sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

DA SEBRAELIZAÇÃO À FARSA DAS FALSAS SOLUÇÕES

Este artigo encontra-se publicado na revista Golpe Verde: Falsas soluções para o desastre climático. A revista é uma coletânea de artigos que buscam refletir e analisar os 10 anos de REDD no estado do Acre e seus tentáculos que se espalham por outros estados como Mato Grosso, Rondônia e Maranhão. 

Leiam a versão da revista  em português aqui

Na relação com os povos indígenas é de suma importância para o desenvolvimentismo, ou capitalismo se preferir, adequar o evolucionismo biológico às questões socioculturais para que estes povos deixem de ser o que são para se “transformarem”, por meio da assimilação e da integração, em não indígenas (...).

Lindomar Dias Padilha[1]


A Sebraelização[2] é um termo quase conceitual que tenho adotado para explicar um dos processos metodológicos utilizados para atrair os povos indígenas, ou pelo menos algumas pessoas tomadas como se fossem lideranças, ao processo de mercantilização e financeirização da natureza e da cultura destes povos. Escrevi um texto intitulado “A Sebraelização do Indigenismo na Amazônia Ocidental como estratégia para a mercantilização e a financeirização[3]" onde proponho uma reflexão sobre o processo e, mais ainda, sobre os mecanismos utilizados e que escondem as verdadeiras intenções dos mercadores da natureza.

Pois bem, a intenção com este novo texto é dar sequência àquelas observações, porém, centrando agora nas falsas soluções apresentadas aos povos e comunidades para que estes sejam convencidos de que estão tendo seus usos, costumes e tradições respeitados e ao mesmo tempo seguem colaborando para que se evitem ou pelo menos sejam amenizados os efeitos negativos decorrentes da destruição da natureza, inclusive “recebendo” por estes serviços prestados. A tarefa não é fácil, mas é um desafio que se coloca para todos nós que imaginamos uma natureza e povos que dela dependem e com ela convivem absolutamente interligados, interconectados e interdependentes. O ponto chave para desenvolver este tipo de raciocínio é a interdependência, o que nos impede de falarmos em “pagamento”. Entretanto, não é de hoje que se tenta separar os povos indígenas da natureza como ocorre com os povos de cultura ocidentalizada. A intenção desta separação não é outra que não a implantação do capitalismo naquilo que ele tem de pior: comercializar tudo, a natureza, enquanto matéria prima e as pessoas, enquanto consumidoras e mão de obra.

Um elemento de compreensão e interpretação da realidade fundamental para introdução do sistema ocidental de pensamento é o tempo. Por isso, já no texto anterior (PADILHA. 2018) salientava-se o equívoco da divisão do tempo nos termos propostos por Terri Aquino e Marcelo Iglésias, que assim dividia os tempos indígenas:

I) o tempo das malocas, 2) o tempo das correrias, 3) o tempo do cativeiro, 4) o tempo dos direitos e 5) o tempo da história presente (CPI/AC, 1996, p. 28)

O que subjaz a essa forma de dividir o tempo, é a ideia de que os povos indígenas estão em processo evolutivo, nos moldes do que o desenvolvimentismo considera “evolução”. Com este questionamento que faço, não proponho retroceder à tese do fixismo, mas tão somente considerar os processos em si mesmos, sem que sejam necessariamente evolutivos, rumo a um suposto desenvolvimento linearmente traçado e definido pelas sociedades ditas evoluídas. Os povos originários, sim, possuem todos os elementos necessários a uma organização social, cultural e produtiva autônoma. Cada povo tem seu jeito próprio e precisa ser respeitado nisso. Cada povo sente as transformações processuais de uma forma diferente e por isso constrói caminhos próprios, vivendo, construindo e narrando sua própria história.

Na relação com os povos indígenas é de suma importância para o desenvolvimentismo, ou capitalismo se preferir, adequar o evolucionismo biológico às questões socioculturais para que estes povos deixem de ser o que são para se “transformarem”, por meio da assimilação e da integração, em não indígenas e em apenas nacionais, brasileiros. Há ainda um elemento muito importante a ser considerado nessa verdadeira mutação: a relação de produção e divisão do trabalho. Quando interligados e interdependentes, natureza e povos indígenas desempenham funções, tanto no processo quanto nas relações mesmas.

Assim como o tempo dos povos fora artificialmente alterado para que se adequasse ao projeto desenvolvimentista, a natureza e os povos devem deixar de desempenhar funções para prestarem “serviços” um ao outro. A transformação das funções em serviços é um passo necessário e fundamental para que se estabeleça uma relação comercial, precificada. Se há serviços prestados, há que se ter “pagamentos” pelos mesmos. Roberto Sanchaes Resende ao analisar O “Agroextrativismo e pagamentos por serviços socioambientais” a partir das Reservas Extrativistas da Terra do Meio, no Pará, observa que:

As propostas para a criação de sistemas de pagamentos por serviços ambientais têm se proliferado nas últimas décadas, estando diretamente relacionadas com as mudanças observadas em escala planetária em processos como a regulação do clima, dos ciclos hidrológicos e a renovação de ecossistemas. Essas mudanças climáticas e ambientais têm afetado aquilo que a Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES) definiu como as contribuições da natureza para as pessoas, que são a base material para a reprodução física, econômica e cultural dos seres humanos. (RESENDE, 2020, p. 01).

Observemos que se estabelece não só uma separação entre ser humano e natureza, como, por meio de “serviços”, submete-se a natureza ao ser humano. A natureza mesma presta serviços aos seres humanos e, por isso, passa a figurar como se fora, a natureza, contratada pelos humanos e a estes devesse prestar serviços. Vejam o que diz o Ministério do Meio Ambiente quando para justificar a passagem das funções ambientais a serviços:

As interações entre os elementos de um ecossistema são chamadas de funções ecossistêmicas. Alguns exemplos destas funções são a transferência de energia, a ciclagem de nutrientes, a regulação de gases, a regulação climática e do ciclo da água. Essas funções geram serviços ecossistêmicos quando os processos naturais subjacentes a suas interações desencadeiam uma série de benefícios direta ou indiretamente apropriáveis pelo ser humano. (MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE, 2020) (grifo meu).

            A regulação de gases, a regulação climática, quando “apropriáveis” pelo ser humano tornam-se serviços. É como se a natureza e os povos indígenas, ligados à ela de forma indissociável, deixasse o tempo da escravidão para entrar no tempo do trabalho assalariado, ou serviços pagos. Há uma questão de fundo intransponível que os mercadores da natureza omitem, entre outras, clara: quem recebe em nome da natureza, já que esta não possui conta bancária e nem passou procuração?

            Não há que sermos simplistas, mas também não podemos aceitar que um jogo de palavras nos confunda. É. Pois, justamente no jogo de palavras que reside a farsa que denunciamos há vários anos. Jogos de palavras que se adequam ao interesse do mercador. REDD, REDD+, REM, Pagamentos por Serviços Ambientais, Soluções baseadas na natureza... Tudo, porém, vinculado ao que chamam de “Serviços” Ecossistêmicos e Serviços Ambientais. Assim foi que o Estado do Acre, em outubro de 2010 atribui a si mesmo a capacidade jurisdicional de legislar e, a partir disso, negociar diretamente tais serviços. Está criado o Sistema de Incentivo a Serviços Ambientais no estado do Acre.

Cria o Sistema Estadual de Incentivos a Serviços Ambientais - SISA, o Programa de Incentivos por Serviços Ambientais - ISA Carbono e demais Programas de Serviços Ambientais e Produtos Ecossistêmicos do Estado do Acre e dá outras providências. (Acre, Lei 2.308).

            Com a criação do sistema esperava-se uma adesão quase que automática. Porém, havia uma imensa barreira a ser superada: Os territórios indígenas como local de maior biodiversidade e consequentemente lugar de maiores Serviços Ecossistêmicos onde se constata que a lógica indígena não obedece e muitas vezes não se enquadra na lógica mercadológica do capital e isso exigiu um esforço a mais para fazer com que os povos indígenas fossem considerados, enquanto parte do processo de geração de capital e desses serviços.  Tanto as alterações propostas na lógica temporal, expressa nos tempos históricos, quanto as alterações legais, expressas na criação e alteração de leis, finalmente se encontram no verdadeiro objetivo: adequar os povos ou pelo menos lideranças às necessidades do desenvolvimentismo e finalmente disponibilizar ao mercado externo a estes povos, seus territórios e o que neles existe.

Agora não chegam as caravelas com portugueses, espanhóis, ingleses, franceses e outros do norte desenvolvido. Chegam empresas transnacionais do norte, trazendo a tiracolo os governos de seus países, com propostas "ecologicamente corretas" e carregando em seu bojo a subordinação ainda maior dos povos do sul. A terra, lastro do capital natural, está sendo comercializada em bolsas de valores. Tal sanha também se estende aos outros elementos da natureza, como o ar, a biodiversidade, a cultura, o carbono - patrimônios da humanidade. (CIMI, 2012). (grifo meu).

            O texto acima é parte de uma nota do Conselho Indigenista Missionário intitulada: “A Sanha do Capitalismo Verde: REDD e as artimanhas contra os povos indígenas” e reflete com clareza que os interesses presentes nesta farsa das falsas soluções são justamente o de mercantilizar e financeirizar a natureza, incluindo ai o ar e as culturas dos povos. Não é com outra intenção que se fez a divisão dos tempos a gosto do freguês, criou-se a lei 2.308 no Acre e deu-se sequência ao avanço sobre os territórios com o acordo entre Acre, no Brasil, Califórnia, nos Estados Unidos e Chiapas, no México[4] e ainda o acordo do chamado REM (REDD Early Movers)[5], chamado de REDD para pioneiros junto ao Banco de Desenvolvimento da Alemanha, KFW[6] meio pelo qual os projetos de REDD finalmente chegaram aos territórios dos povos originários, sobre os auspícios do governo do Acre por meio do REDD jurisdicional.

            Sim, as novas caravelas ancoraram no Acre e agora já não lhes basta saquear madeiras, ouro ou outras drogas do sertão[7], querem o ar, as mentes, corações e as culturas dos povos. Neste processo merece destaque o acesso às culturas por meio do suposto engajamento também das mulheres indígenas. Mais recentemente o governo do Acre apresentou projeto para práticas empreendedoras voltadas para mulheres indígenas à Ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos (MMFDH) Damares Alves[8]. A argumentação de que pessoas, e não comunidades e povos, sejam empreendedores, nascem no governo do Acre em tempos idos, mas, caem como uma luva para os propósitos dos atuais governos federal e estadual: integrar os povos originários e entregar seus territórios à iniciativa privada completando o chamado “golpe verde” baseado na farsa das falsas soluções. O avanço da mercantilização sobre as culturas e espiritualidades indígenas tem sido sistematicamente festejado pelo governo do Estado, como na manifestação da Secretária de Turismo e Lazer do governo de Gladson Cameli, PP, Rachel Moreira.

Para se ter uma ideia, em 2013 tínhamos apenas três festivais  indígenas sendo realizados em todo o Acre. No ano passado, saltamos para 27 e este ano estão previstos 43, com a participação de turistas nacionais e internacionais. (NOTÍCIAS DO ACRE, 2018).

            Diversos problemas afloram quando analisamos o crescimento dos tais festivais culturais, sendo um dos mais graves o acesso de turistas nacionais e principalmente estrangeiros às culturas, espiritualidades e das chamadas “medicinas tradicionais”, possibilitando e viabilizando a comercialização desses saberes e até mesmo o tráfico ilegal de substâncias e plantas. A valorização das culturas deve sim ser promovida, mas deve antes, atender os interesses da própria comunidade. Revigorar a cultura é ato interno de cada povo e a este deve servir. Quando a cultura e espiritualidade passam a ser objetos a serem comercializados, podem vir a ser considerados apenas folclores, se afastando cada vez mais da sacralidade, isso se chama “profanar” a natureza e o sagrado que ela representa para os povos originários. Não são os povos que se auto violam, mas os mercadores que lucram violentando-os como tem feito historicamente. Ao final e ao cabo, espera-se transformar o indígena em apenas uma pessoa, desvinculada de seu povo e sua história, prometendo lhe riquezas que nunca virão e , se vier algo, nunca será suficiente.

            É óbvio que os povos indígenas têm o direito de se autodeterminarem e, para tanto, devem ter total liberdade de escolha daquilo que julgarem bom ou não para eles. Porém, o que questionamos aqui não é este direito, mas temos que denunciar o assédio sobre esses povos e comunidades. São diversas as formas de assédio sofridas por esses povos. São assediados por igrejas, partidos políticos, e uns cem números de ideologias financiadas pelo capital sedento por seguir espoliando-os, sejam fisicamente os territórios, seja mentalmente com propostas supostamente boas, porém, falsas e cujo interesse é apenas o de converter os povos em novos consumidores dos desejos do capitalismo desenvolvimentista.

Talvez a maior contribuição dos povos indígenas para a humanidade em geral seja justamente não se inserir cegamente no mercado e isto está gravemente ameaçado com o modelo defendido pelo governo do Acre, expresso claramente na inconstitucional lei 2.308/2010. (PADILHA, 2012, p. 30).

            Há vinte anos já tínhamos a certeza de que o ataque aos territórios, povos e culturas fazia parte de um processo macabro desencadeado pelos donos do mundo e mercadores da natureza que enxergavam na natureza e nos territórios fonte primitiva para seguir alimentando seus lucros inescrupulosos.  Há dez anos, na Rio + 20, com o Dossiê Acre, decidimos por denunciar ao mundo a farsa, as falsas soluções e o saque. Hoje seguimos pesquisando, denunciando e lutando contra os projetos de exício, daqueles que se deleitam e se alimentam com a destruição. Tais projetos se apresentam como “solução” quando são exatamente o oposto. Essa trajetória de se alimentar com a destruição, segue com o capitalismo e persegue os povos originários.

Todos os estudos indicam a presença de petróleo nesta região e nós estamos muito otimistas. Isso é um novo tempo na economia do Acre, muitos empregos podem ser gerados. Vejam que apenas na fase inicial dos estudos a empresa de sísmica instalada em Cruzeiro do Sul tinha 700 trabalhadores contratados. E o que precisa ser destacado é que o retorno dos investimentos pode começar em seis meses após a perfuração. (...) Há um enorme potencial também para os pequenos e médios empresários participarem da atividade econômica do gás e do petróleo e em nada isso compromete o nosso respeito ao meio ambiente. (NOTICIAS DO ACRE, 2013). (grifo meu).

            A fala acima é do então governador do Acre Tião Viana[9], PT. É importante notarmos que, como justificativa para tamanho entusiasmo com a exploração de petróleo, apresenta-se como remissão econômica para o estado do Acre e, cinicamente diz que as atividades não comprometerão “o nosso respeito ao meio ambiente”. O cinismo é um dos lados de uma mesma moeda: os mesmos que se declaram defensores dos povos indígenas e do meio ambiente defendem igualmente a manutenção do modelo colonialista, desenvolvimentista e economicista onde o lucro é o “deus”, o sagrado.

 Portanto, de 1500 até hoje, o modelo baseado no saque dos territórios, segue rigorosamente o mesmo. A verdadeira alternativa só pode ser baseada na decoloniedade. Temos que ter a coragem de propor uma ruptura com o sistema e os povos indígenas são exatamente quem tem proposto historicamente esta ruptura. Por isso mesmo, na visão dos proponentes das falsas soluções, estes povos são os que devem morrer enquanto povos autônomos devendo aceitar a submissão ao capital desenvolvimentista. Os ataques aos povos e seus territórios nunca cessa, mas obedece a alguns ciclos e de tempos em tempos se manifestam de maneira mais agressiva em nome de um suposto progresso. Assim foi com as BRs 364 e 317, com a exploração de petróleo e gás de xisto, com a mineração na região do Juruá e agora, mais recentemente com o retorno do debate sobre a estrada ligando Cruzeiro do Sul a Pucallpa, no Peru. A estrada se apresenta como desenvolvimento, mas é no fundo mais uma forma de se adentrar nos territórios e prosseguir o saque.

É bom lembrarmos que estes não são projetos isolados, estão em profunda articulação entre si e com o capital internacional por meio de arranjos como Calha Norte, Avança Brasil, IRRSA (Integração da Infraestrutura Regional da América do Sul), PAC (Programa de Aceleração do Crescimento)... e por ai vai. O desenvolvimentismo acena aos povos com promessas falsas de futuro próspero e ao mesmo tempo acena também de forma falsa, com a promessa de um ambiente saudável. Chamam a isso, entre outros nomes, de desenvolvimento sustentável. Neste arranjo falso e de farsas, indígenas, indigenistas e ambientalistas são assediados. O pior é que muitos aceitam o assédio e tentam seguir sobrevivendo com o dinheiro sujo que o assediador lhes oferece comprando-lhes assim o silêncio[10].

As denúncias que estão sendo apresentadas não são meras expressões da vontade de alguns, mas resultado de investigações, pesquisas e escutas das comunidades. Assim foi que pudemos falar de Economia Verde, Povos das Florestas e Territórios: violações de direitos no estado do Acre DHESCA (2015) que realizou uma investigação sobre as violações de direitos decorrentes dessas falsas soluções assinalando que essas falsas soluções servem de “cortina de fumaça” para que o capital avance sobre os territórios.

            Bem medido e bem pesado, a solução está e só virá dos povos originários e comunidades tradicionais. Nas caravelas, antigas e atuais, não cabem as soluções porque elas existem justamente para nos convencer de que não há solução sem eles (e o que eles trazem), ou seja, o capitalismo mesmo. Eu diria mais: não basta descolonializar questionando o capitalismo, temos que destruir o desenvolvimentismo, seja de direita ou de esquerda. Falamos a partir da nossa militância, da experiência dos e com os povos, mas também de pesquisadoras e pesquisadores comprometidos com a verdade e com a vida. Temos que seguir aprendendo com os povos da gratuidade!

Referências:

BRSIL, Ministério do Meio Ambiente. Funções dos Ecossistemas. 2020. Disponível em: https://www.gov.br/mma/pt-br/assuntos/servicosambientais/ecossistemas-1/conservacao-1/servicos-ecossistemicos/funcoes-dos-ecossistemas. Acessado em 27/09/2021.

CIMI, Dossiê Acre: O Acre que os mercadores da natureza escondem. 2012.

Comissão Pró-índio do Acre, História Indígena CPI/AC, 1996. Disponível em: https://cpiacre.org.br/publicacao-acervo/historia-indigena/

DHESCA, Economia Verde, Povos das Florestas e Territórios: Violações de Direitos no Estado do Acre, Rio Branco, 2015. Disponível em: https://www.plataformadh.org.br/wp-content/uploads/2015/08/economia_verde_relatorio.pdf

NOTÍCIAS DO ACRE, Festivais indígenas celebram cultura e espiritualidade dos povos do Acre. Publicado em 28/07/2018. Disponível em: https://agencia.ac.gov.br/festivais-indigenas-celebram-cultura-e-espiritualidade-dos-povos-do-acre/

_______, Exploração de petróleo no Acre é viável, defende especialista. Publicado em 13/09/2013. Disponível em: https://agencia.ac.gov.br/exploracao-de-petroleo-no-acre-e-viavel-defende-especialista/

Rezende, Roberto Sanches. «Agroextrativismo e pagamentos por serviços socioambientais: reflexões a partir das Reservas Extrativistas da Terra do Meio (PA)», Anuário Antropológico [Online], v.45 n.1 | 2020, posto online no dia 27 janeiro 2020, consultado 01 outubro 2021. URL: http://journals.openedition.org/aa/4956; DOI: https://doi.org/10.4000/aa.4956

 



[1] Mestre em direito, especialista em Desenvolvimento Social no Campo: Povos Indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais, filósofo indigenista.

[2] O Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) é uma entidade privada sem fins lucrativos. É um agente de capacitação e de promoção do desenvolvimento, criado para dar apoio aos pequenos negócios de todo o país. Desde 1972, trabalha para estimular o empreendedorismo e possibilitar a competitividade (...). Disponível em: https://www.sebrae.com.br/sites/PortalSebrae/canais_adicionais/o_que_fazemos

[3] Revista Trinta Anos Pós Assassinato de Chico Mendes e Destruição Oculta de Florestas e Vidas No Acre, Rio Branco, Dez. 2018 PDF. Acesse em: https://pt.scribd.com/document/404309042/Trinta-anos-pos-assassinato-de-Chico-Mendes-e-destruicao-oculta-de-florestas-e-vidas-no-Acre-Rio-Branco-dez-2018-pdf

[4] Em 17/11/2010, os Governadores Binho Marques, do Acre e Arnold Schwarzenegger, da Califórnia, assinaram um memorando que definiria as regras para a comercialização de crédito de carbono entre Acre, Califórnia (EUA) e Chiapas (México). Disponivel em: https://agencia.ac.gov.br/acre-e-califrnia-querem-falar-a-mesma-lngua-quando-o-assunto-crdito-de-carbono/

[5] Segundo o Instituto de Mudanças Climáticas do Acre, IMC, A finalidade do Programa REM é apoiar com “financiamento ponte” implementadores de programas jurisdicionais de REDD+ para fortalecer sua autonomia e sustentabilidade. Nomeado mundialmente como – REDD +, de acordo com as decisões sob o marco da Organização das Nações Unidas Mudança Climática (UNFCCC). O fomento é realizado por meio de remuneração baseada nos resultados adequadamente documentados e verificados de redução de emissões por desmatamento. A finalidade, portanto, do Programa REM é apoiar com “financiamento ponte” implementadores de programas nacionais e subnacionais de REDD+. Disponível em: http://imc.ac.gov.br/programa-para-pioneiros-em-redd-rem/

[6] Fundado em 1948 como uma instituição pública, o KfW pertence hoje à República Federal da Alemanha (80%) e aos estados federados (20%). O  KfW é um dos maiores bancos alemães e capta os recursos para suas atividades de fomento quase exclusivamente nos mercados de capitais internacionais.

[7] As chamadas drogas do sertão abarcavam uma série de produtos como o guaraná, o anil, a salsa, o urucum, a noz de pixurim, pau-cravo, gergelim, cacau, baunilha e castanha-do-pará. Todas essas especiarias tinham alto valor de revenda no Velho Continente e, com isso, logo o contrabando apareceu nessas áreas. Disponível em: https://mundoeducacao.uol.com.br/historiadobrasil/drogas-sertao.htm

[8] O projeto foi elaborado em parceria com o Gabinete da Primeira Dama, da Companhia de Desenvolvimento de Serviços Ambientais (CDSA), Secretaria de Estado de Assistência Social, dos Direitos Humanos e de Políticas para Mulheres (Seasdham) e prevê a realização de oficinas, capacitações para práticas empreendedoras como a criação de uma grife de roupas indígenas. A proposta final é lançar os produtos para venda em loja virtual. Disponível em: http://imc.ac.gov.br/acre-apresenta-projeto-para-praticas-empreendedoras-voltada-para-mulheres-indigenas-a-ministra-damares-alves/

[9] Sobre este embate, sugiro a leitura de uma matéria de 2008. Disponível em: https://ac24horas.com/2013/11/29/coordenador-do-cimi-chama-sebastiao-viana-de-mentiroso/amp/

[10] Os povos indígenas e comunidades tradicionais , reunidos em Xapuri, estado do Acre denunciaram as diversas agressões contra aqueles que ousavam questionar a farsa das falsas soluções. Disponível em:  https://www.ecodebate.com.br/2017/07/28/denuncia-no-acre-liderancas-indigenas-e-extrativistas-sao-ameacadas-por-se-posicionarem-contra-politicas-de-economia-verde/

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

Nota do Cimi: lista de prioridades do governo reafirma agenda anti-indígena e de devastação social e ambiental

 

Nota do Cimi: lista de prioridades do governo reafirma agenda anti-indígena e de devastação social e ambiental


Projetos legislativos elencados pelo governo federal como prioritários para votação em 2022 atacam direitos humanos, indígenas e ambientais

 

O Conselho Indigenista Missionário – Cimi repudia mais uma iniciativa anti-indígena e contra a sociedade brasileira do atual governo federal. A publicação da portaria 667, de 9 de fevereiro de 2022, com as prioridades do governo para votação no legislativo, afronta os direitos humanos, ambientais e indígenas no Brasil. Muitas das proposições já foram apresentadas em 2021 e barradas pelas mobilizações da sociedade civil, dos povos indígenas e de seus aliados. O governo, contudo, insiste em tentar aprová-las, numa postura arrogante, perversa e contrária à vida.

Dentre as prioridades elencadas pelo governo na portaria, encontra-se o Projeto de Lei (PL) 490/2007, que altera o Estatuto do Índio, os procedimentos de demarcação dos territórios indígenas e concebe o marco temporal como critério para essas demarcações. A lista inclui também o PL 191/2020, que abre os territórios indígenas para a pesquisa e a lavra de recursos minerais e hidrocarbonetos, grandes empreendimentos e exploração dos recursos hídricos. A portaria do pacote de maldades ataca o meio ambiente, com as proposições do PL 3729/2004, que altera radicalmente as regras do licenciamento ambiental no país, o PL 528/2021, que regulamenta o mercado de carbono, e os PLs 2633/2020 e 510/2021, que formam o “PL da Grilagem”, voltado a anistiar e regularizar invasões de terras públicas.

Na sua escalada contra a vida, o governo propõe também como prioridade o PL 6299/2002, o “PL do Veneno”, aprovado ontem, dia 9 de fevereiro, pela Câmara dos Deputados. Este PL visa flexibilizar ainda mais a legislação sobre a venda e uso de agrotóxicos, facilitando, por exemplo, o registro de substâncias cancerígenas, já proibidas em outros países. A proposta concentra o poder de decisão sobre o tema no Ministério da Agricultura e enfraquece as atribuições e a capacidade de fiscalização de órgãos como Ibama e Anvisa.

Lembramos que os povos indígenas, os seus aliados e a sociedade civil organizada já se posicionaram contrários a esses projetos de morte. Em 2021, mobilizaram-se em grande número, ocuparam espaços, avenidas, praças, estradas, rodovias, para demonstrar indignação, e resistência contra esse ideário do mercado, do indivíduo acumulador, da competição exacerbada como regra para a convivência social e da mercantilização total da vida e da natureza. O governo e seus aliados, com a sua política fundamentalista, só enxergam o agronegócio, o latifúndio, as técnicas dispendiosas que geram desemprego, os monocultivos e o mercado externo, penalizando a maioria da população pobre no Brasil.

Repudiamos a prática nociva da não demarcação e da não regularização fundiária dos territórios indígenas e o desrespeito aos direitos fundamentais desses povos contidos na Constituição Federal de 1988. É imperativo cessar a propagação da violência contra os povos indígenas e a superexploração dos trabalhadores, contidas na concepção da integração assimilacionista do capital para o povo e proposta como “solução final” para os indígenas.

As prioridades do governo federal na agenda legislativa também demonstram a incapacidade do diálogo e da convivência com a diversidade que é o povo brasileiro. O Conselho Indigenista Missionário reafirma seu compromisso com a resistência dos povos, com a diversidade, com os povos indígenas, nesta luta contra os projetos de morte que afrontam os direitos humanos e a natureza, na dimensão sagrada das relações estabelecidas com a terra-mãe.

Brasília, 10 de fevereiro de 2022

Acesse o original em https://cimi.org.br/

terça-feira, 18 de janeiro de 2022

Povo Madjá realisa assembleia na Aldeia Estirão, Rio Eirú, municío de Eirunepé, AM: NÃO TOLERAREMOS MAIS VIOLAÇÕES DE NOSSOS DIREITOS

 

Assembleia Madjá. Foto Lindomar Padilha

    Nos dias 10, 11 e 12 de janeiro de 2022, o povo Madjá realizou assembleia para discutir e decidir sobre diversos aspectos que interferem diretamente na vida do povo como educação, saúde, território bem como as diversas violências sofridas principalmente quando estão nas cidades. A assembleia foi realizada na Aldeia Estirão, no Rio Eirú, no município de Eirunepé, Estado do Amazonas.
    Contou com a participação de representantes e líderes do povo e ainda com a participação de aliados como representantes do Cimi, Regional Amazônia Ocidental, representante do Conselho de Missão entre Índios - Comin, Sra. Vilma, voluntária na defesa dos povos em Eirunepé, Antropólogo do Ministério Público Federal de Manaus, representantes do povo Tukuna e ainda com a presença do representante da Fundação Nacional do Índio - Funai de Eirunepé.
    O abandono da escola e da educação de modo geral é o reflexo de toda falta de atenção e respeito para com o povo. Aliás, não há escolas e a que tem é justamente esta que aparece na imagem. Ou seja, sem nenhuma condição de acolher professores e alunos. Os próprios indígenas tiveram que construir bancos e cobrir o telhado para que a assembleia pudesse se realizar nas dependência daquilo que insistem em chamar de "escola"
Reparos na escola. Foto Lindomar Padilha

Debates em grupo sobre a escola que queremos. Foto Lindomar Padilha

    Não bastasse o abandono físico, desde 2018 não há professores contratados e nem merenda escolar. A desassistência e o desinteresse por parte da prefitura de Eirunepé (e demais prefeituras que deveriam prestar assistência aos povos Madjá e Tukuna) é tanto que se quer enviaram representantes à assembleia. Ao contrário, circula pelas redes sociais da prefeitura de Eirunepé imagens de supostas escolas em construção nas aldeias indígenas. Mentira.
Destaque às mulheres Madjá. Foto Lindomar Padilha

    Mereceu destaque a participação das mulheres que por diversos momentos deram o tom da assembleia e conduziram com maestria os trabalhos. Parabenizo em nome de todas elas, à Zuíla Madjá, primeira cacique mulher do povo Madjá.
    O povo Madjá encontra-se em total abandono em todos os níveis e, por isso há muitos casos de mortes violentas, agressões inimagináveis, assassinatos e mesmo suicídios. É urgente que se faça uma campanha nacional e até internacional para que a vida do povo Madjá seja garantida. Juntemo-nos aos Madjá para denunciar o verdadeiro genocídio em curso.
    E foi assim, com toda força e coragem que os madjá soltaram esta forte carta que transcrevo a seguir.

Carta pública do povo Madijá

Nós, povos Madja e Tukuna, reunidos em assembleia na aldeia Estirão, nos dias 10,11 e 12 de janeiro de 2022, decidimos tornar público por meio desta carta, nossas reivindicações e exigências bem como manifestar nosso posicionamento frente as diversas situações que atingem nossa dignidade pessoa humana e povo que somos. Comunicamos ainda que além desta carta serão encaminhados documentos e relatório às entidades e órgãos públicos e autoridades competentes sempre com cópia ao Ministério Público Federal. Neste sentido DENUNCIAMOS:

* Denunciamos as constantes invasões de nosso território seja por madeireiros, caçadores pescadores ou outras formas de violação de nosso território.

* Denunciamos a falta de escolas em nossas aldeias, falta de contratação de professores indígenas, falta de merenda escolar e falta de cursos de formação de professores.

* Denunciamos a falta de espaços adequados para o atendimento dos profissionais de saúde em nossas aldeias, como postos de atendimento e casa para alojamento.

* Denunciamos a falta de contratação de Agentes de saúde indígenas, microscopistas e outros profissionais.

* Denunciamos a falta de contratação de intérpretes de nossa língua na FUNAI, nos órgãos públicos e de assistência.

* Denunciamos a retenção de cartões de benefícios por pessoas que não tem procuração para isso, como comerciantes e outros.

* Denunciamos a exploração de nossos parentes através da venda superfaturada de produtos e até da venda de produtos com prazo de validade vencido.

* Denunciamos a venda indiscriminada de bebidas alcóolicas a nossos parentes bem como a indução ao consumo dessas bebidas.

* Denunciamos as constantes agressões, violações, atos de racismo, preconceito e toda sorte de crimes contra nossos parentes quando estes se encontram na cidade.

* Denunciamos o cartório de Eirunepé que não nos atende com dignidade e nos descrimina.

EXIGIMOS, portanto, a imediata solução para as denúncias apresentadas acima e que as autoridades, órgãos e entidades responsáveis apresentem imediatamente propostas que sejam capazes de responder às nossas exigências, anseios e que contribuam para o cumprimento de nossos direitos.

Por fim, comunicamos a todos os órgãos, instituições públicas, privadas e à sociedade em geral que NÃO SERÃO TOLERADAS nenhuma forma de discriminação, racismo, preconceito e, sobre tudo nenhuma forma de violência contra nosso povo ou qualquer pessoa de nosso povo. Utilizaremos de todos os meios necessários para que sejamos tratados com o mais absoluto respeito e dignidade, conforme nossos direitos
assegurados.

Seguiremos denunciando onde for necessário e jamais nos calaremos diante de qualquer injustiça até que nosso povo seja respeitado e tratado com igualdade de direito e dignidade.

Aldeia Estirão, Município de Eirunepé, 12 de janeiro de 2022.




quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Bolsonaro e o genocídio indígena Mata-se um povo quando se criam condições que podem levá-lo à destruição

 Reproduzo aqui um texto da Dra.Deborah Duprat publicado na Folha de São Paulo que deve ser acessado AQUI

Deborah Duprat

A concepção dos povos originários da América como inferiores e a violência do projeto colonial vão alimentar, em larga medida, as teorias raciais do século 19 e a própria formação dos Estados nacionais, com a noção de homogeneidade que lhe é correlata. A combinação desses ingredientes culminou no nazismo e no Holocausto judeu, chamando a atenção da Europa, pela primeira vez, para o fenômeno da eliminação dos "seus outros".

Em 11 de dezembro de 1948, a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou a Declaração Universal dos Direitos Humanos e a Convenção para a Prevenção e a Repressão do Crime de Genocídio. Em ambos os casos, parte-se da premissa de que, se os direitos humanos são universais, é fundamental assegurar o pluralismo das sociedades nacionais, com abandono da ideia de superioridade de um grupo sobre os demais.

A convenção diz que o genocídio é crime tanto em tempo de paz como em tempo de guerra e o define como a prática de atos cometidos com a intenção de "destruir, no todo ou em parte, grupo nacional, étnico, racial ou religioso". Já o seu artigo 2º, "c", diz que constitui ato de genocídio "submeter intencionalmente o grupo a condições de existência capazes de ocasionar-lhe a destruição física total ou parcial".

A Constituição Federal determina a demarcação das terras indígenas porque são espaços essenciais à autodeterminação desses povos. A negativa ou omissão deliberadas da demarcação configura o crime de genocídio na modalidade inscrita no artigo 2º, "c", da convenção —ou seja, mata-se um povo quando lhe são impostas condições de vida capazes de levar à sua destruição física. Seus membros morrem, e os sobreviventes se submetem a um processo de integração à cultura dominante. O povo preexistente deixa de existir. Foi o que aconteceu com vários povos indígenas ao longo do projeto colonial.

Dito isso, é preciso denunciar que está em curso um processo de genocídio dos indígenas no Brasil, capitaneado pelo presidente da República. Discursivamente, ele trata esse segmento da sociedade como inferior e diz que não irá demarcar —como não demarcou— um centímetro de área indígena. A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), em ação proposta perante o Supremo Tribunal Federal, evidenciou que esses discursos levaram a ondas de invasões de terras indígenas. Dados do Prodes, sistema do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), revelam que, em 2019, a taxa anual de desmatamento em toda a Amazônia foi de 34,41%, mas que esse incremento foi de 80% quando consideradas apenas as terras indígenas.

No contexto da Covid-19, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos concedeu medida cautelar em favor dos povos indígenas Yanomami e Ye’kwana, apontando a presença, em seus territórios, de 20 mil garimpeiros. Também assim procedeu em relação aos povos indígenas Munduruku, Guajajara e Awá, todos com seus territórios invadidos e vítimas de ampla disseminação da doença. Relatório de 2021 produzido pelo Conselho Indigenista Missionário aponta que os casos de invasão de terras indígenas em 2020 tiveram um acréscimo de 137% em relação a 2018. Foram atingidas pelo menos 201 terras indígenas, de 145 povos, em 19 estados.

Jair Bolsonaro organizou toda a burocracia para negar direitos territoriais a esses povos e abrir suas terras para atividades que ele considera produtivas. Embutidas nesse aparato, as velhas ideias da supremacia racial e da necessidade de assimilação das culturas dissidentes. Isso tem nome: genocídio.

Deborah Duprat: advogada e subprocuradora-geral da República aposentada, participou do Tribunal do Genocídio, no Tuca (Teatro da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), como representante da sociedade na acusação.

terça-feira, 2 de novembro de 2021

Mais de 250 grupos dizem NÃO às Soluções Baseadas na Natureza!


A declaração pede aos movimentos climáticos, ambientais e de justiça social que rejeitem inequivocamente “Soluções Baseadas na Natureza” e todos os esquemas de compensação, porque eles não são feitos para enfrentar a crise climática. 
Permanece aberta para assinatura até o final de 2021

COMUNICADO DE IMPRENSA

Em nota divulgada neste 2 de novembro, 257 organizações, redes e movimentos de 61 países dizem não às “Soluções Baseadas na Natureza”, um conceito de que o governo do Reino Unido, as maiores empresas poluidoras do mundo e a indústria da conservação estão vendendo na Conferência do Clima da ONU (COP26), em Glasgow, Escócia.

A declaração adverte que “espoliações baseadas na natureza” e práticas prejudiciais, como plantações de monoculturas de árvores e agricultura industrial, estão por trás da estratégia de marketing das “Soluções Baseadas na Natureza”.

Grandes empresas como Shell, Eni e Total afirmam que, com as “Soluções Baseadas na Natureza”, conseguem reduzir suas emissões de gases de efeito estufa a zero e continuar lucrando com a extração de combustíveis fósseis. Empresas como Microsoft, Unilever ou Delta Airlines condicionaram suas promessas de emissão líquida zero e neutralidade de carbono à compensação de suas emissões por meio de projetos de “Soluções Baseadas na Natureza”.

A demanda empresarial por “Soluções Baseadas na Natureza” fechará espaços de vida de Povos Indígenas, pequenos agricultores e comunidades que dependem da floresta em uma escala imensa. Somente o plano de “emissão líquida zero” da maior empresa de alimentos do mundo, a Nestlé, poderia demandar 4,4 milhões de hectares de terra por ano para compensações. Essa é apenas uma das centenas de promessas empresariais de emissão líquida zero, que correm o risco de fechar os territórios das pessoas no Sul global.

A declaração pede aos movimentos climáticos, ambientais e de justiça social que rejeitem inequivocamente “Soluções Baseadas na Natureza” e todos os esquemas de compensação, porque eles não são feitos para enfrentar a crise climática. Para evitar o caos catastrófico do clima, a destruição dos estoques subterrâneos de carbono fóssil deve ser interrompida, e as comunidades de linha de frente que se opõem à extração de combustíveis fósseis e oleodutos estão mostrando o caminho.

Os governos reunidos em Glasgow não devem permitir que as “Soluções Baseadas na Natureza” desviem sua atenção de um plano com prazo determinado para deixar no solo as reservas restantes de carvão, petróleo e gás. Acabou o prazo para as perigosas “distrações baseadas na natureza”!

A declaração Não às Soluções Baseadas na Natureza permanece aberta para assinatura até o final de 2021. A declaração completa com as assinaturas até 31 de outubro de 2021 está disponível em portuguêsespanholinglês e francês.

Leia a declaração completa abaixo:

Não às Soluções Baseadas na Natureza!

 
Grandes poluidoras do clima, como a Shell e a Nestlé, estão vendendo uma farsa perigosa. Elas dizem que conseguem reduzir suas emissões de gases de efeito estufa a zero e continuar queimando combustíveis fósseis, extraindo mais minérios no planeta e aumentando a produção industrial de carne e laticínios. Eles chamam isso de reduzir as emissões a um patamar “líquido zero”. Plantar árvores, proteger florestas e mudar práticas da agricultura industrial, afirmam elas, armazenará carbono extra nas plantas e no solo em quantidade suficiente para compensar as emissões de gases do efeito estufa que essas empresas lançam na atmosfera.

O que as grandes empresas e os grandes grupos conservacionistas chamam de “soluções baseadas na natureza” é uma perigosa distração. Seu conceito propagandístico é disfarçado com dados não comprovados e equivocados, e com a afirmação de que a ideia pode proporcionar 37% das reduções de CO2 até 2030. Cada vez mais empresas, da Total à Unilever, passando pela Microsoft, estão fazendo das “soluções baseadas na natureza” o centro de seus planos de ação climática, enquanto o setor de conservação recorre ao financiamento empresarial para as “soluções baseadas na natureza”, com o objetivo de expandir seu controle sobre as florestas.

Do ponto de vista do setor de conservação, a ideia é simples: as grandes empresas pagam para cercar florestas ou plantar árvores em terras que alegam estar “degradadas” e que poderiam absorver mais carbono se fossem restauradas. Em troca, afirmam estar compensando os danos climáticos de suas emissões contínuas de gases de efeito estufa. Frequentemente, usa-se um documento, conhecido como crédito de carbono, para comercializar essa suposta compensação.

Ao falar de “natureza”, grandes empresas e grandes grupos conservacionistas se referem a espaços cercados, sem pessoas. Eles querem dizer áreas protegidas monitoradas por guardas florestais armados, plantações de árvores e grandes fazendas de monoculturas. A “natureza” deles é incompatível com a natureza entendida como território, como espaço de vida indissociável de culturas, sistemas alimentares e meios de subsistência das comunidades que dela cuidam e da qual se consideram partes intrínsecas. Além do mais, por trás de uma fachada propagandística de iniciativas reais de agroecologia e regeneração natural, os apoiadores das “soluções baseadas na natureza” estão se preparando para promover práticas ainda mais prejudiciais, como plantações de monoculturas de árvores e agricultura industrial.

Portanto, as “soluções baseadas na natureza” não são soluções, e sim uma farsa. As supostas soluções resultarão em “espoliações baseadas na natureza” porque cercarão os espaços de vida restantes de povos indígenas, agricultores e outras comunidades que dependem da floresta, e reduzirão a “natureza” a uma prestadora de serviços para compensar a poluição das empresas e proteger os lucros das corporações que são as maiores responsáveis ​​pelo caos climático. Comunidades indígenas, de agricultores e outras que dependem da floresta, cujos territórios estão sendo cercados, enfrentarão mais violência, mais restrições ao uso de suas terras e mais controle externo sobre seus territórios.

As “soluções baseadas na natureza” são uma repetição dos esquemas fracassados de plantio de árvores e conservação florestal do REDD+, que os mesmos grupos de conservação vêm promovendo nos últimos 15 anos. O REDD+ nada fez para reduzir as emissões globais de gases de efeito estufa ou conter as grandes empresas de alimentos e agronegócio que causam desmatamento. Seu legado duradouro, entretanto, é a perda de terras e florestas por comunidades de agricultores e outras que dependem da floresta, e fortes restrições sobre os usos que elas podem fazer de suas terras. O REDD+ também deu origem a uma indústria de consultores e proponentes de projetos de “sustentabilidade e salvaguardas”, que lucram ao declarar que os projetos de REDD+ são “sustentáveis”, apesar das violações de direitos que causam. Os proponentes de “soluções baseadas na natureza” estão agora empregando as mesmas táticas dos esquemas de certificação e salvaguardas para desviar as críticas e ocultar a tomada de terras e florestas comunitárias.

As empresas cujos planos de ação climática incluem “soluções baseadas na natureza” pretendem aumentar a produção altamente poluente. Na lógica equivocada das “soluções baseadas na natureza” de caráter empresarial, mais poluição significa que as grandes empresas demandarão mais terras para o armazenamento de carbono, o que implicará mais expropriações e mais restrições à pequena agricultura e ao uso que as comunidades fazem de seus territórios. Também implicará ainda mais controle das empresas sobre terras e florestas.

A companhia italiana de energia Eni diz que, em 2050, ainda estará usando combustíveis fósseis para gerar 90% de sua energia. Para compensar essas emissões, terá que usar todo o potencial de todas as florestas da Itália para absorver carbono – 8 milhões de hectares para sustentar a “emissão líquida zero” da Eni! De acordo com a ONG Oxfam, as metas de emissão líquida zero de apenas quatro das grandes empresas de petróleo e gás (Shell, BP, Total e Eni), sozinhas, poderiam exigir uma área de terra com o dobro do tamanho do Reino Unido. Essas são apenas algumas das grandes empresas de energia. O plano de emissão “líquida zero” da maior empresa de alimentos do mundo, a Nestlé, poderia exigir 4,4 milhões de hectares de terra por ano para compensações. E os planos de grandes empresas de tecnologia, como a Microsoft e a Amazon, também se baseiam no cercamento de áreas igualmente grandes.

Grandes empresas e grandes ONGs conservacionistas estão vendendo essa mais recente solução empresarial falsa não apenas nas negociações sobre o clima; elas também estão levando a ideia para as reuniões governamentais da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB) da ONU. No contexto da Cúpula de Sistemas Alimentares, em setembro de 2021, a “Produção positiva para a natureza” está sendo usada como um conceito semelhante às SBN, para industrializar ainda mais a agricultura e ampliar o controle por parte das empresas. Se essas tentativas forem bem-sucedidas, o resultado será mais caos climático e uma perda ainda mais rápida de biodiversidade, enquanto as empresas continuam lucrando com a destruição e a queima de carbono fóssil.

Os governos precisam saber que há um movimento crescente de comunidades da linha de frente, organizações e ativistas da justiça climática. Os signatários desta declaração permanecerão unidos para resistir às tentativas de tomar os territórios das pessoas para expropriações baseadas na natureza e compensação de carbono.
Apelamos aos movimentos climáticos, ambientais e de justiça social para que rejeitem inequivocamente as “soluções baseadas na natureza” e todos os esquemas de compensação. Esses esquemas não foram concebidos para enfrentar a crise climática. Sua função principal é comprar mais uma ou duas décadas de lucro desenfreado para as empresas a partir da extração de carbono fóssil e da agricultura industrial, ao mesmo tempo em que aumenta o controle externo sobre os territórios das comunidades. A neutralidade climática significa pouco mais do que reduções no papel, alcançadas por meio de contabilidade criativa e emissões hipotéticas evitadas, que não podem ser confirmadas. O tempo acabou para essas distrações. Apenas um plano rápido e com prazos definidos que inclua deixar no solo as reservas restantes de carvão, petróleo e gás e mudar a agricultura industrial evitará o caos climático catastrófico.

Comunidades da linha de frente que se opõem à extração de combustíveis fósseis, oleodutos, minas, plantações e outros projetos da indústria extrativa estão mostrando o caminho. A oposição às “soluções baseadas na natureza” e a resistência das comunidades contra a destruição de depósitos subterrâneos de carbono, a mineração empresarial e o agronegócio devem ser entendidas como parte da mesma luta maior para impedir a tomada dos territórios das comunidades pelas empresas.

As comunidades de base também estão na vanguarda das lutas pela soberania alimentar e a agroecologia, que são necessárias para resolver as muitas crises que afetam o planeta. Reconhecemos e apoiamos as lutas das comunidades de base pelo controle dos territórios dos quais dependem, hoje e no futuro.
 
É hora de nos mantermos unidos! Junte-se a nós!

Rejeite as soluções baseadas na natureza como uma nova forma de tomada de terras e lavagem verde pelas grandes empresas!

Diga NÃO às Espoliações Baseadas na Natureza!
A declaração permanece aberta para assinatura até o final de 2021
Adicione sua organização

>>> A declaração completa com as assinaturas até 31 de outubro de 2021 está disponível em portuguêsespanholinglês e francês.