segunda-feira, 24 de abril de 2017

Desmascarada a fraude ruralista contra o CIMI no MS






Relatório da CPI do Cimi no MS é arquivado, mas ruralistas o desejam incluso na CPI da Funai/Incra


No advento dos 45 anos completos neste 23 de abril, o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) tem a alegria de informar o arquivamento, por parte do Ministério Público Estadual (MPE) e Ministério Público Federal (MPF), do Relatório Final produzido pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Cimi na Assembleia Legislativa do Mato Grosso do Sul. 

A CPI criada e conduzida por parlamentares ruralistas invadiu sem quaisquer indícios de irregularidades a vida institucional do Cimi, de membros e colaboradores da organização durante oito meses, entre setembro de 2015 e maio de 2016. Com o arquivamento, o desejo ruralista por um processo criminal contra o Cimi está frustrado. 

Ao longo de todo esse tempo, acusações marcadamente falaciosas foram amplamente divulgadas como se verdade fossem por diferentes veículos de comunicação, inclusive pela TV pública da própria Assembleia Legislativa. Imagens de missionários e seus familiares, inclusive crianças menores, foram divulgadas sem o menor pudor no contexto acusatório manejado pela maioria ruralista integrante da CPI. 

O arquivamento do Relatório da CPI do Cimi pelos órgãos de controle do Estado brasileiro demonstra, com firmeza, que a luta por direitos no Brasil não é e não pode ser tratada como crime. Com o arquivamento do citado Relatório, fica novamente demonstrado que o Cimi, seus membros e colaboradores atuam, única e exclusivamente, dentro dos marcos político-legais vigentes no Estado brasileiro. 

A motivação central do arquivamento do Relatório da CPI, a saber, por falta de provas, materializa o fato de que as acusações desferidas por parte de representantes do agronegócio sul-mato-grossense contra o Cimi, seus membros e colaboradores tinham exclusivo viés político-ideológico e se deram num contexto de perseguição, tentativa de criminalização e na intenção de provocar danos morais contra uma organização reconhecida, nacional e internacionalmente, pelo compromisso com a causa indígena e por uma sociedade plural e democrática. 

O Cimi chama a atenção, porém, para o fato de que o referido Relatório, devidamente arquivado pelos MPE e MPF no Mato Grosso do Sul, foi requerido e já deve estar sendo ‘requentado’ pelos ruralistas no âmbito da CPI da Funai/Incra na Câmara dos Deputados. 

Eventual menção e retomada, pela CPI da Funai/Incra, de acusações dirigidas ao Cimi, a seus membros e colaboradores - arquivadas junto com o Relatório da CPI do Cimi no Mato Grosso do Sul - significará prática recorrente, de modo consciente e deliberado, por parte de seus autores, de perseguição política, tentativa de criminalização e provocação de danos morais contra a organização, seus membros e colaboradores. 

Por fim, o Cimi reitera e renova o compromisso com os povos indígenas, seus direitos e suas lutas, nesse contexto caótico em que sofrem sistemáticos e intensos ataques, perseguições e violências por parte de setores ligados ao agronegócio, órgãos e autoridades públicas, além dos próprios poderes do Estado brasileiro. 

Brasília, DF, 24 de abril de 2017

Conselho Indigenista Missionário (Cimi)


terça-feira, 11 de abril de 2017

Ora, se o problema é a respiração, compremos os pulmões.

Publico em seguida a íntegra da entrevista que concedi ao jornal O São Paulo.

1.      Fale um pouco sobre você: nome completo, formação, família, atuação profissional e voluntária.

R: Sou Lindomar Dias Padilha possuo graduação em Filosofia, licenciatura, pela UECE e Especialização em Desenvolvimento e Relações Sociais no Campo pela Universidade de Brasília, UnB e formação em Direitos Humanos. Atuo junto aos povos indígenas da Amazônia brasileira desde 1991. Sou casado e tenho dois filhos. Minha esposa também atua junto aos povos indígenas e atualmente é coordenadora do Regional Amazônia Ocidental do Cimi, com sede em Rio Branco, Estado do Acre. Atuo também no observatório Pan Amazônico prestando serviços de análises de temas relacionados à Amazônia, notadamente temas ligados aos territórios, mercantilização e Financeirização da natureza em oposição ao Bem Viver, enquanto proposta de vida plena e harmônica para todos. Sou membro do Comitê Brasileiro de Defensoras e Defensores de Direitos Humanos.
2.      Desde quando os povos da Amazônia vem sofrendo violação dos seus direitos?

R: Regra geral, os povos indígenas são violados, saqueados e assassinados, física e culturalmente, desde a invasão europeia. O problema de fundo é que sempre estes povos foram “vítimas” de projetos sonhados por outros e nunca foram considerados como sujeitos e propositores de seus próprios projetos. Entretanto, creio que os ciclos que se seguiram após o contato também tiveram e tem papel preponderante e cada vez mais se sofistica na ação de expropriar e mercantilizar a natureza. Tivemos neste caso, aqui no Acre, dois ciclos onde a seringueira era a matéria prima para a produção de borracha para as fábricas que alimentavam a guerra e o “progresso”.
Neste momento, a tese principal tem sido o uso intensivo do que ainda resta de matéria prima sob o pseudônimo de “sustentabilidade”. Está em curso um perverso modelo de ataque aos territórios de indígenas e comunidades tradicionais. Destaco três aspectos deste modelo: um primeiro aspecto é o incentivo a produção de peixes em cativeiro (peixes de granja) num claro interesse de alimentar os mercados de ração e atacar a soberania alimentar das comunidades e, claro, criar ainda mais dependência; um segundo é o chamado “manejo” que no caso do Acre tem sido mais uma “autorização” para o desmate. Chamam de manejo sustentável, mas na prática é insustentável porque, entre outras coisas, foca exclusivamente na madeira e desconsidera todos os outros elementos deste complexo bioma Amazônico por exemplo as fontes de água e os animais, notadamente as espécies endêmicas. E um terceiro que são os projetos de Pagamentos por Serviços Ambientais (PSA) especialmente os de REDD+ que não são outra coisa que não a autorização para que empresas e países que mais poluem, sigam poluindo por meio da compra de créditos de carbono. Ou seja, os povos indígenas, a título de preservarem seus territórios, estão na verdade vendendo o usufruto destes territórios para empresas que, assim, podem “compensar” a emissão de gases de efeito estufa e outros. A lógica do capitalismo verde é simples: se falta ar, então, compremos os pulmões.
Este é um tema propositadamente envolto a uma nuvem de suposta complexidade, mas na verdade trata-se simplesmente do comércio do ar que respiramos. Quem pode compra o direito de seguir poluindo e pronto.
3.       Que órgãos têm lutado a favor da defesa destes povos?

R: Teoricamente temos muitos órgãos na defesa dos povos indígenas. Entretanto, temos que ter muito cuidado porque muitas ONGs, que são basicamente “Organizações Neo Governamentais” porque dependem diretamente de recursos públicos. Por outro lado, muitas delas são dependentes de recursos externos, justamente de países ou financiadoras que desenvolvem trabalhos no campo da dita economia verde. Ou seja, empresas e governos se valem dessas ONGs para terem acesso às comunidades e induzi-las à venda de sua autonomia territorial.. Na prática são pouquíssimas as instituições que de fato trabalha na defesa dos interesses dessas comunidades. Para não ser injusto prefiro não citar nomes de organizações. Entretanto, posso afirmar com toda certeza que as megas ONGs, de atuação internacional, são na verdade empresas do capitalismo verde e, portanto, a serviço do grande capital e contra os povos indígenas e comunidades tradicionais. Também essas ONGs/empresas, fazem parte do sofisticado mecanismo de expropriação.
A REPAM (Rede Eclesial Pan Amazônica) tem se apresentado como uma proposta de rede que seja capaz de articular essas entidades, ainda que o campo de atuação seja muito mais ligado à Igreja católica. Aliás, isso aponta para uma nova etapa , uma etapa pós Laudato Si. Essa é uma importante iniciativa e trás esperanças para os povos indígenas e comunidades da nossa Pan Amazônia.
4.       Sobre os casos concretos que foram levados aos Estados Unidos da América, há perspectivas de que os responsáveis sejam punidos?

R: Os sistemas ligados à Organização dos Estados Americanos (OEA), a despeito de sua boa vontade é lento quando se trata de punição, talvez por ser uma organização financiada e mantida justamente pelos estados, na maioria das vezes os que mais violam ou deixam violar os direitos. Nossa perspectiva, no entanto, é muito boa porque mais que punir espera-se dar visibilidade aos casos e criar nos próprios estados, junto à sociedade civil um clima mais favorável à Amazônia e seus povos, pessoas que vivem, produzem e cuidam desta vasta área riquíssima em biosóciodiversidade. Todos os casos apresentados na Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA pornôs, são exemplos da gravíssima situação de violação dos direitos em nossos territórios e, cuja denúncia esperamos, alcance os ouvidos das pessoas de bem e boa vontade para que saiam na defesa desses povos e territórios. No caso do Acre é preciso que o Brasil e o mundo saibam dessas violações travestidas de sustentáveis e apresentadas como “modelo” ao mundo. É preciso que a cortina se descerre e as pessoas vejam a verdade por trás desses projetos ligados à economia verde para que, assim, possam compreender o que realmente está se passando no Acre e em nossa grande Amazônia.
5.      Como podemos pensar no equilíbrio entre desenvolvimento econômico e defesa das comunidades tradicionais na Amazônia?

R: Esta é uma pergunta importante porque temos que, a partir dela, definir o que estamos chamando de “desenvolvimento” econômico. E para quem será este desenvolvimento. Os modelos que até aqui foram apresentados, todos, rigorosamente todos, se dirigiram (e ainda o são) para o desenvolvimento dos grandes conglomerados econômicos e países ligados a estes conglomerados. Assim, todos estes projetos até aqui foram incompatíveis com a defesa das comunidades e do ambiente. Na cabeça dos que apregoam o “desenvolvimento” vem uma série de cifrões. Também os seus olhos nada enxergam que não cifrões. Associam desenvolvimento ao consumo, padrão de consumo e poder de acumulação. Ou seja, uma comunidade ou um povo tem seu desenvolvimento medido a partir de sua capacidade de consumir e gerar lixo industrial.
O equilíbrio só será possível se nos libertarmos deste conceito de desenvolvimento e entendermos que o verdadeiro desenvolvimento está no uso sadio do que a natureza nos oferece em primeiro lugar para “vivermos bem” e não para simplesmente a explorar até a exaustão para satisfazer padrões de consumo. É muito mais desenvolvida uma comunidade onde todos trabalham na geração de vidas, de suas próprias vidas e de outros, onde a natureza é, antes de tudo, uma mãe que ama seus filhos mas espera que em tempos de velhice estes filhos a amparem. Nossa Amazônia é esta mãe e neste momento se encontra enferma e bastante debilitada. Temos que cessar imediatamente as atividades que a explorem ainda mais e são o motivo de sua enfermidade. Temos que retirar daqui toda exploração madeireira, petroleira, minerações diversas. Por fim, temos que “expulsar” daqui os projetos de morte ainda que disfarçados de sustentáveis como os ligados a chamada economia verde que não é outra coisa que esverdear as cinzas da destruição.
6.      Você poderia falar um pouco mais sobre a financeirização da natureza e o bem viver?

R: Quando as caravelas europeias aqui chegaram para invadir os territórios e expropria-los, roubando-lhes o que fosse possível, chamaram a isto de “descoberta” e tinha por finalidade comercializar as riquezas não exploradas pelos ignorantes que aqui viviam e, em contra partida, trazer a civilização. Ou seja, civilizar era colocar no mercado. Por isso este processo também era chamado de mercantilização. Civilização era o mesmo que mercantilização. Aí está a raiz da Financeirização da natureza bem como de todos os demais projetos de morte que se seguiram. Como eu já o disse são projetos que enxergam cifrões e não vidas. As caravelas e suas formas de “civilizar” foram se aperfeiçoando ao longo dos tempos e hoje nos são apresentadas no formato de economia verde ou ecobisnes. Simplesmente a esverdeação do velho mercado explorador das riquezas e das pessoas. Vejam a que ponto chegaram: exploração do ar! Sim isso mesmo. Os mercados de carbono, assentados em projetos do tipo PSA (Pagamento por Serviços Ambientais), notadamente os de REDD+, não tem outra finalidade que não a exploração da capacidade de absorção da poluição gerada pelos gazes nocivos e da geração, portanto, de oxigênio e retenção do CO2. Este processo baseia-se na geração de créditos, que já expliquei, funcionam como uma autorização para continuar a poluir em outra parte do planeta. Estes créditos gerados são negociados em bolsas e quanto maior for a ameaça ao meio ambiente, tanto mais valiosos serão estes créditos. Assim, os detentores desses créditos lucram duas vezes pelo menos. Uma vez porque seguem emitindo gazes nocivos e até aumentando a emissão; e outra vez porque com o aumento da emissão e da poluição os créditos adquiridos tem seu valor majorado gerando uma expectativa de lucro futuro. A este processo mais arranjado, sofisticado é que chamo de Financeirização. A diferença que saliento é que, neste caso da Financeirização, a natureza passa a ter perspectiva meramente financeira, sem os chamados investimentos. Ou seja, o mercado não faz nenhum investimento para adquirir o lucro. O mercado de carbono se posta como mercado de rezes que compra uma fazenda com as porteiras fechadas. Compra tudo que há ali, incluindo o direito à vida e o futuro das pessoas.
Nessas condições, é impossível falarmos em bem viver. Mercado e vida são figuras incompatíveis. Logo, a Financeirização é exatamente o oposto ao bem viver.
7.      Que outros casos (tipos) de violação de direitos acontecem mais frequentemente na Amazônia?


R: Os projetos de ação direta, como os ligados às indústrias extrativas como a petroleira e as de mineração causam violações mais imediatas e visíveis porque atuam diretamente sobre as pessoas, seja na exploração da mão de obra, seja nos danos à saúde por exemplo. Estes tipos de violações são mais frequentes porque estas indústrias não tem a sofisticação das ligadas ao comércio verde. Elas se portam como coronéis e para tanto possuem seus jagunços que são os políticos locais e os poderes do Estado como um todo. Os políticos locais e o Estado, se contentam com uma pequena parte do lucro e, em troca, aceitam penalizar à exaustão o ambiente e, claro, as pessoas que aqui vivem. Neste tipo de ambiente ocorre todo tipo de violação e as denúncias quase sempre não surtem efeitos porque os poderes do Estado estão intimamente ligados às empresas e a serviço delas. Assim, a própria ação dos poderes do Estado, como o judiciário por exemplo, atua sob constantes violações de direitos humanos. Neste ponto reside a dificuldade em relação aos mecanismos de punição, se tornando a própria estrutura uma forma de violação dos direitos.
Violências e explorações, por exemplo, das crianças e adolescentes na Amazônia, contam quase sempre com a proteção de uma rede que envolve políticos locais, policiais, advogados e até setores do judiciário, além de pseudos religiosos das mais diversas denominações. Dizer que a Amazônia é uma terra sem lei não corresponde a verdade. A Amazônia é uma terra cujas leis não protegem os amazônidas e são utilizadas para justificar o roubo, o saque a espoliação a violação de direitos e finalmente o assassínio.


Agradeço as perguntas e me coloco sempre a disposição.


Lindomar Dias Padilha 

segunda-feira, 6 de março de 2017

Dia Internacional da Mulher: a feminística de mulheres e homens pela Paz

Por Amyra El Khalili*

A expressão "feminística" foi concebida em 8 de março de 2006, no Dia Internacional de Mulher. Foi numa mesa-redonda em torno de"Questão de Gênero", durante o I Fórum da Cidade de São Paulo -Objetivos do Milênio (ODM), realizado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e pela Câmara Municipal da capital. A inspiração veio de uma questão que me incomoda: a cobrança diuturna para rotular as pessoas. Todos querem rótulo em tudo. Vivemos no mundo de clichês.

Não é à toa que, frequentemente, as (os) jornalistas perguntam: "o Movimento Mulheres pela P@Z! é feminista?" Digo não. Contestam perguntando: "Mas é um movimento que tem homem?" Digo sim. Aí, concluem: "Não é um movimento de mulheres pela paz, mas um movimento de mulheres e homens pela paz". Percebo que nem eles nem eu ficamos satisfeitos. Porém, um comentário da escritora Vilma Marchitiello sobre a mística feminina me ajudou a encontrar a definição: O Movimento Mulheres pela P@Z é feminística!

É um movimento feminístico, da mística feminina, essência que no homem também existe.

Este movimento de mulheres e homens nasceu em 8 de março de 2002, de uma atitude de mulheres palestinas, judias e brasileiras, depois de várias cisões em nossos grupos pacifistas israelo-palestinos. Nasceu no momento em que os homens tensionavam as discussões e não saíam da mesma retórica, o que, aliás, é comum na natureza masculina: não saber recuar, não saber flexibilizar, não saber feminizar. Quando aprendem, crescem muito como seres humanos!

Mulheres em Meio Ambiente

Tem sido muito mais fácil sensibilizar as mulheres em relação à preservação e conservação ambiental devido à sua própria condição biológica, como gestora da vida, portadora de útero. As mulheres devem assumir a sua condição de guardiãs das florestas, dos rios, da biodiversidade, de nosso ambiente, uma vez que, no dia a dia, com as tarefas domésticas, são as que mais sofrem com a falta de água, de energia, de alimentos.

A violência contra a mulher não se manifesta apenas na agressão corporal ou verbal, mas, igualmente, na pobreza, na falta de educação, de trabalho, na saúde, na falta de recursos básicos de sobrevivência. Uma pode culminar com a sua morte. A outra, subjetiva, indireta, subliminar, atinge a ética, a estética e a moral. É a mais perniciosa das agressões. Ela pode se dar de várias maneiras: agressão psicológica, assédio moral, assédio sexual, por intimidação, racismo, destruição da autoestima. É o que chamamos de PCC - Poder, Comando, Controle. O que mata e morre.

O poder da palavra

A palavra tem força. Podemos, por meio dela, desativar uma bomba no sistema financeiro ou uma ação racista. Podemos denunciar um site de pedofilia ou derrubar sites mentirosos, mascarados. Podemos desarmar um ataque à Amazônia ou uma farsa montada por estelionatários. Tudo pela internet, a distância, pois não podemos estar em todos os lugares simultaneamente. Outras pessoas, porém, à frente de outros computadores, precisam desse ECO para suportar a pressão da agressão dos confrontos e das guerras em suas regiões e territórios.

Não falo somente das que se veem, com mísseis, caças F16, bombas. Falo daquelas que não se veem, que podem ser tão ou mais perigosas que as que assumidas por governantes. A guerra que travamos diariamente contra a corrupção, contra a manipulação política, contra a degradação ambiental, contra a violência, contra as desigualdades.

No entanto nenhum movimento ou frente se consolida apenas com motes. Essa consolidação só se dá quando suas lideranças e membros assumem efetivamente a causa, carregam suas bandeiras, expõem-se publicamente com todos os riscos.

São especiais as pessoas realmente comprometidas com as causas socioambientais, dispostas a entregar a sua vida expondo-se, assim como com as questões de direitos humanos, direitos políticos, liberdade de expressão, democratização da informação, questões de gênero e etnia. Assumir uma causa, ou uma missão, é decisão exclusiva e intransferível de foro pessoal.

O que podemos fazer, quando identificamos tais formadoras (es) de opinião (stakeholders), é apoiá-las (os), dar-lhes estímulo e força para que persistam no seu trabalho e se estabeleçam.

Não estamos falando de dinheiro, mas de ação, apoio moral e psicológico. Um apoio que se dá sem interesses, maniqueísmos ou segundas intenções e, principalmente, sem imprimir-lhes rótulos. É aquele apoio que fortalece o ser humano para que consiga encontrar soluções sem destruir-se, degradar-se moralmente frente às pressões e humilhações a que são submetidas (os).

Mulheres e homens que lideram comunidades e diversas frentes proativas são, muitas vezes, pressionadas (os), intimidadas (os) e ameaçadas (os) por corruptos, por questões ideológicas, políticas, religiosas, etnicas. Quando é possível, viajamos até a região, conversamos com a comunidade, organizamos uma estratégia. Sabemos que essa pessoa permanecerá ali quando formos embora. Dá uma sensação estranha. De um lado, satisfação enorme pela chance de, de alguma forma, contribuir, apoiar, estimular. De outro, a impotência de querer fazer mais sem saber exatamente o quê e como.

É importante apoiar essas pessoas, pois são elas que carregam, provocam e impulsionam outras. Se elas fraquejam, enfraquecem alguns milhões de dependentes de suas ações, que também precisam de apoio e estímulo para seguirem adiante.

Então buscamos formas de "empoderar" essas pessoas para que possam seguir em frente. Esta é uma das premissas do movimento de mulheres e homens pela paz, principalmente se essa pessoa for uma mulher. São elas as mais discriminadas e excluídas no processo de empoderamento socioeconômico. Conquistaram o mercado de trabalho; são a maioria consumidora, mas não foram empoderadas, ou, mesmo, preparadas para ter poder.

Hoje, o mercado está com os olhos voltados para a mulher. Debatem-se as mulheres em todos os cantos, por todos os lados. Mas não se enganem! Em muitos casos, não é por consciência da importância da questão de gênero, ou por alguma percepção humanitária, mas porque descobriram que a mulher é “consumidora”.  Ela é quem toma as decisões de consumo para as outras pessoas da família.

Eventos conscientes são aqueles organizados por movimentos sérios e gente com histórico de defesa dessas justas causas. Não desejamos legitimar a questão de gênero na concepção de que a mulher não passaria de mais uma consumidora. O mundo já faz isso o tempo todo com as mulheres. O que queremos é que ela seja capaz de ser tomadora de decisões sobre os mais diversos assuntos. Seja ela produtora rural, artesã, empreendedora, executora, o que importa é que decida sobre o contrato mercantil, a cláusula contratual do seguro, sobre como é que vai pagar a prestação, como o banco vai debitar a taxa de juros. Decisão é a palavra-chefe. A mulher tem que decidir, não somente produzir-consumir.

É nossa prioridade trabalhar a autoestima feminina. Tanto a exterior quanto a interior, para que as mulheres possam ser "empoderadas". Seja para o trabalho, o empreendedorismo, a economia, o amor, a família: o empoderamento de mulheres é a meta.

Desejamos que esta semana, em comemoração ao “Dia Internacional da Mulher”, seja um momento de reflexão sobre a mística feminina de mulheres e homens, para que possam compartilhar essa virtude, fortalecendo-se mutuamente de igual para igual, um ao lado do outro!


"Todos os seres humanos estão presos numa teia inescapável de mutualidade; entrelaçados num único tecido do destino. O que quer que afete a um diretamente, afeta a todos indiretamente. Não posso nunca ser o que deveria ser até que você seja o que deveria ser e você não pode nunca ser o que deveria ser até que eu seja o que devo ser" (Martin Luther King).

Nota:

O "Movimento Mulheres pela P@Z!" é uma formação de rede, de caráter transdisciplinar, não sectário, que tem como objetivo promover a paz entre grupos étnicos, povos e nações, através do debate, da informação e de ações que propiciem a aproximação, a criação e o fortalecimento de relações inter-raciais e interculturais, orientando a não-intervenção, a não-ingerência e a não-dominação de uns sobre outros, fomentando a tolerância, a concórdia e a colaboração e o auxílio mútuo, de modo que a identidade e a liberdade sejam indissociáveis e utilizadas como instrumentos para a construção de um mundo que compreenda a existência de desígnios superiores e transcendentais para a Humanidade.

Referências:

EL KHALILI, Amyra. Palestra proferida no 1º Fórum da Cidade de São Paulo — "Objetivos do Milênio (ODM)", organizado pelo PNUD e pela Câmara Municipal São Paulo. Mesa-redonda: "Questão de Gênero”,  dia 8 de março de 2006.

JUSTE, Marília. ODM devem ser ‘feminizados’, diz jurista. – São Paulo, 8 mar. 2006. In: www.pnud.org.br;


*Amyra El Khalili é professora de economia socioambiental. Foi economista com mais de duas décadas de experiência nos mercados futuros e de capitais. É fundadora do Movimento Mulheres pela P@Z! e editora da Aliança RECOs – Redes de Cooperação Comunitária Sem Fronteiras. É autora do e-book “Commodities Ambientais em Missão de Paz: Novo Modelo Econômico para a América Latina e o Caribe”. Acesse gratuitamente: www.amyra.lachatre.org.br

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Agro é tóxico e estão intoxicando os territórios

Caiado divulga informação falsa sobre novas terras indígenas

Sempre crítico da política de demarcação de terras indígenas no Brasil, o senador Ronaldo Caiado (DEM-GO) não deixou de abordar o assunto durante a sabatina de Alexandre de Moraes ao Supremo Tribunal Federal. Protestou contra a "insegurança jurídica" e o "clima de enfrentamento" no campo.

Ao acusar antropólogos de produzirem laudos fraudulentos para fundamentar as demarcações - na mesma linha da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Fundação Nacional do Índio (Funai) na Câmara -, Caiado queixou-se da alta demanda por novas terras: segundo o senador, 339 novas áreas estariam sendo reivindicadas como indígenas, o que corresponderia a 20% do território nacional. "Terra produtiva", fez questão de dizer ao defender a indenização aos proprietários das áreas.

O Truco - projeto de checagem da Agência Pública - foi atrás dos números e descobriu que não é bem assim. As 339 áreas às quais o senador faz referência foram contabilizadas pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi). Apresentado no relatório Violência contra os povos indígenas do Brasil, lançado em 2013, o dado é relativo a 2012 e está, portanto, desatualizado.

O mapeamento mais recente do Cimi, com dados de 2015 e apresentado na edição de 2016 do mesmo relatório, somava 348 terras "sem providências" no Brasil. Ou seja, embora reivindicadas pelas comunidades, elas ainda não começaram a ser estudadas formalmente pela Fundação Nacional do Índio (Funai). É improvável que 100% delas estejam sobre "terra produtiva", como ressaltou Caiado, já que 190 estão na Região Norte, que abriga a maior parte da Amazônia brasileira, e 36 são ocupadas por povos isolados.

O Cimi não apresenta qualquer estimativa do tamanho dos territórios. Não é possível dizer, portanto, que elas correspondam a 20% do território nacional, como sustentou o senador.

Ainda que se recorra à base de dados da Funai, a porção do território reivindicada pelos indígenas não bate com a mencionada pelo parlamentar. Mesmo que se incluam todas as terras contabilizadas pela fundação, desde aquelas "em estudo" até as completamente regularizadas, a contabilidade oficial é de 728 áreas, que, juntas, somam 1,17 milhão de km², ou 13,78% do solo brasileiro - bem abaixo de 20%.

A análise dos dados mostrou que o senador utilizou um dado desatualizado para as novas terras reivindicadas; disse que elas ocupariam 20% do solo brasileiro, o que não tem respaldo nos dados do Cimi e nem da Funai; e também errou ao dizer que se trata de "terras produtivas" para o setor agropecuário, já que algumas das áreas correspondem a territórios de índios isolados na floresta. A afirmação do parlamentar, portanto, é falsa.

Fonte: A Públic AQUI


Meu comentário: Reproduzi aqui esta matéria porque é preocupante, muito preocupante, que neste momento as forças ruralistas, de direita, estejam se posicionando em pontos estratégicos do Governo, como no Ministério da Justiça com a indicação de Osmar Serraglio, conhecido ruralista, anti indígena, a nomeação de Alexandre de Moraes para o Supremo Tribunal Federal (mais alta corte) e a recente viagem de parlamentares, incluindo os senadores Jorge Viana (PT-AC), Humberto Costa (PT-PE), Kátia Abreu (PMDB-TO), Ricardo Ferraço (PSDB-ES) e Ana Amélia Lemos (PP-RS) e os deputados Eduardo Cury (PSDB-SP), Bruna Furlan (PSDB-SP) e Pedro Vilela (PSDB-AL) viajaram a Israel a convite de organizações de cunho sionista  para "aprender" a produzir em territórios ocupados.

Vejam o que disse a senadora Kátia Abreu:  "Israel é grande produtor de Oliveiras, azeitonas de todos os tamanhos e azeite da melhor qualidade!
Estou em Tel Aviv em uma missão oficial com outros senadores para, entre outros assuntos, conhecer o sistema de irrigação dos israelenses, um dos melhores do mundo."

Já a  assessoria do senador Jorge Viana (PT-AC) disse que o parlamentar não vê problemas em viajar a convite de organizações engajadas na defesa do Estado de Israel, e ressaltou que o senador "não é contra a Palestina".

O processo de libertação dos povos e devolução e respeito aos seus territórios é o que de fato está por trás de tudo isso. Devolvam minimamente os territórios roubados dos povos indígenas.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

A construção de outro modelo de finanças depende de uma estratégia socioambiental

Amyra El Khalili*

A financeirização tem permeado os mais diversos setores da economia, provocando distorções entre a economia real (produção) e a economia financeira. A economia real se baseia em produtividade na indústria, na agropecuária, no comércio e em serviços.  Já a economia financeira é a que faz circular o dinheiro nos sistemas informatizados e tecnológicos, alimentando as taxas de juros e a especulação sobre a base produtiva.

Há uma diferença substancial entre financiar e financeirizar.

*Financiar é proporcionar um empréstimo para que a costureira compre uma máquina de costura e consiga pagá-la nas condições de sua produção

Já financeirizar significa emprestar o dinheiro para a costureira comprar a máquina, causando o endividamento e, consequentemente, fazendo com que ela não consiga cumprir com seu compromisso, tornando-a escrava da dívida.

É o que tem acontecido na América Latino-Caribenha, quando os países do Norte conseguem desenvolver sua produção industrial e agropecuária com o financiamento, e os países vulneráveis, e em desenvolvimento, se tornam reféns de empréstimos sem poder se libertar do eterno endividamento, especialmente quando tal empréstimo se destina a pequenos e médios empreendedores e agricultores.

Entre os mais endividados, estão os agricultores, pois a contração das dívidas exige garantias reais, como terras, imóveis, maquinários e equipamentos, entre outros bens que dão acesso ao recurso financeiro. Se os agricultores/as comprometem a terra para obter financiamento e as alienam ao sistema financeiro, passam a depender da decisão destes credores,  submetendo-se  a  produzir o que os credores determinam, como, por exemplo, produtos transgênicos em escala. Devem, igualmente, vincular sua produção a equipamentos e a maquinário, a produtos químicos (agrotóxicos); enfim, passam a depender de uma estrutura com forças assimétricas em cuja engrenagem não têm poder de decisão.

Sob a pressão do sistema financeiro entre corporações e governos que impõe como contrapartida (ou garantia) a escala de produção, a terra, monetariamente falando, é o bem mais barato, pois caro é o que você põe em cima dela.

 Daí o avanço desenfreado sobre as áreas de florestas que ainda hoje detêm, graças aos povos indígenas e aos povos tradicionais, rica biodiversidade, água, minérios e alternativas energéticas. Dessa forma é que a financeirização avançou sobre as riquezas naturais consideradas sem valor (financeiro) na contabilidade de produção de bens e serviços. A esse avanço do capitalismo neoliberal chamamos de “financeirização da natureza”.

Uma finança diferente

Veja o paradoxo tão discutido nos cânones das várias religiões: as finanças podem ser usadas a favor da vida como a favor da morte. Nem todo dinheiro é ruim, assim como nem toda forma de o gastar é saudável. É nesse ponto que compreendo a análise do economista francês, Yann Moulier Boutang, quando se refere à necessidade de construir uma finança diferente, que seja a favor da vida financiando projetos socioambientais, e não a globalizada e enraizada no modelo neoliberal, que financia o mercado de armas, drogas, favorece a biopirataria (ilícito).

Quando tratamos de uma cifra de R$1.000,00 (mil reais), o senso comum sabe do que estamos falando; quando, porém, tratamos de cifras que ultrapassam a casa dos três zeros, como 100.000 (cem mil), 1 milhão, 1 bilhão, 1 trilhão, a população não sabe o que tantos zeros representam.

É nessa casa de cifras que circulam os valores monetários no sistema financeiro, migrando de um continente a outro na velocidade de milésimos de segundos. Quando o sistema alavanca tais cifras, arrebenta com a atividade produtiva, causando estragos enormes nas contas públicas e privadas.  Este processo onera o custo de taxas de juros e tributos, em detrimento do custo de vida da população pobre, que é a maior pagadora de impostos.

A sociedade é mobilizada por campanhas de esclarecimento, auditorias de contas públicas e pressão com propostas proativas em favor de uma reforma tributária e fiscal que contemple e estimule o financiamento e os investimentos diretos em projetos socioambientais, com produção consciente e de menor impacto ambiental. Este é o caminho que a ferramenta finanças deve seguir em favor da vida, e não como tem sido usada até agora, para projetos de morte, provocando guerras, conflitos regionais, etnocídios e genocídios. É por essas consequências que muitos demonizam o capitalismo e o sistema financeiro. A moeda não faz parte do paradigma organicista dos demais seres vivos; no paradigma mecanicista os humanos vivem condicionados ao sucesso do ter e não do ser.

Crise sistêmica

A crise sistêmica é fruto do entrelaçamento e imbricamento entre a moeda e as garantias que lastreiam a emissão de dinheiro e do fato de cada saca de soja ser negociada na bolsa de Chicago, situação em que se pode multiplicar até 100 vezes  em contratos futuros. Se em algum momento houver necessidade de se executar judicialmente qualquer contrato que circula no mercado de derivativos (derivado de ativos), nem toda a soja do mundo será suficiente, porque ela simplesmente não existe. Para não correrem o risco de uma intervenção judicial, as bolsas suprimiram a cláusula que prevê entrega física. É neste ponto que reside a financeirização da produção de commoditiesagropecurárias e de minérios.

Os mercados futuros deveria ter por função “fixar preço”  para prevenir riscos de uma quebra de safra, crises politicas e econômicas, crises climáticas e desastres naturais, entre outros fatores imprevisíveis, capazes de provocar aumentos estratosféricos ou baixas expressivas nos preços, prejudicando custos, com isso provocando  desemprego, falência de industrias, de produtores e prestadores de serviços (hedge/proteção).

Desregulamentação do sistema financeiro

Com a desregulamentação do sistema financeiro para reduzir ao mínimo a intervenção do Estado no mercado, os instrumentos contratuais desenvolvidos para os mercados futuros - os derivados de ativos (derivativos)  estão sendo utilizados para outras finalidades. Embora devessem servir para proteger seus agentes contra as bruscas oscilações de preços, passaram a ser determinantes na formação de preços na produção, jogando a economia real no risco e na especulação da economia de mercado.

Dessa maneira, o preço futuro da soja na Bolsa de Chicago determina o valor a vista da soja colhida no campo, quando o processo deveria ser o contrário. Na prática, o preço da soja colhida hoje no campo, calculado seu custo de produção - , que compreende armazenagem, tributos e transporte até o porto para exportação - é determinado pelo valor futuro das bolsas.

O chamado risco sistêmico, portanto, significa  a quebra de toda a cadeia imbricada de garantias reais, seja pelo  dinheiro que migra de um lado para outro virtualmente, seja pela quantidade e qualidade de produção. Se um banco empresta dinheiro a alguém, ele deve ter, em contrapartida, uma garantia que permita o empréstimo. É comum os bancos trocarem garantias entre si, pois um mesmo banco não pode ser garantidor de si mesmo. É nessa confusão de garantias e de produção que se formam as bolhas financeiras, que colocam em risco sistêmico as economias mundiais globalizadas pela tecnologia da informação.

A biodiversidade tem sua própria lógica

Façamos agora um exercício: o que acontecerá se esta prática ocorrer com nossas riquezas naturais - como as florestas, a biodiversidade e a água?

A biodiversidade tem sua própria lógica, não sendo compatível com a produção em escala, sem com isso gerar altos impactos ambientais pela intervenção humana através da biotecnologia, da geoengenharia e da mecanização.  É possível, porém, analisar o que ocorre com ascommodities minerais, uma vez que o preço da energia está atrelado ao preço do barril de petróleo, por sua vez cotado nas bolsas decommodities.

Estamos gritando contra o fracking (fraturamento hidráulico) para extração de gás de xisto, pois, além dos impactos ambientais, promoverá a militarização das áreas exploradas, uma vez que, pelo controle do combustível fóssil, o Oriente Médio se tornou um barril de pólvora com conflitos e guerras sangrentas.

São projetos de morte que prevalecem na contabilidade do sistema financeiro. As finanças são engenhadas por seres humanos que as sustentam com dados estatísticos, com números e programas matemáticos. São dados friamente calculados, sem a percepção de que cifras em trilhões podem causar prejuízos consideráveis para milhares e milhares de pessoas, como apertar o gatilho de uma metralhadora giratória. Este é o paradigma mecanicista, em cuja lógica se fundamentam o mercado de carbono e seus derivativos (REDD, REDD+, Pagamentos por Serviços Ambientais, Créditos de Efluentes, Créditos de Compensação, etc...).

Quando Boutang propõe uma economia da polinização, está, na verdade, defendendo o mesmo princípio da economia socioambiental, explicada por Ignacy Sachs como economia dos biomas. Sachs concluiu que são os povos das florestas e os povos tradicionais os que têm realmente condições de manter a floresta em pé, protegendo-a e fiscalizando a partir de sua produção equilibrada e em harmonia com o ecossistema. Foi neste estudo que Sachs conceituou o “ecodesenvolvimento” posteriormente passando para “desenvolvimento sustentável”, e, finalmente, traduzido por  “sustentabilidade”, agora ajustada ao modelo neoliberal, que chamam de economia verde. Trata-se de um conceito confuso, que apenas repete a teoria do capitalismo verde com algumas adequações, incialmente cunhado pelo acadêmico inglês John Elkington, com o clássico The green capitalists (Os Capitalistas Verdes, Editora Gonllaccz, 1989),  assentado no tripé pessoas, planeta e lucro (Triple botton line).

No entanto, em oposição à economia verde, a economia socioambiental agrega as propostas da economia solidária com a economia dos biomas a partir de núcleos formados em torno das bacias hidrográficas, já que, historicamente, a humanidade se agrupa em torno das águas, construindo cidades e se urbanizando. Uma cidade, grupo humano e demais seres vivos, não sobrevivem sem água e não se desenvolvem economicamente sem energia.

A água não é substituível como a energia, que pode ser produzida por diversas fontes renováveis, além das não renováveis. A água é um enigma da natureza a ser decifrado, pois pode ser renovável se cuidada, e não renovável se degradada. A água está para a história da humanidade e do planeta como o ouro está para a história econômica globalizada, com seus fascínios, ganâncias e conquistas de povos sobre povos. Na mística, a água e o ouro se encontram. Os movimentos da América Latina estão se mobilizando contra a mineração com o chamamento “Água sim, Ouro não”. Podemos beber água, mas não podemos comer ouro!

Na prática, a tese de Boutang pode ser implementada com a pulverização das finanças e com a cobrança sobre a “responsabilidade socioambiental do sistema financeiro”, fazendo com que os empréstimos exijam financiamento de projetos que não gerem impactos ambientais nem promovam exclusão social e violação de  direitos humanos.

Sistema financeiro e política

Quando o sistema financeiro se torna cúmplice de governos corruptos, viabiliza a lavagem de dinheiro, facilita a sonegação fiscal, transfere recursos públicos à iniciativa privada para que cumpra o que é função do Estado cuja função não é “lucrar”. Quando protege o mercado ilícito de armas, drogas, prostituição, entre outros, a sociedade deve ter o poder de impedir que essa economia subterrânea continue a se propagar . A proposta das redes e movimentos que questionam os investimentos e tantas outras pautas podem fazer a transmutação das finanças e alcançar o que há duas décadas estamos propondo como ação proativa.

É entendendo este sistema e esclarecendo a sociedade, de forma didática, como ele funciona que promoveremos uma estratégia efetiva para combater as mazelas do mercado financeiro. A outra questão passa pela prestação de contas e auditorias dos recursos a fundo perdido, despejados em ongs e oscips.

As oscips (organizações sociais de interesse público) passaram a ser um híbrido entre Estado e sociedade civil organizada, engessadas pela dependência de dinheiro público e sem condições de combater o sistema financeiro. Em favor da Amazônia, existem milhares de ongs eoscips que sequer puseram os pés na região.  Afirmam pretender defender esse bioma, pois é onde há maior interesse financeiro, diferentemente de regiões como o Cerrado e a Caatinga, onde poucos querem investir e onde os projetos socioambientais se autossustentam justamente pela carência de recursos. Eles devem ser criativos e fazer a economia prosperar, já que esses biomas – tipo a Mata Atlântica, o Pantanal, o Pampa e a Amazônia - são ricos em biodiversidade.

Desta forma, haverá recursos financeiros suficientes para investimentos em educação, saúde, proteção e preservação ambiental, segurança pública e, principalmente, para a transição da economia em que vivemos para a economia que queremos. De fato, a economia é um todo e não está nem funciona fragmentada. Todos os sistemas e setores estão direta e indiretamente interligados pela globalização e pela tecnologia da informação. O que afeta a um afetará a todos em qualquer parte do mundo.

O que está faltando é a reestruturação do sistema financeiro e, com a sua regulamentação, uma política fiscal e tributária específica para este setor, que propicia a migração de fortunas virtuais. Os impostos são mais pesados para os pobres e mais baratos para os ricos, que sempre conseguem linhas de financiamento. A população está sendo financeirizada com cartões de crédito, limites no cheque especial, no crédito consignado, enquanto os capitalizados são financiados com empréstimos de longo prazo e baixas taxas de juros.

Há, portanto, várias ações proativas: a necessidade de uma política de fomento e de incentivo à produção; o financiamento da transição de uma produção degradadora para uma produção ambientalmente sustentável e inclusiva; a fiscalização e a auditoria das contas públicas e privadas, principalmente de empresas cujas ações são negociadas nas bolsas de valores; a reforma tributária e fiscal, além do código do consumidor, a se fazer valer.  Por fim, no que for ilícito, ilegal e imoral, aplicação da ação do Judiciário, pois não é possível ser tolerante com a corrupção, a sonegação fiscal e a lavagem de dinheiro. Temos de agir em conjunto com as instituições jurídicas, assessorando e estimulando.  Não faltam razões. Pode-se até relembrar que em mercados desregulamentados muitos contratos entre partes acabam parando na mesa do juiz e os magistrados não entendem de finanças nem de seus jargões - como as palavras-expressões em inglês grafadas nos contratos financeiros e mercantis, como commodities, spread, gap, swap, etc....

Transição energética

Para viabilizar a transição energética, é necessário repensar o modelo econômico. A maioria da população vive em cidades. Quando o Brasil passou a ocupar a posição de sexta economia do mundo, ironicamente o IBGE divulgou dados assustadores sobre as favelas brasileiras. Segundo estes dados, certamente conservadores, o Brasil tem 6.329 áreas irregulares e precárias nas quais vivem 11.425.644 pessoas. Juntas, elas equivalem à população da Grécia (FDUA n.61, Fernandes, E. & Alfonsin, B.).

As cidades consomem energia de países, forçando uma política energética do Brasil necessariamente voltada à construção de mais hidrelétricas, além de projetos que pretendem ressuscitar a energia nuclear e financiar o carvão.  A energia produzida por uma hidrelétrica na Amazônia gera impactos ambientais e sociais naquela região para abastecer o Sul e o Sudeste, que recolhem seus tributos na ponta distribuidora de energia e não no local impactado na Amazônia.

Os diferentes setores de energia renovável concorrem em tributos, taxas e formação de preços com a produção de energia não renovável.  Quando se incentiva a produção de energia renovável, como a eólica, a solar, o biodiesel e o etanol, não há planejamento para limitar essa produção, que acaba também gerando mais impactos com sua produção em escala, a qual deveria, por coerência, ser equilibrada e harmônica de região para região, analisada caso a caso, em um pacote energético diversificado.

É necessário, portanto, que o planejamento energético considere as demandas da região e da população que pode vir a ser afetada com a construção de hidrelétricas, usinas nucleares, com a exploração de petróleo, gás natural, carvão, gás de xisto, minério radioativo ou até com a construção de parques eólicos, solares, fotovoltaicos e monoculturas para a produção de etanol e biodiesel. 

Precisamos desenvolver um modelo de transição energética com planejamento financeiro simultaneamente com a transição do modelo econômico, pois, do contrário, não haverá energia renovável ou não renovável que suporte a demanda de produção e resolva os problema socioambientais, que, consequentemente, provocam bruscas mudanças climáticas. É de fundamental importância manter a população campesina, indígena, tradicional e ribeirinha nos campos e nas florestas, bem como o povo do sertão no Nordeste, invertendo a migração dos centros urbanos para o campo, as regiões ribeirinha, etc., de modo reverter o quadro desolador do crescimento das favelas, do desemprego e da violência urbana. Este tem sido o desafio de séculos e até hoje não saímos deste quadro crítico.

Os prazos para a implantação de uma política energética socialmente justa não fecham com os prazos da política partidária. O político que propuser uma estratégia que pretenda contribuir com a comunidade na gestão das águas, com a transição energética, ficará marcado como gestor público para o resto da vida, pois o mandato acaba, mas a gestão pública fica e sua militância será reconhecida pelo povo.

Quando o gestor público elabora uma proposta com a participação da comunidade para uma agenda de transição econômica a partir do binômio água e energia, estará investindo em projeto consistente de longo prazo, com efeitos visíveis no curto prazo, que são  os da adesão e do apoio da comunidade. Há dinheiro para isso circulando no setor financeiro, e o setor de energia é o que mais acumulou nas ultimas décadas.

Renda decente e renda universal

Em tese, deveria haver uma renda decente, ou renda universal, para todos. É o que garante a Constituição brasileira quando trata da “dignidade da pessoa humana” sem desigualdades. Se fizermos valer a Constituição, seja pelo direito à dignidade da pessoa humana, seja pelo direito ao uso dos bens comuns (bens difusos: água, energia, biodiversidade, minério), certamente estaríamos garantindo uma renda decente, e até mesmo universal.

Se entendermos que esses dois pilares compõem um conjunto indissociável da conquista dessas condições, estaremos trabalhando para a transição da economia em que vivemos (globalizada, em fase neoliberal do capitalismo), para a economia que queremos (socialmente justa, politicamente participativa e integrada e ambientalmente sustentável).

Favelização

A favelização é resultado da degradação ambiental e da exclusão social. Tal fenômeno se multiplica justamente porque as pessoas saem do seu meio vindo a inchar as cidades em busca de alternativas para sustentar suas famílias. Se buscarmos alternativas de geração de emprego e renda, fixando o ser humano no campo e impedindo a expulsão dos povos indígenas e povos tradicionais de seus territórios, teremos como fazer existir essa renda decente. É por isso que nos mobilizamos em favor da cultura de resistência, com a finalidade de evitar as guerras, os conflitos e a migração que formam massas de refugiados econômicos, do clima, das guerras, e da política genocida e etnocida praticada por governantes e corporações de seus países.

Se, de um lado, a tecnologia da informação faz migrar fortunas de um continente a outro, essa mesma tecnologia está fazendo com que possamos criar conexões de redes em que as florestas do mundo inteiro, os campos e os grupos de resistência se comuniquem e se mobilizem em prol da emancipação dos povos, tornando possível a utopia da renda decente universal que desejamos.

Governança ambiental

O conceito de governança ambiental tem sido confundindo com governança corporativa, como assistimos na COP19, quando o setor de energia não renovável se uniu com cimenteiras e o setor siderúrgico para propor a falsa solução do mercado de carbono, postergando soluções reais por mais um instrumento de financeirização da natureza.

A governança ambiental que propunha o diálogo entre a iniciativa privada, o governo e a sociedade civil organizada tem sido dragada pela governança corporativa, a que fundiu a Bayer com a Monsanto. Faz-se necessário identificar e confrontar essa tendência para se saber quem é quem e com quem se está lidando.  Eles têm a habilidade de absorver nossos argumentos para empurrar contratos financeiros e mercantis duvidosos e perigosos.

Se resgatarmos o conceito de governança ambiental pela perspectiva crítica de Yann Moulier Boutang, Ignacy Sachs, Edgar Morin, Vandana Shiva e tantos outros pensadores, além dos que o debatem em nossas redes e demais fóruns, em boa hora se espalhando por toda a América Latino-Caribenha, será possível  construir uma política de governança ambiental para a realização de uma transição energética para uma finança possível e emergencialmente necessária.

Se utilizarmos os mesmos sistemas que fortaleceram esse modelo degradador e desumano, evidentemente será possível reprogramá-lo para uma nova consciência. Isto não depende de dinheiro; depende da sensibilização de corações e mentes. Depende, especialmente, de um código de ética e moral universal, ou válido para todo mundo. É nesse sentido que a encíclica ecológica Laudato Si do papa Francisco, vinda em boa hora, contribui, como um principio norteador!

Se fomos nós, os humanos, que criamos o problema, caberá a nós, os humanos, buscar por soluções, não, porém, pelo mesmo sistema e no mesmo grau de consciência que o criou, como dizia Albert Einstein. Uma economia só pode ser justa se for humanitariamente digna e ambientalmente sustentável e somente será possível se for lastreada no tripé legitimidade, credibilidade e ética.

REFERÊNCIA
FACHIN, Patrícia. A construção de outro modelo de financeirização depende de uma governança ambiental. Entrevista especial com Amyra El Khalili. Acesso em 04 out.2016. Acessado em:1o dez. 2016.http://www.ihu.unisinos.br/560761-a-construcao-de-outro-modelo-de-financeirizacao-depende-de-uma-governanca-ambiental-entrevista-especial-com-amyra-el-khalili

*Amyra El Khalili é professora de economia socioambiental. Foi economista com mais de duas décadas de experiência nos mercados futuros e de capitais. É fundadora do Movimento Mulheres pela P@Z! e editora da Aliança RECOs – Redes de Cooperação Comunitária Sem Fronteiras. É autora do e-book “Commodities Ambientais em Missão de Paz: Novo Modelo Econômico para a América Latina e o Caribe”.