segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Como a Grande Indústria Viciou o Brasil em Junk Food

À medida que o crescimento diminui nos países ricos, as empresas de alimentos ocidentais se expandem acintosamente nos países em
desenvolvimento, contribuindo para obesidade e problemas de saúde.

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By ANDREW JACOBS and MATT RICHTELSEPT. 16, 2017


FORTALEZA, Brasil — Gritos de crianças soavam na manhã quente e úmida, enquanto uma mulher empurrava um carrinho branco e reluzente pelas ruas esburacadas e repletas de lixo espalhado. Ela fazia entregas em algumas das casas mais pobres desta cidade litorânea, levando sobremesas lácteas, biscoitos e outros alimentos industrializados aos clientes situados em seu trajeto.

Celene da Silva, 29, é uma de milhares de revendedoras porta a porta da Nestlé que ajudam o maior conglomerado de alimentos industrializados do mundo a expandir seu alcance para 250 mil casas nos recantos mais longínquos do país.

Enquanto entregava várias embalagens da sobremesa láctea Chandelle, de Kit-Kats e do cereal infantil Mucilon, algo chamava a atenção sobre seus clientes: muitos estavam visivelmente acima do peso, incluindo as crianças pequenas.

Ela apontou para uma casa e sacudiu a cabeça ao lembrar o modo como o chefe da família, um homem com obesidade grave, morreu na semana anterior: “ele comeu um pedaço de bolo e morreu enquanto dormia”, recordou.

Da Silva, ela mesma com quase 100 quilos, descobriu recentemente que tem hipertensão, um problema que reconhece estar relacionado ao seu fraco por frango frito e pela Coca-Cola que toma em todas as refeições, incluindo o café da manhã.

O exército de vendas diretas da Nestlé faz parte de uma mudança mais ampla na estratégia das indústrias alimentícias, que inclui a entrega de junk food e bebidas açucaradas consumidas no Ocidente até os rincões mais isolados da América Latina, África e Ásia. Enquanto suas vendas caem nos países mais ricos, as multinacionais do gênero alimentício, como Nestlé, PepsiCo e General Mills, aumentam sua presença de forma acintosa nos países em desenvolvimento, comercializando seus produtos tão ostensivamente que chegam a transtornar os hábitos alimentares tradicionais do Brasil, Gana e Índia.

O New York Times analisou os registros de empresas, estudos epidemiológicos e relatórios governamentais, assim como realizou entrevistas com vários nutricionistas e especialistas em saúde do mundo todo que revelam uma mudança radical na maneira como os alimentos são produzidos, distribuídos e anunciados em grande parte do mundo. Isso, segundo especialistas em saúde pública, está contribuindo para uma nova epidemia de diabetes e problemas cardíacos; doenças crônicas associadas às elevadas taxas de obesidade de regiões que há apenas uma década lutavam para combater a fome e a desnutrição.

A nova realidade pode ser compreendida com um único e incontestável fato: no mundo todo, o número de obesos superou o de indivíduos com baixo peso. Simultaneamente, a disponibilidade crescente de alimentos altamente calóricos e pobres em nutrientes está gerando um novo tipo de desnutrição, caracterizada por um número cada vez maior de pessoas com sobrepeso que, ao mesmo tempo, tem uma nutrição precária.

“A história vigente é que este é o melhor dos mundos possíveis: alimentos baratos e amplamente disponíveis. Se você não analisa a questão a fundo, faz sentido”, afirmou Anthony Winson, que estuda política econômica de nutrição na Universidade de Guelph, em Ontário. Um olhar mais cuidadoso, entretanto, revela uma história muito diferente, conclui. “Para deixar claro: a forma como estamos nos alimentando está nos matando”.

Até mesmo alguns críticos dos alimentos processados reconhecem que há vários fatores relacionados ao aumento da obesidade, incluindo genética, urbanização, renda crescente e aumento do sedentarismo. Os executivos da Nestlé afirmam que seus produtos ajudaram a diminuir a fome e a fornecer nutrientes essenciais, e que a empresa diminuiu a quantidade de sal, gordura e açúcar de milhares de itens para torná-los mais saudáveis. Porém, Sean Westcott, chefe de pesquisa e desenvolvimento de alimentos da Nestlé, admitiu que a obesidade foi um efeito colateral inesperado surgido depois que alimentos processados de baixo custo se tornaram mais acessíveis.

“Não sabíamos qual seria o impacto”, disse ele.

Parte do problema, acrescentou, é a tendência natural que as pessoas têm de comer demais quando podem comprar mais alimentos. A Nestlé, afirmou ele, se esforça para educar os consumidores quanto ao tamanho adequado das porções e para produzir e comercializar alimentos que equilibrem “prazer e nutrição”.

Hoje há mais de 700 milhões de pessoas obesas no mundo, sendo 108 milhões crianças, de acordo com uma pesquisa publicada recentemente no New England Journal of Medicine. A prevalência da obesidade dobrou em 73 países desde 1980, contribuindo para 4 milhões de mortes prematuras, segundo o estudo.

O aumento da obesidade no mundo

As taxas de obesidade nos Estados Unidos, no Pacífico Sul e no Golfo Pérsico estão entre as mais altas do mundo – mais de um a cada quatro americanos está obeso. Mas a obesidade, definida como um índice de massa corpórea acima de 30, cresceu mais rapidamente nos últimos 30 anos nos países da América Latina, África e Ásia.

O problema se refere tanto à economia quanto à nutrição. À medida que as multinacionais avançam nos países em desenvolvimento, elas alteram a agricultura local, estimulando agricultores a trocar as culturas de subsistência por commodities mais rentáveis, como cana-de-açúcar, milho e soja: a base de muitos produtos alimentícios industrializados.

É um ecossistema econômico que atrai lojas familiares, grandes varejistas, fabricantes e distribuidores de alimentos e pequenos vendedores como da Silva.

Em lugares tão distantes como a China, África do Sul e Colômbia, o crescente poder das grandes empresas de alimentos também se traduz em influência política, o que impede que autoridades em saúde pública consigam taxar refrigerantes ou criar leis destinadas a restringir os impactos dos alimentos processados na saúde.

Para um número crescente de nutricionistas, a epidemia da obesidade está intrinsecamente ligada às vendas de alimentos industrializados, que cresceram 25% no mundo todo de 2011 a 2016, em comparação com 10% nos Estados Unidos, de acordo com a Euromonitor, uma empresa de pesquisa de mercado. Uma mudança ainda mais drástica ocorreu em relação aos refrigerantes carbonatados: as vendas na América Latina dobraram desde 2000, ultrapassando o consumo na América do Norte em 2013, segundo a Organização Mundial da Saúde.

A mesma tendência se reflete no mercado de fast food, que obteve um crescimento mundial de 30% no mundo de 2011 a 2016, comparado com 21% nos Estados Unidos, de acordo com a Euromonitor. A Domino’s Pizza, por exemplo, abriu, em 2016, 1.216 lojas – uma “a cada sete horas”, segundo seu relatório anual – todas, com exceção de 171, fora dos Estados Unidos.

“Em uma época em que o crescimento ocorre de forma mais moderada nas economias estabelecidas, acredito que a postura mais enérgica no mercado emergente irá prevalecer”, afirmou recentemente o diretor-executivo da Nestlé a investidores. Os mercados em desenvolvimento hoje são responsáveis por 42% das vendas da empresa.

Para algumas empresas do ramo, isso significa mirar especificamente no público jovem, como Ahmet Bozer, presidente da Coca-Cola, descreveu a investidores em 2014. “Metade da população mundial não tomou uma Coca nos últimos 30 dias”, disse. “Há 600 milhões de adolescentes que não tomaram uma Coca na última semana. Então temos uma enorme oportunidade”.

Aqueles que defendem a indústria afirmam que os alimentos processados são essenciais para alimentar um mundo cada vez maior e mais urbanizado de pessoas, muitas delas com renda crescente e que demandam praticidade.

“Não vamos acabar com todas as fábricas e voltar a cultivar apenas grãos. Isso não faz sentido. Não vai dar certo”, disse Mike Gibney, professor emérito de alimentação e saúde na University College Dublin e consultor da Nestlé. “Se eu pedisse para 100 famílias brasileiras que parem de consumir alimentos processados, teria que me perguntar: o que elas comerão? Quem as alimentará? Quanto isso vai custar?”

Atualmente, há mais adultos obesos do que adultos abaixo do peso em todo o mundo. As vendas de alimentos ultraprocessados ​​mais do que duplicaram na última década - chegando inclusive em países em desenvolvimento. Aqui está o que implica esta transição para alimentos ultraprocessados no Brasil.

De muitas formas, o Brasil é um microcosmo de como rendimentos crescentes e políticas governamentais fizeram com que a população vivesse mais tempo e com mais qualidade e também serviram para erradicar amplamente a fome. Mas, agora o Brasil enfrenta um novo e difícil desafio de nutrição: na última década, a taxa de obesidade do país quase dobrou para 20%, e a parcela de pessoas com sobrepeso praticamente triplicou, indo para 58%. A cada ano, 300 mil pessoas são diagnosticadas com diabetes tipo II, uma doença relacionada à obesidade.

Também chama a atenção, no Brasil, a habilidade política da indústria. Em 2010, uma coalizão de empresas de alimentos e bebidas brasileiras destruiu uma série de medidas que buscavam limitar anúncios de junk food destinados a crianças. A última ameaça veio do presidente Michel Temer, um político de centro favorável ao setor empresarial cujos aliados conservadores do Congresso estão procurando impedir essa série de regulações e leis cuja intenção é estimular uma alimentação mais saudável.

“O que temos é uma guerra entre dois regimes alimentares, uma dieta tradicional com alimentos de verdade, produzidos por agricultores locais, e os produtores de alimentos ultraprocessados, feitos para serem consumidos em excesso e que, em alguns casos, viciam”, explicou Carlos A. Monteiro, professor de nutrição e saúde pública na Universidade de São Paulo.

“É uma guerra”, afirmou, “mas um dos regimes alimentares tem um poder desproporcionalmente maior ao do outro”.

Entrega de porta em porta

Da Silva chega aos consumidores das favelas de Fortaleza, muitos dos quais não têm acesso imediato a supermercados. Ela defende o produto que vende, exaltando as informações nutricionais dos rótulos que se vangloriam de acrescentar vitaminas e minerais aos produtos.

“Todo mundo aqui sabe que os produtos da Nestlé são bons”, assegurou ao apontar para latas de Mucilon, um mingau para bebês cujo rótulo diz: “contém cálcio e niacina”, e também para as de Nescau 2.0, um achocolatado em pó altamente açucarado.

Ela tornou-se vendedora da Nestlé dois anos atrás, quando sua família de cinco pessoas lutava para sobreviver. Embora o marido ainda esteja desempregado, a situação está melhorando. Com os cerca de 570 reais por mês que ganha com a venda dos produtos Nestlé, conseguiu comprar uma geladeira nova, uma televisão e um fogão a gás para a casa de três quartos da família, que fica à beira de um manguezal fétido.

O programa de venda porta a porta da empresa faz jus a um conceito articulado pela Nestlé em seu relatório anual de acionistas em 1976 que mencionava que “a integração com o país anfitrião é um objetivo básico da nossa empresa”. Iniciado há uma década no Brasil, atende 700 mil “consumidores de baixa renda mensalmente”, de acordo com o site da Nestlé. Apesar da crise econômica incessante no país, o programa vem crescendo 10% por ano, segundo Felipe Barbosa, supervisor da empresa.

Ele afirmou que a queda na renda dos brasileiros pobres e trabalhadores na verdade beneficiou as vendas diretas. Isso porque, ao contrário da maioria da venda de alimentos por varejo, a Nestlé oferece aos clientes um prazo de um mês para o pagamento das contas. O fato de as revendedoras – o programa emprega apenas mulheres – saberem quando seus clientes recebem o Bolsa Família, um subsídio para famílias de baixa renda, também ajuda nas vendas.

“A essência do nosso programa é alcançar os pobres”, revelou Barbosa. “O que faz ele dar certo é a ligação pessoal entre a revendedora e o cliente”.

A Nestlé procura, cada vez mais, descrever-se como líder em seu compromisso com a sociedade e a saúde. Duas décadas atrás, designou-se como uma “empresa de saúde e bem-estar em nutrição”.

Ao longo dos anos, afirma, a empresa reformulou aproximadamente 9 mil produtos com o intuito de reduzir o sal, o açúcar e a gordura, e distribuiu bilhões de porções fortificadas com vitaminas e minerais. A Nestlé destaca a segurança alimentar e a redução do desperdício de alimentos e trabalha com cerca de 400 mil agricultores no mundo todo para promover a agricultura sustentável.

Em uma entrevista no novo e amplo campus de 50 milhões de dólares na periferia de Cleveland, Ohio, o chefe de pesquisa e desenvolvimento de alimentos, Westcott, disse que o programa de vendas porta a porta reflete outro slogan da empresa: a “criação de valores compartilhados”.

“Criamos valor compartilhado ao gerar microempresários: pessoas que conseguem montar seu próprio negócio”, afirmou. Uma empresa como a Nestlé pode impulsionar o bem-estar de comunidades inteiras “ao enviar de fato mensagens positivas sobre nutrição”, concluiu.

O catálogo de alimentos da Nestlé é vasto e diferente do de outras empresas que produzem produtos para refeições rápidas e fazem pouco esforço para se concentrar em ofertas saudáveis. A lista inclui o Nesfit, um cereal integral; iogurtes com baixo teor de gordura, como o Molico, que contém uma quantidade relativamente pequena de açúcar (6 gramas); e uma variedade de cereais para crianças que devem ser servidos com leite ou água e são fortificados com vitaminas, ferro e probióticos.

Apesar dos 800 produtos que a Nestlé afirma estarem disponíveis por meio de suas revendedoras, da Silva diz que seus clientes estão mais interessados em cerca de duas dúzias deles, praticamente todos açucarados, como Kit-Kats, o iogurte grego de frutas vermelhas cujo pote de 100 gramas contém 17 gramas de açúcar; e o Chandelle Paçoca, uma sobremesa láctea aromatizada com amendoim cuja embalagem do mesmo tamanho contém 20 gramas de açúcar; apenas 5 gramas a menos do limite recomendado pela Organização Mundial da Saúde.

Até pouco tempo atrás, a Nestlé patrocinava uma barcaça que entregava dezenas de milhares de embalagens de leite em pó, iogurte, sobremesas lácteas de chocolate, biscoitos e balas a comunidades isoladas da bacia Amazônica. Desde que o barco interrompeu suas atividades em julho, donos de barcos privados assumiram a demanda.

“Por um lado, a Nestlé é líder mundial em água e fórmulas para lactentes e em vários produtos lácteos”, ressaltou Barry Popkin, professor de nutrição da Universidade da Carolina do Norte. “Por outro lado, eles estão indo para os rincões do Brasil vender balas”.

Dr. Popkin acha que a venda porta a porta é emblemática de uma nova era insidiosa em que as empresas não deixam de atender nenhuma casa, em uma tentativa de crescer e se tornarem essenciais para as comunidades do mundo em desenvolvimento. “Eles não estão deixando nenhum canto do país de lado”, concluiu.

Defensores da saúde pública já haviam criticado a empresa antes. Nos anos 1970, a Nestlé foi alvo de um boicote nos Estados Unidos por causa da comercialização intensa de fórmulas para lactentes nos países em desenvolvimento, consideradas por nutricionistas prejudiciais à amamentação saudável. Em 1978, o presidente da Nestlé Brasil, Oswaldo Ballarin, foi chamado para depor em audiências do senado americano que tratavam da questão das fórmulas para lactentes e foram amplamente divulgadas. Ballarin declarou que as críticas eram obra da Igreja que visava “destruir o sistema de livre iniciativa”.

Nas ruas de Fortaleza, onde a Nestlé é admirada por sua origem suíça e considerada uma empresa de alta qualidade, quase nunca se ouve algo negativo sobre ela.

A casa de Joana D’arc de Vasconcellos, 53, também vendedora, está repleta de animais de pelúcia da marca e decorada com certificados que recebeu em aulas de nutrição patrocinadas pela Nestlé. Em sua sala de estar, os porta-retratos com as fotos dos filhos com 2 anos, cada um diante de uma pilha de latas de fórmulas para lactentes vazias, ocupam posição de destaque. À medida que o filho e a filha cresciam, ela substituiu os produtos por outros da marca feitos para crianças, como Nido Kinder, um leite em pó para crianças pequenas; Chocapic, um cereal com sabor de chocolate; e o achocolatado em pó Nescau.

“Quando meu filho era bebê, ele não gostava de comer até que eu comecei a lhe oferecer produtos da Nestlé”, contou com orgulho.

De Vasconcellos tem diabetes e hipertensão. A filha de 17 anos, que pesa mais de 113 quilos, tem hipertensão e síndrome do ovário policístico, uma disfunção hormonal altamente relacionada à obesidade. Muitos de seus parentes sofrem de uma ou mais doenças associadas à má alimentação: a mãe e duas irmãs têm diabetes e hipertensão e o marido, hipertensão. O pai morreu três anos atrás depois de perder o pé devido à gangrena, uma complicação do diabetes.

“Toda vez que vou ao posto de saúde, meus exames de diabetes estão lá em cima”, contou. “Seria muito difícil você encontrar aqui uma família que não tenha diabetes”.

De Vasconcellos tentou anteriormente vender Tupperware e produtos Avon porta a porta, mas muitos clientes não pagavam. Seis anos atrás, depois de uma amiga lhe contar sobre o programa de vendas diretas da Nestlé, Vasconcellos se agarrou à oportunidade.

“As pessoas têm que comer”, explicou.

Interferência da indústria

Em maio de 2000, Denise Coitinho, à época diretora de nutrição do Ministério da Saúde, estava em uma festa de Dia das Mães na escola dos filhos quando seu celular tocou. Era o chefe de relações governamentais da Nestlé. “Ele estava muito chateado”, lembrou.

A fonte de preocupação da Nestlé era uma nova política adotada pelo Brasil e que pressionava a Organização Mundial da Saúde. Se fosse seguida pela OMS, a organização recomendaria que crianças de todo o mundo fossem amamentadas por seis meses, em vez da recomendação anterior de quatro a seis meses, explicou.

“Dois meses podem não parecer tanto, mas significam muita receita. Representam muita venda”, esclarece Coitinho, que deixou o cargo em 2004 e agora trabalha como consultora de nutrição independente para, entre outros, as Nações Unidas. No fim, as empresas que produzem alimentos para lactentes conseguiram barrar a politica por um ano, revelou Coitinho; a Nestlé afirmou, em resposta ao relato de Coitinho, que “acredita que o leite materno seja a nutrição ideal para bebês” e que apoia e promove as orientações da Organização Mundial da Saúde.

É difícil superestimar o poder econômico e o acesso político dos conglomerados de alimentos e bebidas, responsáveis por 10% da produção econômica do país e por empregar 1,6 milhão de pessoas.

Em 2014, as empresas alimentícias doaram quase 500 milhões de reais a membros do Congresso Nacional, um aumento de três vezes em relação a 2010, de acordo com a Transparência Brasil. Um estudo lançado no ano passado pela organização revelou que mais da metade dos atuais legisladores federais do país foi eleita com doações da indústria de alimentos antes de o Supremo Tribunal Federal proibir contribuições de empresas em 2015.

O maior doador para candidatos do Congresso foi a gigante produtora de carnes JBS, que doou quase 350 milhões de reais a candidatos. Em 2014, a Coca-Cola deu mais de 20 milhões de reais em contribuições de campanha, e o McDonald’s, cerca de 1.7 milhão de reais.

Portanto, estava armado o palco para uma batalha política descomunal quando, em 2006, o governo buscou promulgar regulações de amplo alcance para a indústria alimentícia, visando reduzir a obesidade e outras doenças. As medidas, que surgiram a partir das políticas para amamentação anteriores, incluíam alertas de publicidade para advertir os consumidores acerca dos altos níveis de açúcar, sal e gorduras saturadas, assim como restrições na comercialização para tornar menos tentadores alimentos altamente processados e bebidas açucaradas, em especial aqueles destinados a crianças.

Tomando como exemplos os esforços bem-sucedidos do governo para reduzir a venda de tabaco, as novas regulações proibiram marcas como Pepsi e KFC de patrocinarem eventos esportivos e culturais.

“Achamos que o Brasil poderia ser um modelo para o resto do mundo, um país que coloca o bem-estar de seus cidadãos acima de tudo”, disse Dirceu Raposo de Mello, então diretor da Agência de Vigilância Sanitária, mais conhecida pela sigla Anvisa. “Infelizmente, a indústria alimentícia não pensava do mesmo modo”.

As indústrias de alimentos atuaram de forma mais discreta, formando a Associação Brasileira das Indústrias da Alimentação, um grupo lobista cujo conselho de vice-presidentes incluía executivos da Nestlé, o gigante produtor de carnes americano Cargill e a Unilever, o conglomerado de alimentos europeu, dono de marcas como Hellmann’s, óleo Mazola e Ben & Jerry’s. A associação se recusou a comentar esta matéria.

Nos primeiros dias das audiências públicas, a indústria parecia estar disposta a negociar as regras, mas militantes de saúde afirmam que, por trás dos bastidores, os advogados e lobistas da indústria alimentícia conduziam silenciosamente uma campanha ampla para impedir o processo.

Acadêmicos financiados pela indústria começaram a aparecer na TV para acusar as normas de serem economicamente desastrosas. Outros especialistas escreveram artigos em jornais, sugerindo que o exercício físico e o controle mais rigoroso dos pais seriam mais eficazes que as regulações no combate à obesidade infantil.

O apelo mais eficiente da indústria, garantem os analistas, foi sua denúncia veemente das restrições de propaganda propostas como censura. A acusação teve uma repercussão especial devido às quase duas décadas de ditadura militar que terminaram em 1985.

Em uma reunião, um representante da indústria alimentícia acusou a Anvisa de tentar subverter a autoridade dos pais, afirmando que as mães tinham o direito de decidir o que dar de comer aos filhos, lembrou Vanessa Schotz, que advoga em defesa da nutrição. Em outra reunião, conta ela, um representante da indústria de brinquedos ficou de pé e criticou com veemência as regras de comercialização propostas, afirmando que elas privariam as crianças brasileiras dos brinquedos que às vezes vêm junto das refeições de fast food. “Ele disse que estávamos matando os sonhos das crianças, argumentando que elas valorizam mais os brinquedos do que os alimentos”, recordou Schotz. “Ficamos estupefatos”.

Repreendida pelas críticas da indústria, a Anvisa retirou, no final de 2010, a maioria das restrições propostas. Restou apenas uma única proposta para que os anúncios incluíssem um alerta sobre alimentos e bebidas que prejudicam a saúde.

Então vieram as ações judiciais.

Ao longo de vários meses, grupos díspares da indústria apresentaram 11 ações judiciais contra a Anvisa. Os requerentes incluíam a Associação Nacional das Indústrias de Biscoitos, o lobby dos produtores de milho e uma associação de empresas de chocolates, cacau e balas. Alguns dos processos alegavam que a regulação violava proteções constitucionais que garantiam a liberdade de expressão, enquanto outros afirmavam que não era competência da agência regular as indústrias de alimentos e a propaganda.

Embora aqueles que advogam em benefício da saúde afirmem que o litígio não foi totalmente inesperado, eles foram surpreendidos pela resposta do principal advogado do governo federal, o Advogado-Geral da União Luís Inácio Adams, nomeado pelo presidente da República. Pouco depois que as regras propostas foram oficialmente publicadas em junho de 2010, Adams uniu-se à indústria. Algumas semanas depois, um tribunal federal suspendeu as regulações citando a opinião escrita do advogado, que sugeria que a Anvisa não tinha a autoridade para regular as indústrias alimentícia e publicitária. Adams recusou-se a comentar esta matéria.

Raposo de Mello, ex-presidente da Anvisa, revelou que ficou atônito diante da mudança de orientação de Adams, dado o apoio de longa data do Advogado-Geral à Anvisa. Sete anos depois, com a maioria das 11 ações não solucionada, as regulações permanecem paradas.

“A indústria”, falou de Mello, “deu a volta no sistema”.

Enquanto isso, as indústrias de alimentos e de bebidas tornaram-se mais agressivas em sua tentativa de neutralizar a Anvisa, considerada seu maior adversário.

Em 2010, em meio à batalha contra as regulações propostas pela agência, um grupo de 156 executivos de empresas levou suas queixas à campanha de Dilma Rousseff, que concorria à Presidência.

Marcello Fragano Baird, cientista politico de São Paulo que estudou o lobby da indústria de alimentos contra as regulações nutricionais, contou que Rousseff garantiu aos executivos que iria intervir na Anvisa. “Ela prometeu que ‘limparia a casa’ quando se elegesse”, assegurou ele, acrescentando que soube do encontro por meio de entrevistas com os participantes.

Rousseff venceu a eleição e, logo que tomou posse, substituiu Raposo de Mello por Jaime César de Moura Oliveira, um aliado politico de longa data e ex-advogado da subsidiária brasileira da Unilever.

O porta-voz de Rousseff não aceitou que ela concedesse uma entrevista a respeito.

Em 2012, a Anvisa abrigou uma exposição itinerante de combate à obesidade que ocupou outros edifícios públicos do país.

Intitulada “Emagrece, Brasil”, a exibição exaltava o exercício físico e a moderação como chaves para combater a obesidade, mas minimizava a evidência científica dominante sobre os riscos de consumir muito açúcar, refrigerantes e alimentos processados.

O patrocinador da exposição? A Coca-Cola.

Alimentos irresistíveis, crianças com sobrepeso

Mais de 1600 quilômetros ao sul de Fortaleza, em uma sala de aula pintada com cores vibrantes perto do centro de São Paulo, os efeitos da mudança nos hábitos alimentares são evidentes. A cada dia, mais de cem crianças enchem o local, onde cantam o alfabeto e cochilam em grupo.

Quando foi inaugurada, no começo da década de 1990, a organização não-governamental, tinha uma missão específica: acabar com a desnutrição de crianças de alguns dos bairros mais pobres da cidade.

Hoje, muitas das crianças que frequentam a ONG estão visivelmente rechonchudas e, segundo a equipe de nutricionistas, preocupantemente baixas para a idade, resultado de dietas ricas em sal, gordura e açúcar, porém carentes em alimentos necessários para um desenvolvimento saudável.

Os programas de assistência a crianças incluem crianças de 10 anos com pré-diabetes e níveis de gordura alarmantes no fígado, adolescentes hipertensos e crianças de 3 anos tão malnutridas que têm dificuldade para andar.

“Estão chegando bebês, algo que nunca vimos antes”, revela Giuliano Giovanetti, que faz a divulgação e a comunicação para o centro. “É uma crise para nossa sociedade porque estamos criando uma geração de crianças com comprometimento cognitivo que não atingirão todo seu potencial”.

Cerca de 9% das crianças brasileiras estavam obesas em 2015, um aumento de mais de 270% desde 1980, de acordo com um estudo recente do Instituto de Métricas e Avaliação em Saúde da Universidade de Washington. Isso coloca o país bem próximo dos Estados Unidos, onde 12,7% das crianças tinham obesidade em 2015.

Os números são ainda mais preocupantes nas comunidades atendidas pelo Centro de Recuperação e Educação Nutricional (CREN): em alguns bairros, 30% das crianças têm obesidade e outras 30% sofrem de desnutrição, segundo os dados da organização, que descobriu que 6% das crianças obesas também estão desnutridas.

As taxas crescentes de obesidade estão, em grande parte, associadas à melhora na economia, pois famílias com melhor padrão aquisitivo adotam os alimentos industrializados por sua comodidade, prestígio e sabor.

Pais ocupados, não para de oferecer aos filhos pequenos macarrão instantâneo e nuggets de frango congelados, refeições em geral acompanhadas de refrigerantes. Arroz, feijão, salada e carne grelhada – a base da dieta brasileira tradicional – estão sendo colocados de lado, segundo estudos.

O problema é agravado pela violência galopante nas ruas, que mantém as crianças presas em casa.

“É muito perigoso deixar meus filhos brincarem lá fora, então eles passam todo o tempo livre no sofá, jogando vídeo game e vendo TV”, disse Elaine Pereira dos Santos, 35, mãe de dois filhos de 9 e 4 anos, os dois com sobrepeso.

Isaac, de 9 anos, pesa 62,5 quilos e só consegue vestir roupas feitas para adolescentes. Dos Santos, que trabalha na farmácia de um hospital, encurta as calças para o menino.

Como muitas mães brasileiras, ela ficou contente quando o filho começou a ganhar peso quando pequeno, não muito tempo depois de ele ter provado a primeira batata frita do McDonald’s. “Sempre pensei que bebês deviam ser gordinhos”, explica. Ela satisfez com alegria os hábitos alimentares do filho, que incluíam idas frequentes a restaurantes de fast food e quase nenhuma fruta ou vegetal.


No entanto, quando o menino começou a ter dificuldades para correr e a reclamar de dor nos joelhos, dos Santos percebeu que havia algo errado. “A parte mais difícil é a gozação das outras crianças”, conta. “Quando vamos fazer compras, até os adultos apontam para ele e ficam encarando” ou lhe chamam de gordinho.

Na sala de aula em São Paulo, profissionais da saúde acompanham o desenvolvimento físico e cognitivo das crianças, enquanto nutricionistas ensinam os pais a preparar refeições de baixo custo que incluem arroz, feijão e salada. Para algumas crianças, a cozinha experimental do centro é seu primeiro contato com alimentos como repolhos, ameixas e mangas.

Um dos principais desafios é convencer os pais de que seus filhos estão doentes. “Diferentemente do câncer ou outras doenças, esse problema não é visível”, explica Juliana Dellare Calia, 42, nutricionista da organização.

Embora membros da equipe afirmem que o programa tenha feito avanços significativos ao mudar a maneira como as famílias se alimentam, muitas crianças, no entanto, enfrentarão uma batalha contra a obesidade pelo resto da vida. Isso porque pesquisas sugerem que a desnutrição na infância pode levar a alterações metabólicas permanentes que reprogramam o organismo de forma que ele passa a transformar o excesso de calorias em gordura corporal com mais facilidade.

“É a resposta do corpo ao que ele entende como fome”, explica Dellare Calia.

O dinheiro fala mais alto

Mesmo que os especialistas em nutrição lamentem a crescente crise de obesidade, bem como os riscos potenciais de longo prazo, um aspecto da revolução dos alimentos processados no Brasil é inegável: a expansão da indústria beneficia pessoas de vários níveis sociais. A Nestlé, que afirma empregar 21 mil pessoas no país, começou há dois anos um programa de estágio que ofereceu treinamento para 7 mil pessoas com menos de 30 anos.

Perto da base da cadeia alimentar encontra-se da Silva, a vendedora de Fortaleza, que se sente otimista quanto ao futuro, apesar de seus crescentes problemas de saúde. A vida tem sido uma luta desde que deixou a escola aos 14 anos, quando engravidou da primeira filha. Agora ela quer arrumar o dente cuja falta lhe estraga o sorriso hesitante e comprar uma casa mais apropriada, uma que não tenha goteiras quando chove forte.

Ela agradece à Nestlé.

“Pela primeira vez na vida, tenho esperança e me sinto independente”, diz.

Está ciente da relação entre a dieta e seus problemas de saúde persistentes, mas insiste em que os filhos estão bem nutridos, enquanto aponta para os produtos da Nestlé em sua sala de estar. Ser uma vendedora da Nestlé tem outra vantagem: os biscoitos, chocolates e sobremesas que muitas vezes sustentam sua família são comprados por atacado.

Com uma lista crescente de clientes, Da Silva concentra-se em outro objetivo que visa a aumentar ainda mais o negócio.

“Quero comprar uma geladeira maior”.

Paula Moura contribuiu com reportagem em Fortaleza e São Paulo, Brasil.

Encaminhado por Amyra El Khalili - Aliança RECOs

The New York Times

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

É TEMPO DE INDIGNAR-SE

Imagem tirada da internet
Uma grande comitiva acreana foi, financiada sabe-se lá por quem (quem sabe não revela), para a Alemanha, junto com os donos do mundo, negociar o nosso meio ambiente, nossos bens comuns.

O planeta é nosso, dom de Deus, fruto da gratuidade divida. Temos que nos indignar quando um pequeno grupo se apropria desses bens comuns e os negocia como se deles fossem. Quando nos indignamos nos atacam e quanto mais nos atacam mais temos certeza de que devemos nos indignar. Essa gente não tem o direito de negociar nossos bens comuns, nosso ambiente inteiro. Eu particularmente não deleguei ninguém para falar em meu nome e, falando em meu nome, vender o que pertence a todos nós e se tivesse delegado seria igualmente criminoso.

Hei, você que está ai, se enriquecendo com o lucrativo negócio do direito de poluir, sim você mesmo, saiba que ninguém tem esse direito. Seja você quem for. Seja você um governador, político qualquer, empresário, padre, pastor, atoa, funcionário de ONG... nem mesmo um grupo de indígenas, seringueiros, comunidades tradicionais,  ninguém mesmo tem o direito de negociar o meio ambiente porque este pertence a todos nós, inclusive a mim. E eu, enquanto estiver de pé, na luta, seguirei defendendo a nossa casa comum, nosso planetinha azul.

Quem negocia a natureza, o nosso ar, ataca diretamente a vida. Desrespeita os povos indígenas e tradicionais... são criminosos. 

É tempo de se indignar!

Indignemo-nos !

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

O Acre contra Chico Mendes


Comunidades tradicionais são excluídas pela economia verde dos irmãos Viana. Líder seringueiro defendia modo de vida dos extrativistas como a melhor proteção à natureza.
Por Tómas Chiaverini e Thais Lazerri, no Repórter Brasil
De calça vermelha e blusa preta, usando um colar indígena, a representante do Banco Alemão de Desenvolvimento KFW Christiane Ehringhaus exaltava o pioneirismo do Acre a uma plateia de acreanos no último dia do “Seminário de Avaliação de Resultados do Programa REDD Early Movers no Acre”. O encontro, com direito a pose para foto coletiva, ocorreu em julho no Resort Hotel, em Rio Branco. Na pauta, os resultados do programa-modelo do governo para o que se convencionou chamar de economia verde, termo mundialmente usado para atrelar desenvolvimento econômico à preservação ambiental. Alguns poucos indígenas e moradores de comunidades dividiam a sala com uma bancada de parlamentares estaduais e nacionais, entre outros. Um deles era o senador Jorge Viana, atual presidente da Comissão Mista de Mudanças Climáticas do Congresso Nacional, ex-governador do estado e irmão do atual, Tião Viana. Os irmãos Viana são os responsáveis por vender ao mundo o modelo acreano da economia verde.
“Estamos muito animados em poder usar essas lições tão ricas do Acre”, disse Ehringhaus, “e já estamos aproveitando muito dessas lições para construir o programa com outros estados”. O Mato Grosso já aderiu.
O Acre, estado tratado com desdém por tantos brasileiros, quer se tornar um exemplo ambiental para o mundo. Na fronteira com o Peru e a Bolívia, o estado tem pouco mais de 800 mil habitantes e o 25º Produto Interno Bruto da União. “Nós não fazemos questão de vaidade. Agora, se a nossa experiência mostrar pro Brasil e pro mundo que é possível conservar e desenvolver, isso vai ser ótimo”, disse o governador Tião Viana à equipe da Repórter Brasil. Desde que os irmãos petistas chegaram ao poder, em 1999, o plano verde começou a ser gestado. Em 2010, uma lei regulamentou o Sistema de Incentivos a Serviços Ambientais, um plano prolixo de trinta páginas frente e verso que, além de exaltar um suposto pioneirismo ambiental de décadas do Acre, enumera uma série de novos projetos. O primeiro da lista é a promoção dos serviços ambientais do carbono (redução de emissão de gás carbônico, o CO2, em troca de incentivos). O KFW, banco de fomento do governo alemão, aparece como um dos parceiros no relatório. Em 2012, o governo recebeu 25 milhões de euros do banco alemão, o equivalente a cerca de R$ 90 milhões, para iniciativas que reduzam a emissão do gás.
As primeiras denúncias sobre as “maravilhas da economia verde” chegaram logo, diz Winnie Overbeek, coordenador internacional do Movimento Mundial pelas Florestas Tropicais. Em 2013, diversas organizações, incluindo o Movimento, participaram de uma investigação promovida pela Plataforma Dhesca no Acre e identificaram “uma série de impactos sociopolíticos, econômicos e ambientais negativos, em especial sobre os territórios e as populações tradicionais.”
“Vimos uma série de injustiças ambientais e sociais, provocadas por um plano de governo que quer ser modelo para o mundo”, diz Overbeek. “Pergunte aos povos tradicionais. Essas pessoas não sabem onde o Acre investiu os milhares de euros que recebeu do governo alemão.”

A falta de diálogo com os povos da floresta é uma das críticas que o programa recebe de estudiosos, lideranças locais, comunidades extrativistas e camponesas. Para eles, o plano não colabora com a preservação da floresta. Além de não ajudar, esses grupos denunciam que o programa atrapalha, criando novas pressões sobre os habitantes tradicionais, obrigados a alterar seu modo de vida, impedidos de caçar, pescar e utilizar a floresta para o seu sustento.
O programa seria justamente o oposto da filosofia de Chico Mendes, na avaliação do agrônomo Elder Andrade de Paula, uma das principais vozes contrárias ao ambientalismo dos Viana. A história da liderança é essencial para entender o embate fundiário no Acre até os dias de hoje. Filho de seringueiros, Mendes liderou a criação de sindicato, associação e conselho em defesa dos extrativistas. Ele propunha a defesa do modo de vida do homem integrado à mata como o melhor modo de preservá-la – sempre em oposição à ocupação dos grandes proprietários. Foi assassinado em 1988 na porta de sua casa, em Xapuri. O grileiro Darly Alves da Silva foi condenado como mandante, uma de suas fazendas havia sido desapropriada em benefício dos seringueiros.
AVANÇO DO DESMATAMENTO
Na penúltima semana de maio, em Xapuri, lideranças indígenas e extrativistas se reuniram por três dias para denunciar os impactos da economia verde do governo acreano. Segundo carta divulgada ao final do encontro, a política foi imposta “de maneira autoritária e sem consulta prévia das comunidades”. Por se manterem contrárias ao avanço, afirmam sofrer pressão e ameaças dos “donos do poder no Acre”.
Professor e pesquisador do Centro de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal do Acre, Andrade diz que, ao se colocar como modelo para políticas ambientais, o governo assume uma postura hipócrita, pois mascara velhos problemas da região amazônica. “A economia verde, esse novo termo que substitui o desgastado ‘desenvolvimento sustentável’, é uma desculpa para que se continue fazendo o que sempre foi feito: produzir de forma insustentável no sentido social e ambiental.”
As críticas do pesquisador encontram respaldo nos dados ambientais, que indicam que o Acre está diminuindo o desmatamento num ritmo menor do que o restante da região amazônica, enquanto aumenta a presença do gado.
No ano passado, o Acre foi o segundo que mais desmatou na Amazônia, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. A derrubada de florestas subiu 47% no estado. Embora tenha crescido, o desmatamento ficou dentro das metas do governo, que é manter o total por ano abaixo dos 434 quilômetros quadrados de floresta.
Em 2016, a Amazônia perdeu quase 8 mil quilômetros quadrados de floresta, o pior índice desde 2008. O aumento fez a Noruega, a principal financiadora de um fundo de conservação da floresta, reduzir quase que pela metade o repasse de verbas ao Brasil. O país é o 15º país produtor de petróleo do mundo – o que contribui para o aquecimento global. Por isso, tornou-se um importante doador para manutenção de florestas, mas sempre a partir de projetos na linha da economia verde.
Além do desmatamento, o aumento da ocupação fundiária é outro indicativo de que a economia do Acre não é tão verde assim. Em 2001, o Acre contava mais de 18 mil imóveis rurais cadastrados em 2,9 milhões de hectares. As grandes propriedades (com mais de mil hectares), representavam 2% do cadastro e ocupavam 58% dos hectares. Em 2016, a quantidade de imóveis cadastrados quase dobrou – foi para 37 mil – e a de hectares ocupados quadruplicou – foi para 11,6 milhões de hectares. No novo cenário, a concentração de terras permanece: as grandes propriedades mantiveram proporção de 2% e ocupam 56% da área total. “A concentração vem seguida pelo desmatamento e pela ampliação dos pastos. Ou seja, os latifúndios”, diz o agrônomo Andrade. De acordo com a World Wildlife Fund (WWF), 85% das áreas desmatadas no Acre são ocupadas por pastagens.
A assessoria técnica do governo questionou os dados do Incra apresentados pelo professor para mostrar a concentração fundiária. Disse que não é possível precisar quantas são as propriedades rurais no Estado. Sobre o desmatamento, o governador afirmou que o aumento foi um “repique pontual”, e culpou o pequeno produtor. “Esse aí é quem está forçando ainda o desmatamento”, disse. Viana afirmou que o Acre é um dos Estados mais preservados. Mantém 87% da floresta em pé e desde 2002 reduziu o desmatamento em 64%, segundo dados do Instituto de Ciências Espaciais.
Para o governador Tião Viana, a pecuária é compatível com a preservação do ambiente. Ele quer triplicar o rebanho sem aumentar a área de pastagem, criando até dez animais por hectare. Hoje são menos de duas cabeças por hectare.

Um dos programas-propaganda da economia verde no Acre é o que regula o REDD (Redução de Emissões por Degradação e Desmatamento), um regime internacional de retenção de carbono. Desde 2010, o governo se compromete a desmatar menos e, assim, emitir menos gás carbônico, um dos principais causadores do aquecimento global. Tudo o que ficar abaixo da meta é considerado carbono não emitido e pode ser vendido, por exemplo, a empresas que poluem o meio ambiente, mesmo em outras partes do globo. A medição da quantidade de carbono é feita com base em cálculos matemáticos pré-estabelecidos internacionalmente, e impõe uma série de restrições ao uso da floresta por parte de comunidades que dela dependem para sua sobrevivência. Está em negociação um acordo que permitirá a empresas californianas que estourarem as metas de poluição nos EUA e compensarem até 4% do excesso de emissões comprando créditos do CO2 que o Acre deixou de emitir.
“O comércio de crédito de carbono nada mais é do que a compra do direito de poluir”, disse o agrônomo Andrade. “No caso do acordo com a Califórnia, perde a população de lá, que continua a viver num ambiente poluído, e perdem os povos tradicionais do Acre, que têm seu modo de vida tradicional alterado.”
Mesmo nos casos em que não há derrubada de grandes áreas, há denúncias de degradação florestal devido a retirada seletiva de determinadas espécies de árvores. A degradação não é medida pelo monitoramento por satélite, mas é sentida na pele pelos povos que vivem da floresta. Além do impacto, essas populações são impedidas, pelas regras de sustentabilidade da economia verde, de exercer suas atividades de sobrevivência.
Sentada ao lado de Andrade, diante de um lago povoado por capivaras no campus da Universidade Federal do Acre, em Rio Branco, a coordenadora da Comissão Pastoral da Terra (CPT) do Acre Darlene Braga disse que as pressões geradas pela economia verde impedem os povos tradicionais de caçar e os obrigam a ingressar num sistema econômico que muitos não entendem. “O que a gente vê são famílias sendo expulsas, com medo de perder o pedaço de chão onde vivem e o direito de uso do território”.
Overbeek concorda: “Nossas pesquisas mostram que é assim no mundo inteiro. As regras de sustentabilidade não alcançam o grande fazendeiro nem os empreendimentos privados, mas sim as populações tradicionais. Por quê? Porque elas não têm poder político.”
EXTRATIVISMO X FLORESTA PLANTADA
A fábrica de preservativos Natex fica na entrada de Xapuri, uma cidadezinha tranquila e bem cuidada, com palafitas de madeira colorida dependuradas sobre o barrento rio Acre – onde Chico Mendes nasceu, viveu e foi assassinado. Inaugurada em 2008, a fábrica é da Fundação de Tecnologia do estado do Acre e é motivo de orgulho do governo quando se fala em política para os seringueiros. O empreendimento deveria estimular o sistema de “florestas plantadas” sem acabar de vez com o extrativismo da seringa, do qual muitos seringueiros tradicionais não abrem mão. Mas tem sido alvo de críticas.
“Tem várias maneiras de introduzir essa lógica de economia verde sem que ela apareça como tal”, critica o agrônomo Andrade. A produção da Natex, que alimenta os estoques do Ministério da Saúde na região norte, é baseada em látex local, que tem o preço subsidiado (em parte com dinheiro do acordo com a Alemanha). Andrade diz que, no ano passado, a Natex pagava em torno de R$ 7,80 pelo quilo do látex, sendo R$ 3,80 pelo produto e R$ 4 de subsídio. Mas, para acessar o subsídio, o seringueiro tinha que assinar um contrato com o governo “para cumprir os ritos de mecanismo de controle do território”, diz Andrade, apontando que esse é um dos mecanismos usados pelo governo do estado para institucionalizar a filosofia do programa. Procurada, a Natex informou que a contratação dos seringueiros é feita pela Cooperacre, responsável pelo pagamento. Sobre o contrato, não se manifestou. A cooperativa não retornou o contato da reportagem.
Dercy Teles Cunha, 62, anos, é a primeira mulher a presidir o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri, que teve Chico Mendes como fundador
Seringueiro retira o látex de árvore em uma das florestas plantadas com apoio de programa do governo do Acre
“O extrativismo da seringa morreu e o governo não apresentou, até hoje, uma alternativa de geração de renda que substitua aquilo que o extrativismo da borracha garantia”, disse a líder do movimento seringueiro Dercy Teles Cunha, 62, anos. Cunha é a primeira mulher a presidir o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri. Segundo ela, a maior parte do látex comprado pela Natex vem de seringais plantados (o governo nega, e diz que 70% da borracha vem de seringais nativos). Isso, ela disse, deixa os antigos seringueiros sem ofício e não colabora para a preservação da Amazônia.
A Reserva Extrativista Chico Mendes foi fundada em 1990, dois anos depois da morte do seringueiro e sindicalista, e até hoje serve de modelo para o governo federal desse tipo de unidade de conservação. Nela, segundo o ICMBio, vivem 10 mil pessoas em uma área de mais de mais 900 mil hectares que ocupam sete municípios diferentes, reunindo 46 seringais. A Resex surgiu em um momento conturbado de conflito entre seringueiros e o avanço da pecuária, e até hoje enfrenta diversos tipos de pressões e ameaças.
“Floresta é um conjunto de espécies que jamais o homem tem capacidade de reconstruir”, afirmou Cunha, sentada diante de sua casa, numa ruela de terra para rebater a ideia de “floresta plantada”. Os seringueiros e seus filhos continuam usando a floresta para caça, coleta da castanha, entre outras atividades. O impacto mais claro das ameaças sobre a mata, ainda segundo a líder seringueira, é na extração da castanha do Pará. A árvore depende da polinização de um besouro – o mamangá – para sobreviver. Como ele voa distâncias curtas, precisa das árvores mais baixas para ir escalando aos poucos, até chegar nas copas mais altas das castanheiras. Ou seja, sem a floresta, não há castanha.

Dercy diz ter medo de que o campo se torne uma zona deserta. “E aí sobra o que pra quem vive na floresta? Pra gerar renda e atender esse consumo do celular de última geração que a juventude quer? Quem garante isso são os bezerros que, com sete meses, você vende por 700 ou 800 reais.” O avanço da pecuária salta aos olhos de quem visita Xapuri. O pasto compete com a floresta até na Reserva Extrativista Chico Mendes.
Os planos de manejo florestal comunitários, incentivados pelo governo e autorizados por associações no interior da Resex em parceria com o ICMBio, também são alvo de críticas. Segundo o governo, apenas as árvores de maior valor comercial são retiradas, num sistema de rodízio em que, após uma primeira derrubada pontual, as áreas ficam intocadas por 30 anos, para sua “recuperação”. O agrônomo Andrade disse que o cálculo do governo é nebuloso, assim como o processo. “Quem certifica que aquela árvore tem mesmo trinta anos? Quem mede a degradação florestal, que não aparece no mapa do desmatamento?”
No Acre está a Agrocortex, a única madeireira autorizada a explorar mogno no país. A extração e a venda da madeira, avermelhada e resistente, viraram símbolo de devastação florestal nas décadas de 80 e 90 e estavam proibidas até 2011. Naquele ano, a Batisflor Florestal LTDA, proprietária da Fazenda Seringal Novo Macapá, conseguiu liberação do Ibama para o plano de manejo por trinta anos. Em 2014, a Agrocortex passou a ser a executora das atividades, condição que manteve até 2016. Em abril daquele ano, tornou-se detentora do projeto. No momento a Agrocortex é a única empresa autorizada a realizar manejo de mogno no país.
A Agrocortex é a única madeireira autorizada a explorar mogno em todo o país.
A equipe da Repórter Brasil visitou a sede da empresa no Acre. A Agrocortex, do grupo português Domínio Capital, tem autorização para explorar mogno e outras madeiras em 190 mil hectares distribuídos nos municípios de Manoel Urbano, no Acre, e Boca do Acre e Pauini, no estado do Amazonas.
O mercado estrangeiro é o maior comprador, tanto que o site da empresa está em inglês. O metro cúbico da madeira custa de duas a três vezes o valor de outras árvores nativas com características semelhantes. A missão da Agrocortex, segundo o site da própria empresa, é “ser referência mundial no manejo sustentável de florestas tropicais numa perspectiva de uso múltiplo da floresta”. Todo o mogno extraído pela empresa é certificado pela Forest Stewardship Council (FSC). Questionada sobre rendimentos e o manejo de mogno, a Agrocortex não retornou até o fechamento desta edição.
O plano de manejo acreano, um dos pilares da economia verde, foi investigado por Overbeek, do Movimento Mundial pelas Florestas Tropicais. “Não é uma prática sustentável no sentido de não danificar a floresta, nem beneficia as comunidades. Quem se beneficia são as grandes madeireiras”, diz.
O manejo fica a cargo das empresas madeireiras, com restrições ao uso da floresta pelas comunidades. Foi o que aconteceu na região da Resex onde o filho de seringueiros João Zacarias de Souza mora. Por lá, a coisa não saiu a contento para o seringueiro Souza e de seus vizinhos. Eles contam que a empresa cobrava pelo serviço de retirada e transporte da madeira e, no final, pouca coisa voltava para os habitantes tradicionais da terra. Quem lucrava, dizem, eram as madeireiras, que ainda levavam o slogan “sustentável”. Os seringueiros afirmam que, por permitir o manejo em 40 hectares, uma família recebia cerca de R$ 6 mil em um ano. “Depois não pode tirar um pé de árvore nem um pau pra fazer cabo de enxada”, disse Souza.
Os moradores da terra dizem ganhar R$ 60 por metro cúbico de madeira, enquanto esse mesmo metro cúbico é comercializado por R$ 1.000. Parece uma diferença gritante, mas o governo justifica a conta. Segundo o secretário adjunto do estado do Meio Ambiente João Paulo Mastrangelo, o valor pago pela madeira em pé varia de R$ 30 a R$ 70, enquanto a madeira serrada de menor valor comercial é vendida por cerca de R$ 500. Ele, contudo, faz a ressalva de que a empresa arca com os custos de produção e de que apenas 20 a 55% de cada tora é de fato aproveitado. Isso, ainda segundo Mastrangelo, resultaria num lucro de 10% para a empresa que explora o plano de manejo.
Apesar do retorno baixo, muitos toparam. O governo ofereceu, como estímulo, 40 horas de escavadeiras para a construção de açudes. A ideia era fazer da região um polo de produção de peixes. Mas isso também não foi adiante. As máquinas trabalharam menos do que o prometido e os açudes ficaram rasos demais. “No governo, os cabra vêm aqui e acham que tá tudo normal. Esses açudes, eles pensam que deu certo”, disse João Zacarias de Souza.
Questionado, o governador Tião Viana disse que o caso da Resex teve a ver com um mal entendido com os moradores. “O plano era de parceria. Ganhava 40 horas mas ele tinha de por o óleo. Mas aí ele não tinha o recurso do óleo”, disse Viana, que tem no fomento à piscicultura uma de suas bandeiras de governo.
SAI O SERINGUEIRO, ENTRA O GADO
Cerca de 400 quilômetros separam a cidade de Xapuri de Manoel Urbano, maior parte deles percorrida pela BR-364. Na principal estrada do Acre, uma pista única de asfalto quase sem curvas, crateras se abrem de repente, prontas a mastigar pneus de caminhões ou tragar carros populares de um gole só. No trecho que separa as duas cidades, quase não se vê floresta, apenas capim verde-claro, pontilhados de gado para corte. Em Manoel Urbano, um povoado com ruas esburacadas e terrenos cobertos de mato e terra revirada, vive-se quase que exclusivamente do funcionalismo público e pouca gente ouviu falar da economia verde.
Mas ali perto, uma hora de barco rio acima, está um dos mais controversos exemplos do ambientalismo acreano: o projeto Purus, uma inciativa privada de REDD em 35 mil hectares. O projeto não tem ligação direta com o governo do estado, mas é anunciado como um símbolo da economia verde. Foi criado pelo ex-prefeito de Sena Madureira, Normando Sales, então no ex-DEM. O programa é certificado por empresas estrangeiras, e o carbono não emitido é comprado por empreendimentos diversos. Uma parte dos créditos adquiridos pela Fifa para neutralizar a Copa do Mundo do Rio, por exemplo, veio de lá.
A primeira controvérsia tem a ver com a terra em que ele se instalou: três antigos seringais onde 24 famílias dependem da agricultura e da floresta para subsistência. Com a chegada do projeto, alguns desses habitantes tradicionais dizem estar sofrendo pressões para deixar de plantar, de caçar e de abrir áreas de roçado.
Antônio Leite Cardeal (centro) na varanda de sua casa com vista para a terra que leva o nome de Seringal Itatinga.
Ele diz que o projeto não levou em consideração as práticas da comunidade
“Nós somos caboclos da mata, mas não é por isso que vai vir o povo da cidade enganar a gente”, disse o ex-seringueiro Antônio Leite Cardeal, 69, na varanda de sua casa, com vista para a terra que recebe o nome de Seringal Itatinga. Cardeal, que chegou ali em 1964 ainda adolescente, diz que há cerca de dez anos advogados do projeto o procuraram para tentar um acordo. A proposta, que não levou em consideração as práticas da comunidade, era desmembrar cem hectares e doar aos posseiros que tradicionalmente ocupam a região.
Mas estariam de fora dessa conta os filhos adultos que já fixaram moradia na área, o que, na visão dos ex-seringueiros, torna a oferta desfavorável. Para obter o crédito de carbono, eles não poderiam criar nem plantar nas terras. “Não ia poder brocar para fazer roça, não ia poder caçar, não ia poder acender um cigarro”, disse. Com a recusa, vieram propostas de benfeitorias e de um “salário” de R$ 300 para sua esposa, com quem teve 11 filhos. O valor é menor do que um terço do salário mínimo nacional, hoje R$ 937.
Diante da resistência, os fundadores do projeto teriam, ainda segundo o ex-seringueiro, feito denúncias de uso de fogo para abertura de roçados ao Instituto de Meio Ambiente do Acre, que geraram uma multa de mais de R$ 13 mil. “Nós temos uma cultura aqui”, disse Cardeal. “Agora me diz se é justo multar a gente por fazer roçado, enquanto tá cheio de boi na sede do projeto?” Além disso, diz Leite e outros seringueiros, o projeto avançou sem a anuência dos moradores locais, que era uma pré-condição para o projeto ser certificado. Em julho deste ano, houve uma audiência entre os moradores e os “donos” do Purus. Leite diz que Sales, do Purus, afirmou aos promotores que eles já tinham entrado em consenso. “Isso nunca aconteceu”, diz Leite, que, junto dos demais moradores, aprenderam sobre a discussão da venda do crédito de carbono para resistir.
No dia em que a equipe da Repórter Brasil esteve na sede, um comerciante, que se identificou apenas como Agostinho, estava no local avaliando 46 cabeças de boi, soltas no pasto que se abria no coração da floresta mantida para capturar carbono. Era a segunda vez que ele visitava o local. Na primeira, seis meses antes, disse ter avaliado cem animais. Mas não deu negócio. “Foi realmente um erro ter gado ali”, disse Normando Sales três dias depois, em seu escritório em Rio Branco. Não disse quanto ganha com os créditos vendidos nem quais empresas os compram.
A equipe da Repórter Brasil flagrou cabeças de gado dentro do Projeto Purus. Na imagem, o comerciante que avaliou as cabeças – e não levou
O que parece um galpão deveria ser o posto de saúde prometido pelos donos do Projeto Purus
Para além do gado, moradores locais afirmam que o site do projeto utiliza fotos forjadas de atendimentos de saúde feitas na sede do projeto, além de escolas que, na verdade, são do município e não atendem à população local. Em resposta, Sales disse que em nenhum momento afirmou que as atividades retratadas no site estavam diretamente ligadas com a população local.
“Vamos dar uma olhada nessa história do Purus”, disse o governador Tião Viana a um assessor, na presença da equipe da Repórter Brasil, depois de ser informado sobre a existência de gado na sede. Apesar de não ter ligação direta com o estado, o projeto é anunciado como um símbolo, e suas falhas são mais uma mancha na economia verde.
* Imagem destacada: Em Rio Branco, muro pintado com o rosto de Chico Mendes. Ele foi assassinado em 1988 por enfrentar um grileiro na defesa do interesse de comunidade extrativista (Imagens: Fernando Martinho)