sábado, 7 de março de 2020

“Palestina livre, mulheres livres”

“....Como expresso pelas jovens ativistas, a resistência das mulheres palestinas explicita ao mundo que elas não estão alheias às lutas anti-imperialistas, anticoloniais. Não são submissas por natureza, uma massa absolutamente uniforme escondida atrás de véus que lhe são impostos, como geralmente a mídia hegemônica as apresenta – e parte do movimento feminista no “Ocidente” corrobora, ao fundar-se em estereótipos...”

“...De acordo com essa representação, como povos atrasados, não podem se autogovernar, devem ser temidos e, portanto, controlados. Ou seja, colonizados. Contra tal caricatura, na Palestina e no mundo árabe como um todo, insurge-se o chamado “feminismo anticolonial”, que trava a luta contra a opressão machista e a colonização simultaneamente. Considera a emancipação de gênero inseparável da libertação da Palestina...”

por Soraya Misleh, no ICArabe

Foto: Soraya Misleh - ICArabe
Suas vozes ecoaram às ruas da Palestina ocupada e na diáspora, em uníssono, desafiando a fragmentação de sua sociedade há 72 anos (desde a Nakba, a catástrofe palestina com a criação do Estado de Israel em 1948 mediante limpeza étnica planejada) e inspirando a luta das mulheres em todo o mundo. Sem poderem se encontrar em sua própria terra, diante do apartheid israelense, extrapolaram as fronteiras coloniais, a partir do chamado: “Palestina livre, mulheres livres.” “Não há honra no assassinato.”

A ação, articulada pelo recém-criado movimento feminista palestino Tal´at, se deu a partir de agosto de 2019, em protesto pelo assassinato da jovem Israa Ghrayeb por familiares. Aos 21 anos de idade, ela é uma das dezenas de vítimas de feminicídio em sua terra ocupada por Israel no ano – os números variam de 18 a 34, a depender das fontes pesquisadas. O movimento, capitaneado por jovens mulheres, ganhou o mundo e arrancou mudanças numa arcaica lei que dificultava a punição para casos como esse, sob o manto de “crimes de honra”. Nas redes sociais, a hashtag “Somos todos Israa” esteve entre as principais no período.

A visibilidade internacional, tão importante para denunciar e exigir o fim do feminicídio, infelizmente nesse caso, contudo, também trouxe distorções. Veio acompanhada de postagens e notícias que reproduziam desconhecimento, falsos estereótipos e caricaturas sobre as mulheres palestinas e árabes em geral, particularmente sobre as muçulmanas.

A resposta vem de Hala Marshood e Riya Alsanah, jovens que integram o Tal´at, em artigo de sua autoria publicado em fevereiro último no site da associação Europe Solidaire Sans Frontières: “Desafiando os estereótipos racistas e orientalistas, as mulheres do Oriente Médio e da região do Norte da África estão na vanguarda da luta pela construção de uma sociedade mais justa e igualitária. (...). Feministas em todo o mundo estão incorporando e articulando movimento que vê a opressão sistemática e estruturalmente enraizada no capitalismo, cruzando-se com raça, sexualidade, colonialismo e ambientalismo. Em suma, um feminismo que vai além das demandas baseadas no gênero individual, instando-nos a lutar por um mundo mais justo e equitativo para todos. Tal’at faz parte dessa tradição feminista revolucionária.”

E acrescentam: “Nosso movimento é moldado por nossa experiência de mais de sete décadas de violência colonial israelense. Como povo, somos despojados de nossos direitos e necessidades mais básicos. (...) Essa realidade nos obriga a analisar as experiências de violência – em suas diversas formas – como uma questão social e política que deve ser tratada na raiz e coletivamente (...).”

Feminismo anticolonial

Como expresso pelas jovens ativistas, a resistência das mulheres palestinas explicita ao mundo que elas não estão alheias às lutas anti-imperialistas, anticoloniais. Não são submissas por natureza, uma massa absolutamente uniforme escondida atrás de véus que lhe são impostos, como geralmente a mídia hegemônica as apresenta – e parte do movimento feminista no “Ocidente” corrobora, ao fundar-se em estereótipos.

Sob o manto de que tais mulheres precisam ser salvas de sua sociedade e cultura natais, acaba por servir à dominação colonial. Um feminismo liberal que não enxerga a relação entre exploração e opressão de gênero. Que enxerga necessariamente um símbolo da opressão no véu islâmico (que apenas muçulmanas usam – e nem todas). O problema não é seu uso, mas sua imposição.

A ideologia que permeia essas ações contrapõe um “ocidente” de civilizados e pacíficos a um “oriente” de bárbaros e violentos por natureza, como denuncia o intelectual palestino Edward Said (1935-2003) em sua obra “Orientalismo – O Oriente como invenção do Ocidente”.

De acordo com essa representação, como povos atrasados, não podem se autogovernar, devem ser temidos e, portanto, controlados. Ou seja, colonizados. Contra tal caricatura, na Palestina e no mundo árabe como um todo, insurge-se o chamado “feminismo anticolonial”, que trava a luta contra a opressão machista e a colonização simultaneamente. Considera a emancipação de gênero inseparável da libertação da Palestina. Critica e desconstrói as representações orientalistas, reducionistas e generalistas, e preenche o vácuo de um movimento que desvia o olhar para as relações de poder que são fundantes à opressão de gênero. Parte da desconstrução proposta pelo feminismo anticolonial – que se coaduna com vertentes como os feminismos antirracista e islâmico – é resgatar o protagonismo das mulheres árabes e muçulmanas na História.

Linha de frente

Como aponta a feminista egípcia Nawal El Saadawi, em “A face oculta de Eva – As mulheres do mundo árabe”, foram elas pioneiras nos protestos contra os primeiros assentamentos sionistas ao final do século XIX – a serviço da colonização de terras e conquista do trabalho, que integravam o projeto sionista de limpeza étnica para constituição de um estado exclusivamente judeu na Palestina (Israel). Já em 1903, período que marca o começo da segunda onda de imigração sionista, criaram uma associação de mulheres.

Nos anos 1920, sua atuação se fortaleceu e formaram vários comitês populares para articular protestos e demais ações de desobediência civil, bem como garantir auxílio a feridos em manifestações. Em 1921, constituíram a primeira União de Mulheres Árabes-Palestinas, que organizou protestos contra o mandato britânico, a colonização sionista e a Declaração Balfour – em que a Inglaterra garantia a constituição de um lar nacional judeu em terras palestinas.

Das letras aos campos de batalha, as mulheres utilizam as armas de que dispõem. Há 73 anos, Nariman Khorsheed (1927-2014) fundou na cidade de Yafa – juntamente com sua irmã Moheeba – a primeira brigada feminina palestina, denominada Al Zahrat al-Uqhuwan (Flores de Crisântemo), para lutar contra a expulsão pelas forças paramilitares sionistas de suas terras. Em 1948, surgiram outras brigadas femininas e inclusive um grupo misto, de 100 combatentes, liderado por Fatma Khaskiyyeh Abu Dayyeh. Na revolução palestina de 1936-1939 contra o mandato britânico e a colonização sionista – cujas causas e análise da derrota estão explicitadas por Ghassan Kanafani em seu livro “A revolta de 1936-1939 na Palestina” (Editora Sundermann)  –, ela esteve no comando do local de armazenagem das armas dos revolucionários.

No período, mulheres organizaram grandes marchas e comitês populares. Além de promoverem protestos, recolhiam fundos para assistência às famílias dos mortos e prisioneiros e auxiliavam no transporte de insumos básicos e armas. Nas aldeias, lutavam lado a lado com os homens para defender suas terras. Uma dessas heroínas é Fatma Ghazal, morta em combate no dia 26 de junho de 1936.

Já diante da consolidação do projeto sionista, em 1965, foi criada a União Geral das Mulheres Palestinas, vinculada à Organização para a Libertação da Palestina (OLP). Ao final dos anos 1960 e início dos 1970, diversas mulheres partiram para a ação direta, diante da omissão internacional à violação cotidiana de direitos humanos e a expansão israelense, que em 1967 resultou na ocupação por parte dessa potência bélica de toda a Palestina histórica. A mais conhecida em todo o mundo é Leila Khaled. Então com apenas 24 anos, participou do sequestro de aviões em troca de prisioneiros políticos e colocou em evidência a causa palestina. Foi detida em uma das ações e saiu após outra operação do gênero.

Nas intifadas (levantes) de 1987-1993 e 2000-2004, novamente as mulheres foram às ruas. Na primeira, para se ter uma ideia, um terço das baixas era da parcela feminina. O número de mulheres detidas passou de centenas do início da década de 1970 para milhares nos anos 1980. Desde 1967, estima-se que 10 mil passaram pelas prisões políticas israelenses – e enfrentaram a tortura institucionalizada, com inclusive ameaças e violência sexual. Hoje são 41, incluindo jovens menores de 18 anos, de um total de cerca de 5 mil palestinos nos cárceres sionistas.

São heroínas desconhecidas e em sua maioria invisibilizadas pela história, como ocorre em todo o mundo, em todos os processos de luta. A opressão ocorre aqui e lá, a serviço de um projeto de dominação capitalista/imperialista. Elas – assim como todo o conjunto da sociedade palestina – precisam da solidariedade internacional ativa, não de “salvamento”.

Os movimentos feministas na região são anteriores aos dos Estados Unidos e da Europa, como nos conta a feminista egípcia Nawal El Saadawi em seu livro “A face oculta de Eva – As mulheres no mundo árabe”. Travam a dupla luta, contra a opressão machista e a colonização. Para que todas sejamos livres.

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Soraya Misleh, membro da Diretoria do ICArabe, jornalista palestino-brasileira, mestre e doutoranda em Estudos Árabes pela Universidade de São Paulo (USP). Autora do livro “Al Nakba – um estudo sobre a catástrofe palestina” (Ed. Sundermann).

Enviado ao blog por Amyra El Khalili  - A quem agradeço e parabenizo pela luta em defesa sobre tudo da vida. Obrigado Amyra, beduína, palestina que me inspira!

Editores RECOs


quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Mortes, escravidão e abuso sexual: o legado das missões comandadas pelo pai de antropólogo preso pelo Ibama

Edward Luz foi preso em flagrante ao invadir terra indígena; seu pai homônimo expôs durante entrevistas à imprensa, uma delas lida na CPI da Funai, o método a ser utilizado se governo proibisse a pregação do evangelho: “Vamos banhar a semente em sangue se for preciso”

Por Leonardo Fuhrmann 


Detido por fiscais do Ibama no último domingo quando invadia a terra indígena Ituna-Itatá, em Altamira (PA), na área de influência da usina de Belo Monte, o antropólogo bolsonarista Edward Mantoanelli Luz está, ao lado de seu pai, o missionário evangélico Edward Gomes Luz, no centro de diversas polêmicas que envolvem violações aos direitos dos indígenas. Com ameaças em especial para povos isolados, um dos principais focos dos planos da Missão Novas Tribos do Brasil (MNTB), comandado pelo missionário.
Luz perguntou ao fiscal do Ibama se estava sendo
 claro, antes de ser preso. (Imagem: Reprodução)

Em vídeo feito pela própria equipe, o antropólogo aparece ameaçando o funcionário do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Ele cita uma reunião que teria tido com o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, como argumento para permanecer no local, cujo acesso necessita de autorização formal. No local existem indígenas isolados. Segundo a rede de ONGs Observatório do Clima, a terra indígena foi a mais desmatada em dezembro e janeiro; e a segunda mais desmatada em novembro. Também existe um lobby de políticos da região e não-indígenas para impedir a homologação do território.

Depois de ser solto, Luz exortou os invasores do território indígena a resistirem. Ele foi expulso em 2003 da Associação Brasileira de Antropologia (ABA) “dada a sua postura não compatível com a ética profissional”. Edward também foi desligado por unanimidade do Núcleo de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade de Brasília. Ele tem uma empresa de consultoria que faz laudos para contestar demarcações de terras, muitos deles em áreas centrais no debate feito por ruralistas no Congresso. Em um dos casos, foi contratado pelo órgão ambiental do governo catarinense para fazer um laudo contra a demarcação de terras Itaty. Ele não visitou o local para fazer seu estudo e a conclusão já estava pronta antes de chegar ao estado.

O MNTB foi expulso pela Funai de terras indígenas em 1991. O grupo era acusado de escravidão, exploração sexual e tráfico de crianças indígenas. O processo foi arquivado na Justiça. A Fundação Nacional do Índio (Funai) acusa o grupo de ser responsável por dizimar os Zoé, na região de Santarém (PA), por conta de doenças causadas pela presença de invasores, como malária e gripe. Edward Luz, o pai, afirma que as doenças foram causadas por pessoas que chegaram à tribo após a expulsão da missão, pelas mãos da Funai. Os missionários também são acusados de explorar o trabalho braçal de ribeirinhos, de castanheiros e quilombolas.

A Funai acusa os missionários de continuar assediando os indígenas, depois da expulsão, a partir de fazendas próximas. E de inserir objetos estranhos à cultura dos indígenas dentro das tribos. Na CPI da Funai, em 2015, foi lida por uma deputada uma reportagem da Rolling Stone, de 2011, que detalhava os métodos defendidos pelos religiosos. O pai do antropólogo declarava o seguinte, a respeito do que chamava “perseguição” dos missionários pela Funai:

— Nós, como instituição, só temos a agradecer a essa perseguição. Porque quanto mais a perseguição vem, mais nós crescemos. O Cristianismo sempre foi pautado por isso. O sangue dos mártires regava a semente daqueles que haviam de nascer. E no governo brasileiro isso foi a mesma coisa.

Em 2013, em texto na CartaCapital, o mesmo autor da reportagem para a Rolling Stone, Felipe Milanez, citou uma fala similar do missionário: “Se [o governo] proíbe pregar o evangelho, está proibindo a liberdade da adoração; proíbe o autor do evangelho, o senhor Jesus; e proibiu a Bíblia, proibiu o Deus criador. E nós partimos para um confronto”.

Esse trecho na Rolling Stone apareceu em texto do El País Brasil, do início de 2016, atribuído a Edward Luz, mas o filho. Antecedido da seguinte frase: “Vamos banhar a semente em sangue se for preciso”. Segundo Milanez, a frase é do pai.

OBJETIVO DO GOVERNO É CONVERTER OS INDÍGENAS

No atual governo, a relação é mais amena. Tanto que um missionário ligado à MNTB foi nomeado no início do mês para coordenar a área de índios isolados e de recente contato da Funai, Ricardo Lopes Dias. O MPF entrou com uma ação contra a nomeação. Alega que os requisitos mínimos foram modificados para que ele pudesse ser escolhido. E que a presença dele traz “conflito de interesses”, incompatibilidade técnica e risco de retrocesso na política indigenista. Em um áudio obtido pelo The Intercept Brasil, Edward filho admite ter feito lobby para a nomeação de Dias. O objetivo: converter os indígenas. Dias atuou entre 1997 e 2007 na MNTB.

Outro missionário ligado ao grupo, Luiz Carlos Ferreira, foi denunciado pelo Ministério Público Federal por ceder uma espingarda a um indígena da etnia Zoé. Por esse ato, ele responde também por perturbar os costumes indígenas. Em outra investigação, ele é acusado de explorar a mão-de-obra de integrantes da etnia em condição análoga à escravidão. Segundo o MPF, 96 pessoas foram exploradas em trabalho nos castanhais de uma propriedade vizinha.

Mas o caso mais impactante da atuação da MNTB junto aos indígenas brasileiros foi um escândalo internacional de abuso sexual. Um missionário do grupo foi preso em maio de 2013, no aeroporto de Orlando, nos Estados Unidos, com um notebook com uma série de fotos e vídeos em que aparecia abusando sexualmente de crianças indígenas. A Polícia Federal entrou no caso em setembro do mesmo ano. E, na Operação Ímpio, em parceria com autoridades daquele país, apreendeu imagens de pornografia infantil em computadores da sede da MNTB em Manaus.

Ao site Amazônia Real, a repórter Elaíze Farias informou em 2014 que o missionário estadunidense Warren Scott Kennell, de 45 anos, foi condenado a 58 anos de prisão pela Corte dos Estados Unidos por abuso sexual de meninas indígenas na parte brasileira da Amazônia. O texto diz que ele trabalhou durante seis anos, de 1995 a 2001, em um posto da Missão Novas Tribos do Brasil na aldeia Sete Estrelas, onde vivem os povos Katukina e Yanawawá, no Acre.

ATUALIZAÇÃO: O texto foi atualizado às 2h07 (18/02) com as fontes precisas sobre frases de Edward Luz, o pai, e a troca da palavra pedofilia por abuso sexual. Com mais informações sobre o missionário preso nos EUA.

Foto principal: Povos isolados estão na mira dos missionários. (Agência de Notícias do Acre )

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

EUA e Israel querem petróleo da Palestina; riqueza tem que ser do povo palestino

Em entrevista à TV Diálogos do Sul, a palestino-brasileira Amyra El Khalili fala sobre o “Acordo do Século” de Trump para avançar mais ainda sobre as terras árabes

Por MARIANE BARBOSA
Diálogos do Sul Diálogos do Sul
Foto por Vanessa Martina Silva O jornalista e editor da revista Paulo Cannabrava Filho e a beduína palestino-brasileira, economista e ativista ambiental Amyra El Khalili


A colonização israelense em terras palestinas acontece desde 1948 e, além dos impactos sociais, também traz impactos culturais muito graves. Desde então, o mundo todo tem observado o conflito entre Israel e Palestina, que ganhou um novo capítulo no fim de janeiro (27), quando o presidente estadunidense, Donald Trump anunciou o "Acordo do Século".

Para propagandear o projeto, Trump recebeu em Washington o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, e Benny Gantz, seu rival nas próximas eleições para tratar dos detalhes iniciativa que supostamente estabeleceria a paz no Oriente Médio, com um acordo entre árabes e israelenses.

“Não é só mercado, é controle. Controle hídrico, controle energético, controle alimentar. Há um jogo político por trás da combinação agropecuária, petróleo e água. E essa combinação precisa ser entendida como uma política geoeconômica”, diz.

Política geoeconômica que na visão de Amyra, também ocorre no processo de Acordo de Paz. “Israel é um Estado caro para o povo judeu. E quando levanta o muro, acaba se isolando também do mundo e de todas as possibilidades econômicas e financeiras que o próprio Israel poderia se beneficiar e faz o movimento ao contrário.”

Como já noticiado, a proposta de Trump favorece apenas um lado, o de Israel, já que autoriza o país a avançar mais ainda sobre as terras árabes palestinas. Para ilustrar melhor os interesses por trás desse acordo, a TV Diálogos do Sul convidou a beduína palestino-brasileira, economista e ativista ambiental Amyra El Khalili para falar sobre o atual sofrimento do mundo árabe com as agressões imperialistas dos EUA e de Israel acerca do petróleo palestino.

Amyra El Khalili explica que toda a Faixa de Gaza, território disputado pelos dois povos, é rica em petróleo. “Temos ali um problema não só de conflito pela posse da terra, mas também de cultura e adaptação aquela região, que é árida e difícil. Petróleo é uma riqueza que tem que ser administrada pelos palestinos, porque é do povo palestino”, defende a economista.

“O vale do Jordão é onde nascem as águas da região. Então Israel ocupa esse lugar, justamente porque é ali que nascem os mananciais de água”, diz ao explicar a escassez de água na região.

“Em todo o Oriente Médio, tem petróleo, mas não tem água. [...] Onde não há água, não é possível desenvolver a produção agropecuária e agrícola”, esclarece Amyra ao apontar outro problema: “por isso, o Oriente Médio é altamente comprador de carne do Brasil e também de agricultura e material industrializado na Europa”.

“O que acontece é uma questão geopolítica. Israel é considerado enclave militar por conta do Oriente Médio, por conta do petróleo. O petróleo é a matriz energética dos países do norte, da Europa, e o petróleo dele custa caro pra todos nós. Além do problema ambiental, o petróleo custa vidas para o povo árabe, custa vidas para o povo africano, custa vidas pro povo brasileiro e vai custar vidas indígenas na região Amazônica”, destaca.

Ela aponta ainda que, “institucionalmente, o que Trump está fazendo com esse acordo é legitimar o que ele já vem fazendo na ilegalidade todos esses anos”. “Ele está querendo dar legalidade para algo que é imoral, que são assassinatos e crimes que eles [Israel] vêm cometendo todos esses anos contra o povo palestino”.

América Latina

A economista ressalta que é preciso quebrar a “barreira de exportação” existente entre Oriente Médio e América Latina, para que não ocorra intermediação por parte dos EUA ou Europa.

“Não interessa nem para a Europa e nem para os Estados Unidos essa aproximação entre o mundo árabe e mundo latino-americano”, afirma, ao lembrar que a aproximação diplomática já ocorreu em governos anteriores.

Confira a íntegra da entrevista: https://www.youtube.com/watch?v=L59MIwxzvVI

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

A União Europeia continua correndo atrás das matérias-primas

“...Paradoxalmente, a preocupação com as mudanças climáticas e a necessidade de reduzir a dependência em relação aos combustíveis fósseis – petróleo, carvão e gás – desencadearam uma corrida mais acirrada por matérias-primas não energéticas. As tecnologias em expansão exigem uma quantidade e uma variedade cada vez maiores de metais e minerais, mas não se pode ignorar que a extração, o processamento, o transporte e o posterior processamento desses materiais demandam muito combustível fóssil. Com as “energias renováveis”, aponta-se para uma suposta descarbonização e, com a digitalização, fala-se de inovação...”

Por Guadalupe Rodríguez, no Salva la Selva - WRM Boletim 246

A União Europeia busca crescimento a qualquer preço. As tecnologias “verdes” exigem uma quantidade e uma variedade cada vez maiores de metais e minerais. Através do Banco Europeu de Investimento, milhões de fundos públicos fluem para projetos de mineração sob o manto do “desenvolvimento”.

Desde o seu lançamento, em 2008, a Estratégia Europeia de Matérias-primas não fez mais do que fortalecer e cumprir todos os passos previstos: em termos gerais, políticas para um acesso melhor e o mais direto possível às matérias-primas do Sul global e promoção da mineração dentro das fronteiras da própria Europa.

Paradoxalmente, a preocupação com as mudanças climáticas e a necessidade de reduzir a dependência em relação aos combustíveis fósseis – petróleo, carvão e gás – desencadearam uma corrida mais acirrada por matérias-primas não energéticas. As tecnologias em expansão exigem uma quantidade e uma variedade cada vez maiores de metais e minerais, mas não se pode ignorar que a extração, o processamento, o transporte e o posterior processamento desses materiais demandam muito combustível fóssil. Com as “energias renováveis”, aponta-se para uma suposta descarbonização e, com a digitalização, fala-se de inovação. Mas sem metais e energia, nenhum desses processos destinados a tornar a Europa “competitiva” pode se transformar em realidade. A chamada descarbonização lançada em alguns setores da economia não visa a redução significativa do consumo de energia, e sim o incremento gradual da porcentagem de uso de fontes de energia “mais limpas”, o que aumenta o impacto global sobre clima, comunidades e territórios locais.

Economias que se esforçam para continuar crescendo: digitalização e transição energética

O enfrentamento à transição energética e à digitalização nas próximas décadas pode dobrar ou triplicar a demanda por metais e minerais, pois esses processos estão impulsionando um mercado incomensurável de matérias-primas. Elas são necessárias para construir todos os tipos de infraestrutura, para fabricar veículos elétricos, baterias, etc. Os recursos minerais se tornaram a chave para uma economia baseada no crescimento e que, a partir daí, elabora um discurso complexo para se justificar e se maquiar de verde. Na União Europeia, isso acontece por meio de políticas, discursos e incentivos econômicos.

Para fabricar um telefone celular, um computador ou uma tela de televisão, são necessárias entre 40 e 60 matérias-primas diferentes, como lítio (42 g), além de tântalo, cobalto ou antimônio, cada vez mais difíceis de obter. Para fabricar um veículo elétrico, usam-se grandes quantidades de cobre (80 kg), cobalto (10 kg), lítio (entre 10 e 20 kg), níquel (30 kg) e grafite (30 kg).

Segundo a CODELCO, mineradora estatal chilena e uma das maiores produtoras de cobre do mundo, um único moinho ou turbina eólica de 1 MW contém 4,4 toneladas de cobre. O consumo desse metal por parte da China, por exemplo, aumentou de 12% para 40% em apenas uma década.

A Aliança Europeia de Baterias (EBA, na sigla em inglês) foi impulsionada pelo setor automobilístico alemão e criada em 2017 para fazer da Europa uma potência mundial na fabricação e na distribuição global de baterias. O mercado de baterias “poderia ​​crescer 250 bilhões por ano a partir de 2025”, e por isso é preciso “acelerar e intensificar a articulação entre projetos estratégicos transnacionais em toda a cadeia de fornecimento”. As palavras são de Maros Šefčovič, vice-presidente da Comissão Europeia e responsável pela União Energética da União Europeia.

Toda essa demanda por matérias-primas significa extração e mais extração de cobre, cobalto, lítio, níquel e outros metais e minerais, em lugares como as florestas tropicais no Congo, nas Filipinas e na Indonésia ou nos Andes do Chile, da Bolívia e da Argentina.

Reduzir a dependência de economias emergentes e minerais em conflito

No início deste século, o aumento dos preços das matérias-primas e a apropriação de alguns minerais por economias emergentes, como a China (que retém algumas das matérias-primas que extrai para seu próprio consumo interno), criaram riscos no suprimento de alguns metais e minerais. Começou a haver dificuldades para acessá-los e cresceu a preocupação, em alguns países, de que os preços aumentassem muito. A China controla, por exemplo, o acesso a terras raras, necessárias para baterias e catalisadores, entre muitas outras aplicações. Outro exemplo é a Indonésia, que tenta controlar as exportações de níquel.

Outro problema conhecido são os graves conflitos existentes nos lugares onde são extraídas as matérias-primas demandadas pelos principais setores mencionados, que agora são fundamentais. É o caso da República Democrática do Congo e dos minerais em conflito ou minerais de sangue. Ou seja, aqueles que são extraídos em meio a guerras cruéis e pelas mãos de máfias, tráfico ilegal, trabalho infantil e outras atrocidades que parecem colocar em segundo plano a destruição e a poluição do meio ambiente. Após campanhas intensas, foi possível promulgar uma legislação tímida na União Europeia, que não entrará em vigor antes de 2021 e visa exigir rastreabilidade nas cadeias de suprimento. Essa legislação é insuficiente, e se limita a regulamentar algumas matérias-primas: ouro, tântalo, estanho e tungstênio, deixando de fora outros minerais igualmente marcados pelo conflito, como o cobalto.

Matérias-primas “críticas” e a responsabilidade da indústria de mineração

A União Europeia identifica periodicamente materiais que sejam de importância econômica e estratégica para a indústria da Europa e que possam vir a faltar. Uma atenção especial é dada a certas matérias-primas chamadas de “críticas”, que atualmente são 27 e incluem três dos quatro minerais em conflito (cobalto, tântalo e tungstênio), além de terras raras.

Com isso em mente, 100 bilhões de euros da Comissão Europeia estão destinados a projetos especiais que cobrem toda a cadeia de suprimentos, incluindo produção de tecnologia e automóveis. Além disso, estão sendo promovidas atividades de mineração na Europa.

Mas o fato é que não existe mineração sustentável. A face oculta de toda essa promoção da “transição energética” é a devastação social e ambiental que a mineração implica. As comunidades afetadas por essa destruição enxergam um paradoxo muito prejudicial no fato de as energias renováveis ​​e as tecnologias consideradas sustentáveis ​​precisarem de toneladas de minerais.

A atual política da União Europeia busca crescimento a qualquer preço para ser competitiva e “salvar a economia”. Muitos de seus depósitos permanecem inexplorados por razões tecnológicas ou porque, em teoria, o uso e o acesso à terra estariam muito mais regulamentados e protegidos do que em outras regiões. No entanto, prevalece a ideia perversa de salvar o clima fazendo cada vez mais extrações e negócios, o que representa altos riscos para florestas e comunidades florestais do Sul global. A corrupção e a falta de transparência com relação a planos e projetos de mineração são comuns.

As mineradoras europeias que operam no Sul global falam de “mineração responsável”, que é basicamente a mesma mineração destrutiva, mas adornada com explicações sobre como elas estão fazendo um favor às comunidades locais. Os argumentos mais comuns falam do uso de tecnologias de ponta que impediriam a destruição e a poluição, quando a verdade é que essa tecnologia é possibilitada por uma destruição maior, de áreas maiores, mais remotas e frequentemente com florestas.

Além disso, todos os anos, através do Banco Europeu de Investimento da EU, milhões de euros públicos fluem para projetos de mineração sob o manto do “desenvolvimento”. Na prática, essa “ajuda ao desenvolvimento” facilita a extração de minerais e/ou a negociação entre países e empresas de mineração da UE. Para permitir o acesso das transnacionais, aplica-se uma “diplomacia de matérias-primas”, que inclui acordos de livre comércio e o uso de instrumentos da Organização Mundial do Comércio (OMC) para a “solução” de conflitos em tribunais privados. Com essas estratégias, empresas e governos da UE podem justificar práticas altamente violentas e destrutivas, como as que acontecem com a extração de cobalto na República Democrática do Congo.

Enquanto a demanda de matérias-primas aumenta cada vez mais em todo o mundo, são produzidas várias toneladas de resíduos por pessoa, por empresa e por ano na União Europeia. A primeira coisa a rever e questionar é o modelo econômico e de vida que leva a uma destruição incalculável. Não podemos apostar em uma economia que, como está proposta, terá que continuar realizando uma extração selvagem de matérias-primas com todas as violações dos direitos fundamentais e destruição de modos de vida e florestas, principalmente no Sul global.

Guadalupe Rodríguez - Responsável de campanhas na Espanha e na América Latina em Salva la Selva e coordenadora para América Latina e Sul da Europa da Rede Global Sim à Vida Não à Mineração




sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

WARAO EM RIO BRANCO: Vidas por Vidas - enfrentando o descaso


Sra. Eloísa Zapata. Foto - Antônia Sandra (CIMI)
Chegados a Rio Branco pela primeira vez em 28 de setembro de 2019, os Warao logo passaram a fazer parte da paisagem da cidade. E é justamente como “incômoda paisagem” que muitos os vêm e, em larga medida, como as autoridades os têm tratado (ou simplesmente ignorado em ações). Entretanto, este povo tem história e segue escrevendo sua história, agora em um novo capítulo, em Rio Branco, porque a terra é nossa casa.

Warao, conforme descreve André Paulo dos Santos Pereira[1] é um povo originário da região norte da Venezuela, no rio Orinoco, estado Delta Amacuro e nos dos estados Bolívar e Sucre[2]. Por isso seu nome “Warao” que na língua materna significa “povo da canoa”. A relação que tem com a água é muito forte. São, tradicionalmente, pescadores e coletores, e vivem em comunidades de palafitas localizadas nas zonas ribeirinhas fluviais e marítimas, além de pântanos e bosques inundáveis.

Mas, porque saíram de suas terras? Por diversos fatores entre os quais destaco: tragédia ambiental do represamento do rio Manamo, a deterioração das condições de subsistência e a invasão progressiva de suas terras por agricultores e pecuaristas que, desde a década de 1970, vem empurrando o povo para os centros urbanos da Venezuela. Interessante notar, porém, que mesmo vivendo no ambiente urbano, os indígenas warao tentam manter muitos aspectos de sua cultura e a coesão do grupo, retornando quanto conveniente ao lugar de origem[3]. Portanto, Rio Branco é apenas passagem e espaço de construção contínua desta história milenar e que seguirá sendo escrita.

Entrega de cestas básica e Roupa. Foto  Mateus (Cimi)

Os Warao já estavam sendo expulsos de suas terras, mas , assim como todo o povo venezuelano, também eles, foram atingidos pela tragédia política que se abateu sobre a Venezuela. Tragédia que no caso dos Warao dispensa leituras ideológicas de qualquer lado e natureza. Digo que toda tragédia humana e ambiental é sempre uma tragédia de toda a humanidade. Portanto, os Warao em Rio Branco escrevem sua história e parte da história de uma tragédia de toda a humanidade.

Desde que chegaram a Rio Branco, os Warao tem recebido o apoio do Cimi[4] que, segundo a coordenadora, Sra. Ivanilda Torres, tem sido a única entidade que efetivamente tem atuado de forma concreta e permanente fornecendo cestas básicas, colchões, panelas, fogão e gás. Além de auxílio na documentação, acompanhamento médico e abrigo. Além de apoio material, o Cimi tem feito trabalho de formação sobre direitos através da presença no próprio local onde estão alojados.

Segundo relatórios do Cimi, ao todo 14 famílias já se encontram na cidade de Rio Branco perfazendo um total de 58 pessoas, sendo: 14 mulheres; 12 homens; 27 crianças e 04 idosos. Chegaram em dois grupos, sendo o primeiro a chagar em 28/09/2019 num total de 32 pessoas e outro em 23/11/2019 num total de 23 pessoas e no último dia 10 chegaram mais três pessoas.

Os primeiros a chegar a Rio Branco se encontram em uma pensão, localizada no Bairro da Base onde alugam 04 quatros pagam diariamente R$ 20,00 reais por quarto, totalizando R$ 80,00 reais por dia, que por semana soma R$ 560,00 reais, e por mês R$ 2.400,00 reais. Um segundo grupo que em sua ampla maioria chegou no dia 23 de novembro, é formado por 23 pessoas sendo 07 adultos e 16 crianças. Inicialmente ficaram em um hotel na Gameleira pagando diária de R$ 130,00 por 02 quartos, portanto, uma média de 11,5 pessoas por quarto. No domingo dia 01 de dezembro não conseguiram o dinheiro da diária do hotel e tiveram que se retirar. Finalmente, no último dia 10 chegaram mais três pessoas, um casal e uma criança. Portanto, estamos falando de uma superlotação de 14.5 pessoas por quarto. Ainda há que se notar que as despesas outras, como alimentação e vestuário não estão incluídas.
Entrega de roupas e cestas. Foto Mateus (Cimi)

Mesmo possuindo documentos pessoais emitidos em Roraima incluindo o protocolo da Carteira de Identidade para Estrangeiros (RNE) que já se encontram vencidos e pendentes de renovação, Carteira de Trabalho (cerca de 12 não possuem carteira de trabalho), CPF e cartão do SUS, a situação da documentação ainda é muito precária e as alterações decorrentes da Portaria 666[5], do Ministério da Justiça, dificultam ainda mais. A isso se soma a ausência e ineficiência do poder público. Preocupa as violações de direitos dos migrantes, especialmente no que se referem às crianças, mulheres e idosos, decorrentes de equívocos e falhas no acolhimento ou ainda frutos de exploração criminosa desses segmentos mais vulneráveis.

No dia 04 de dezembro, por convocatória da Defensoria Pública da União, houve uma reunião interinstitucional com a presença de órgãos afetos ao caso dos Warao, com destaque para a ausência sem nenhuma justificativa da Fundação Nacional do Índio – Funai. A reunião foi realizada na sede do Ministério Público Federal. Embora se tenha tirado alguns encaminhamentos, até agora nada caminhou de fato, apesar de órgãos como a DPU terem se mostrado interessados e propostos encaminhamentos. Tudo ficou no nível dos “bons conselhos”.

Perguntada por mim se algum órgão público havia aparecido, dona Eloísa Zapata foi categórica: “nada nem ninguém apareceu por aqui”. O mesmo nos informou o Sr. Alexis Rivera, uma importante liderança do povo.

Formação e entrega de cestas. Foto Mateus (Cimi)

A total ausência dos órgãos públicos na assistência direta assume dimensões ainda mais dramáticas quando sabemos que se aproxima o período de recesso e o que já não tem funcionado, para de vez.  E olha que o que se pede é apenas que se cumpra o que determina, entre outras, a Lei 13.445[6], qual seja, o acolhimento digno e o cumprimento dos direitos garantidos. Lembremos ainda que o direito natural encontra-se consagrado no art. 13 (2) da Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, que prescreve: “Todo ser humano tem o direito de deixar qualquer país, inclusive o próprio, e a este regressar” (NAÇÕES UNIDAS, 2009, p. 8)[7]. E segue uma grande lista de direitos garantidos no escopo internacional em tratados dos quais o Brasil é signatário. Portanto, acolher dignamente os migrantes é uma questão de respeito e garantia de direitos. Não é uma “boa vontade” do poder público. É obrigação legal, que se impõe. Pois, que se cumpra!

ACRESCIMO: Em reunião hoje à tarde (13/12/19), com representantes dos Warao e da coordenação do Cimi, a Defensoria Pública da União providenciou os encaminhamentos para solucionar os problemas referentes à documentação dos Warao. 

Nossos agradecimentos a DPU!





[1] André Paulo dos Santos Pereira é promotor de Justiça em Roraima, professor da Universidade Federal de Roraima (UFRR) e integrante do Ministério Público Democrático. Revista Consultor Jurídico, jan. 2019. Disponível em https://www.conjur.com.br/2019-jan-21/mp-debate-povo-indigena-warao-imigracao-brasil
[2] GARCIA CASTRO, Alvaro A. Mendicidad indígena: Los Warao Urbanos Boletín Antropológico Nº 48. Enero-Abril, 2000, ISSN: 1325-2610. Centro de Investigaciones Etnológicas - Museo Arqueológico - Universidad de Los Andes. Mérida.
[3] GARCIA CASTRO, Alvaro; HEINEN, Dieter. PLANIFICANDO EL DESASTRE ECOLÓGICO: Impacto del cierre del caño Manamo para las comunidades indígenas y criollas del Delta Occidental (Delta del Orinoco, Venezuela). ANTROPOLÓGICA. 91, 1999: (31-56). Caracas, Fundación La Salle de Ciencias Naturales.
[4] Criado em 1972, o Cimi é um organismo vinculado à CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) que atua diretamente junto aos povos indígenas do Brasil.  O Regional Amazônia Ocidental (Regional AO) compreende todo o Estado do Acre e o Sul do Estado do Amazonas.
[5] Portaria 666, MJ, de 25 de julho de 2019. Disponível em  http://www.in.gov.br/en/web/dou/-/portaria-n-666-de-25-de-julho-de-2019-207244569
[6] Lei 13.445 de 24 de maio de 2017. Disponível em http://legislacao.planalto.gov.br/legisla/legislacao.nsf/Viw_Identificacao/lei%2013.445-2017?OpenDocument
[7] A Declaração Universal dos Direitos Humanos foi aprovada em Paris, em 10 de dezembro de 1948, por meio da Resolução 217 A(III), pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) (NAÇÕES UNIDAS, 2009).

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Chegou a hora de centrar as negociações do clima nas causas reais!

Por: World Rainforest Movement


Neste momento, representantes de governos e grandes empresas, agências de ‘lobby’, bancos multilaterais, agências financiadoras e ONGs estão reunidos em Madri, Espanha, para a 25ª conferência anual da ONU, fingindo tratar das mudanças climáticas. Enquanto isso, no Chile – o país onde as negociações do clima deveriam ter sido realizadas -, manifestantes e indígenas Mapuches continuam o levante contra o modelo neoliberal imposto durante a ditadura de Pinochet, exigindo que o Chile seja retirado da presidência das negociações da ONU devido aos abusos cometidos dos direitos humanos.
 
Na conferência em Madri, o principal objetivo dos negociadores governamentais é finalizar o Acordo de Paris da ONU sobre mudanças climáticas. Essas negociações não adotaram decisões que garantam que as emissões de carbono parem de subir e que o carbono oriundo dos combustíveis fósseis não seja mais liberado na atmosfera. Em vez disso, as negociações deram origem às falsas soluções que permitam que o modelo econômico destrutivo que causou as atuais crises climática, ambiental e social continua.
Soluções falsas não impedirão o caos climático.
É hora de deixar o carbono oriundo dos combustíveis fósseis 
debaixo do solo!


Petróleo, florestas e mudanças climáticas

O petróleo explica as mudanças climáticas, o intercâmbio desigual globalizado e os novos cenários de colonização. Não obstante, as fronteiras petrolíferas se multiplicaram e as economias permanecem profundamente petrolizadas, mesmo sob seu disfarce “verde”.

A centralidade do petróleo é indispensável no momento de analisar as mudanças climáticas e até mesmo a crise civilizacional (1). O petróleo explica não apenas as mudanças climáticas, mas também os intercâmbios desiguais, a globalização e os novos cenários de colonização. Ele explica o metabolismo da produção e do mercado, típico da globalização.
Apesar das negativas da indústria e dos governos, agora se sabe com certeza que a queima de combustíveis fósseis causa distúrbios climáticos que estão inseridos nas mudanças climáticas globais. Essa certeza vem se desenvolvendo desde 1992, quando o clima e a biodiversidade foram incluídos nas agendas internacionais como os grandes problemas do meio ambiente. Relatórios científicos, evidências levantadas em todo o mundo e uma ampla conscientização da sociedade colocam o petróleo no centro das causas das mudanças climáticas, não apenas pelo acúmulo de CO2 na atmosfera, resultante da queima de combustíveis fósseis, mas também pelos impactos dos modelos da agricultura industrial e do transporte de mercadorias, que dependem inteiramente do petróleo.
Mas também há outra certeza. Todas as fases das atividades petrolíferas provocam impactos locais que afetam as sociedades, seus territórios e a natureza. Exploração, perfuração, extração, transporte e até refino e consumo causam devastação ambiental, violência e empobrecimento local. Em todas as fases, há desmatamento e fragmentação de ecossistemascontaminação dos corpos d’águachuvas ácidas resultantes da queima do gás associado de petróleo, ruído e poluição insuportáveis – fatos que se estendem às redes naturais de circulação de água e vento.
A atividade petrolífera tem essa dupla dimensão: ser a causa das mudanças climáticas (global) e causar devastação ambiental (local).
No entanto, apesar dos alertas, que são locais e globais, as fronteiras petrolíferas da exploração se multiplicaram e as economias permanecem profundamente petrolizadas.
Em escala mundial, o chamado pico do petróleo, ou o esgotamento dos óleos “baratos”, em vez de gerar as transições necessárias, desencadeou uma corrida pelo controle do petróleo, não importa onde ele esteja nem qual o seu custo social e ambiental.
As fronteiras do petróleo se estenderam a quase todos os cantos do planeta, zonas frágeis, inclusive áreas supostamente “protegidas”, territórios de povos indígenas, ecossistemas ameaçados de extinção, mares profundos. O petróleo continua sendo um fator essencial para a expansão e a globalização do capitalismo – mesmo sob seu disfarce de capitalismo verde – e agora velhas e novas hegemonias competem pelo acesso.
Um olhar a partir dos territórios
Sem dúvida, existe uma crise socioecológica global cujas respostas e repertórios são globais. Desde 1996, a rede Oilwatch (2) propõe a moratória da exploração do petróleo como uma medida para enfrentar as mudanças climáticas. Essa proposta permitiu, ao mesmo tempo, dar visibilidade ao consumo de petróleo como principal causador das mudanças climáticas e aos impactos locais de seus processos de prospecção e extração.
Embora haja cada vez mais registros e relatos das catástrofes climáticas, agora com base em sofisticados dispositivos tecnológicos, os governos muito pouco fizeram para conter as fronteiras do petróleo. Na verdade, se alguns resultados foram alcançados, foi apenas por causa da pressão e da resistência das comunidades.
A nova ciência atmosférica, que nos permite observar em tempo real os incêndios na Amazônia, o comportamento dos ventos, as correntes oceânicas e as ondas de calor e frio, contribuiu para naturalizar os problemas e cultivar a ideia de “catástrofe inevitável”. Esta, por sua vez, seria resolvida no futuro com medidas militares, invenções da geoengenharia, ou novos negócios como pagamento por serviços ambientais.
Mas se olharmos a partir do local, dos territórios, podemos entender as razões de tanta resistência, em todo o mundo, contra projetos de extração de petróleo.
As florestas tropicais, por exemplo. Quando uma floresta recebe intervenção, já foi documentado que acontecem mudanças no microclima até 100 metros além do limite das operações e, se as borboletas forem levadas em consideração, o efeito fica a 300 metros da borda; isso é chamado de “efeitos de borda”. O efeito da pesada poluição sobre a água, o solo e o ar também foi documentado, pois há uma continuidade entre floresta, água e ar. As florestas tropicais se caracterizam por possuir um complexo sistema de reciclagem de água; na verdade, elas são reservas de água doce. As extrações de petróleo também envolvem a criação de estradas e rodovias por onde passam caminhões pesados, além de oleodutos, campos de trabalhadores, etc. Toda essa infraestrutura também é protegida por militares ou pessoal de segurança, o que aumenta a violência gerada nas comunidades, principalmente para mulheres e meninas.
A vida na floresta é cheia de relacionamentos e sensações. Relações de interdependência e cooperação que permitem que os povos vivam e a natureza se reproduza. Sinais olfativos, vibrações, atração de polinizadores pela forma ou a cor das flores, são adaptações que fazem da floresta um cenário de profundo erotismo. Não é apenas alimento e saúde, é a vida em seu sentido mais amplo e existencial.
Cada rio poluído, cada poço perfurado, cada estrada que atravessa territórios não para se comunicar, mas para extrair mercadorias, cada enclave com infraestrutura de petróleo, tem uma resposta de rejeição ou pelo menos um repúdio em nível local.
A sensibilidade à destruição da natureza aumentou em todo o mundo, e não foi pelas mensagens televisionadas da catástrofe global, pelo menos não só por isso. Os locais estão se rebelando e dando novos sentidos ao global e aos globais.
O Equador extrativista em crise
Desde a descoberta das primeiras jazidas de petróleo no Equador, os governos da época aplicaram políticas e medidas para favorecer a indústria, mesmo em detrimento de sua soberania alimentar e energética.
As companhias de petróleo e os governos, com quem se estabelecem modelos diferentes de pressão e controle, construíram um imaginário de um país petrolífero e armaram modelos institucionais e recursos administrativos para favorecer indústria do petróleo: contratos sempre benéficos para a indústria; dezenas de subsídios de diferentes tipos; estradas e promoção da cultura automobilística; acordos e políticas constantes para manter e aumentar a atividade petrolífera como eixo da economia; desregulamentação das normas ambientais, com um amplo dispositivo para evadir responsabilidades sociais e ambientais.
Após 50 anos de extração, principalmente na Amazônia, descobrimos que as novas jazidas estão em áreas de difícil acesso e alto risco, como o Parque Nacional Yasuní. Mas, além disso, o que resta é óleo cru pesado, que requer muita energia (demandando megainfraestrutura para a produção dessa energia) e investimentos complexos, tais como estradas, oleodutos, estações de aquecimento do óleo, refinarias para esse tipo de petróleo, entre outros. Apesar disso, mantém-se o objetivo de continuar com a extração de óleo.
A herança do petróleo, em termos de seus impactos ambientais, sociais e econômicos devastadores, principalmente com as evidências levantadas no julgamento contra as atividades da Chevron Texaco no Equador, (3) construiu uma massa crítica a essas operações. A isso se somou a campanha pela defesa do Yasuní (4) – reconhecida como a área de maior biodiversidade do planeta, o que permitiu colocar no outro lado da balança a natureza e os povos sacrificados pela indústria do petróleo. Além disso, o balanço dos últimos 10 anos revelou a forma como a atividade petrolífera ocultava uma rede de casos de corrupção que levavam a uma grave crise econômica e institucional no país.
O petróleo perdeu credibilidade como agente gerador de emprego, renda ou de possibilidades de sair da pobreza. Esse é o pano de fundo das recentes mobilizações no Equador.
Em outubro de 2019, o governo do país decidiu eliminar os subsídios aos combustíveis. As vantagens – e os subsídios – da indústria do petróleo não foram tocados. Ao contrário, a eliminação dos subsídios aos combustíveis vinha com um conjunto de medidas adicionais para aumentar a extração de petróleo: regras para desregulamentar os controles ambientais, compromissos com o pagamento de indenizações por conflitos ou disputas que prejudiquem a atividades das petroleiras e medidas econômicas para manter a centralidade do petróleo nas atividades econômicas e de produção. Pretendia-se argumentar que a medida estava em sintonia com as demandas ambientais globais.
As mobilizações vêm sendo lideradas por povos indígenas, que historicamente protagonizaram lutas contra a indústria extrativa no país. Esses povos agora denunciavam que a medida era um ataque às economias empobrecidas do campo e da cidade. As mobilizações forçaram o governo não apenas a suspender a medida, mas também a se sentar à mesa para discutir uma agenda econômica para o país.
Parlamento dos Povos, convocado pelas organizações indígenas, apresentou sua proposta: uma série de medidas de ajuste e impostos para as empresas e setores mais ricos do país, mas também uma virada nas políticas nacionais que reconhecem a plurinacionalidade, o bem viver e os direitos da natureza. (5)
Eles propõem parar a fronteira extrativa da mineração e do petróleo e não tocar os subsídios aos consumidores enquanto não forem resolvidas as questões relacionadas à soberania alimentar e energética, que foram torpedeadas pelo modelo petroleiro que está na base da economia equatoriana.
Esperanza Martínez,
Acción Ecológica, Equador, membro da rede Oilwatch

(1) Existe um consenso de que a atual crise não é apenas econômica, ambiental, energética, mas também um colapso civilizatório integral, que revela o esgotamento de um modelo de organização econômica, produtiva e social, com suas respectivas expressões em todas as esferas da vida.
(2) A Oilwatch é uma rede do sul, que promove resistência às atividades petrolíferas nos trópicos. Atualmente, tem sua coordenação internacional na Nigéria.
(3) Mais informações em: www.texacotoxico.net
(4) Mais informações em: www.yasunidos.org