domingo, 7 de julho de 2019

O “BEM VIVER” COMO GARANTIA DE DIREITOS E ALTERNATIVA AO DESENVOLVIMENTISMO.


Lindomar Dias Padilha[1]


RESUMO:
Neste trabalho pretende-se apresentar o “Bem Viver” sempre em relação aos direitos da natureza, tendo o ser humano como parte desta evidenciando-se o Bem Viver como alternativa ao desenvolvimentismo. Os riscos e ameaças representados pelo modelo desenvolvimentista não só recaem sobre a natureza, mas recaindo sobre esta, recai sobre cada uma e cada um de nós. Assim, a perspectiva critica ao desenvolvimentismo é antes um chamamento para a defesa de direitos e da vida mesma de gerações futuras. Nossa crítica aos rumos, caminhos e descaminhos do desenvolvimentismo quer incentivar debates que visem a construção de uma sociedade mais justa pautada no respeito tendo o Bem Viver como apontando para outros mundos possíveis.

Introdução:

            Propor uma reflexão sobre o “Bem Viver”[1] como garantia de direitos e, ao mesmo tempo uma alternativa ao desenvolvimentismo, pensado o desenvolvimentismo conforme o modelo amplamente implementado na América Latina, não é muito fácil quando ainda se tem “Veias Abertas”[2] se pensarmos como Eduardo Galeano. Assim, a reflexão encontra amparo histórico mas, principalmente emergência para o futuro.
            Na primeira parte faremos uma pequena apresentação do tema do “desenvolvimentismo” como teoria econômica, que no caso da América Latina converte-se em economicismo com reflexos profundos na desigualdade social e na má distribuição de renda, bem como apresenta reflexos negativos na conquista e garantias de direitos, tanto Direitos da Natureza quanto direitos das populações tradicionais e povos originários. O desenvolvimentismo, nestas condições, converte-se em ameaça planetária.
            Na tentativa de apresentar possível alternativa ao modelo desenvolvimentista, na segunda parte falaremos do “Bem Viver” associando-o necessariamente aos Direitos da Natureza por considerarmos, seguindo os rastros de Alberto Acosta[3], que um não existe sem o outro. Embora Acosta se apresente aqui como nosso principal autor, temos, a bem da verdade, que dizer que o Bem Viver tem sido pensado em toda a América Latina por diversos pensadores e sob várias perspectiva. Cabe ainda mencionar que, como modo de vida, o Bem Viver é praticado praticamente por todos os povos originários. Aliás, o vínculo dos povos originários com o bem viver é tamanho que nesta parte diremos que o Bem Viver implicaria no reconhecimento dos direitos desses povos e comunidades tradicionais e, por isso mesmo, no reconhecimento de que a natureza é de fato sujeito de direitos e não mero objeto que se compra.
            Na terceira e última parte e já como considerações, falaremos e apontaremos o próprio Bem Viver para sinalizar que sim, existem outros mundos possíveis. A ideia, decorrente principalmente do pensamento de Acosta, é de que sempre estamos em processo, em construção destes mundos. Portanto, temos uma utopia que não nos diz onde devemos ou queremos chegar, mas uma utopia que nos faz mover em direção dessses mundos possíveis.
I.                   O desenvolvimentismo:

Neste tópico apresentaremos o conceito em construção de desenvolvimentismo proposto por Pedro Cezar Dutra Fonseca[4] para quem, a despeito de análise de outros economistas, pode ser entendido como “desenvolvimento”, “bem-estar”, “equilíbrio” e “valor”, o sentido pode alterar-se total ou parcialmente de acordo com a abordagem teórica. (FONSECA, 2015, p. 7). O que nos salta aos olhos no proposto, mesmo que em construção conceitual, é a adoção de ideias de “valor” empregada como “equilíbrio”. Para os economistas, então, o desenvolvimentismo seria em sim um valor e que guarda relação de equilíbrio.

Entretanto, preferimos assinalar que a ideia de bem-estar, por exemplo, poderia implicar em acúmulo necessário à construção deste sentimento. Algo como bem-estar resultante da ideia de desenvolvimento como superação do próprio subdesenvolvimento. Mais:

Desenvolvimentismo pertence à mesma família de termos como “ortodoxia”, “neoliberalismo” e “keynesianismo”, os quais servem para designar alternativamente duas coisas por certo indissociáveis, mas que não são exatamente o mesmo nem do ponto de vista epistemológico, nem na prática cotidiana: i) um fenômeno do “mundo material”, ou seja, um conjunto de práticas de política econômica4 propostas e/ou executadas pelos formuladores de políticas, isto é, fatos concretos ou medidas “reais” que compartilham um núcleo comum de atributos que os caracteriza como tal; e ii) um fenômeno do “mundo do pensamento”, ou seja, um conjunto de ideias que se propõe a expressar teorias, concepções ou visões de mundo. (FONSECA, 2015, p. 8).

            Nesta perspectiva o desenvolvimento guardaria estreita relação aos modelos econômicos propostos para designar uma escola de pensamento que tenderia mais ou menos, segundo o grau de conservadorismo, a um maior ou menor acúmulo e controle fiscal, de fluxo econômico seguindo a ideia de desenvolvimento como oposição ao subdesenvolvimento. Estados desenvolvidos tenderiam ao “equilíbrio” ao passo que os estados subdesenvolvidos estariam em constante “desequilíbrio”. A imprecisão conceitual da qual nos chama a atenção Fonseca, não pode, no entanto, inviabilizar por completo o uso do termo em outra esfera que não a econômica. Se os termos são usados é porque são úteis, (FONSECA, 2015, p. 9) já que tanto os economistas quanto o público, como é o caso de “desenvolvimentismo”, continuam a utilizá-lo, depreendendo-se que não conseguem prescindir dele. Mais que conceito, imaginemos que o desenvolvimentismo seja uma espécie vontade econômica. Daí a ideia de que seja um conceito impreciso e que carece de informações metodológicas e o lugar de seu emprego.
            O subdesenvolvimentismo[5] se for tomado como ponto de análise para o desenvolvimentismo aplica-se em relação aos ditos países do primeiro mundo e os de terceiro mundo. Neste caso, sinalizo a relação com a América Latina, que particularmente nos interessa aqui. (FONSECA, 2015, p.10) sinaliza ainda que o conceito foi utilizado indiretamente para designar um conjunto de atributos caracterizadores, em termos ideais, da política econômica de determinados governos empenhados na superação do subdesenvolvimento.
            Neste caso, fica mais próximo do que trato aqui com o nome de desenvolvimentismo uma teoria econômica que está mais centrada no crescimento econômico, baseado na industrialização e na infraestrutura, com forte intervenção do estado, em detrimento do desenvolvimento social. (SANTIAGO, 2015, p.1). Toda a ideia, ou intenção manifesta nos termos “valor”, “bem-estar” e “equilíbrio”, nada mais seria que bons conselhos. De fato, o que realmente conta é o chamado desenvolvimento econômico, ainda que em detrimento do desenvolvimento social em alguns casos. Mas FONSECA, em sua formulação faz ainda a seguinte observação:

A inquietude vem da dúvida expressa na questão: será que os governos latino-americanos comumente citados pela literatura como exemplos de desenvolvimentismo apresentam, total ou parcialmente, os atributos arrolados pelos autores anteriormente pesquisados em suas conceituações? Este exercício adicional facilita e dá mais segurança para, em passo posterior, chegar-se à abstração inerente a qualquer exercício de conceituação. Possui, ademais, a vantagem de superar a multiplicidade caótica da empiria sem, todavia, cair em uma definição axiomática exclusiva, unívoca e fechada a ela. (FONSECA, 2015 p. 14).

            É louvável e plenamente compreensível a dúvida e a necessidade de aclaramento conceitual, tanto mais que Fonseca analisa o que há de comum nas diversas conceituações. Por outro lado, há claramente a intenção de evitar que se caia em uma definição unívoca e fechada. De nossa parte, porém, optamos pela construção do conceito localizando-o na relação entre subdesenvolvimento e desenvolvimentismo, notadamente na América Latina. Se por um lado, conceitos mais fechados limitam, por outro, facilitam a externar o local de nossa fala. Não obstante nossa escolha, temos que registrar a preocupação com a honestidade intelectual frente ao que propõe extensamente Fonseca.
Mas, no nosso caso, é quase indissociável a ideia de industrialização dos países latinos americanos e isso tem especial importância ao analisarmos aspectos dos direitos da natureza e ao Bem Viver. Falamos talvez de visões inegociáveis e díspares que excluiriam uma a outra:

É o que ocorre com desenvolvimentismo. De um lado, o termo remete a uma racionalidade imediata quanto a fins: crescimento da produção e da produtividade. Tal faceta descortina seu caráter “técnico”, objeto de planejamento, quantificável em metas e taxas desejáveis a serem buscadas conscientemente, através de meios tidos como mais adequados – os instrumentos de política econômica. Já os valores se manifestam quando o desenvolvimentismo toma a forma de ideologia de construir um novo mundo 28 Brasília, julho de 2015 “melhor” ou “mais harmônico”. (FONSECA, 2015, p. 28).

            A tentativa de conciliação entre Desenvolvimentismo, como crescimento infinito e altas taxas de produtividade, nos parece ser o cerne do problema que aqui apresentamos. E por julgarmos o crescimento permanente com preservação ambiental dados irreconciliáveis é que o Bem Viver se apresenta como necessariamente vinculado aos direitos da natureza, tema que abordaremos a seguir.


II.                O Bem Viver e os direitos da natureza

Como dissemos anteriormente, o bem viver opõe-se francamente ao desenvolvimento permanente, ou como disse TURINO ao prefaciar ACOSTA:

Conforme Acosta nos demonstra, somente podemos entender o Bem Viver em oposição ao “viver melhor” ocidental (ou à dolce vita de alguns), que explora o máximo dos recursos disponíveis até exaurir as fontes básicas da vida. Assim, o Bem Viver tem um forte sentido presente, contrapondo-se à iniquidade própria do capitalismo, em que poucos vivem bem em detrimento da grande maioria. (TURINO, Célio. Prefácil in: ACOSTA, Alberto. O Bem Viver: uma oportunidade para imaginar outros mundos. Elefante Ed. 2015).

            Eis aí uma espécie de nascedouro do que estamos chamando de Direitos da Natureza. Ou seja, os direitos dos que “ainda não”, direitos do por vir. Direito a que o planeta siga nos proporcionando a vida. Em larga medida, então, podemos dizer que o direito da natureza completa ou adiciona direitos aos direitos humanos. Parece-nos obvio que, se a natureza que é quem nos dá gratuitamente os meios para dela extrairmos alimentos e vida, ao defendê-la e conferir-lhe direitos, em última instância é a nós mesmos que defendemos e defendemos o direito de gerações futuras. Então, de onde nos vem que a natureza precisa de leis e direitos que garanta sua reprodução? Não seria a própria natureza que se organizaria e prepararia uma espécie de “vingança”? Cremos que não.
O processo de destruição da natureza e a não garantia de direitos é antes uma atitude suicida e de gigantesca irresponsabilidade. Urge que mudemos de atitude e, para conter o ímpeto destrutivo do desenvolvimentismo, tornam se necessárias leis e o mínimo de garantia dos direitos da natureza. E não falamos da natureza apenas como geradora, senão como mantenedora da vida e único abrigo até aqui seguro.

O mundo precisa de mudanças profundas, radicais. Urge superar as visões simplistas que transformaram o economicismo em eixo da sociedade. Necessitamos outras formas de organização social e novas práticas políticas. Para obtê-las, é imprescindível despertar a criatividade e consolidar o compromisso com a vida, para não nos convertermos em meros aplicadores de procedimentos e receitas caducas. (ACOSTA, 2015, p. 20).

            Mudanças profundas e radicais que desfoquem o economicismo e, consequentemente, o desenvolvimentismo como eixo principal. Evidentemente não falamos em negação da economia ou ainda de um devaneio sobre um mundo de santas e santos. Falamos antes de medidas políticas que regulem novas práticas sociais. Interessante como buscar o melhor exige de nós mesmos, enquanto sociedade, normas e até punições. O que há de tão difícil em fazer aquilo que nos fará melhor? Mas não. Seguimos criando obstáculos ao Bem Viver e, assim, promovendo a vida boa de alguns. A velha ideia de que se acumulam os benefícios e repartem-se os danos. Aqui é questão de responsabilidade. Tanto mais, tanto maior a responsabilidade. Os que mais acumulam são os que devem contribuir com mais e isso só se dará por meio de exigências e formas de defesa dos direitos da natureza. Não há e não haverá caminho se não o caminharmos juntos.
                                               A natureza como sujeito, superando a velha ideia de tomarmo-la como mero objeto ou como propriedade, já nos aponta possibilidades. Se não dermos este passo na direção de que a natureza tem o direito de existir, persistir, manter e regenerar seus ciclos biológicos, e aqui não falamos em “serviços ambientais”, mas, em ciclos que corresponderiam às “funções naturais”, dificilmente teremos condição de sairmos deste suposto dilema em que nos encontramos.  Os direitos da natureza, compreendidos como o equilíbrio do que é bom para os seres humanos de hoje os que ainda virão com o que é bom para as outras espécies do planeta, é a chave para a busca desta superação.

O Bem Viver apresenta-se como uma oportunidade para construir coletivamente novas formas de vida. Não se trata simplesmente de um receituário materializado em alguns artigos constitucionais, como no caso do Equador e da Bolívia (...). O Bem Viver deve ser considerado parte de uma longa busca de alternativas de vida forjadas no calor das lutas populares, particularmente dos povos e nacionalidades indígenas. São ideias surgidas de grupos tradicionalmente marginalizados, excluídos, explorados e até mesmo dizimados. São propostas invisibilizadas por muito tempo, que agora convidam a romper radicalmente com conceitos assumidos como indiscutíveis. Estas visões pós-desenvolvimentistas superam as correntes heterodoxas, que na realidade miravam a “desenvolvimentos alternativos”, quando é cada vez mais necessário criar “alternativas de desenvolvimento”. É disso que se trata o Bem Viver. (ACOSTA, 2015, p. 70).

            A superação que se mostra implícita nos direitos da natureza, será a mesma superação das populações e grupos marginalizados historicamente. Por isso mesmo, o Bem Viver não pode ser entendido como meras ingenuidades ou alternativas da parte daqueles que são tidos como contrários e empecilho ao desenvolvimento. Isso representa uma mudança radical e dota-se de caráter civilizatório e libertador ao mesmo tempo. Notadamente as populações que mais preservam e vivem em harmonia com a natureza são as que, assim como a própria natureza, precisam ter seus direitos respeitados e o quanto antes. Garantia de direitos aos povos originários e comunidades tradicionais reveste-se em direitos da natureza e aponta para um futuro possível, ainda.
            Ao dizermos “ainda” nos aproximamos da ideia de Bem Viver como uma oportunidade. Trata-se, antes, de uma nova chance que estes povos e comunidades originários, bem como de sorte a própria natureza, nos concede por mais uma vez. Abraçar esta oportunidade é sinal de inteligência ou nas palavras de ACOSTA:

O Bem Viver – ou melhor, os bons conviveres – é uma oportunidade para construir um mundo diferente, que não será alcançado apenas com discursos estridentes, incoerentes com a prática. Outro mundo será possível se for pensado e erguido democraticamente, com os pés fincados nos Direitos Humanos e nos Direitos da Natureza. (ACOSTA, 2015, p. 21)

            Respeito aos Direitos Humanos e aos Direitos da Natureza combina perfeitamente com Democracia. O Bem Viver é, portanto, uma proposta a ser construída pelos caminhos da democracia e rumados para outros mundos possíveis ou pelo menos, um outro mundo sonhado mas também construído e já experimentado por diversos povos e culturas. Abrir-se para recepcionar e, ao mesmo tempo exigir que os direitos Humanos e da Natureza sejam garantidos e respeitados é o primeiro e talvez o passo mais importante rumo a uma democracia participante capaz de construir novas sociedades, novas pessoas e novos mundos.

III.             Considerações: Outros mundos possíveis

Outros mundos são possíveis se, e somente se, nos abrirmos e juntarmo-nos na efetiva construção destes mundos. Um ponto central é abrirmos mão em definitivo da ideia de crescimento infinito e superexploração da natureza e da mão de obra. ACOSTA vincula a superexploração e, claro, o crescimento, ao extrativismo.

A construção do Bem Viver, que é a meta que deve inspirar o pós-extrativismo, tem de ser assumida como uma alternativa ao desenvolvimento. Mais que isso, o Bem Viver não só critica como combate o desenvolvimento. Muitas das críticas às teorias e práticas do desenvolvimento – temos visto ao longo das últimas décadas – propuseram outros tipos de desenvolvimento que não questionam sua essência. Não se pode fazer uma crítica ao desenvolvimento sem cair em sua repetição. Polemizando com os argumentos e os conceitos próprios do desenvolvimento não se mudará os fundamentos que possibilitam sua existência. É indispensável retirar do desenvolvimento as condições e as razões que facilitaram sua difusão massiva e sua – inútil – perseguição por quase toda a Humanidade. (ACOSTA, 2015, p. 238).

            Interessante notarmos que, mesmo sendo construção e utopia de partida, o Bem Viver se mostra, às vexes, como meta, como uma seta a apontar a direção para onde devemos nos mover. Isso não significa que nos moveremos necessariamente nesta direção. A superação do extrativismo como primeiro impulso do desenvolvimentismo é, por assim dizer, a meta e será a partir daí que vislumbraremos outros mundos possíveis. Os passos a serem dados serão antecipados pela superação do modelo extrativista e, consequentemente, o modelo de desenvolvimentismo que imagina ser possível um desenvolvimento permanente e infinito baseado na exploração da natureza e do ser humano.

O Bem Viver aceita e apoia maneiras distintas de viver,
valorizando a diversidade cultural, a interculturalidade, a
plurinacionalidade e o pluralismo político. Diversidade que
não justifica nem tolera a destruição da Natureza, tampouco
a exploração dos seres humanos, nem a existência de grupos
privilegiados às custas do trabalho e sacrifício de outros. (ACOSTA, 2015, p. 240).

            Respeitar e valorizar outras culturas e formas de viver, desde que estas mesmas formas de viver respeitem e valorizem as demais formas e a natureza como tal. Interdependência e inter-relação talvez possam explicar melhor as bases de um debate democrático e uma real construção de alternativas. A plurinacionalidade se revela como um passo a mais nesse respeito e busca de uma democracia cada vez mais participativa. Neste sentido, o reconhecimento dos territórios e direitos dos povos originários passa a ser indispensáveis. Só haverão “mundos possíveis” se o Bem Viver for capaz de contribuir na garantia desses direitos.
            Direitos humanos, direitos da natureza e Bem Viver se constituirão no tripé da construção de um novo mundo. Não se pode admitir a existência de grupos privilegiados em detrimento de outros. Por isso mesmo, se dizem que não há salvação fora do desenvolvimentismo, afirmamos exatamente o contrário: não nos haverá salvação se seguirmos violando os direitos dos seres humanos e da natureza. Não haverá vida no desenvolvimentismo, a continuarmos trilhando este caminho de superexploração dos recursos.

            Na construção do “bem viver”, dois eixos são sumamente importantes: o “bem viver” para todos, quer dizer, o combate contra uma sociedade de classes e privilégios, e o “bem viver” para sempre, que é o “bem viver” com memória histórica, o bem viver não apenas dos sobreviventes e vencedores, mas o bem viver que dá voz e ouvido aos vencidos. Sem essa dimensão de resgate histórico e horizonte escatológico é impossível pensar o bem viver para sempre. Portanto, o bem viver tem uma dimensão que perpassa o tempo (diacronia), uma dimensão transhistórica, e uma dimensão contemporânea e simultânea (sincrónica), que enfoca o aqui e agora do indivíduo e da sociedade. O bem viver não é construído em Spá nem em estúdio de wellnes, mas num laboratório no qual se entrelaçam ação política e gratuidade. (SUESS, 2010, p. 1).

            Dar voz e ouvidos aos vencidos nos parece querer significar garantias de direitos a estes povos, comunidades e segmentos, como bem observa Paulo Suess. Mais que isso, reconhecer que sim, os vencidos historicamente são hoje nossa esperança. Esperança em outros mundos possíveis. Uma esperança propositiva, que se põe a caminho, que faz o enfrentamento e que dialoga. Uma esperança que reconhece os problemas e limites, mas que se propõe honestamente a buscar soluções.
            Resgatamos a história na medida que nos propomos a reconstruí-la, não com rancor apenas, mas com compromisso com o futuro e responsabilidade com a humanidade e com a natureza. Eis ai um bom inicio para encontrarmos outros mundos possíveis: sairmos de nosso comodismo e nos lançarmos nessa busca.



Referências
COSTA, Alberto. O Bem Viver: Uma oportunidade para imaginar outros mundos. São Paulo. Autonomia Literária e Editora Elefante, 2015.
Também disponível eletronicamente em: https://rosaluxspba.org/wp-content/uploads/2017/06/Bemviver.pdf
FONSECA, Pedro Cezar Dutra: Desenvolvimentismo: A Costrução do Conceito. IPEIA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplixada, Brasília 2015.

SUESS, Paulo. Elementos para a busca do Bem Viver (Sumak Kawsay) para todos e sempre. 2010.







[1] “Bom Viver” é a tradução que mais respeita o termo utilizado pelo autor (Buen Vivir) e também o termo em kíchwa (sumak kawsay), língua da qual nasceu o conceito em sua versão equatoriana. De acordo com o Shimiyukkamu Dicionario Kichwa-Español, publicado pela Casa de Cultura de Ecuador em 2007, sumak se traduz como hermoso, bello, bonito, precioso, primoroso, excelente; kawsay, como vida. Ou seja, buen e sumak são originalmente adjetivos, assim como “bom” – seu melhor sinônimo em português, no caso. Vivir e sumak, por sua vez, são sujeitos.

[2] Essa é uma das grandes obras clássicas da literatura latino-americana. Leitura imperdível para aqueles que gostam, querem ou precisam entender a História da América Latina.

As veias abertas da América Latina, de Eduardo Galeano, foi publicado pela primeira vez em 1970 e editado em praticamente todos os países do continente, vários países da Europa e nos EUA.
Na obra o autor propõe um inventário dos 500 anos da história do continente retratando as suas principais bases: a economia agrícola e mineradora dominada pelo mercado internacional, com o objetivo de gerar lucros para a potência dominadora; a pobreza social como resultado de um sistema econômico externo e excludente, que privilegia uma minoria financeiramente capaz de integrar-se aos padrões de consumo; a opressão de governos centralizadores contra as minorias, produzindo genocídios e o caos social; a exploração do trabalho e as péssimas condições de sobrevivência para a grande maioria de sua população.

[3] Alberto José Acosta Espinosa , economista e esquerdista político equatoriano , nascido em Quito em 21 de julho de 1948 . Acosta ao longo de sua carreira manteve um perfil intelectual de esquerda , simpatizando com o marxismo , o terceiro-mundismo e, mais recentemente, com o movimento antiglobalização e contra a mineração .
[4] Professor titular do Departamento de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS e pesquisador do CNPQ (Pedro.fonseca@ufrgs.br)
[5] O subdesenvolvimento é um termo elaborado após o término da Segunda Guerra Mundial para designar aqueles países que possuem um baixo índice de riquezas, uma economia enfraquecida, com ausência de fatores estruturais e sociais, além de altos registros de pobreza, concentração de renda e miséria. Os países subdesenvolvidos – também chamados de “em desenvolvimento” – correspondem àqueles territórios que, em maior ou menor grau, apresentam uma relação de dependência econômica e estrutural para com outros países.  (O que é o subdesenvolvimento. BrasilEscola.



[1]  Mestrando em Direito, pela Universidade Católica de Petrópolis – UCP, no programa Processo e Efetivação da Justiça.


quarta-feira, 29 de maio de 2019

MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO PARA O DIA MUNDIAL DO MIGRANTE E DO REFUGIADO

Não se trata apenas de migrantes

A fé assegura-nos que o Reino de Deus já está, misteriosamente, presente sobre a terra (cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. Gaudium et spes, 39); contudo, mesmo em nossos dias, com pesar temos de constatar que se lhe deparam obstáculos e forças contrárias. Conflitos violentos, verdadeiras e próprias guerras não cessam de dilacerar a humanidade; sucedem-se injustiças e discriminações; tribula-se para superar os desequilíbrios económicos e sociais, de ordem local ou global. E quem sofre as consequências de tudo isto são sobretudo os mais pobres e desfavorecidos.

As sociedades economicamente mais avançadas tendem, no seu seio, para um acentuado individualismo que, associado à mentalidade utilitarista e multiplicado pela rede mediática, gera a «globalização da indiferença». Neste cenário, os migrantes, os refugiados, os desalojados e as vítimas do tráfico de seres humanos aparecem como os sujeitos emblemáticos da exclusão, porque, além dos incómodos inerentes à sua condição, acabam muitas vezes alvo de juízos negativos que os consideram como causa dos males sociais. A atitude para com eles constitui a campainha de alarme que avisa do declínio moral em que se incorre, se se continua a dar espaço à cultura do descarte. Com efeito, por este caminho, cada indivíduo que não quadre com os cânones do bem-estar físico, psíquico e social fica em risco de marginalização e exclusão.

Por isso, a presença dos migrantes e refugiados – como a das pessoas vulneráveis em geral – constitui, hoje, um convite a recuperar algumas dimensões essenciais da nossa existência cristã e da nossa humanidade, que correm o risco de entorpecimento num teor de vida rico de comodidades. Aqui está a razão por que «não se trata apenas de migrantes», ou seja, quando nos interessamos por eles, interessamo-nos também por nós, por todos; cuidando deles, todos crescemos; escutando-os, damos voz também àquela parte de nós mesmos que talvez mantenhamos escondida por não ser bem vista hoje.

«Tranquilizai-vos! Sou Eu! Não temais!» (Mt 14, 27). Não se trata apenas de migrantes: trata-se também dos nossos medos. As maldades e torpezas do nosso tempo fazem aumentar «o nosso receio em relação aos “outros”, aos desconhecidos, aos marginalizados, aos forasteiros (…). E isto nota-se particularmente hoje, perante a chegada de migrantes e refugiados que batem à nossa porta em busca de proteção, segurança e um futuro melhor. É verdade que o receio é legítimo, inclusive porque falta a preparação para este encontro» (Homilia, Sacrofano, 15 de fevereiro de 2019). O problema não está no facto de ter dúvidas e receios. O problema surge quando estes condicionam de tal forma o nosso modo de pensar e agir, que nos tornam intolerantes, fechados, talvez até – sem disso nos apercebermos – racistas. E assim o medo priva-nos do desejo e da capacidade de encontrar o outro, a pessoa diferente de mim; priva-me duma ocasião de encontro com o Senhor (cf. Homilia na Missa do Dia Mundial do Migrante e do Refugiado, 14 de janeiro de 2018).

«Se amais os que vos amam, que recompensa haveis de ter? Não fazem já isso os publicanos?» (Mt 5, 46). Não se trata apenas de migrantes: trata-se da caridade. Através das obras de caridade, demonstramos a nossa fé (cf. Tg 2, 18). E a caridade mais excelsa é a que se realiza em benefício de quem não é capaz de retribuir, nem talvez de agradecer. «Em jogo está a fisionomia que queremos assumir como sociedade e o valor de cada vida. (…) O progresso dos nossos povos (…) depende sobretudo da capacidade de se deixar mover e comover por quem bate à porta e, com o seu olhar, desabona e exautora todos os falsos ídolos que hipotecam e escravizam a vida; ídolos que prometem uma felicidade ilusória e efémera, construída à margem da realidade e do sofrimento dos outros» (Discurso na Cáritas diocesana de Rabat, Marrocos, 30 de março de 2019).

«Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou ao pé dele e, vendo-o, encheu-se de compaixão» (Lc 10, 33). Não se trata apenas de migrantes: trata-se da nossa humanidade. O que impele aquele samaritano – um estrangeiro, segundo os judeus – a deter-se é a compaixão, um sentimento que não se pode explicar só a nível racional. A compaixão toca as cordas mais sensíveis da nossa humanidade, provocando um impulso imperioso a «fazer-nos próximo» de quem vemos em dificuldade. Como nos ensina o próprio Jesus (cf. Mt 9, 35-36; 14, 13-14; 15, 32-37), ter compaixão significa reconhecer o sofrimento do outro e passar, imediatamente, à ação para aliviar, cuidar e salvar. Ter compaixão significa dar espaço à ternura, ao contrário do que tantas vezes nos pede a sociedade atual, ou seja, que a reprimamos. «Abrir-se aos outros não empobrece, mas enriquece, porque nos ajuda a ser mais humanos: a reconhecer-se parte ativa dum todo maior e a interpretar a vida como um dom para os outros; a ter como alvo não os próprios interesses, mas o bem da humanidade» (Discurso na Mesquita «Heydar Aliyev» de Baku, Azerbeijão, 2 de outubro de 2016).

«Livrai-vos de desprezar um só destes pequeninos, pois digo-vos que os seus anjos, no Céu, veem constantemente a face de meu Pai que está no Céu» (Mt 18, 10). Não se trata apenas de migrantes: trata-se de não excluir ninguém. O mundo atual vai-se tornando, dia após dia, mais elitista e cruel para com os excluídos. Os países em vias de desenvolvimento continuam a ser depauperados dos seus melhores recursos naturais e humanos em benefício de poucos mercados privilegiados. As guerras abatem-se apenas sobre algumas regiões do mundo, enquanto as armas para as fazer são produzidas e vendidas noutras regiões, que depois não querem ocupar-se dos refugiados causados por tais conflitos. Quem sofre as consequências são sempre os pequenos, os pobres, os mais vulneráveis, a quem se impede de sentar-se à mesa deixando-lhe as «migalhas» do banquete (cf. Lc 16, 19-21). «A Igreja “em saída” (…) sabe tomar a iniciativa sem medo, ir ao encontro, procurar os afastados e chegar às encruzilhadas dos caminhos para convidar os excluídos» (Exort. ap. Evangelii gaudium, 24). O desenvolvimento exclusivista torna os ricos mais ricos e os pobres mais pobres. Verdadeiro desenvolvimento é aquele que procura incluir todos os homens e mulheres do mundo, promovendo o seu crescimento integral, e se preocupa também com as gerações futuras.

«Quem quiser ser grande entre vós, faça-se vosso servo; e quem quiser ser o primeiro entre vós, faça-se o servo de todos» (Mc 10, 43-44). Não se trata apenas de migrantes: trata-se de colocar os últimos em primeiro lugar. Jesus Cristo pede-nos para não cedermos à lógica do mundo, que justifica a prevaricação sobre os outros para meu proveito pessoal ou do meu grupo: primeiro eu, e depois os outros! Ao contrário, o verdadeiro lema do cristão é «primeiro os últimos». «Um espírito individualista é terreno fértil para medrar aquele sentido de indiferença para com o próximo, que leva a tratá-lo como mero objeto de comércio, que impele a ignorar a humanidade dos outros e acaba por tornar as pessoas medrosas e cínicas. Porventura não são estes os sentimentos que muitas vezes nos assaltam à vista dos pobres, dos marginalizados, dos últimos da sociedade? E são tantos os últimos na nossa sociedade! Dentre eles, penso sobretudo nos migrantes, com o peso de dificuldades e tribulações que enfrentam diariamente à procura – por vezes, desesperada – dum lugar onde viver em paz e com dignidade» (Discurso ao Corpo Diplomático, 11 de janeiro de 2016). Na lógica do Evangelho, os últimos vêm em primeiro lugar, e nós devemos colocar-nos ao seu serviço.

«Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância» (Jo 10, 10). Não se trata apenas de migrantes: trata-se da pessoa toda e de todas as pessoas. Nesta afirmação de Jesus, encontramos o cerne da sua missão: procurar que todos recebam o dom da vida em plenitude, segundo a vontade do Pai. Em cada atividade política, em cada programa, em cada ação pastoral, no centro devemos colocar sempre a pessoa com as suas múltiplas dimensões, incluindo a espiritual. E isto vale para todas as pessoas, entre as quais se deve reconhecer a igualdade fundamental. Por conseguinte, «o desenvolvimento não se reduz a um simples crescimento económico. Para ser autêntico, deve ser integral, quer dizer, promover todos os homens e o homem todo» (São Paulo VI, Enc. Populorum progressio, 14).

«Portanto, já não sois estrangeiros nem imigrantes, mas sois concidadãos dos santos e membros da casa de Deus» (Ef 2, 19). Não se trata apenas de migrantes: trata-se de construir a cidade de Deus e do homem. Na nossa época, designada também a era das migrações, reservado a poucos, mas construído sobre a exploração de muitos. «Trata-se então de vermos, nós em primeiro lugar, e de ajudarmos os outros a verem no migrante e no refugiado não só um problema a enfrentar, mas um irmão e uma irmã a serem acolhidos, respeitados e amados; trata-se duma oportunidade que a Providência nos oferece de contribuir para a construção duma sociedade mais justa, duma democracia mais completa, dum país mais inclusivo, dum mundo mais fraterno e duma comunidade cristã mais aberta, de acordo com o Evangelho» (Mensagem para o Dia Mundial do Migrante e do Refugiado de 2014).

Queridos irmãos e irmãs, a resposta ao desafio colocado pelas migrações contemporâneas pode-se resumir em quatro verbos: acolher, proteger, promover e integrar. Mas estes verbos não valem apenas para os migrantes e os refugiados; exprimem a missão da Igreja a favor de todos os habitantes das periferias existenciais, que devem ser acolhidos, protegidos, promovidos e integrados. Se pusermos em prática estes verbos, contribuímos para construir a cidade de Deus e do homem, promovemos o desenvolvimento humano integral de todas as pessoas e ajudamos também a comunidade mundial a ficar mais próxima de alcançar os objetivos de desenvolvimento sustentável que se propôs e que, caso contrário, dificilmente serão atingíveis.

Por conseguinte, não está em jogo apenas a causa dos migrantes; não é só deles que se trata, mas de todos nós, do presente e do futuro da família humana. Os migrantes, especialmente os mais vulneráveis, ajudam-nos a ler os «sinais dos tempos». Através deles, o Senhor chama-nos a uma conversão, a libertar-nos dos exclusivismos, da indiferença e da cultura do descarte. Através deles, o Senhor convida-nos a reapropriarmo-nos da nossa vida cristã na sua totalidade e contribuir, cada qual segundo a própria vocação, para a construção dum mundo cada vez mais condizente com o projeto de Deus.

Estes são os meus votos que acompanho com a oração, invocando, por intercessão da Virgem Maria, Nossa Senhora da Estrada, abundantes bênçãos sobre todos os migrantes e refugiados do mundo e sobre aqueles que se fazem seus companheiros de viagem.

Vaticano, 27 de maio de 2019.

Francisco

quarta-feira, 22 de maio de 2019

BBC Brasil: Crédito de carbono pode ser 'pior do que não fazer nada' contra desmatamento, aponta ProPublica


“...A reportagem cita dois grandes programas globais e explica seus problemas. O maior deles, o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo, nasceu a partir do Protocolo de Kyoto, de 1997, quando dezenas de nações fizeram um pacto para reduzir os gases do efeito estufa.
"Os líderes europeus queriam forçar a indústria a emitir menos. Os americanos queriam flexibilidade. Países em desenvolvimento como o Brasil queriam dinheiro para lidar com a mudança climática. Uma abordagem sobre a qual todos concordaram foi a compensação de carbono", escreve ela...”

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Segundo reportagem investigativa, poluidores têm recebido 'passe livre' para emitir CO2, sem que créditos para compensar essa emissão estejam sendo de fato revertidos em preservação florestal

Embora o mercado do crédito de carbono tenha gerado muito entusiasmo recentemente, inclusive nos Estados Unidos, há cada vez mais evidências de que eles não renderam, e não vão render, o benefício climático desejado.

É o que mostra uma reportagem publicada na quarta-feira, 22, pela ProPublica, organização americana de jornalismo investigativo independente.

O crédito de carbono funciona assim: uma entidade paga a outra pelo direito de emitir gases que provocam o efeito estufa, como o dióxido de carbono (CO2). O recebedor desse dinheiro, em tese, o investe em fontes de energia renováveis e deixa de desmatar. Cada crédito é equivalente ao aquecimento global causado por uma tonelada métrica de CO2.

O Brasil, que concentra um terço da área de floresta tropical do mundo, é um dos maiores receptores de recursos do crédito de carbono.

O mercado dos créditos é atraente para indústrias altamente poluentes, como companhias aéreas, e países industrializados que assinaram o acordo climático de Paris, porque as compensações podem servir como uma alternativa mais barata do que reduzir de fato o uso de combustíveis fósseis.

No entanto, de acordo com a publicação, a empolgação com tais planos tem deixado muitos de seus defensores cegos para o fato de que, cada vez mais, surgem evidências de que tais sistemas não trouxeram - e tampouco trarão no futuro - o benefício climático desejado.

A jornalista Lisa Song, especializada na cobertura de meio ambiente, energia e mudanças climáticas e que assina a reportagem com colaboração de Paula Moura, analisou os projetos realizados em diversos países nas últimas duas décadas, pesquisou estudos e relatórios governamentais publicados ao redor do mundo e até contratou uma análise de satélite independente para avaliar o quanto restava de um projeto de preservação florestal que começou a vender créditos de carbono em 2013. Quatro anos depois, só havia florestas em metade da área do projeto de preservação.

A conclusão da ProPublica é que os créditos de carbono não compensaram a quantidade de poluição que se esperava, ou trouxeram ganhos que foram rapidamente revertidos ou que não podiam ser comprovados e medidos.

"Em última análise, os poluidores receberam um passe livre para continuar emitindo CO2 sem culpa, mas a preservação da floresta não chegou a acontecer, ou não durou", escreve ela. Ou seja, a medida pode ser ainda pior do que simplesmente não fazer nada sobre a questão.

Histórico de fracassos

A reportagem cita dois grandes programas globais e explica seus problemas. O maior deles, o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo, nasceu a partir do Protocolo de Kyoto, de 1997, quando dezenas de nações fizeram um pacto para reduzir os gases do efeito estufa.

"Os líderes europeus queriam forçar a indústria a emitir menos. Os americanos queriam flexibilidade. Países em desenvolvimento como o Brasil queriam dinheiro para lidar com a mudança climática. Uma abordagem sobre a qual todos concordaram foi a compensação de carbono", escreve ela.

A ideia era boa: se uma usina elétrica no Canadá precisasse reduzir em 10% suas emissões, mas não quisesse pagar por uma tecnologia mais cara, poderia comprar compensações de carbono em projetos em países em desenvolvimento.

Investidores que quisessem construir uma usina de carvão na Índia poderiam, em vez disso, construir uma usina de energia solar, usando o dinheiro da venda antecipada de créditos de carbono para cobrir os custos mais altos do empreendimento. A diferença entre emissões da usina de carvão hipotética e a fazenda solar real seria convertida em compensações.

O programa subsidiou milhares de projetos, incluindo hidrelétricas, parques de energia eólica e até mesmo usinas de carvão que pediam os créditos por serem mais limpas do que poderiam ter sido.

Logo emergiram escândalos técnicos e de direitos humanos ligados a esses projetos, e a União Europeia parou de aceitar a maioria dos créditos. Um relatório de 2016 descobriu que 85% das compensações tinham uma "baixa probabilidade" de resultar em impactos reais.

Algo parecido ocorreu com outro programa global, chamado Implementação Conjunta. Um estudo de 2015 concluiu que 75% dos créditos emitidos provavelmente não representariam reduções significativas. Ele dizia também que, se os países tivessem cortado a poluição, em vez de fazer compensações, as emissões globais de CO2 naquele período teriam sido 600 milhões de toneladas mais baixas.

Conclusão da ProPublica é que os créditos de carbono não compensaram a quantidade de poluição que se esperava, ou trouxeram ganhos que foram rapidamente revertidos ou que não podiam ser comprovados e medidos

Em comum, quase todos os projetos deixavam de atender a um padrão exigido de qualquer programa de compensação de carbono que dê resultados efetivos, a chamada "adicionalidade". Isso quer dizer que os ganhos ambientais só são efetivos se as usinas solares ou moinhos de vento construídos com os créditos jamais pudessem ter sido erguidas sem os créditos.

Eles também raramente tinham um sistema de créditos para a preservação de florestas. Nesse sistema, um poluidor paga um proprietário de terras para reduzir o desmatamento. Seria difícil, diziam, saber quais árvores foram salvas por causa de tais projetos e quais teriam sobrevivido sem elas.

Ainda assim, a ideia continuou sendo promovida. A Organização das Nações Unidas chamou-a de REDD, sigla para Redução de Emissão de Desmatamento e Degradação Florestal.

Segundo a reportagem, não há uma autoridade central para lidar com os programas que já existem e nunca foi feita uma avaliação abrangente de seus resultados.

A ProPublica localizou os estudos que existem sobre o tema. Um deles concluiu que 37% deles foram implementados em terras que já são protegidas, como parques nacionais.

Ela também encontrou um documento preocupante do governo da Noruega, país que exporta grandes quantidades de petróleo e gás natural e é um dos maiores defensores desses programas - os recursos noruegueses representam quase metade de todo o financiamento para eles.

O relatório dizia que, após uma década de trabalho e US$ 3 bilhões investidos, os resultados estavam "atrasados e não eram certos".

A ciência de medir carbono estava sendo empregada apenas parcialmente e havia um risco "considerável" do que é chamado de "vazamento" - quando proteger um pedaço de terra leva a desmatamento em outro lugar. Esse problema, por si só, gera "considerável incerteza sobre o impacto climático", concluiu a análise.

Crédito de carbono: agora vai?

Um argumento repetido pelos defensores dos sistemas de crédito de carbono é de que as tentativas feitas até agora não tinham dado a eles uma chance real de funcionar.

Isso porque muitos projetos venderam créditos em um mercado voluntário para empresas que queriam ter uma imagem pública mais "verde" ou atrair consumidores que se preocupam com o meio ambiente. Isso não permitiu que eles gerassem dinheiro suficiente para dar certo.

Daí a empolgação com a entrada da Califórnia e outros gigantes no mercado: finalmente haveria um volume significativo de recursos sendo injetados no sistema. O que ocorreria, por exemplo, se uma grande petroleira pudesse compensar parte de danos ambientais pagando ao Brasil para não derrubar árvores?

"A busca pela perfeição pode atrapalhar a realização. Há um monte de problemas (na implementação do programa). Mas qual é a alternativa?", afirma cientista Foster Brown, defendendo o crédito de carbono

A Califórnia já tem um programa de cap and trade (quando os limites de emissão de um setor podem ser negociados entre as empresas, criando créditos de carbono para aquelas que reduzirem as suas emissões). Ele permite que as empresas compensem uma pequena porcentagem de sua emissão com projetos de preservação florestal na América do Norte.

A novidade é que, neste ano, um conselho estadual pode aprovar o chamado Tropical Forest Standard (Padrão de Floresta Tropical, em tradução livre), um modelo que definirá como as compensações de carbono poderão ser concedidas também para programas intercontinentais. Especialistas dizem que esse modelo pode e provavelmente será adotado por outros países.

Em abril, seis membros do Parlamento Europeu pediram que a Califórnia rejeitasse o Tropical Forest Standard, citando preocupações com a mudança do cenário político do Brasil (o governo de Jair Bolsonaro incentiva o agronegócio contra o que ele define como "ativistas fanáticos" ambientalistas) e lembrando que a União Europeia não permitiu créditos florestais em seu programa de cap and trade "devido a preocupações ambientais".

Cientistas ouvidos pela reportagem tenderam a concordar com a jornalista quando confrontrados com os problemas.

No entanto, eles discordam da tese de que esses programas estejam fracassando. Muitos dizem que o modelo não teve, de fato, recursos o bastante para florescer.

A reportagem ouviu o geoquímico americano Foster Brown, da Universidade Federal do Acre, que estuda a Floresta Amazônica e é um defensor do modelo de crédito de carbono.

"A busca pela perfeição pode atrapalhar a realização", disse Brown à repórter. "Há um monte de problemas (na implementação do programa). Mas qual é a alternativa?", questionou ele.

Barbara Haya, pesquisadora da Universidade da Califórnia em Berkeley, que estuda o mercado de carbono, disse que é ilusão acharmos que esses programas florestais serão capazes de quantificar com precisão - e, portanto, compensar - a quantidade de poluição emitida, mesmo sob o novo padrão.

O melhor que podemos esperar é um programa que ajude o clima de alguma maneira incomensurável, opinou ela.

O caso do Acre

O Estado do Acre tem sido usado como referência e tem despertado o interesse dos californianos. Por isso, a reportagem foi até lá para avaliar como ele estava funcionando na prática.

A jornalista afirma que viu "largas extensões de pasto onde antigamente moradores locais tiravam borracha das árvores".

A publicação cita ainda que funcionários do governo falam em preservação, mas políticos cortaram o financiamento e planejam expandir o agronegócio. "Vários funcionários públicos do Acre me disseram que sua prioridade é obter recursos externos para proteger as florestas - a validade das compensações de carbono fica em segundo plano", afirma a jornalista na reportagem.

Um relatório de 2016 descobriu que 85% das compensações de carbono tinham uma "baixa probabilidade" de criar impactos reais

Como comprovar a compensação?
Um dos problemas é que, para que o sistema de compensações funcione, é preciso que haja uma contabilidade muito bem feita.

É preciso estabelecer uma base, um cálculo de quanto desmatamento haveria sem compensações. É fácil manipular o sistema inflando esses números.

O Brasil é um dos maiores beneficiários desses programas no mundo. O país, diz a matéria, estabelece bases diferentes para o cálculo.

Além disso, há problemas de monitoramento, sugere a reportagem. O Brasil usa um programa de satélite que rastreia a perda de árvores em grande escala, começando com áreas do tamanho de cerca de 10 quarteirões de uma cidade.

Mas há sinais de que os proprietários de terras estão desmatando áreas menores para escapar da detecção. O sistema não leva em conta outros fatores importantes, como a degradação, o desgaste de árvores por causa de incêndios e a extração de madeira.

A reportagem questionou como o governo do Acre pode ter certeza de que os créditos vendidos são válidos. Vera Reis, diretora executiva da agência ambiental estadual do Acre, disse que a credibilidade é "primordial" e que o país tem, sim, sistemas de monitoramento precisos, que detectam áreas menores.

A reportagem retrata também um problema de mercado, ao citar uma fracassada tentativa de implementação de uma indústria de cacau no Estado.

A matéria cita Fluvio Mascarenhas, analista do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Segundo ele, o governo tentou fazer com que as pessoas valorizassem produtos florestais brasileiros, como castanha e borracha, mas o mercado não acompanhou. "O mundo está nos dizendo que temos que preservar", disse ele, "mas ninguém está nos mostrando como fazer isso."

Esse tipo de problema é recorrente em projetos de compensação florestal em todo o mundo, explica a reportagem. Eles em geral têm como alvo moradores de zonas rurais que cortam árvores árvores para obter combustível ou para a agricultura, e que deixariam, em tese, de fazê-lo, mas isso só funciona se as vendas de crédito de carbono forem uma alternativa viável. Elas raramente são, diz a matéria.

A borracha da Reserva Extrativista Chico Mendes, no Acre, é vendida por cerca de 2 reais o quilo, o suficiente apenas para uma xícara de café, enquanto uma vaca vale 800 reais.

Brasil usa programa de satélite que rastreia a perda de árvores em grande escala, mas há sinais de que os proprietários de terras estão desmatando áreas menores para escapar da detecção, diz reportagem

"O Brasil tem muito orgulho de ter produzido uma queda acentuada no desmatamento da Amazônia desde 2004. No entanto, é impossível dizer qual foi benefício adicional de financiadores estrangeiros. A queda coincidiu com um enorme programa federal de preservação. Quando o país afrouxou as restrições e a fiscalização em 2012, o desmatamento começou a aumentar", escreve a repórter.

A matéria cita uma pesquisa recente sobre as contribuições da Noruega para o Fundo Amazônia que observou que "ainda precisa ser comprovado com rigor analítico um elo causal para diminuir as taxas de desmatamento no Brasil".

No caso da reserva Chico Mendes, a reportagem explica que a cobertura florestal está mantida em 94%, mas, mesmo assim, o desmatamento aumentou 60% entre 2000 e 2016, de acordo com dados do pesquisador Mascarenhas.

A reportagem explica como a situação política pode influenciar o problema. O desmatamento já vinha crescendo. Agora, há incerteza diante do fato de que o governo do Acre está alinhado com o presidente Jair Bolsonaro, que apoia o agronegócio.

O dilema dos 100 anos

A reportagem explica que o dióxido de carbono permanece na atmosfera por cerca de 100 anos. Sendo assim, as compensações florestais só funcionam se as árvores permanecerem intactas por um século.

Só que isso não acontece.

Por exemplo, há o caso de créditos comprados pela Fifa como parte de um compromisso de sustentabilidade que a entidade fez antes da Copa do Mundo de 2014, no Brasil.

A ideia original era cessar o desmatamento em áreas altamente exploradas ao longo das fronteiras do território da tribo indígena Paiter-Suruí, em Rondônia.

Mas alguns membros do grupo, desiludidos com a quantidade de dinheiro que estava sendo destinada a grupos internacionais para gestão de logística, se juntaram a madeireiros e ativistas contrários aos programas de compensação de carbono para sabotar o projeto.

Se a Amazônia perder muitas árvores, ela atingirá um ponto de inflexão, deixará de ser um ecossistema exuberante e se transformará numa savana semiárida

O projeto vendeu 250.000 créditos. Enquanto isso, um líder tribal documentava a destruição. "Todos os dias, 300 caminhões deixam nosso território repletos de madeira", escreveu ele em uma carta pública em 2016. O projeto foi suspenso no ano passado, depois que os madeireiros destruíram mais árvores do que todos os créditos vendidos.

Os cientistas e especialistas em florestas com quem a repórter conversou dizem que, "se a Amazônia perder muitas árvores, ela atingirá um ponto de inflexão, deixará de ser um ecossistema exuberante e se transformará numa savana semiárida. As consequências seriam globais. E os países ricos não são generosos o suficiente para financiar a preservação das florestas tropicais sem receber algo em troca".


E-mail da pesquisadora Jutta Kill:


Bom dia a tod@s,

Novo artigo na BBC Brasil traduz grande parte do artigo de ontem de Lisa Song da ProPublica sobre REDD+, mas também faltam algumas partes importantes sobre a implementação de REDD na Reserva Chico Mendes, por exemplo. 
A materia na BBC confunde uns detalhes, como que o programa REDD+ do governo no Acre ainda não vende "créditos de carbono" . Mas são detalhes - no fundo, o calculo sobre carbono que o governo acreano faça para receber o dinheiro da alemanha (e agora também do governo do Reino Unido: https://www.pib.socioambiental.org/es/Not%C3%ADcias?id=197305 ** ) é exactamente o mesmo feito para vender os créditos de carbono aos industrias poluidoras. Mas, no geral, acho que o artigo da BBC Brasil é um bom resumo do artigo original publicado por Lisa Song. 


Para ler o artigo no original em EN, com fotos adicionais e texto sobre a situação na Reserva Chico Mendes e comentários de vari@s moradores da reserva:
um abraço,
Jutta