contra a exploração de petróleo e gás natural na Amazonia, principalmente utilizando a tecnica do fraturamento (fracking) e o uso indiscriminado de combustíveis fósseis, contra a financeirização da natureza e todos os projetos que atentam contra a vida e pelo respeito entre as pessoas e em favor da tolerância ativa. No entanto, engana-se quem pensa que faço isso apenas pelos outros. Faço antes por mim mesmo, porque também eu dependo de tudo isso para me realizar enquanto ser humano integral e integrado à natureza, como parte indissociável dela. Minha postura tem sido democrática e não covarde ou conciliadora entre inconciliáveis. Temos que ser duros na defesa dos direitos especialmente dos menos favorecidos, sem arredar pé. Isso não significa defender governos ou partidos mas defender causas.  

Dito isso e respondendo a uma pergunta cinicamente a mim formulada (mais parecendo uma acusação) se sou defensor do impedimento da Srª presidente Dilma, afirmo negativamente. Ou seja, não sou nem nunca fui favorável ao impedimento porque sei distinguir entre crimes políticos e crimes administrativos, ou de responsabilidade. Claro está que aqui se trata antes do primeiro caso que do segundo, sem no entanto afirmar que não tenha havido os dois tipos de crimes. Digo apenas que o impedimento deve ser analisado por crimes à administração. Se estes crimes dos quais ela tem sido acusada restarem provados, com a palavra o Congresso Nacional. Porém, os crimes contra a democracia aconteceram e é contra estes que me levanto democraticamente.

Penso que a saída mais correta e sensata seria a cassação pelo TSE da chapa que elegeu Michel Temer e Dilma e convocar novas eleições. No meu entendimento fomos todos e todas enganados e isso se caracteriza como fraude eleitoral. A fraude eleitoral é o ataque mais covarde à democracia, porque a ataca naquilo que lhe é mais representativo em nosso modelo que é o sufrágio universal. Desta forma soa como falsa, e de fato o é, a afirmação de que Michel Temer e Dilma foram eleitos democraticamente. Não foram eleitos democraticamente mas, ao contrário, foram eleitos negando um princípio basilar da democracia que é a verdade e a transparência nos propósitos. Mentiram e ocultaram intenções induzindo propositadamente o eleitor ao erro. Note que isso nada tem a ver com qualquer partido político mas com democracia e respeito ao voto e à vontade soberana do povo expressa neste mesmo voto. Para mim a cassação da chapa e a convocação de novas eleições recolocaria o debate sobre que democracia estamos construindo.

Em junho de 2013 o povo foi às ruas sem nenhuma agremiação partidária convocando, algo lindo de se ver! Atordoados com a democracia e liberdade ali manifestas, os que estavam no poder determinaram aos aparelhos repressores e repressivos que entrassem em ação e literalmente tivemos um massacre de sonhos juvenis de uma sociedade verdadeiramente justa. Cada uma daquelas bombas e balas, me feriam como que de morte porque de morte feriam a democracia e os sonhos de uma pátria livre. Em pouco tempo a juventude foi criminalizada por sonhar e os políticos, como hienas, se juntaram às mídias latifundiárias para degustarem e tripudiarem sobre seus restos e carnes sangradas e feridas. Nada, rigorosamente nada do que os jovens propuseram foi acolhido. Ali percebi com clareza a marcha da insensatez. Do poder pelo poder e do vale tudo para permanecer no poder ou para tomá-lo.

Não, ninguém vai me convencer  de ficar do lado de quem está no poder e, faz de tudo para lá permanecer, tão pouco de ficar do lado de quem o quer a qualquer custo. Fico do lado do povo, a quem pertence verdadeiramente o poder: "não terias poder se não lhe fosse dado" (Jesus Cristo). 

Quem se mistura a porcos, farelo come, como diz um ditado português. Pois bem, quem se junta a traidores da democracia, se retroalimenta de golpes e traições. Os golpes e traições só estão entre vocês mesmos que querem nos acusar e obrigar a que estejamos de um lado ou de outro. O povo não traiu ninguém e tem sido o único verdadeiramente traído e enganado ora pelos porcos, ora por aqueles que a eles se misturaram. Os iguais que se resolvam!

Link para  texto de Yasmin:

https://www.nodo50.org/insurgentes/textos/autonomia/14vilabakunin.htm

quinta-feira, 24 de março de 2016

Carta aberta para Maria Bethânia

“ Tomo a liberdade de escrever esta carta em protesto contra sua participação na campanha "A Natureza está falando"  da Organização Não Governamental Conservação Internacional (CI). Percebo que a senhora se entende como uma pessoa espiritualmente ligada à natureza. Recentemente assisti uma entrevista sua na TV. Nesta entrevista a senhora falou que, antes de aceitar ser enredo da Mangueira, consultou seus guias espirituais para obter autorização. A principio considero muito boa esta atitude. Entretanto sinto que sua participação na campanha supracitada pareceu-me contraditória com a referida atitude. A seguir exponho as razões desse estranhamento que motivou a lavra desta Carta...”

Por: Michael F. Schmidlehner

Carta aberta para Maria Bethânia. 23972.jpeg
Prezada Maria Bethânia,

Tomo a liberdade de escrever esta carta em protesto contra sua participação na campanha "A Natureza está falando"  da Organização Não Governamental Conservação Internacional (CI). Percebo que a senhora se entende como uma pessoa espiritualmente ligada à natureza. Recentemente assisti uma entrevista sua na TV. Nesta entrevista a senhora falou que, antes de aceitar ser enredo da Mangueira, consultou seus guias espirituais para obter autorização. A principio considero muito boa esta atitude. Entretanto sinto que sua participação na campanha supracitada pareceu-me contraditória com a referida atitude. A seguir exponho as razões desse estranhamento que motivou a lavra desta Carta.

Inicio compartilhando algumas informações que possam ajudar esclarecer em que consiste na minha avaliação o propósito desta Organização Não Governamental (ONG). Tendo trabalhado algum tempo com uma ONG, hoje entendo que tem três principais perguntas que podem revelar os interesses que movem uma ONG: Quem a dirige? Quem a financia? Quais as relações entre dirigentes e financiadores? Vejamos, através de alguns exemplos, como estas questões se comportam no caso da CI.

A maior empresa do mundo - Walmart - é uma das principais parceiras da CI. O ex-presidente e filho do fundador desta empresa, o multibilionário Rob Walton ao mesmo tempo é presidente do comitê executivo da CI. Walmart vem sendo veementemente criticado por violar direitos trabalhistas no mundo inteiro, por explorar trabalho forcado na China e por causar uma gigantesca pegada ecológica.  A parceria com este gigante das ONGs é estratégica para Walmart por duas razões. Primeiro o melhoramento da imagem publica da empresa.   Segundo, os projetos conservacionistas da CI (principalmente os projetos de Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação florestal - REDD) em grande parte objetivam a emissão de certificados de "emissões de carbono evitadas". Estes certificados podem ser usados por empresas como Walmart, para "compensar" as emissões por ela causadas. Ao invés de mudar suas praticas ambientalmente destrutivas, a empresa pode - com relativamente pouco dinheiro - "apagar" sua pegada ecológica e tornar-se "carbono neutral".  Através de um dos projetos facilitados pela CI no Brasil, por exemplo, Walmart pretende "evitar" a emissão de 458 milhões de toneladas de carbono na floresta Nacional do Amapá.
A maior parte das receitas da CI provem de empresas e fundações, sendo grande parte destas fundações por sua vez ligadas às corporações, ricos empresários ou bancos (por exemplo Fundo Filantrópico Goldman Sachs, Fundação Walt Disney, Fundação Coca Cola, Fundação Margaret A. Cargill etc.).

De fato, estes projetos tendem a resultar em criminalização e até expulsão dos povos da floresta, que são forçados a abandonar suas tradicionais praticas de subsistência. Em Botswana, por exemplo, onde a CI apóia o governo na implementação de políticas conservacionistas, centenas de indígenas foram espancados, presos e expulsos de áreas de proteção ambiental. Trata-se de uma reserva, onde o governo do país quer explorar minas de diamantes e extrair gás de xisto (fracking).  A CI se defendeu contra as acusações com uma nota, alegando que não teria envolvimento em tais ocorrências, mas que não poderia ser responsabilizada por eventuais evicções promovidas pelo governo de Botswana. Entretanto, a nota não menciona o fato que o Sr. Ian Khama - o próprio Presidente deste país africano - integra a diretoria da ONG (CI) .

A CI ainda promove pesquisas e atividades de bioprospecção em terras indígenas e em regiões de grande Biodiversidade (biodiversity hotspots), frequentemente em parceria com empresas, tais como Monsanto e Novartis. Estas atividades são percebidas por ONGs críticos e comunidades indígenas e como biopirataria e biocolonialismo. Eles acusam a CI, alem de criminalizá-los, de roubar seu conhecimento tradicional e de se apropriar de recursos biológicos, monopolizando e mercantilizando-os.

Empresas petrolíferas, exploradoras de carvão e empresas de energia, cientes do fato que a queima dos combustíveis fosseis são a principal causa da crise climática, hoje tem grande interesse no melhoramento da sua imagem e na possibilidade de compensação de emissões, que deve permitir que eles continuam seu negocio como sempre. Por isso não é de estranhar que encontramos nomes como BP, Shell, Cerrejon Coal,  etc. na lista dos parceiros da CI. A organização justifica suas parcerias com as empresas poluidoras, argumentando que ela trabalharia para melhorar as práticas ambientais das mesmas. Na pratica não podemos ver muitos resultados deste trabalho da ONG. Ela parece mais viabilizar meios para que as corporações possam comprar seu caminho fora da responsabilidade e continuar com suas práticas destrutivas.

No Brasil, a Petrobras é parceira da CI. Aqui o entrelaçamento de interesses entre os dois obviamente vai além da sua parceria oficial. O multibilionário brasileiro André Esteves preenche (juntos com o ator Harrison Ford) o cargo de vice-presidente do conselho da CI. Em 1992 Esteves foi acusado de ter pagado R$ 6 milhões em propinas para Fernando Collor. A quantia teria sido repassada a Collor para que a BR Distribuidora - subsidiária da Petrobrás - cedesse sua bandeira para uma rede de 120 postos de combustíveis controlada pelos empreendimentos de Esteves. Uma das empresas de Esteves ainda vende equipamentos para exploração de petróleo para a Petrobras. Acusado de ter pagado propina na compra de ativos da Petrobrás na África e de ter tramado contra a operação Lava Jato, Esteves foi preso em novembro do ano passado e responde por processo criminal. A CI apresenta seu vice-presidente Esteves no seu site como "conservacionista", sem maiores explicações. Temos que perguntar: como Esteves chegou a ter esta posição na CI? Que faz dele uma "conservacionista"? Em que consiste este conservacionismo da CI?

O rompimento da represa em Mariana em novembro de 2015 é considerado o maior desastre ambiental que já teve no Brasil. A mineradora Samarco que é responsável pelo desastre é propriedade da Vale S.A. (50%) e da empresa anglo-australiana BHP Billiton (50%). Ambas as corporações tem parceria com a CI. Houve um laudo independente do instituto Pristino em 2013, que apontava para o perigo de rompimento, e que foi ignorado pela Vale e pela BHP Billiton. Mas por que a CI ignorou este laudo? Sendo ela parceira ambiental destas Multinacionais, não teria sido sua responsabilidade de pressioná-las para que tomem medidas? Ou seja, a CI não poderia ter evitado este desastre? E depois do desastre: enquanto a população brasileira (juntos com algumas organizações financeiramente independentes das empresas) protestava para que as corporações se responsabilizassem, a CI (assim como outras ONGs que recebem dinheiro da Vale) ficou praticamente quieta, se restringindo a analises técnicas sobre o ocorrido.

Assim como as indústrias poluidoras, as empresas petrolíferas e as grandes instituições financeiras, a indústria de armas também tem seus interesses entrelaçados com os da CI.  Wes Bush, o presidente da empresa Northrop Grumman é tambem membro da diretoria da CI. Produtos da Northrop Grumman são, por exemplo, o bombardeiro "Stealth B-2" e o drone "Global Hawk", utilizadas entre outros, nas guerras que os EUA promoveram em Afeganistão e no Iraque para manter seu controle sobre o petróleo nestas regiões. Neste momento estes mesmos equipamentos efetuam bombardeios na Síria.  Em 2011, a corporação faturou com seus produtos acima de 26 bilhões de dólares. Neste mesmo ano, a Fundação Northrop Grumman doou 2 milhões (menos que um milésimo do faturamento) para a CI. Em contrapartida, a ONG confere à empresa a reputação de responsabilidade ambiental. No site da CI consta: "CI colabora com Northrop Grumman [...] para permitir que a empresa possa demonstrar impactos positivos de suas operações comerciais. As atividades específicas incluem uma análise das melhores práticas, protocolos recomendados para a medição de áreas de impacto (energia, água, resíduos e ecossistemas) [...]".  Impactos positivos?!

Novamente: em que consiste afinal o conservacionismo da CI? O que ela realmente conserva? Sinto que - mais que a conservação da natureza - o propósito fundamental da CI é a conservação de um sistema. Ela contribui na conservação de estruturas de poder e de interesses particulares de indústrias e do capital financeiro. Estes mesmos interesses e estruturas querem levar nosso planeta à destruição. Lutar contra eles hoje é uma questão de sobrevivência. Não podemos consentir ou colaborar com a maquiagem verde que organizações como a CI vendem para estas corporações!

Os povos indígenas andino-amazônicos levam muito a sério a idéia da natureza como ser vivo e sujeito falante. Em 2010 representantes destes povos proclamaram na Bolívia os Direitos Universais da Natureza e desde então se reúnem anualmente para ouvir denuncias de crimes contra a natureza. Praticas da CI, tais como os mencionados projetos REDD que visam a mercantilizarão da natureza e o encobrimento de crimes contra ela estão sendo denunciados e julgados neste fórum, e um grande número dos parceiros da CI está na banca dos réus.

O "ambientalismo dos conservadores do sistema" que vem sendo praticado pela CI e outras grandes ONGs tende a produzir em suas propagandas imagens da natureza selvagem, intocada, sem gente. Estas imagens condizem à pretensão deste sistema de transformar florestas, rios e oceanos em capital disponível sem interferência humana (sumidouros de carbono, serviços ecossistêmicos comerciáveis etc.). Ignorando as intimas ligações, os inúmeros processos de co-evolução entre comunidades, plantas e bichos, imagens como estas nos vídeos da CI acabam afirmando nossa separação da natureza. Assistindo-os, sentimos por um curto momento uma espécie de admiração por uma natureza irreal e romantizada, enquanto de fato ela nos escapa ainda mais. Esta comoção superficial faz que continuemos cegos diante as atrocidades muito reais que o sistema produz,  tanto contra a natureza, quanto contra as pessoas que dependem dela.

Acredito firmemente que, quando nos re-conectamos com a natureza dentro de nos nós (sendo nós parte dela), ela cobra de nós um grau cada vez mais elevado de discernimento, de vigilância e de disposição de lutar por ela. Peço que a senhora faça esta consulta, tanto no mundo dos fatos, quanto no mundo espiritual, para reavaliar sua participação na mencionada campanha e considerar a retirada do seu apoio a ela!

Espero que minhas palavras não a tenham ofendido. Certamente esta não foi minha intenção. Ao contrário, quero convidá-la para conhecer melhor os movimentos populares que se criam em reação à crise planetária, em defesa dos direitos da natureza e em oposição contra as falsas soluções do ambientalismo de mercado. Seria um grande ganho para esta luta contar com seu apoio e solidariedade.

Atenciosamente,

Michael F. Schmidlehner

quinta-feira, 10 de março de 2016

Qualquer solução que atenda a lógica do mercado (...) nega a ética, diz Nota da CNBB

Vivemos uma profunda crise política, econômica e institucional que tem como pano de fundo a ausência de referenciais éticos e morais, pilares para a vida e organização de toda a sociedade. A busca de respostas pede discernimento, com serenidade e responsabilidade. Importante se faz reafirmar que qualquer solução que atenda à lógica do mercado e aos interesses partidários antes que às necessidades do povo, especialmente dos mais pobres, nega a ética e se desvia do caminho da justiça.

A CNBB - Conferência Nacional do Brasil, divulgou nota onde manifesta preocupação com o momento atual do Brasil. A nota demonstra que, antes de tudo, vivemos uma crise de referência ética e moral que se manifesta na crise política e econômica, ou ainda que estas últimas decorrem da primeira. 

Diz ainda mais: "Importante se faz reafirmar que qualquer solução que atenda à lógica do mercado e aos interesses partidários antes que às necessidades do povo, especialmente dos mais pobres, nega a ética e se desvia do caminho da justiça." Ficando assim explícito que a questão que sustenta tudo e aparece como mal maior são os interesses do mercado e dos partidos, todos a serviço deste mesmo mercado. A crise ética portanto, não passa de debates sobre como se pode assaltar os cofres públicos e ainda assim seguirem pousando de santos.

Isso lembra que só temos atualmente o direito de escolher a cor azul ou vermelha, ou como diz o ditado, o povo elege a coleira.

Eis a nota:

NOTA DA CNBB SOBRE O MOMENTO ATUAL DO BRASIL
“O fruto da justiça é semeado na paz, para aqueles que promovem a paz” (Tg 3,18)
Nós, bispos do Conselho Permanente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil–CNBB, reunidos em Brasília-DF, nos dias 8 a 10 de março de 2016, manifestamos preocupações diante do grave momento pelo qual passa o país e, por isso, queremos dizer uma palavra de discernimento. Como afirma o Papa Francisco, “ninguém pode exigir de nós que releguemos a religião a uma intimidade secreta das pessoas, sem qualquer influência na vida social e nacional, sem nos preocupar com a saúde das instituições da sociedade civil, sem nos pronunciar sobre os acontecimentos que interessam aos cidadãos” (EG, 183).
Vivemos uma profunda crise política, econômica e institucional que tem como pano de fundo a ausência de referenciais éticos e morais, pilares para a vida e organização de toda a sociedade. A busca de respostas pede discernimento, com serenidade e responsabilidade. Importante se faz reafirmar que qualquer solução que atenda à lógica do mercado e aos interesses partidários antes que às necessidades do povo, especialmente dos mais pobres, nega a ética e se desvia do caminho da justiça.
A superação da crise passa pela recusa sistemática de toda e qualquer corrupção, pelo incremento do desenvolvimento sustentável e pelo diálogo que resulte num compromisso entre os responsáveis pela administração dos poderes do Estado e a sociedade. É inadmissível alimentar a crise econômica com a atual crise política. O Congresso Nacional e os partidos políticos têm o dever ético de favorecer e fortificar a governabilidade. 
As suspeitas de corrupção devem ser rigorosamente apuradas e julgadas pelas instâncias competentes. Isso garante a transparência e retoma o clima de credibilidade nacional. Reconhecemos a importância das investigações e seus desdobramentos. Também as instituições formadoras de opinião da sociedade têm papel importante na retomada do desenvolvimento, da justiça e da paz social.
O momento atual não é de acirrar ânimos. A situação exige o exercício do diálogo à exaustão. As manifestações populares são um direito democrático que deve ser assegurado a todos pelo Estado. Devem ser pacíficas, com o respeito às pessoas e instituições. É fundamental garantir o Estado democrático de direito.
Conclamamos a todos que zelem pela paz em suas atividades e em seus pronunciamentos. Cada pessoa é convocada a buscar soluções para as dificuldades que enfrentamos. Somos chamados ao diálogo para construir um país justo e fraterno.
Inspirem-nos, nesta hora, as palavras do Apóstolo Paulo: “trabalhai no vosso aperfeiçoamento, encorajai-vos, tende o mesmo sentir e pensar, vivei em paz, e o Deus do amor e da paz estará convosco” (2 Cor 13,11). 
Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, continue intercedendo pela nossa nação!
Brasília, 10 de março de 2016.

Dom Sergio da Rocha                              Dom Murilo S. R. Krieger
    Arcebispo de Brasília-DF                     Arcebispo de S. Salvador da Bahia-BA
   Presidente da CNBB                         Vice-Presidente da CNBB

      Dom Leonardo Ulrich Steiner
         Bispo Auxiliar de Brasília-DF

Democracia entre golpes

Publicado no blog Insurgente Coletivo
Israel Souza[1]
            Em uma passagem de O capital, Marx fez referência a um provérbio inglês, segundo o qual, “quando dois ladrões brigam, algo de útil acontece. Realmente, a luta ruidosa e apaixonada entre as duas facções da classe dominante, para determinar qual delas explorava mais cinicamente o trabalhador, serviu para revelar o que havia de verdadeiro dos dois lados” (MARX, 2003: 782).
O autor se referia aí à briga que se desenrolava entre a “aristocracia da terra” e a “burguesa industrial”. Mas, particularmente hoje, essa passagem faz lembrar o atual cenário político brasileiro e os conflitos entre as duas facções da direita que ora se desenrolam.
Para a “facção azul” (encabeçada pelo PSDB e consortes), o Brasil está entre a democracia e uma ditadura comunista ou bolivariana. Por essa ótica, a democracia só poderia prevalecer se o atual governo caísse e ela assumisse. Para a “facção vermelha” (encabeçada pelo PT e consortes), o país está entre a democracia e uma ditadura fascista. Neste sentido, a democracia depende da permanência do atual governo e da derrota (ou contenção) de seus inimigos, os golpistas.
Ambas as facções arrogam para si a tarefa de defender a democracia contra um golpe, contra uma ditadura. Embora acostumadas a mentir à sociedade, ao se acusarem, “algo de útil acontece”. Dizem a verdade uma da outra. Ambas são golpistas e antidemocráticas. São as principais responsáveis pela involução democrática dos últimos anos, fragilizando e/ou desmantelando as conquistas da Constituição de 1988.
Profundamente corrupta, a facção azul acusa a corrupção nas forças governistas apenas para miná-las, visando a ocupar o lugar que hoje elas ocupam. Pouco lhe importa a democracia. Por seu tempo, enredadas até a medula em corrupção, as atuais forças governistas repetem um roteiro já nosso conhecido. Toda vez que acuadas, denunciam perseguição dos outros e invocam o apoio da esquerda contra o golpismo e a favor da democracia. É sempre assim.
Nesses momentos, gritam coisas como “O golpe é contra você”, “O golpe é contra milhões de brasileiros”, “O golpe é contra a democracia”, “O golpe é contra os trabalhadores e os pobres”, “O golpe é contra toda a esquerda” etc. E assim, invertendo por completo a ordem das coisas, tratando uma disputa político-partidária como se fora a própria luta de classes, tentam nos fazer crer que é a democracia e a esquerda que dependem do PT e não o contrário. Com efeito, a democracia não estaria tão fragilizada e a esquerda tão enlameada, não fosse a atuação dos governos petistas.
Em verdade, o golpe que a facção azul da direita brasileira pretende dar em nossa democracia a facção vermelha está dando. A entrega do pré-sal (proposta por José Serra (PSDB) e acolhida pelo governo), reforma da previdência, aprovação da lei antiterrorismo, possível congelamento do salário mínimo (aventado por representantes do governo) são alguns dos fatores que mostram o quanto estão irmanadas em seus intentos antidemocráticos e golpistas. A democracia brasileira está entre golpes.
Dessa forma, o conflito que se desenrola hoje no país não é entre um grupo democrático e outro golpista. Ambos são golpistas. Ambos pretendem sangrar a democracia. Só divergem em como sangrá-la. Agora que os conflitos se acirram e parece difícil um recuo, não devemos desejar senão que se arruínem e se devorem entre si.
Nesse momento em que mais desabridamente favorece os de cima e encurrala os de baixo, o PT já não merece nem apoio nem solidariedade dos trabalhadores. Teve todas as chances de que precisou para reorientar o governo, as que mereceu e as que não mereceu; e, ainda assim, não o fez. Não há desculpas. A classe trabalhadora e as forças democráticas já não podem quedar-se reféns suas. Precisamos trilhar outro caminho, independente, verdadeiramente alternativo.
É chegada a hora de o PT colher abundantemente o que abundantemente plantou.

Referências bibliográficas

MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.




[1] Cientista Social, com habilitação em Ciência Política e membro do Núcleo de Pesquisa Estado, Sociedade e Desenvolvimento na Amazônia Ocidental (NUPESDAO). Email: israelpolitica@gmail.com

quarta-feira, 9 de março de 2016

DIA DA TERRA PALESTINA


Onde: Auditório do Centro de Filosofia e Ciências Humanas – CFH - UFSC - Campus Trindade - Florianópolis - SC
Dia: Quarta-feira, 30 de março de 2016
Horário: de 18 a 21 h
PROGRAMAÇÃO
18 a 18:10 h - Apresentação do Evento ao Público
18:15 às 19:20 h - Palestras e Debate: “História do sionismo e a luta contemporânea pela liberação da Palestina.”
Mesa apresentada por Allan Kenji, com a mediação da socióloga e representante do Comitê Catarinense de Solidariedade ao Povo Palestino Silvinha e os palestrantes: 
Hasan Félix, pesquisador antropólogo, escritor e artista plástico, autor do livro Vítimas de um apartheid ou ativistas silenciosos do fascismo?, cubano 
Tali Feld Gleiser, jornalista, tradutora, escritora, ativista do Movimento BDS e diretora geral de jornalismo do Portal Desacato, autora do livro Uma Judia na Palestina, chilena.
19:20 às 19:45 h - Apresentação e lançamento do livro de poesia de autoria de Yasser Jamil Fayad “Nosso verbo é lutar: somos todos palestinos” e apresentação de fotos de Baby Siqueira, Tali Feld Gleiser e Silvinha.
19:45 às 21 h Palestras e Debate: “Existência Israel, Resistência Semita”.
Mesa apresentada pelo jornalista Raul Longo com a mediação da socióloga e representante do Comitê Catarinense de Solidariedade ao Povo PalestinoSilvinha e os palestrantes:
Baby Siqueira Abrão, jornalista, descendente de família palestina, ex-correspondente no Oriente Médio do BDF, sediada na Palestina, pesquisadora da história e da política daquela região, 
Khader Othman, Membro do Comitê Catarinense de Solidariedade ao Povo Palestino, nascido na Palestina. 
O que é o Dia da Terra: O Dia da Terra é comemorado desde 30 de março de 1976, quando as autoridades de ocupação israelense confiscaram milhares de hectares de terras palestinas, especialmente nos territórios ocupados em 1948 e regiões da Galileia com maioria palestina. Naquela ocasião, foi declarada uma greve geral contra o confisco de terras em todo território da Palestina ocupada em 1948, desde a Galileia, no norte, até o Negev, no sul. As manifestações se estenderam na Cisjordânia, Faixa de Gaza e nos campos de refugiados e houve confrontos com as forças de ocupação nas aldeias de Sakhnin, Arraba e Deir Hanna. Seis palestinos foram assassinados, centenas de feridos e milhares de presos. 

Você é nosso convidado para participar deste importante evento! Participe e divulgue!

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