quarta-feira, 12 de agosto de 2020

CAFÉ E BAR PEDRAS BRANCAS (O BAR DO DIL) reabre para celebrar seus cinquenta anos de tradição

Foto Natânia Kronemberger

Inaugurado em 1969, o Café e Bar Padras Brancas, mais conhecido como Bar do Dil, faz parte da tradição petropolitana e ao longo desses cinquenta anos tem sido referência no ramo e marco histórico na praça da Mosela. Todos os frequentadores da praça do Bairro da Mosela, de certa forma, fazem indiretamente menção a este verdadeiro point de convergência entre o tradicional e o moderno. 

Jovens de todas as idades frequentadores do espaço, aguardavam com muita ansiedade a reinauguração após um tempo em que o Café e Bar  esteve fechado para realização de reforma necessária para tornar o espaço ainda mais acolhedor. A reforma também visava as celebrações alusivas aos seus cinquenta anos de pura cultura e lazer.

Foto: Natânia Kronemberger

Além do espaço acolhedor, cativa muito os frequentadores o fato de ser um café e bar totalmente familiar. Durante todos estes anos este que é verdadeiro patrimônio do Bairro da Mosela e mesmo de Petrópolis, esteve sob direção de seu proprietário Edilson Kronemberger, conhecido como Dil. Aliás, o café e bar é mais conhecido como "Bar do Dil". 

A reinauguração se deu neste último domingo, dia 09 de agosto, dia dos pais e também mês de aniversário do Dil e a ideia foi justamente homenagear o Dil como proprietário, mas também como pai e esposo já que o Café e Bar Pedras Brancas é mais que um simples espaço comercial, mas um verdadeiro espaço de confraternização e celebração da amizade e da família.

Foto: Natânia Kronemberger

Agora com a reinauguração, a família Kronemberger, Dil, sua esposa Lia e sua filha Natânia, quer retribuir todo o carinho e fidelidade dos frequentadores. Os clientes sempre foram tratados com a máxima deferência, chegando mesmo a considerar a relação como relação de amizade e com muita reciprocidade. Espera-se que a estes frequentadores tradicionais, muitos outros venham a se juntar alavancando o café e bar rumo aos próximos cinquenta anos.

Em tempos difíceis, de pandemia, o Café e Bar Pedras Brancas reabre cumprindo rigorosamente as determinações das autoridades de saúde  e, mesmo sendo um momento de celebração pelos cinquenta anos de existência, os proprietários manifestam solidariedade às famílias das lamentáveis vítimas da doença e deseja que o Café e Bar pedras Brancas seja também um espaço de partilha,  consolo e alívio aos sofrimentos.

Foto: Natânia Kronemberger

Ao visitar Petrópolis, venha viver uma experiência única, acolhedora e transformadora visitando o Café e Bar Pedras Brancas, uma tradição em servir com carinho que revive o passado no presente e, com os amigos e amigas frequentadores, constrói o futuro..


CAFÉ E BAR PEDRAS BRANCAS

BAR DO DIL

Rua Mosela , alí na praça da Mosela

domingo, 26 de julho de 2020

EU PEÇO A DEUS QUE A DOR NÃO ME SEJA INDIFERENTE.

Orgulhosamente publico aqui uma belíssima reflexão de Dom Joaquin, bispo da Diocese de Rio Branco e líder do pastoreio católico. Suas palavras são a um só tempo palavras de conforto, súplicas e de chamamento em defesa dos menos favorecidos e mais vulneráveis. Em tempos sombrios como este em que vivemos, a certeza do amanhecer é consolo. Se tomarmos o texto de 1Co 4,8-13 em conexão com o de 1Co 1,26-28, notaremos que o Apóstolo Paulo se identifica com a maioria desfavorecida da comunidade da cidade de Corinto. Assim, também Dom Joaquin, na qualidade de lider e pastor, neste texto, toma o lado daqueles que sofrem. 
OBRIGADO DOM JOAQUIN!

Eis o texto:

Após quatro meses de angústias, incertezas, incoerências, desencontros, dores, debates, sofrimentos, mortes... Esta noite eu tive terríveis pesadelos... Acordei e procurei algum conforto na Palavra de Deus e comecei a ler no início da história da salvação, e encontrei o livro do Gênesis 1, 27: “Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus ele o criou, homem e mulher ele os criou”.

Continuei lendo, um pouco mais aliviado e alegre, mas depois encontrei outra frase que me deixou muito preocupado, em Gn 4, 9: “Iahweh disse a Caim: ‘Onde está teu irmão Abel?’ Ele respondeu: ‘Não sei. Acaso sou guarda de meu irmão?’ Iahweh disse: ‘Que fizeste! Ouço o sangue de teu irmão, do solo, clamar para mim!”.

Triste, assustado, angustiado e temeroso, fui rezar. Depois escutei, por acaso, uma música antiga que caiu nas minhas mãos: “Eu só peço a Deus, que a dor não me seja indiferente. Que a morte não me encontre um dia solitário, sem ter feito o que eu queria”. Tudo parecia encaixar na mesma direção...

A pergunta de Iahweh no livro do Gênesis, voltava a ecoar de novo nos meus ouvidos, de forma mais forte, atualizada e real: “Caim, cadê teu irmão?”.

Pergunta, que eu, envergonhado e triste, não soube responder...

E voltou a repetir a mesma música: “Eu só peço a Deus, que a injustiça não me seja indiferente. Pois não posso dar a outra face, se já fui machucado brutalmente. Eu só peço a Deus, que a guerra não me seja indiferente. É um monstro grande e pisa forte. Toda a pobre inocência dessa gente”.

O silêncio dos mortos, vítimas desta pandemia que estamos sofrendo no nosso país, e no nosso estado acreano, é um clamor que surge do ventre da terra. E Deus continua perguntando: “Caim, cadê teu irmão?”.
A gadanha ceifadora, marca “Covid 19”, na sua estatística terrível, (84.480 óbitos no Brasil, e 480 no Acre, em 24/07/2020), com provas científicas, demonstra que seus números são, na sua maioria, pobres, negros, idosos, doentes, indígenas... Todos eles são a massa sobrante que não interessa a ninguém, e que com suas mortes, ajudará a engrossar as arcas monetárias de algum lugar.

Na selva amazônica, onde todo o mundo fala que é o “pulmão do mundo”, infelizmente, falta oxigênio para muitas pessoas! Grande incoerência e absurdo lamentável, pela cumplicidade, negligência, desigualdade social, injustiça, corrupção..., que se instalou também nesta região amazônica.

Tudo isso clama ao mais alto dos céus...! São os gritos dos pobres que não são ouvidos pelos homens, mas são ouvidos por Deus. “E disse o Senhor: Eu vi, eu vi a miséria do meu povo que está no Egito. Ouvi seu clamor por causa de seus opressores; pois eu conheço as sus angústias” (Ex 3,7).

Ouvir o clamor dos pobres é seguir o exemplo de Deus, pois fomos feitos a imagem e semelhança de Deus. E muitas lágrimas já foram engasgadas e derramadas neste chão acreano!

Sente-se muita indignação, impotência, raiva... Diante do descaso diante da vida de tantas pessoas inocentes, e sem ninguém a quem poder reclamar! Tudo, como sempre, em contra dos mais pobres, desprotegidos e excluídos da nossa sociedade.

Alguém deverá responder algum dia, diante do Tribunal divino a essa e outras muitas perguntas, por essas leis iníquas e exterminadoras, provocadoras de muitas dessas mortes, que assolam o país chamado Brasil, e o estado chamado Acre.

Diante da situação que vivemos com tantas vítimas ao nosso redor, dizer que assim honramos e damos culto a Deus, parece o mais contrário a tudo o que a própria Bíblia, tão usada de forma inapropriada muitas vezes, já dizia no AT: “Quando estenderdes as mãos, eis que esconderei os olhos de vós; e, ainda que multipliqueis as vossas orações, não mais as ouvirei, porquanto as vossas mãos estão condenadas, cheias de sangue inocente! (Is 1,15-17).

Outros vários textos, tanto do AT como do NT, também falam algo parecido a respeito de nosso Deus: “Eu quero misericórdia e não sacrifícios” (cf. Os 6,6; Tg 2,13). Agora, nestes dias, não se trata mais de sacrifícios de bois ou de ovelhas, mas sacrifícios de seres humanos...

A natureza clama por justiça para seus filhos. Os números crescem, infelizmente, todos os dias, e já estamos acostumados de ouvir e até perguntar: “Quantos foram hoje?”.

Os números são frios, mas atrás de cada um deles há um nome com sobrenomes, há famílias, entes queridos, pais, mães, filhos... que não tem nem a oportunidade de dar um “adeus” ao ser querido, nem ter um sepultamento digno de um ser humano e, menos ainda, de um cristão.

E, ainda queremos brincar com todos esses sentimentos humanos? Não somos capazes de reconhecer o esforço, o sacrifício e as vidas humanas dos profissionais de saúde, que se estão entregando e doando suas vidas, em favor dos irresponsáveis que querem abrir tudo, para aumentar os números de contágios?

E, depois eles deverão acolher, com toda sua ética (a ética que falta em muitos que promovem a abertura de tudo), e atenderão com todo seu profissionalismo, a todos aqueles que não defendem a vida acima de tudo, e até usam o nome de Deus para seus fins e interesses espúrios, que não estão na Bíblia.

Já são muitos profissionais de saúde que adoeceram e muitos óbitos acontecidos, e não suficientemente reconhecidos e valorizados. E, ainda querem brincar com eles? Ainda querem mais mortes? Ainda querem mais sacrifícios humanos...?

Exigimos mais respeito e consideração para com aqueles que nos ajudarão a salvar vidas, se Deus não evitar um desastre maior, pois estamos tentando a Deus, de forma irresponsável e impiedosa.

Autoridades, legisladores, juízes, advogados... “Parem, em nome de Deus, com as mortes de tantos inocentes!”. Nossa história será escrita com letras vermelhas, (letras de sangue inocente) que, no futuro sujará de vergonha nossa memória.

“Eu só peço a Deus, que a mentira não me seja indiferente. Se um só traidor tem mais poder que um povo, que este povo não esqueça facilmente”.

“Caim, cadê teu irmão?”.

Tomara, que desta escuridão da morte, possa surgir uma nova luz para todos...!!!
Que Deus tenha misericórdia de todos nós!
​​​​​​​Dom Joaquín Pertíñez
Bispo de Rio Branco

sábado, 18 de julho de 2020

WRM opina: Explorando a pandemia: lucros para empresas e elites



Foto original WRM

Nos últimos meses, governos de todo o mundo implementaram medidas para conter a pandemia de Covid-19, como mandar as pessoas permanecerem em casa, fechar atividades, decretar toques de recolher e/ou estabelecer “distanciamento social” e quarentena. Frequentemente combinadas com declarações de estados de emergência, essas medidas têm graves impactos negativos no Sul global, onde a maioria das pessoas depende muito da economia informal e sobrevive um dia de cada vez. Para muitas delas, o apoio dos governos tem sido errático, na melhor das hipóteses, e é impossível para essa maioria permanecer segura e isolada. A falta de informações precisas, adequadas e específicas para cada contexto sobre como impedir a propagação do vírus, e de estruturas de saúde bem equipadas, deixou as comunidades que dependem das florestas e comunidades camponesas, em particular, mais expostas do que nunca.
 
Outro lado da pandemia ficou cada vez mais visível: grandes empresas e elites que atuam no Sul global, principalmente em países com florestas, usaram a crise sanitária para enriquecer ainda mais e ampliar seu controle territorial.
 
As comunidades camponesas e as que dependem das florestas no Sul global têm um longo histórico de enfrentamento do desastre representado pelos investimentos impostos por empresas e elites em busca de lucro: apropriação de terras, erosão do solo e poluição da água, destruição de meios de subsistência, desmatamento em grande escala, aniquilação de espaços de vida, culturas e histórias, deslocamento forçado, violência, marginalização, criminalização, entre muitos outros. A “emergência” já fazia parte da vida dessas comunidades muito antes da pandemia de Covid-19.
 
Nesse contexto, as medidas dos governos para conter a disseminação do novo coronavírus estão apenas intensificando os impactos e as injustiças de um sistema econômico destrutivo, estabelecido há muito tempo. Essas medidas aprofundaram desigualdades extremas entre ricos e pobres, entre o Norte e o Sul, entre mulheres e homens, e entre comunidades brancas e não brancas. Em suma, os impactos dessas medidas são piores para aqueles que já enfrentam a violência do racismo, das diferenças de classe, do patriarcado e da opressão. E essas mesmas comunidades vulneráveis ​​foram as mais afetadas pela devastadora doença Covid-19.
 
Em meio a inúmeras tragédias humanas, corporações e elites políticas estão abusando da situação com o objetivo de promover a apropriação de terras, reverter a legislação que protege territórios e pessoas, e aumentar seus lucros.
 
No Camboja, por exemplo, a gigante vietnamita da borracha Hoang Anh Gia Lai (HAGL) destruiu as florestas das comunidades indígenas Kreung e Kachok durante o confinamento nacional, afetando duas “montanhas espirituais” sagradas, além de áreas úmidas, florestas antigas, áreas tradicionais de caça e cemitérios. (1) Na Indonésia, dois agricultores foram mortos em março, em confrontos por causa de uma antiga disputa de terras com uma empresa de óleo de dendê na província de Sumatra do Sul. (2) No Panamá, Rengifo Navas, líder indígena Guna, condenou o aumento das invasões de terras e da mineração durante o confinamento, além de extração de madeira e caça ilegais em muitas comarcas (territórios indígenas). (3) No Peru, o povo indígena Wampi entrou com uma ação contra representantes da empresa de petróleo GeoPark, argumentando que ela estava ameaçando sua saúde e seu bem-estar ao permitir que trabalhadores não autorizados entrassem em seu território autônomo. (4) Em Uganda, agroindústrias apoiadas por forças policiais e militares se apossaram das terras de mais de duas dúzias de pequenos agricultores, apesar de haver uma ordem do governo para interromper os despejos em função da Covid-19. (5) Enquanto isso, um empreendimento conjunto das mineradoras gigantes Alcoa e Rio Tinto na Guiné, apoiado pelo Banco Mundial, transferiu mais de cem famílias para ampliar uma mina de bauxita durante o confinamento imposto pelo governo. Os moradores foram levados para o topo de uma colina na qual a mineração já havia acontecido e não havia moradia, água, nem saneamento adequados, e onde as terras aráveis eram insuficientes e as oportunidades de subsistência, quase inexistentes. (6) E a lista não para.
 
Para piorar a situação, as ameaças, a violência, a criminalização, a perseguição e o assédio já enfrentados antes da pandemia pelas comunidades camponesas e florestais que resistem a operações destrutivas em seus territórios continuaram em ritmo acelerado. Na verdade, o confinamento representa um risco real para os ativistas comunitários, já que permanecer no mesmo local os torna facilmente identificáveis ​​e vulneráveis ​​a possíveis agressores. Em muitos países, a proteção aos ativistas por parte do Estado já era insuficiente e diminuiu muito, aumentando consideravelmente sua vulnerabilidade. Só na Colômbia, houve um aumento de 53% nos assassinatos de líderes sociais entre janeiro e abril de 2020. (7)
 
Além disso, sempre obedientes aos lobistas das empresas, que têm sido especialmente atuantes nesse período, os governos nacionais colocam o bem-estar delas antes do de seus cidadãos.
 
O setor de petróleo e gás está entre os mais agressivos em demandar apoio financeiro e desregulamentação, de acordo com o InfluenceMap, que rastreia e mede a influência de empresas sobre a política de combate às mudanças climáticas. (8)
 
Governos de vários países excluíram os chamados “serviços essenciais” das restrições de confinamento. Entre eles estavam mineração, combustíveis fósseis, óleo de dendê e plantações de madeira. Da Bolívia à Malásia, passando pela África do Sul, os trabalhadores foram forçados a arriscar sua saúde e o bem-estar de suas famílias e comunidades que vivem próximas a instalações de empresas. Essas “exceções” não têm nada a ver com prestar “serviços essenciais” à sociedade durante um confinamento. Elas visam manter os lucros das empresas.
 
Apesar dessa tendência a priorizar empresas e investimentos estrangeiros, os governos poderão em breve enfrentar uma enxurrada de ações judiciais de empresas exigindo compensação por medidas tomadas durante a pandemia. De empresas privadas de água a concessionárias de pedágios em rodovias ou empresas de serviços públicos, os acordos e contratos comerciais para investimentos internacionais expõem os governos ao litígio, mesmo durante uma pandemia global, simplesmente porque os lucros das empresas estão em risco. (9)
 
O Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI) também aproveitam a pandemia para promover suas agendas
 
Apesar dos danos que causaram, principalmente em todo o Sul global, ao impor políticas neoliberais, planos de ajuste estrutural e condições para empréstimos, o Banco Mundial e o FMI agora se apresentam como “especialistas” prontos para guiar o mundo na crise da Covid-19. (10)
 
Essas organizações multilaterais buscam cumprir um papel importante nos processos de decisão dos governos em relação à direção econômica que os países tomarão. No entanto, ambas sempre cumpriram um papel fundamental na facilitação da privatização, das atividades altamente destrutivas das empresas, da financeirização da natureza e da debilitação das redes de bem estar social dos países – incluindo os sistemas de saúde pública, cujo mal funcionamento está agora tão visível, entre muitos outros. Em outras palavras, são aliadas fundamentais na busca empresarial por lucros cada vez maiores.
 
O FMI respondeu a pedidos de ajuda emergencial de mais de 80 países. No entanto, os poucos empréstimos concedidos estão vinculados a condições polêmicas (ou seja, reformas que os países devem fazer antes da liberação do financiamento), como enfraquecer ainda mais as garantias trabalhistas e promover privatizações. (11) Por sua vez, o Banco Mundial está “ajudando” 100 países na luta contra a Covid-19, mas grande parte dessa ajuda foi destinada a clientes do Banco do setor privado, sem que tenha havido um compromisso destes clientes no sentido de impedir que essa ajuda seja desviada para fazer avançar a privatização do sistema público de saúde, uma política conhecida do Banco Mundial no passado. (12)
 
Mas coisas extraordinárias acontecem
 
Claramente, a maioria das respostas à pandemia por parte de governos nacionais e instituições financeiras não visava cuidar de pessoas ou trabalhadores, e sim ajudar empresas e apoiar as economias neoliberais. Também está claro que a pandemia de Covid-19 não é um evento isolado: o sistema capitalista-patriarcal, de classe e racista que domina nossas respectivas sociedades faz parte da atual situação de emergência, tanto quanto o próprio novo coronavírus.
 
E em grande parte, as pessoas que sentiram os impactos mais terríveis e prejudiciais desse sistema de busca de lucro são as mesmas que agora garantem que ninguém fique para trás. Coisas extraordinárias estão acontecendo em bairros e comunidades, como movimentos de pequenos agricultores que distribuem comida de graça a quem precisa, iniciativas comunitárias destinadas a impedir a disseminação do vírus, refeições coletivas preparadas e distribuídas em ruas, e feiras comunitárias auto-organizadas que possibilitam o distanciamento social enquanto fornecem alimentos saudáveis ​​e atendem a necessidades básicas.
 
Se quisermos que esta crise represente uma mudança rumo a sociedades ecológica e socialmente justas, além de respostas coletivas que possibilitem um novo começo para economias que privilegiam o bem-estar das pessoas comuns em detrimento do lucro das empresas, a pandemia deve ser entendida como sintoma de uma emergência que a maioria da população mundial vive há muito tempo.
 
Nos meses que antecederam o surto de Covid-19, milhões de pessoas em todo o Chile se levantaram para protestar contra os impactos duros e brutais das políticas neoliberais naquela sociedade específica. Um grafite feito em uma parede durante esse período certamente se aplica hoje: “Não podemos voltar ao normal, porque o normal que tínhamos era exatamente o problema”.
 
(5) Witness Radio, <a href="https://wrm.us9.list-manage.com/track/click?u=f91b651f7fecdf835b57dc11d&id=e69c147acd&e=cdbaf228e2" target="_blank" style="word-wrap: break-word;-ms-text-

segunda-feira, 13 de julho de 2020

CARTA ABERTA DA CNBB AO CONGRESSO NACIONAL


“Eu estava com fome, e não me deram de comer; com sede e não me deram de beber” 
(Mt 25,43)

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil - CNBB, em conjunto com outras entidades da sociedade civil, firmou recentemente o “Pacto pela Vida e Pelo Brasil”. O texto afirma que vivemos “uma grave crise – sanitária, econômica, social e política  exigindo de todos, especialmente de governantes e representantes do povo, o exercício de uma cidadania guiada pelos princípios da solidariedade e da dignidade humana”.

O Congresso Nacional tem desempenhado um papel fundamental pautando iniciativas que buscam responder aos impactos urgentes da pandemia, particularmente aos que afetam diretamente a vida dos mais pobres e vulneráveis. Dentre esses, merecem atenção especial os indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais. Sobre eles o Papa Francisco insistiu em Puerto Maldonado, no dia 19 de janeiro de 2018, “continuai a defender estes irmãos mais vulneráveis”.

Nesse sentido a CNBB acompanhou a louvável iniciativa, bem como, o processo de aprovação no Legislativo Federal, do Plano Emergencial para Enfrentamento à Covid-19 nos Territórios Indígenas, comunidades quilombolas e demais povos e comunidades tradicionais (PL no 1142/2020). O texto é fruto dos esforços coletivos de parlamentares, representações das comunidades tradicionais e organizações da sociedade civil.

Com indignação e repudio a CNBB tomou conhecimento, no último dia 7 de julho, que a sanção do Exmo. Sr. Presidente da República ao PL 1142/2020, agora Lei no 14.021, contém 16 vetos. Esses vetos são eticamente injustificáveis e desumanos pois negam direitos e garantias fundamentais à vida dos povos tradicionais, como por exemplo o acesso a água potável e segura, que “é um direito humano essencial, fundamental e universal, porque determina a sobrevivência das pessoas e, portanto, é condição para o exercício dos outros direitos humanos” (Papa Francisco, Laudato Si, 30).

Os vetos do governo atentam contra a Constituição Federal. Com efeito, ao abolir a obrigação de acesso à água potável e material de higiene, de oferta de leitos hospitalares e de terapia intensiva, de ventiladores e máquinas de oxigenação sanguínea, bem como outros aspectos previstos no PL 1142/2020, como alimentação e auxílio emergencial, os vetos violam o princípio da dignidade da pessoa humana (CF, art. 1o, inc. III), do direito à vida (CF, art. 5o, caput), da saúde (CF, arts. 6o e 196) e dos povos indígenas a viver em seu território, de acordo com suas culturas e tradições (CF, art. 231).

A justificativa do presidente da república para tais vetos baseia-se na falta de orçamento, argumento que não se sustenta considerando a recente aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 10/2020 pelo Congresso Nacional. Conhecida como “Orçamento de Guerra”, a Emenda autoriza os gastos necessários para combater a crise gerada pela pandemia do novo coronavírus. É oportuno destacar que essa mesma justificativa não impediu o pronto auxílio para instituições financeiras.

Urge, portanto, uma posição forte, decisiva e definitiva em defesa da vida. Há meses os povos tradicionais enfrentam a pandemia com números crescentes de contaminados e mortes em seus territórios. Sendo assim, a CNBB vem respeitosamente solicitar, o mais breve possível, a realização de Sessão do Congresso Nacional para que todos os vetos ao PL 1142/2020 (Lei no 14.021) sejam analisados e derrubados.

Esperançosa e vigilante a CNBB continuará acompanhando esse processo. A missão de defender a vida está, mais uma vez, nas mãos do Parlamento brasileiro. A sociedade precisa dos senhores e das senhoras.


Que o Deus da “vida em abundância” (Jo, 10,10) vos abençoe e ilumine.

P. N. 0334/20
Brasília, DF, 13 de julho de 2020

D. Walmor Azevedo de Oliveira
Arcebispo de Belo Horizonte
Presidente da CNBB

D. Joel Portella Amado
Bispo auxiliar de S. Sebastião do Rio de Janeiro
Secretário Geral da CNBB

segunda-feira, 29 de junho de 2020

Pós-pandemia: a construção de outro modelo de finanças depende de uma estratégia socioambiental

Sob a pressão do sistema financeiro entre corporações e governos que impõe como contrapartida (ou garantia) a escala de produção, a terra, monetariamente falando, é o bem mais barato, pois caro é o que você põe em cima dela.

Por Amyra El Khalili

A financeirização tem permeado os mais diversos setores da economia, provocando distorções entre a economia real (produção) e a economia financeira. A economia real baseia-se em produtividade na indústria, na agropecuária, no comércio e em serviços. Já a economia financeira é a que faz circular o dinheiro nos sistemas informatizados e tecnológicos, alimentando as taxas de juros e a especulação sobre a base produtiva.
Há uma diferença substancial entre financiar e financeirizar:
– Financiar é proporcionar um empréstimo para que a costureira compre uma máquina de costura e consiga pagá-la nas condições de sua produção.
– Já financeirizar significa emprestar o dinheiro para a costureira comprar a máquina, causando o endividamento e, consequentemente, fazendo com que ela não consiga cumprir com seu compromisso, tornando-a escrava da dívida.
É o que tem acontecido na América Latino-Caribenha, quando os países do Norte conseguem desenvolver sua produção industrial e agropecuária com o financiamento, e os países vulneráveis, e em desenvolvimento, tornam-se reféns de empréstimos sem poder se libertar do eterno endividamento, especialmente quando tal empréstimo destina-se a pequenos e médios empreendedores e agricultores.
Entre os mais endividados, estão os agricultores, pois a contração das dívidas exige garantias reais, como terras, imóveis, maquinários e equipamentos, entre outros bens que dão acesso ao recurso financeiro. Se os(as) agricultores(as) comprometem a terra para obter financiamento e as alienam ao sistema financeiro, passam a depender da decisão destes credores, submetendo-se a produzir o que os credores determinam, por exemplo, produtos transgênicos em escala. Devem, igualmente, vincular sua produção a equipamentos e a maquinário, a produtos químicos (agrotóxicos); enfim, passam a depender de uma estrutura com forças assimétricas em cuja engrenagem não têm poder de decisão.
Sob a pressão do sistema financeiro entre corporações e governos que impõe como contrapartida (ou garantia) a escala de produção, a terra, monetariamente falando, é o bem mais barato, pois caro é o que você põe em cima dela.
Daí o avanço desenfreado sobre as áreas de florestas que ainda hoje detêm, graças aos povos indígenas e aos povos tradicionais, rica biodiversidade, água, minérios e alternativas energéticas. Dessa forma é que a financeirização avançou sobre as riquezas naturais consideradas sem valor (financeiro) na contabilidade de produção de bens e serviços. A esse avanço do capitalismo neoliberal chamamos de “financeirização da natureza”.
Uma finança diferente
Veja o paradoxo tão discutido nos cânones das várias religiões: as finanças podem ser usadas a favor da vida como a favor da morte. Nem todo dinheiro é ruim, assim como nem toda forma de o gastar é saudável. É nesse ponto que compreendo a análise do economista francês Yann Moulier Boutang, quando se refere à necessidade de construir uma finança diferente, que seja a favor da vida, financiando projetos socioambientais, e não a globalizada e enraizada no modelo neoliberal, que financia o mercado de armas, drogas, e favorece a biopirataria (ilícito).
Quando tratamos de uma cifra de R$1.000,00 (mil reais), o senso comum sabe do que estamos falando. Quando, porém, tratamos de cifras que ultrapassam a casa dos três zeros, como 100.000 (cem mil), 1 milhão, 1 bilhão, 1 trilhão, a população não sabe o que tantos zeros representam.
É nessa casa de cifras que circulam os valores monetários no sistema financeiro, migrando de um continente a outro na velocidade de milésimos de segundos. Quando o sistema alavanca tais cifras, arrebenta com a atividade produtiva, causando estragos enormes nas contas públicas e privadas. Esse processo onera o custo de taxas de juros e tributos, em detrimento do custo de vida da população pobre, que é a maior pagadora de impostos.
A sociedade é mobilizada por campanhas de esclarecimento, auditorias de contas públicas e pressão com propostas proativas em favor de uma reforma tributária e fiscal que contemple e estimule o financiamento e os investimentos diretos em projetos socioambientais, com produção consciente e de menor impacto ambiental. Esse é o caminho que a ferramenta finanças deve seguir em favor da vida, e não como tem sido usada até agora, para projetos de morte, provocando guerras, conflitos regionais, etnocídios e genocídios. É por essas consequências que muitos demonizam o capitalismo e o sistema financeiro. A moeda não faz parte do paradigma organicista dos demais seres vivos. No paradigma mecanicista os humanos vivem condicionados ao sucesso do ter e não do ser.
Crise sistêmica
A crise sistêmica é fruto do entrelaçamento e imbricamento entre a moeda e as garantias que lastreiam a emissão de dinheiro, e do fato de cada saca de soja ser negociada na bolsa de Chicago, situação em que se pode multiplicar até 100 vezes em contratos futuros. Se em algum momento houver necessidade de se executar judicialmente qualquer contrato que circula no mercado de derivativos (derivado de ativos), nem toda a soja do mundo será suficiente, porque ela simplesmente não existe. Para não correrem o risco de uma intervenção judicial, as bolsas suprimiram a cláusula que prevê entrega física. É nesse ponto que reside a financeirização da produção de commodities agropecuárias e de minérios.
Os mercados futuros deveriam ter por função “fixar preço” para prevenir riscos de uma quebra de safra, crises políticas e econômicas, crises climáticas e desastres naturais, entre outros fatores imprevisíveis, capazes de provocar aumentos estratosféricos ou baixas expressivas nos preços, prejudicando custos, com isso provocando desemprego, falência de indústrias, de produtores e prestadores de serviços (hedge/proteção).
Desregulamentação do sistema financeiro
Com a desregulamentação do sistema financeiro para reduzir ao mínimo a intervenção do Estado no mercado, os instrumentos contratuais desenvolvidos para os mercados futuros – os derivados de ativos (derivativos) – estão sendo utilizados para outras finalidades. Embora devessem servir para proteger seus agentes contra as bruscas oscilações de preços, passaram a ser determinantes na formação de preços na produção, jogando a economia real no risco e na especulação da economia de mercado.
Dessa maneira, o preço futuro da soja na Bolsa de Chicago determina o valor à vista da soja colhida no campo, quando o processo deveria ser o contrário. Na prática, o preço da soja colhida hoje no campo, calculado seu custo de produção – que compreende armazenagem, tributos e transporte até o porto para exportação –, é determinado pelo valor futuro das bolsas.
O chamado risco sistêmico, portanto, significa a quebra de toda a cadeia imbricada de garantias reais, seja pelo dinheiro que migra de um lado para outro virtualmente, seja pela quantidade e qualidade de produção. Se um banco empresta dinheiro a alguém, ele deve ter, em contrapartida, uma garantia que permita o empréstimo. É comum os bancos trocarem garantias entre si, pois um mesmo banco não pode ser garantidor de si mesmo. É nessa confusão de garantias e de produção que se formam as bolhas financeiras, que colocam em risco sistêmico as economias mundiais globalizadas pela tecnologia da informação.
A biodiversidade tem sua própria lógica
Façamos agora um exercício: o que acontecerá se essa prática ocorrer com nossas riquezas naturais, como as florestas, a biodiversidade e a água?
A biodiversidade tem sua própria lógica, não sendo compatível com a produção em escala, sem com isso gerar altos impactos ambientais pela intervenção humana por meio da biotecnologia, da geoengenharia e da mecanização. É possível, porém, analisar o que ocorre com as commodities minerais, uma vez que o preço da energia está atrelado ao preço do barril de petróleo, por sua vez cotado nas bolsas de commodities.
Estamos gritando contra o fracking (faturamento hidráulico) para extração de gás de xisto, pois, além dos impactos ambientais, promoverá a militarização das áreas exploradas, uma vez que, pelo controle do combustível fóssil, o Oriente Médio tornou-se um barril de pólvora com conflitos e guerras sangrentas.
São projetos de morte que prevalecem na contabilidade do sistema financeiro. As finanças são engenhadas por seres humanos que as sustentam com dados estatísticos, com números e programas matemáticos. São dados friamente calculados, sem a percepção de que cifras em trilhões podem causar prejuízos consideráveis para milhares e milhares de pessoas, como apertar o gatilho de uma metralhadora giratória. Esse é o paradigma mecanicista, em cuja lógica se fundamentam o mercado de carbono e seus derivativos (REDD, REDD+, Pagamentos por Serviços Ambientais, Créditos de Efluentes, Créditos de Compensação, etc.).
Quando Boutang propõe uma economia da polinização, está, na verdade, defendendo o mesmo princípio da economia socioambiental, explicada por Ignacy Sachs como economia dos biomas. Sachs concluiu que são os povos das florestas e os povos tradicionais os que têm realmente condições de manter a floresta em pé, protegendo-a e fiscalizando a partir de sua produção equilibrada e em harmonia com o ecossistema. Foi nesse estudo que Sachs conceituou o “ecodesenvolvimento”, posteriormente passando para “desenvolvimento sustentável”, e, finalmente, traduzido por “sustentabilidade”, agora ajustada ao modelo neoliberal, que chamam de economia verde. Trata-se de um conceito confuso, que apenas repete a teoria do capitalismo verde com algumas adequações, incialmente cunhado pelo acadêmico inglês John Elkington, com o clássico The green capitalists (Os capitalistas verdes, Editora Gonllaccz, 1989), assentado no tripé: pessoas, planeta e lucro (triple botton line).
No entanto, em oposição à economia verde, a economia socioambiental agrega as propostas da economia solidária com a economia dos biomas a partir de núcleos formados em torno das bacias hidrográficas, já que, historicamente, a humanidade agrupa-se em torno das águas, construindo cidades e urbanizando-se. Uma cidade, grupo humano e demais seres vivos não sobrevivem sem água e não se desenvolvem economicamente sem energia.
A água não é substituível como a energia, que pode ser produzida por diversas fontes renováveis, além das não renováveis. A água é um enigma da natureza a ser decifrado, pois pode ser renovável se cuidada, e não renovável se degradada. A água está para a história da humanidade e do planeta como o ouro está para a história econômica globalizada, com seus fascínios, ganâncias e conquistas de povos sobre povos. Na mística, a água e o ouro encontram-se. Os movimentos da América Latina estão se mobilizando contra a mineração com o chamamento “Água sim, Ouro não”. Podemos beber água, mas não podemos comer ouro!
Na prática, a tese de Boutang pode ser implementada com a pulverização das finanças e com a cobrança sobre a “responsabilidade socioambiental do sistema financeiro”, fazendo com que os empréstimos exijam financiamento de projetos que não gerem impactos ambientais nem promovam exclusão social e violação de direitos humanos.
Sistema financeiro e política
Quando o sistema financeiro torna-se cúmplice de governos corruptos, viabiliza a lavagem de dinheiro, facilita a sonegação fiscal, transfere recursos públicos à iniciativa privada para que cumpra o que é função do Estado cuja função não é “lucrar”. Quando protege o mercado ilícito de armas, drogas, prostituição, entre outros, a sociedade deve ter o poder de impedir que essa economia subterrânea continue a se propagar. A proposta das redes e movimentos que questionam os investimentos e tantas outras pautas podem fazer a transmutação das finanças e alcançar o que há duas décadas estamos propondo como ação proativa.
É entendendo esse sistema e esclarecendo a sociedade, de forma didática, como ele funciona que promoveremos uma estratégia efetiva para combater as mazelas do mercado financeiro. A outra questão passa pela prestação de contas e auditorias dos recursos a fundo perdido, despejados em ONGs e OSCIPs.
As OSCIPs (Organizações Sociais de Interesse Público) passaram a ser um híbrido entre Estado e sociedade civil organizada, engessadas pela dependência de dinheiro público e sem condições de combater o sistema financeiro. Em favor da Amazônia, existem milhares de ONGs e OSCIPs que sequer puseram os pés na região. Afirmam pretender defender esse bioma, pois é onde há maior interesse financeiro, diferentemente de regiões como o Cerrado e a Caatinga, onde poucos querem investir e onde os projetos socioambientais se autossustentam justamente pela carência de recursos. Eles devem ser criativos e fazer a economia prosperar, já que esses biomas – como a Mata Atlântica, o Pantanal, o Pampa e a Amazônia – são ricos em biodiversidade.
Dessa forma, haverá recursos financeiros suficientes para investimentos em educação, saúde, proteção e preservação ambiental, segurança pública e, principalmente, para a transição da economia em que vivemos para a economia que queremos. De fato, a economia é um todo e não está nem funciona fragmentada. Todos os sistemas e setores estão direta e indiretamente interligados pela globalização e pela tecnologia da informação. O que afeta a um afetará a todos em qualquer parte do mundo.
O que está faltando é a reestruturação do sistema financeiro e, com a sua regulamentação, uma política fiscal e tributária específica para esse setor, que propicie a migração de fortunas virtuais. Os impostos são mais pesados para os pobres e mais baratos para os ricos, que sempre conseguem linhas de financiamento. A população está sendo financeirizada com cartões de crédito, limites no cheque especial, no crédito consignado, enquanto os capitalizados são financiados com empréstimos de longo prazo e baixas taxas de juros.
Há, portanto, várias ações proativas: a necessidade de uma política de fomento e de incentivo à produção; o financiamento da transição de uma produção degradadora para uma produção ambientalmente sustentável e inclusiva; a fiscalização e a auditoria das contas públicas e privadas, principalmente de empresas cujas ações são negociadas nas bolsas de valores; a reforma tributária e fiscal, além do código do consumidor, a se fazer valer. Por fim, no que for ilícito, ilegal e imoral, deve haver aplicação da ação do Judiciário, pois não é possível ser tolerante com a corrupção, a sonegação fiscal e a lavagem de dinheiro. Temos de agir em conjunto com as instituições jurídicas, assessorando e estimulando. Não faltam razões. Pode-se até relembrar que em mercados desregulamentados muitos contratos entre partes acabam parando na mesa do juiz e os magistrados não entendem de finanças nem de seus jargões – como as palavras ou expressões em inglês grafadas nos contratos financeiros e mercantis, por exemplo, commoditiesspreadgapswap, etc.
Transição energética
Para viabilizar a transição energética, é necessário repensar o modelo econômico. A maioria da população vive em cidades. Quando o Brasil passou a ocupar a posição de sexta economia do mundo, ironicamente o IBGE divulgou dados assustadores sobre as favelas brasileiras. Segundo esses dados, certamente conservadores, o Brasil tem 6.329 áreas irregulares e precárias nas quais vivem 11.425.644 pessoas. Juntas, elas equivalem à população da Grécia (FERNANDES, E.; ALFONSIN, B. FDUA, n. 61).
As cidades consomem energia de países, forçando uma política energética do Brasil necessariamente voltada à construção de mais hidrelétricas, além de projetos que pretendem ressuscitar a energia nuclear e financiar o carvão. A energia produzida por uma hidrelétrica na Amazônia gera impactos ambientais e sociais naquela região para abastecer o Sul e o Sudeste, que recolhem seus tributos na ponta distribuidora de energia e não no local impactado na Amazônia.
Os diferentes setores de energia renovável concorrem em tributos, taxas e formação de preços com a produção de energia não renovável. Quando se incentiva a produção de energia renovável, como a eólica, a solar, o biodiesel e o etanol, não há planejamento para limitar essa produção, que acaba também gerando mais impactos com sua produção em escala, a qual deveria, por coerência, ser equilibrada e harmônica de região para região, analisada caso a caso, em um pacote energético diversificado.
É necessário, portanto, que o planejamento energético considere as demandas da região e da população que pode vir a ser afetada com a construção de hidrelétricas, usinas nucleares, com a exploração de petróleo, gás natural, carvão, gás de xisto, minério radioativo ou até com a construção de parques eólicos, solares, fotovoltaicos e monoculturas para a produção de etanol e biodiesel.
Precisamos desenvolver um modelo de transição energética com planejamento financeiro simultaneamente com a transição do modelo econômico, pois, do contrário, não haverá energia renovável ou não renovável que suporte a demanda de produção e resolva os problemas socioambientais, que, consequentemente, provocam bruscas mudanças climáticas. É de fundamental importância manter a população campesina, indígena, tradicional e ribeirinha nos campos e nas florestas, bem como o povo do sertão no Nordeste, invertendo a migração dos centros urbanos para o campo, para as regiões ribeirinhas, etc., de modo a reverter o quadro desolador do crescimento das favelas, do desemprego e da violência urbana. Esse tem sido o desafio de séculos e até hoje não saímos desse quadro crítico.
Os prazos para a implantação de uma política energética socialmente justa não fecham com os prazos da política partidária. O político que propuser uma estratégia que pretenda contribuir com a comunidade na gestão das águas, com a transição energética, ficará marcado como gestor público para o resto da vida, pois o mandato acaba, mas a gestão pública fica e sua militância será reconhecida pelo povo.
Quando o gestor público elabora uma proposta com a participação da comunidade para uma agenda de transição econômica a partir do binômio água e energia, estará investindo em projeto consistente de longo prazo, com efeitos visíveis no curto prazo, que são os da adesão e do apoio da comunidade. Há dinheiro para isso circulando no setor financeiro, e o setor de energia é o que mais acumulou nas últimas décadas.
Renda decente e renda universal
Em tese, deveria haver uma renda decente, ou renda universal, para todos. É o que garante a Constituição brasileira quando trata da “dignidade da pessoa humana” sem desigualdades. Se fizermos valer a Constituição, seja pelo direito à dignidade da pessoa humana, seja pelo direito ao uso dos bens comuns (bens difusos: água, energia, biodiversidade, minério), certamente estaríamos garantindo uma renda decente, e até mesmo universal.
Se entendermos que esses dois pilares compõem um conjunto indissociável da conquista dessas condições, estaremos trabalhando para a transição da economia em que vivemos (globalizada, em fase neoliberal do capitalismo), para a economia que queremos (socialmente justa, politicamente participativa e integrada e ambientalmente sustentável).
Favelização
A favelização é resultado da degradação ambiental e da exclusão social. Tal fenômeno se multiplica justamente porque as pessoas saem do seu meio vindo a inchar as cidades em busca de alternativas para sustentar suas famílias. Se buscarmos alternativas de geração de emprego, de trabalho e renda, fixando o ser humano no campo e impedindo a expulsão dos povos indígenas e povos tradicionais de seus territórios, teremos como fazer existir essa renda decente. É por isso que nos mobilizamos em favor da cultura de resistência, com a finalidade de evitar as guerras, os conflitos e a migração que formam massas de refugiados econômicos, do clima, das guerras, e da política genocida e etnocida praticada por governantes e corporações de seus países.
Se, de um lado, a tecnologia da informação faz migrar fortunas de um continente a outro, essa mesma tecnologia está fazendo com que possamos criar conexões de redes em que as florestas do mundo inteiro, os campos e os grupos de resistência se comuniquem e se mobilizem em prol da emancipação dos povos, tornando possível a utopia da renda decente universal que desejamos.
Governança ambiental
O conceito de governança ambiental tem sido confundindo com governança corporativa, como assistimos na COP19, quando o setor de energia não renovável se uniu com cimenteiras e o setor siderúrgico para propor a falsa solução do mercado de carbono, postergando soluções reais por mais um instrumento de financeirização da natureza.
A governança ambiental que propunha o diálogo entre a iniciativa privada, o governo e a sociedade civil organizada tem sido dragada pela governança corporativa, a que fundiu a Bayer com a Monsanto. Faz-se necessário identificar e confrontar essa tendência para se saber quem é quem e com quem se está lidando. Eles têm a habilidade de absorver nossos argumentos para empurrar contratos financeiros e mercantis duvidosos e perigosos.
Se resgatarmos o conceito de governança ambiental pela perspectiva crítica de Yann Moulier Boutang, Ignacy Sachs, Edgar Morin, Vandana Shiva e tantos outros pensadores, além dos que o debatem em nossas redes e demais fóruns, em boa hora se espalhando por toda a América Latino-Caribenha, será possível construir uma política de governança ambiental para a realização de uma transição energética para uma finança possível e emergencialmente necessária.
Se utilizarmos os mesmos sistemas que fortaleceram esse modelo degradador e desumano, evidentemente será possível reprogramá-lo para uma nova consciência. Isso não depende de dinheiro; depende da sensibilização de corações e mentes. Depende, especialmente, de um código de ética e moral universal, ou válido para todo mundo. É nesse sentido que a encíclica ecológica Laudato Si, e mais recentemente o documento vaticano “Oeconomicae et pecuniariae quaestiones”, que trata das economias e finanças de nosso tempo do Papa Francisco, vindos em boa hora, contribuem como um princípio norteador!
Se fomos nós, os humanos, que criamos o problema, caberá a nós, os humanos, buscar por soluções, não, porém, pelo mesmo sistema e no mesmo grau de consciência que o criou, como dizia Albert Einstein. Uma economia só pode ser justa se for humanitariamente digna e ambientalmente sustentável, e somente será possível se for lastreada no tripé legitimidade, credibilidade e ética.
Referências:
EL KHALILI, Amyra. A construção de outro modelo de finanças depende de uma estratégia socioambiental. Fórum de Direito Urbano e Ambiental – FDUA, Belo Horizonte, ano 16, n. 92, p. 22-27, mar./abr. 2017.
FACHIN, Patrícia. A construção de outro modelo de financeirização depende de uma governança ambiental. Entrevista Amyra El Khalili.  04 out. 2016. Disponível em: <http://www.ihu.unisinos.br/560761-a-construcao-de-outro-modelo-de-financeirizacao-depende-de-uma-governanca-ambiental-entrevista-especial-com-amyra-el-khalili>. Acesso em: 1º dez. 2016.
 VATICAN.  Carta Encíclica LAUDATO SI’ do Santo padre Francisco sobre o cuidado da Casa Comum, no dia 24 de Maio – Solenidade de Pentecostes – de 2015. Acesso em: junho de 2020. http://www.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si.html
VATICAN. “Oeconomicae et pecuniariae quaestiones” Considerações para um discernimento ético sobre alguns aspectos do atual sistema econômico-financeiro. 17.05.2018. Acesso em: junho de 2020.  http://press.vatican.va/content/salastampa/it/bollettino/pubblico/2018/05/17/0360/00773.html

Amyra El Khalili – Professora de economia socioambiental. Foi economista com mais de duas décadas de experiência nos mercados futuros e de capitais. É editora das redes Movimento Mulheres pela P@Z! e da Aliança RECOs – Redes de Cooperação Comunitária Sem Fronteiras. É autora do e-book Commodities ambientais em missão de paz: novo modelo econômico para a América Latina e o Caribe.

quinta-feira, 11 de junho de 2020

Garimpeiros invadem terra de índios isolados no Acre


Em relação à matéria intitulada  "Garimpeiros de Rondônia invadem terras no Parque Estadual do Chandless", publicada em 11 de junho deste ano de 2020, no AC 24 horas, https://www.ac24horas.com/2020/06/11/garimpeiros-de-rondonia-invadem-terras-no-parque-estadual-de-chandless-a-procura-de-ouro/, gostaria de me manifestar  e dizer que, na verdade me sinto na obrigação de me manifestar a respeito.

Eu coordenei a equipe que realizou o laudo de identificação de índios isolados naquela região no ano de 2002. Naquela época a área ainda não havia sido arrecadada da União pelo governo do Acre que já pretendia criar o Parque. Mesmo com nossa denúncia e o pedido que fiz de imediata interdição da área, a Funai não interditou e o governo do Acre conseguiu arrecadar toda a área. É importante lembra que tudo isso só foi possível porque o governador era o Jorge Viana e a Ministra do Meio Ambiente era a Marina Silva. Portanto, criaram o parque sabendo da existência de índios isolados na área, de forma deliberada.

Em 2003, em audiência com o então presidente da Funai, Sr. Mércio Pereira Gomes, entreguei-lhe pessoalmente o relatório e mais uma vez pedi a interdição da área como forma de garantir a vida daquele povo. Também solicitei que fosse mantida a presença de algumas poucas famílias, como a do Sr, Milton Leite, último morador não indígena. A presença dessas famílias se justificava por duas razões: eram indígenas e descendentes dos povos Jaminawa e Manchineri e porque estavam ali como uma espécie de anteparo de proteção aos isolados. De nada adiantou. Em 2004 o Parque foi criado e a sorte dos indígenas, incluindo os isolados fora lançada.

Somente no final da década de 2010 é que a Funai finalmente reconheceu a existência desse povo indígena em situação de isolamento. Apontei no meu laudo que esse povo  se locomovia entre os igarapés do Cuxixá, Chandless-chá e  Riozinho, já na cabeceira do Chandless, especialmente dentro do Riozinho onde passava todo o inverno vindo às margens do Chandless apenas no verão para coletas de ovos de tracajá. A criação do Parque, que é descrito como não tendo sobreposição, se deu na verdade sobre terras indígenas e nós denunciamos isso à época.

Apontamos que a criação do parque criaria uma imensa crise social já que expulsaria famílias inteiras de indígenas (Jaminawa/Manchineri). Foi o que ocorreu. Algumas dessas famílias estão hoje em Sena Madureira e em Manoel Urbano sem nenhuma assistência. De outro lado colocaria em risco a vida dos indígenas em situação de isolamento, além de abrir a área para invasores pelo simples fato de que somente deixando os indígenas na área se teria efetiva proteção.

Então, essas invasões já eram esperadas e previstas. É isso que ocorre quando um modelo de “desenvolvimento” e político se sobrepõe à vida dos povos. A dita Economia Verde do Acre se revelou uma farsa e uma real ameaça aos povos originários e tradicionais.

Lindomar Padilha.

Duas informações relevantes:

* Em setembro de 2009, por ocasião da reunião da  Comissão Nacional de Política Indigenista - CNPI, realizada em Rio Branco, AC,  eu mais uma vez reapresentei o relatório ao então presidente da Funai Sr.  Márcio Meira que prometeu acompanhar pessoalmente o caso se mostrando surpreso com a informação como se nada lhe fora dito antes.

* O relatório é assinado por mim e por Rodrigo José Domingues.

quarta-feira, 10 de junho de 2020

O “Fluxograma de Marillac” e a economia de Francisco

“ O “Fluxograma de Marillac”, como denominei seu gráfico, propunha uma Igreja contemporânea, feminina, materna e compreensiva....Em comunhão com os princípios de Marillac, a colega economista italiana Alessandra Smerilli, religiosa da Congregação Filhas de Maria Auxiliadora (salesianas), analisa o mais recente documento vaticano “Oeconomicae et pecuniariae quaestiones” que trata das economias e finanças de nosso tempo..”

Por Amyra El Khalili
Foto: Sítio IESAI – Piranguinho, MG

Ela queria ser santa. Desde menina, a vocação para a vida religiosa clamava em sua alma. Irmã Maria do Carmo Costa foi referência para muitas comunidades por sua sabedoria e serenidade, principalmente na hora de sua morte. Por convicção, acreditou na medicina alternativa, nas plantas medicinais e nas terapias herdadas dos povos indígenas e tradicionais e com eles aprendidas.

Marillac era seu nome de batismo na Igreja católica. Fundou o Instituto de Educação para a Saúde Integral (Iesai). Como enfermeira religiosa, diretora da Escola de Enfermagem Wenceslau Braz (EEWB) e madre superiora da Congregação das Irmãs de GAP (Itajubá-MG), trabalhou para implementar a cura pela água, pelas terapias preventivas e pela boa alimentação agroecológica.

Antes de falecer, acometida pelo câncer, presenteou-me com um exemplar da Bíblia. Na dedicatória, o recado:

“Minha querida Amyra, o melhor presente para a festa da vida é a Palavra de Deus! Nela você encontrará o que seu coração busca: a paz, a serenidade, o sentido da vida, o Amor Incondicional de Deus! Com carinho e amor, sua tia Ir. Maria do Carmo Costa. 16/07/2004”.

Foi o que fiz: em um momento de profunda angústia, sem saber para que lado seguir nesta caminhada,  resolvi ler a Bíblia sem o apoio de clérigo ou teólogo. Quando comecei a ler o Gênesis, lembrei-me do “Fluxograma de Marillac”.

Maria do Carmo desenhou um fluxograma para explicar as doenças da humanidade no plano material e espiritual e a transformação através da cura. Dizia-me: “Amyra, tudo foi redimido, mas nem tudo foi curado. Cristo caiu no fundo do poço para que todos(as) caiam nele!”.

Para Maria do Carmo, esse Deus não tinha gênero. Era pai/mãe/providência.

O “Fluxograma de Marillac”, como denominei seu gráfico, propunha uma Igreja contemporânea, feminina, materna e compreensiva. Nele, Maria do Carmo criticava duramente a Igreja católica por sua postura patriarcal e conservadora. Para ela, esta é a verdadeira razão pela qual tantos fiéis estão se afastando da doutrina. Eu mesma me tornei muçulmana por questões de identidade étnica e cultural. Ela me entendeu e apoiou sem questionar ou  criticar. Ela era ecumênica e bebia de diferentes fontes para inspirar-se.

Ela pedia, em orações, a transformação da Igreja e agia, em sua pregação, para que isso acontecesse no caminho da cura, do perdão e da compreensão. O fluxograma e suas palavras de bom senso pautaram  minha trajetória profissional quando rompi com a ortodoxia econômico-financeira e passei a combater, com conhecimento de causa, as mazelas do sistema financeiro. Seus ensinamentos passaram a ser o “princípio norteador” de meu trabalho como economista, professora e ativista, apoiando as “lutas emancipatórias dos povos”.

Ao ler a Bíblia, do livro do Gênesis até “os Livros Proféticos”, ficou clara a mensagem do “Fluxograma de Marillac”: era necessária a ruptura. Sem a ruptura, não seria possível a transformação; desta forma, retornaríamos ao caminho da  dor (guerra e doenças) e não do amor (paz e cura). Parei por aí. Não me sentia capaz de continuar sem suporte. Aquilo estava me torturando.

Um mês depois dessa leitura, o papa Francisco nos brinda com a Encíclica Ecológica. Não acreditei no que li. Cada palavra soava como a fala de Maria do Carmo e seu fluxograma. Mesmo que ainda se mantenha o conservadorismo em relação a alguns tabus, ali estava o suporte de que eu necessitava para compreender a mensagem de minha amada tia, orientadora e matriarca da família.

Muito se tem escrito, analisado e debatido sobre a encíclica ecológica do papa Francisco (Laudato Si). Porém, aqueles que conheceram Maria do Carmo e com ela conviveram, entenderão a magnitude deste posicionamento para “aclarar as ideias” neste momento de crise econômica e sociopolítica mundial.

Maria do Carmo nos ensinou que, sem cura, o perdão não se sustenta, pois o ódio, a miséria e a tragédia se perpetuarão pela dor. 

Ao nos presentear com a encíclica ecológica, o papa Francisco nos convida à reflexão e valida o chamamento que já constava nas súplicas do coração amoroso e maternal de Marillac.

Em comunhão com os princípios de Marillac, a colega economista italiana Alessandra Smerilli, religiosa da Congregação Filhas de Maria Auxiliadora (salesianas), analisa o mais recente documento vaticano “Oeconomicae et pecuniariae quaestiones”  que trata das economias e finanças de nosso tempo:

É um documento muito significativo sobre a perspectiva financeira ética e socialmente responsável. O fato de estar sendo tratado pela Congregação para Doutrina da Fé significa que viver uma finança coerente é matéria de fé, uma questão de coerência evangélica que está no coração da fé. Não é apenas um acaso ou acidente, não é secundário. Dá um incentivo muito grande para o desenvolvimento de uma perspectiva financeira que trabalha pela sustentabilidade e obriga as pessoas da Igreja a fazer um exame de consciência sobre a forma com que estão vivendo as finanças, que a finança pode ser uma coisa boa, que a economia é bela.

Se Maria do Carmo, desde menina, queria ser santa, esta “graça” se materializou nos novos rumos que a Igreja católica está tomando a partir das iniciativas do papa Francisco, especialmente nesses documentos.

Talvez o papa nunca venha a saber, mas ao nos guiar pelo amor, ele simplesmente reconheceu a santidade de Marillac!

Notas:
IESAI - Instituto de Educação para a Saúde Integral – http://iesai-piranguinho.blogspot.com.br/EEWB - Escola de Enfermagem Wenceslau Braz - http://www.eewb.br/
Irmãs da Providencia de GAP - http://www.providenciadegap.com/
Ecumênica: pessoa que respeita outras pessoas de diferentes credos ou ideologias. Cf. Dicionário Houaiss.
Referências:
Braga CG, Ribeiro AAA. As diretoras religiosas da Escola de Enfermagem Wenceslau Braz (1955-2016). REME – Rev Min Enferm. 2020[citado em];24:e-1276. Disponível em: DOI: 10.5935/1415-2762.20200005. Acesso em: junho de 2020. http://reme.org.br/artigo/detalhes/1422
SANTOS, João Vitor. Economia de comunhão é alternativa à voracidade de um mercado predador. Entrevista especial com Alessandra Smerilli. IHU On line. 02.06.2018. Acesso em: junho de 2020. < http://www.ihu.unisinos.br/579540-economia-de-comunhao-e-alternativa-a-voracidade-de-um-mercado-predador-entrevista-especial-com-alessandra-smerilli >
  VATICAN.  Carta Encíclica LAUDATO SI’ do Santo padre Francisco sobre o cuidado da Casa Comum, no dia 24 de Maio – Solenidade de Pentecostes – de 2015. Acesso em: junho de 2020. http://www.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si.html
VATICAN. “Oeconomicae et pecuniariae quaestiones” Considerações para um discernimento ético sobre alguns aspectos do atual sistema econômico-financeiro. 17.05.2018. Acesso em: junho de 2020.  http://press.vatican.va/content/salastampa/it/bollettino/pubblico/2018/05/17/0360/00773.html

Amyra El Khalili é professora de economia socioambiental e editora das redes Movimento Mulheres pela P@Z! e  Aliança RECOs – Redes de Cooperação Comunitária Sem Fronteiras . É autora do e-book “Commodities Ambientais em Missão de Paz: Novo Modelo Econômico para a América Latina e o Caribe”.