domingo, 12 de abril de 2026

INDIGENISMOS? – Um olhar para si mesmo.

 

Desenho produzido durante encontro sobre AMACRO, 2023.

    Há alguns anos escrevi sobre os riscos dos diversos indigenismos que eu havia identificado e que tinham forte atuação entre os povos e, noto que ainda estão presentes até hoje e em franca expansão, cada vez aumentando mais sua influência junto aos povos, governos e sociedade em geral. Vou apresentar estes indigenismos aqui a título de recordar aos que já leram meu artigo anterior e para dar a conhecer aos que estão lendo agora, aqui. Refiro-me aos indigenismos:

 

* Indigenismo culturalista.

 

    Este tipo de indigenismo baseia-se apenas em aspectos que julga ser "essencial" nas culturas. Ou seja, é um indigenismo que não se importa com outros aspectos da vida do povo, pauta-se apenas em evidenciar elementos culturais como língua, alguns ritos, pinturas, artesanatos e grafismos. É o tipo de indigenismo que se apresenta como o único e melhor. É capaz de dizer a um povo que está sem território que é preciso "resgatar" a língua materna e os cânticos..., por exemplo. É um indigenismo, muitas das vezes, superficial, chegando mesmo a acreditar na quase imutabilidade cultural, como é o caso do dito resgate da lingua (ou outros aspectos). Outro exemplo da superficialidade é quando se entende o resgate da lingua, por exemplo, como mero exercício de alfabetização por meio de palavras soltas, sem a efetiva aprendizagem da estrutura da lingua. Ou ainda quando "copiam" palavras, cânticos, grafismos, de outros povos, dando um ar de desconexão com a tradicionalidade e ancestralidade. O indigenismo culturalista, na maioria das vezes, é o suporte necessário para o indigenismo turístico. Para este tipo de indigenismo o apoio linguístico é muito necessário para que o povo possa falar algumas palavras e, a partir daí, compor músicas e outros aspectos que possam evidenciar o chamado resgate cultural. O problema é o comércio das culturas!

 

* Indigenismo Turístico.

 

     Como o nome já sugere, trata-se de um indigenismo moldado para agradar os turistas. É um indigenismo que visa basicamente a obtenção de lucro, através da comercialização de uma suposta "cultura exótica", porém montada ou recriada e adaptada ao gosto do freguês. Basicamente é um indigenismo que mercantiliza de forma desbragada o que propõe e produz o indigenismo culturalista. Na verdade, há uma espécie de simbiose entre os culturalistas e os turistas, na perspectiva do indigenismo, onde um alimenta e se alimenta do outro. Este tipo de indigenismo se apresenta na atualidade muito ligado aos chamados festivais de cultura. É o que podemos chamar de uma falsa solução para os povos e uma importante fonte de recursos para empresas que investem neste tipo de turismo. Este tipo de indigenismo também é apoiado por governos porque não questiona a realidade e nem propõe mudanças. É óbvio que os povos indígenas podem e até devem valorizar fortemente sua cultura. Entretanto, quando isso passa a não beneficiar os povos, mas apenas grandes empresas ligadas ao etnoturismo, deve acender uma luz de atenção. O problema é o comércio da cultura associado ao comércio da natureza.

 

* Indigenismo de eventos.

 

        É aquele tipo de indigenismo que vive de promover eventos e levar representantes indígenas como se fossem uma espécie de troféu para dar sentido ao evento. Organizam eventos como palestras em universidades, centros culturais e até mesmo em outros países. Muitas das vezes realizam eventos como encontros de jovens lideranças, encontro de mulheres caciques, encontro de artesãs. Os indigenistas ligados ao indigenismo de eventos, não só promovem esses eventos como se aprimoram para melhor participarem desses eventos. Vivem de um evento para o outro, mesmo que isso não leve a lugar algum. Tem indigenistas e indígenas que vivem assim e sustentam uma máquina de silenciar mentes e corações para fazer parecer que tudo está bem para os povos. O problema é estabelecer eventos como forma de ganhar dinheiro. É o comércio de eventos!

 

* Indigenismo xamânico.

 

        Esse, por vezes, se soma aos demais indigenismos já mencionados aqui, mas neste caso, trata-se de um indigenismo que não busca apenas oferecer um espaço turístico ou cultural, mas oferece um espaço de curas rituais. Está cada vez mais incentivado e procurado nestes tempos de depressão mundial, onde há uma clara percepção de que há sim, curas na natureza e no xamanismo. Porém, a necessidade de lucrar com isso também aí se faz presente, seja por meio de igrejas que se valem de certos conhecimentos dos povos como o uso de ervas e chás, seja por meio da "formação" dos chamados new shamans que recebem os clientes/pacientes/turistas em espaços próprios como em kupixawas nas próprias comunidades ou em espaços fora das comunidades e dos territórios, como em centros culturais, universidades, igrejas, pelo Brasil e pelo mundo. Além da promessa de cura, este tipo de indigenismo promete bem-estar, não demanda renúncias e nem transformações reais na realidade. É um indigenismo altamente individualista! A outra face deste indigenismo é o proselitismo. Igrejas e seitas tentam arrebanhar "fiéis" junto aos doentes da alma com a promessa de cura por meio de rituais e uso de chás e vários outros elementos da natureza. Por essa característica do proselitismo, não por parte dos povos, mas por parte dos indigenistas mesmos e por parte das igrejas e seitas constituídas, que na oposição e dentro das comunidades, tem crescido o neopentecostalismo e o proselitismo cristão em geral. O problema é o comércio da fé!

 

* Indigenismo ambientalista (preservacionista).

 

        O indigenismo ambientalista (preservacionista) também está em voga e cresce exponencialmente em tempos de catástrofe climática. Neste grupo estão os que fraudam, divulgam verdadeiras farsas e apresentam as falsas soluções como se verdadeiras fossem. É o indigenismo do "carbono" e da mercantilização da natureza. Os mercadores da natureza, ao mesmo tempo que pregam que os povos originários são os "guardiões" da natureza, os responsabilizam pela destruição ambiental. É assim, por exemplo que funciona o REDD+ (Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal). Ou seja: os povos e comunidades, defensores e preservadores, são na verdade tratados como os destruidores. Destroem porque caçam, porque pescam, porque fazem roçados e pequenas pastagens baseadas na técnica da coivara. Além do REDD e REM (REDD Early Movers - REDD para pioneiros), os indigenistas ambientalistas (preservacionistas) lançam mão de mecanismos financeiristas como Pagamento por Serviços Ambientais- PSA, Soluções Baseadas na Natureza- SbN e toda a estrutura proposta pelo mercado de carbono, entre outros. Uma verdadeira armadilha para os povos!

                 A este respeito já escrevi alertando para a transferência de responsabilidades e de outras armadilhas como em (PADILHA, 2018, p 48) quando disse que a adoção de conceitos como "gestão" territorial e empreendedorismo como forma de transferir as responsabilidades pelo sucesso, ou fracasso, aos próprios povos indígenas, desresponsabilizando o poder público, ONGs, empresas e governos não nacionais. Quando eu falava sobre isso, deixava claro que a intenção do governo (do Acre à época, liderado por Tião Viana, mas que se iniciou desde ainda na primeira gestão da Frente Popular do Acre - FPA), era de, a partir do conceito de gestão territorial, reservar uma parte da área preservada para dar como garantia, em uma espécie de hipoteca, ao mercado de carbono. Em outras palavras, reservar parte dos territórios para o mercado da natureza. Passaram a chamar a isso de REM (REDD for Early Movers). Lançado na Conferência Rio+20, em junho de 2012, com recursos do Fundo de Energia e Clima do Governo Federal da Alemanha, esse Programa incentiva a conservação das florestas e a redução de emissões de carbono de modo a contribuir para a mitigação das mudanças do clima. (IMC, S. data).

                Quando o IMC fala em incentivar a preservação das florestas, redução de emissão de gases de efeito estufa e, consequentemente, contribuir com a mitigação das mudanças do clima, esconde a verdade. A verdade omitida é a de que o mercado, por meio do REM, REDD, ... exercerá total controle sobre os territórios, dizendo o que o povo pode ou não fazer. No caso, gestão territorial e empreendedorismo são verdadeiras armadilhas montadas para que os povos pensem que são eles que estão decidindo, quando na verdade o mercado é que está decidindo e dizendo o que podem ou não fazer. Se a autonomia dos povos fosse realmente tomada em conta, não precisaria de projetos alheios para convencê-los a realizarem a dita gestão territorial e tão pouco precisariam ser induzidos a adotarem o empreendedorismo.

                Por certo que todos esses indigenismos têm seu valor em certa medida e dão sua parcela de contribuição. Entretanto é preciso que se tenha muito cuidado para que os povos não sejam manipulados e se transformem em presas fáceis para o capital e seus operadores, muitas vezes travestido (o capital) de cordeiro. O capitalismo desenvolvimentista se traveste de indigenistas e se apresenta com feições de antropólogos, religiosos, instituições públicas que atuam junto aos povos, ONGs indigenistas e até indígenas e, claro, ambientalistas que vão do "azul ao vermelho".

*Indigenismo social/político (engajado).

Este tipo de indigenismo é cada vez mais raro. Por isso mesmo, também é difícil encontrar indigenistas adeptos e de fato engajados, ou militantes. É um indigenismo que tem sido fortemente atacado por conta de criticar indigenismos outros que defino, em seu conjunto, como indigenismos de resultado. O indigenismo de resultado, presente nos demais indigenismos, exceto no indigenismo social/político, é o tipo de indigenismo que sustenta que os povos não precisam tanto de terra, mas precisam de empreendedorismo e geração de renda.

O tema do empreendedorismo e geração de renda é especialmente preocupante quando se trata de indigenismo de resultado. E, explico porque deve-se tomar cuidado:

Empreendedorismo: De cara, aparece a questão de “mercado dentro do capitalismo como modelo econômico”. Digo isso para deixar claro que o mercado, como tal, e por si só não é de todo ruim. Ruim é o mercado capitalista. Vejamos o que diz o próprio SEBRAE:

Empreender inclui abrir negócios e gerar empregos, mas vai muito além disso. Empreendedores são agentes de inovação, que melhoram a qualidade de vida das pessoas, que impulsionam o crescimento econômico. (...) podemos dizer que empreender é também saber identificar oportunidades e transformá-las em negócios. Isso pode se dar, por exemplo, a partir de uma solução criada para sanar alguma necessidade dos consumidores, que pode ser um produto ou serviço. (...) empreender também envolve a habilidade de gerenciar recursos, tomar decisões estratégicas e adaptar-se às mudanças no mercado. (SEBRAE, 2025). (grifo meu).

Vejam que a base é mesmo o mercado capitalista. Falam em “abrir negócios”, “crescimento econômico”, “transformar oportunidades em negócios”, “se valer da necessidade dos consumidores” e “adaptar-se ao mercado”.  Portanto, o empreendedorismo visa unicamente satisfazer o mercado e, quase sempre, é uma ação individual. Ora, o mercado capitalista é individualista. Portanto, como que um indigenismo, que por óbvio e historicamente defende o coletivismo, pode defender um modelo individualista? É nessa passagem do coletivo para o individualismo que ocorrem os usos e abusos de elementos da cultura de um povo. Por exemplo: o artesanato que sempre foi resultado de um coletivo cultural, agora é apropriado por um indivíduo que vai comercializá-lo chamando a isso de empreendedorismo. Isso se aplica a pinturas, chás, danças, cantos e, enfim, elementos culturais e tradicionais de um de determinado povo.

Tratei do tema quando escrevi o artigo: A "sebraelização do indigenismo" na Amazônia Ocidental como estratégia para a mercantilização e a financeirização.

A "sebraelização" das relações, a mercantilização da cultura, assim como a financeirização da natureza por meio da 'economia verde' (ou outro nome que soar melhor), têm um vício de origem: não procuram equacionar e resolver os gravíssimos problemas dos povos indígenas, mas apenas, resolver os problemas da falta de políticas públicas por parte do governo, e em vários casos, resolver o problema de caixa de governos e ONGs. (PADILHA, 2018, p. 45)

                Geração de renda: Aqui o foco continua sendo o mercado capitalista, porém, o resultado diretamente esperado recai sobre o indivíduo. Ou seja, o que o indivíduo pode ganhar, ou fazer dinheiro. Trata-se de conseguir dinheiro para o sujeito seguir contribuindo com sua parte para o desenvolvimento infinito do capitalismo.  Vejamos o que diz a Raízes Desenvolvimento Sustentável:

Bufunfa, bolada, grana, trocado, tutu – essas são algumas das muitas gírias, sinônimos para “dinheiro”, encontradas Brasil afora. E é aí que entra a geração de renda. Significa estimular ou permitir que as pessoas iniciem negócios próprios dirigidos ao mercado de forma cooperada, associada ou individualmente. Significa também a geração de atividade econômica, por meio de pequenos negócios individuais ou em associação/cooperação. (RAIZES, 2021). (grifo meu)

Estimular ou permitir significa ainda “se vender como mão de obra”. O mercado nunca fala só em geração de renda. Fala de geração de emprego e renda. Por isso, um senhor que vende picolés pelas ruas da cidade, é um gerador de renda. Isso porque o que ele recebe, ainda que muito pouco, é considerado “renda”. É basicamente a exploração do capital sobre o trabalho. É o fomento da segunda parte do individualismo: “eu é que vendo minha mão de obra, logo, a renda é minha”. É uma interpretação covarde da exploração, que tenta transformar o fruto dessa exploração (salário) em renda. E isso ainda é pior se olharmos para a afirmação de que o mercado “estimula ou permite” essa exploração.

Uma outra questão que se coloca aqui é a infinitude do desenvolvimento capitalista que não considera a finitude das matérias prima e, portanto, do próprio planeta enquanto fornecedor. Este desenvolvimentismo, quando aplicado a povos originários (tribais, portanto, coletivos de acordo com a OIT) em sua organização social, é uma ameaça direta aos territórios, “imprescindíveis à preservação dos recursos ambientais necessários a seu bem-estar e as necessárias à sua reprodução física e cultural, segundo seus usos, costumes e tradições. (CF, Art. 231, § 1º).

Mas, então, o que se está dizendo é que os indigenismos do tipo culturalista, turístico, de eventos, Xamânico e ambientalista (preservacionista) são ruins para os povos?

Não. O que estou dizendo é que estes “indigenismos” são facilmente influenciados pelo capital e tendem a agir em favor deste mesmo capital. É preciso que os povos e suas lideranças estejam atentos. Para seduzir povos, comunidades e lideranças, representantes desses indigenismos utilizam o argumento de que esses mesmos povos e lideranças são autônomos, enquanto agem de outra forma, justamente a negar a autonomia e exercendo a prática do assédio. Senão vejamos:

Se se reconhece a autonomia dos povos, então porque precisa que alguém ou alguma instituição que não o próprio povo com seu jeito próprio de se organizar, para “ajudar a construir seus protocolos de consulta”? Se os protocolos de consulta são a forma que querem ser consultados, não cabe a ninguém dizer como devem ser feitos ou construídos. A nós (aos não indígenas), cabe apenas respeitar os protocolos que eles mesmos tenham.

Se se reconhece que os povos originários, indígenas, são os que mais preservam e são os que sempre realizaram o manejo em seus territórios, que sentido faz buscar ONGs, instituições ou qualquer forma de consultoria para auxiliá-los a construírem um “plano de manejo”?

Esses dois exemplos evidenciam com enorme clareza que a autonomia dos povos, na verdade, não passa de discurso e segue o caminho das falsas soluções apresentadas pelo mercado capitalista apoiado nos mercadores e financeirizadores da natureza.

Os espaços de discussões, debates e luta por direitos, como o direito ao território, estão cada vez mais ocupados por esses mercadores de tudo.

O indigenismo social/político (engajado), por sua vez, ainda entende que a demarcação dos territórios antecede qualquer outro direito em sua forma de ser aplicado, por certo. É, por assim dizer, o indigenismo do indigenato.

 

Referências

 

BRASIL, Constituição Federal. Planalto, 1988. Disponível em: https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra?codteor=469704

IMC, Programa para pioneiros em REDD+ (REM). Disponível em: https://imc.ac.gov.br/programa-para-pioneiros-em-redd-rem/

SEBRAE, Mas afinal, o que é empreendedorismo? Setembro, 2025. Disponível em: https://www.sebrae-sc.com.br/blog/o-que-e-empreendedorismo

RAIZES, Desenvolvimento Sustentável. O que fazemos: projetos de empreendedorismo e geração de renda. Junho de 2021. Disponível em: https://raizesds.com.br/pt/empreendedorismo-e-geracao-de-renda/

PADILHA, Lindomar Dias. A "sebraelização do indigenismo" na Amazônia Ocidental como estratégia para a mercantilização e a financeirização. Revista 30 anos pós assassinato de Chico Mendes e destruição oculta de florestas e vidas no Acre. Rio Branco, AC, 2018.

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