Há alguns anos escrevi sobre os riscos dos
diversos indigenismos que eu havia identificado e que tinham forte atuação
entre os povos e, noto que ainda estão presentes até hoje e em franca expansão,
cada vez aumentando mais sua influência junto aos povos, governos e sociedade
em geral. Vou apresentar estes indigenismos aqui a título de recordar aos que
já leram meu artigo anterior e para dar a conhecer aos que estão lendo agora,
aqui. Refiro-me aos indigenismos:
* Indigenismo culturalista.
Este tipo de indigenismo baseia-se apenas
em aspectos que julga ser "essencial" nas culturas. Ou seja, é um
indigenismo que não se importa com outros aspectos da vida do povo, pauta-se
apenas em evidenciar elementos culturais como língua, alguns ritos, pinturas,
artesanatos e grafismos. É o tipo de indigenismo que se apresenta como o único
e melhor. É capaz de dizer a um povo que está sem território que é preciso
"resgatar" a língua materna e os cânticos..., por exemplo. É um
indigenismo, muitas das vezes, superficial, chegando mesmo a acreditar na quase
imutabilidade cultural, como é o caso do dito resgate da lingua (ou outros
aspectos). Outro exemplo da superficialidade é quando se entende o resgate da
lingua, por exemplo, como mero exercício de alfabetização por meio de palavras
soltas, sem a efetiva aprendizagem da estrutura da lingua. Ou ainda quando
"copiam" palavras, cânticos, grafismos, de outros povos, dando um ar
de desconexão com a tradicionalidade e ancestralidade. O indigenismo
culturalista, na maioria das vezes, é o suporte necessário para o indigenismo
turístico. Para este tipo de indigenismo o apoio linguístico é muito necessário
para que o povo possa falar algumas palavras e, a partir daí, compor músicas e
outros aspectos que possam evidenciar o chamado resgate cultural. O problema é
o comércio das culturas!
* Indigenismo Turístico.
Como o nome já sugere, trata-se de um
indigenismo moldado para agradar os turistas. É um indigenismo que visa
basicamente a obtenção de lucro, através da comercialização de uma suposta
"cultura exótica", porém montada ou recriada e adaptada ao gosto do
freguês. Basicamente é um indigenismo que mercantiliza de forma desbragada o
que propõe e produz o indigenismo culturalista. Na verdade, há uma espécie de
simbiose entre os culturalistas e os turistas, na perspectiva do indigenismo,
onde um alimenta e se alimenta do outro. Este tipo de indigenismo se apresenta
na atualidade muito ligado aos chamados festivais de cultura. É o que podemos
chamar de uma falsa solução para os povos e uma importante fonte de recursos
para empresas que investem neste tipo de turismo. Este tipo de indigenismo
também é apoiado por governos porque não questiona a realidade e nem propõe
mudanças. É óbvio que os povos indígenas podem e até devem valorizar fortemente
sua cultura. Entretanto, quando isso passa a não beneficiar os povos, mas
apenas grandes empresas ligadas ao etnoturismo, deve acender uma luz de
atenção. O problema é o comércio da cultura associado ao comércio da natureza.
* Indigenismo de eventos.
É aquele tipo de indigenismo que vive
de promover eventos e levar representantes indígenas como se fossem uma espécie
de troféu para dar sentido ao evento. Organizam eventos como palestras em
universidades, centros culturais e até mesmo em outros países. Muitas das vezes
realizam eventos como encontros de jovens lideranças, encontro de mulheres
caciques, encontro de artesãs. Os indigenistas ligados ao indigenismo de
eventos, não só promovem esses eventos como se aprimoram para melhor
participarem desses eventos. Vivem de um evento para o outro, mesmo que isso
não leve a lugar algum. Tem indigenistas e indígenas que vivem assim e
sustentam uma máquina de silenciar mentes e corações para fazer parecer que
tudo está bem para os povos. O problema é estabelecer eventos como forma de
ganhar dinheiro. É o comércio de eventos!
* Indigenismo xamânico.
Esse, por vezes, se soma aos demais
indigenismos já mencionados aqui, mas neste caso, trata-se de um indigenismo
que não busca apenas oferecer um espaço turístico ou cultural, mas oferece um
espaço de curas rituais. Está cada vez mais incentivado e procurado nestes
tempos de depressão mundial, onde há uma clara percepção de que há sim, curas
na natureza e no xamanismo. Porém, a necessidade de lucrar com isso também aí
se faz presente, seja por meio de igrejas que se valem de certos conhecimentos
dos povos como o uso de ervas e chás, seja por meio da "formação" dos
chamados new shamans que recebem os clientes/pacientes/turistas em espaços
próprios como em kupixawas nas próprias comunidades ou em espaços fora das
comunidades e dos territórios, como em centros culturais, universidades,
igrejas, pelo Brasil e pelo mundo. Além da promessa de cura, este tipo de
indigenismo promete bem-estar, não demanda renúncias e nem transformações reais
na realidade. É um indigenismo altamente individualista! A outra face deste
indigenismo é o proselitismo. Igrejas e seitas tentam arrebanhar
"fiéis" junto aos doentes da alma com a promessa de cura por meio de
rituais e uso de chás e vários outros elementos da natureza. Por essa
característica do proselitismo, não por parte dos povos, mas por parte dos
indigenistas mesmos e por parte das igrejas e seitas constituídas, que na
oposição e dentro das comunidades, tem crescido o neopentecostalismo e o
proselitismo cristão em geral. O problema é o comércio da fé!
* Indigenismo ambientalista
(preservacionista).
O indigenismo ambientalista
(preservacionista) também está em voga e cresce exponencialmente em tempos de
catástrofe climática. Neste grupo estão os que fraudam, divulgam verdadeiras
farsas e apresentam as falsas soluções como se verdadeiras fossem. É o
indigenismo do "carbono" e da mercantilização da natureza. Os
mercadores da natureza, ao mesmo tempo que pregam que os povos originários são
os "guardiões" da natureza, os responsabilizam pela destruição
ambiental. É assim, por exemplo que funciona o REDD+ (Redução de Emissões por
Desmatamento e Degradação Florestal). Ou seja: os povos e comunidades,
defensores e preservadores, são na verdade tratados como os destruidores.
Destroem porque caçam, porque pescam, porque fazem roçados e pequenas pastagens
baseadas na técnica da coivara. Além do REDD e REM (REDD Early Movers - REDD
para pioneiros), os indigenistas ambientalistas (preservacionistas) lançam mão
de mecanismos financeiristas como Pagamento por Serviços Ambientais- PSA,
Soluções Baseadas na Natureza- SbN e toda a estrutura proposta pelo mercado de
carbono, entre outros. Uma verdadeira armadilha para os povos!
A este respeito já escrevi alertando para a
transferência de responsabilidades e de outras armadilhas como em (PADILHA,
2018, p 48) quando disse que a adoção de conceitos como "gestão"
territorial e empreendedorismo como forma de transferir as
responsabilidades pelo sucesso, ou fracasso, aos próprios povos indígenas,
desresponsabilizando o poder público, ONGs, empresas e governos não nacionais.
Quando eu falava sobre isso, deixava claro que a intenção do governo (do Acre à
época, liderado por Tião Viana, mas que se iniciou desde ainda na primeira
gestão da Frente Popular do Acre - FPA), era de, a partir do conceito de gestão
territorial, reservar uma parte da área preservada para dar como garantia, em
uma espécie de hipoteca, ao mercado de carbono. Em outras palavras, reservar
parte dos territórios para o mercado da natureza. Passaram a chamar a isso de
REM (REDD for Early Movers). Lançado na Conferência Rio+20, em junho de 2012,
com recursos do Fundo de Energia e Clima do Governo Federal da Alemanha, esse
Programa incentiva a conservação das florestas e a redução de emissões de
carbono de modo a contribuir para a mitigação das mudanças do clima. (IMC, S.
data).
Quando
o IMC fala em incentivar a preservação das florestas, redução de emissão de
gases de efeito estufa e, consequentemente, contribuir com a mitigação das
mudanças do clima, esconde a verdade. A verdade omitida é a de que o mercado,
por meio do REM, REDD, ... exercerá total controle sobre os territórios, dizendo
o que o povo pode ou não fazer. No caso, gestão territorial e empreendedorismo
são verdadeiras armadilhas montadas para que os povos pensem que são eles que
estão decidindo, quando na verdade o mercado é que está decidindo e dizendo o
que podem ou não fazer. Se a autonomia dos povos fosse realmente tomada em
conta, não precisaria de projetos alheios para convencê-los a realizarem a dita
gestão territorial e tão pouco precisariam ser induzidos a adotarem o
empreendedorismo.
Por certo que todos esses indigenismos têm seu
valor em certa medida e dão sua parcela de contribuição. Entretanto é preciso
que se tenha muito cuidado para que os povos não sejam manipulados e se
transformem em presas fáceis para o capital e seus operadores, muitas vezes
travestido (o capital) de cordeiro. O capitalismo desenvolvimentista se
traveste de indigenistas e se apresenta com feições de antropólogos,
religiosos, instituições públicas que atuam junto aos povos, ONGs indigenistas
e até indígenas e, claro, ambientalistas que vão do "azul ao
vermelho".
*Indigenismo social/político
(engajado).
Este tipo de
indigenismo é cada vez mais raro. Por isso mesmo, também é difícil encontrar
indigenistas adeptos e de fato engajados, ou militantes. É um indigenismo que
tem sido fortemente atacado por conta de criticar indigenismos outros que
defino, em seu conjunto, como indigenismos de resultado. O
indigenismo de resultado, presente nos demais indigenismos, exceto no
indigenismo social/político, é o tipo de indigenismo que sustenta que os povos
não precisam tanto de terra, mas precisam de empreendedorismo e geração de
renda.
O tema do
empreendedorismo e geração de renda é especialmente preocupante quando se trata
de indigenismo de resultado. E, explico porque deve-se tomar cuidado:
Empreendedorismo: De cara,
aparece a questão de “mercado dentro do capitalismo como modelo econômico”.
Digo isso para deixar claro que o mercado, como tal, e por si só não é de todo
ruim. Ruim é o mercado capitalista. Vejamos o que diz o próprio SEBRAE:
Empreender inclui abrir negócios
e gerar empregos, mas vai muito além disso. Empreendedores são agentes de
inovação, que melhoram a qualidade de vida das pessoas, que impulsionam o crescimento
econômico. (...) podemos dizer que empreender é também saber identificar
oportunidades e transformá-las em negócios. Isso pode se dar, por exemplo,
a partir de uma solução criada para sanar alguma necessidade dos
consumidores, que pode ser um produto ou serviço. (...) empreender também
envolve a habilidade de gerenciar recursos, tomar decisões estratégicas e adaptar-se
às mudanças no mercado. (SEBRAE, 2025). (grifo meu).
Vejam que a
base é mesmo o mercado capitalista. Falam em “abrir negócios”, “crescimento
econômico”, “transformar oportunidades em negócios”, “se valer da necessidade
dos consumidores” e “adaptar-se ao mercado”. Portanto, o empreendedorismo visa unicamente
satisfazer o mercado e, quase sempre, é uma ação individual. Ora, o mercado
capitalista é individualista. Portanto, como que um indigenismo, que por óbvio
e historicamente defende o coletivismo, pode defender um modelo individualista?
É nessa passagem do coletivo para o individualismo que ocorrem os usos e abusos
de elementos da cultura de um povo. Por exemplo: o artesanato que sempre foi
resultado de um coletivo cultural, agora é apropriado por um indivíduo que vai
comercializá-lo chamando a isso de empreendedorismo. Isso se aplica a pinturas,
chás, danças, cantos e, enfim, elementos culturais e tradicionais de um de
determinado povo.
Tratei do
tema quando escrevi o artigo: A "sebraelização do indigenismo" na
Amazônia Ocidental como estratégia para a mercantilização e a financeirização.
A "sebraelização" das
relações, a mercantilização da cultura, assim como a financeirização da
natureza por meio da 'economia verde' (ou outro nome que soar melhor), têm um
vício de origem: não procuram equacionar e resolver os gravíssimos problemas
dos povos indígenas, mas apenas, resolver os problemas da falta de políticas públicas
por parte do governo, e em vários casos, resolver o problema de caixa de governos
e ONGs. (PADILHA, 2018, p. 45)
Geração de renda: Aqui o foco continua sendo o
mercado capitalista, porém, o resultado diretamente esperado recai sobre o
indivíduo. Ou seja, o que o indivíduo pode ganhar, ou fazer dinheiro. Trata-se
de conseguir dinheiro para o sujeito seguir contribuindo com sua parte para o
desenvolvimento infinito do capitalismo.
Vejamos o que diz a Raízes Desenvolvimento Sustentável:
Bufunfa, bolada, grana, trocado, tutu
– essas são algumas das muitas gírias, sinônimos para “dinheiro”, encontradas
Brasil afora. E é aí que entra a geração de renda. Significa estimular ou
permitir que as pessoas iniciem negócios próprios dirigidos ao mercado de
forma cooperada, associada ou individualmente. Significa também a geração de
atividade econômica, por meio de pequenos negócios individuais ou em
associação/cooperação. (RAIZES, 2021). (grifo meu)
Estimular ou
permitir significa ainda “se vender como mão de obra”. O mercado nunca fala só
em geração de renda. Fala de geração de emprego e renda. Por isso, um senhor
que vende picolés pelas ruas da cidade, é um gerador de renda. Isso porque o
que ele recebe, ainda que muito pouco, é considerado “renda”. É basicamente a
exploração do capital sobre o trabalho. É o fomento da segunda parte do
individualismo: “eu é que vendo minha mão de obra, logo, a renda é minha”. É
uma interpretação covarde da exploração, que tenta transformar o fruto dessa
exploração (salário) em renda. E isso ainda é pior se olharmos para a afirmação
de que o mercado “estimula ou permite” essa exploração.
Uma outra
questão que se coloca aqui é a infinitude do desenvolvimento capitalista que
não considera a finitude das matérias prima e, portanto, do próprio planeta
enquanto fornecedor. Este desenvolvimentismo, quando aplicado a povos
originários (tribais, portanto, coletivos de acordo com a OIT) em sua
organização social, é uma ameaça direta aos territórios, “imprescindíveis à
preservação dos recursos ambientais necessários a seu bem-estar e as
necessárias à sua reprodução física e cultural, segundo seus usos, costumes e
tradições. (CF, Art. 231, § 1º).
Mas, então, o
que se está dizendo é que os indigenismos do tipo culturalista, turístico, de
eventos, Xamânico e ambientalista (preservacionista) são ruins para os povos?
Não. O que
estou dizendo é que estes “indigenismos” são facilmente influenciados pelo
capital e tendem a agir em favor deste mesmo capital. É preciso que os povos e
suas lideranças estejam atentos. Para seduzir povos, comunidades e lideranças,
representantes desses indigenismos utilizam o argumento de que esses mesmos
povos e lideranças são autônomos, enquanto agem de outra forma, justamente a
negar a autonomia e exercendo a prática do assédio. Senão vejamos:
Se se
reconhece a autonomia dos povos, então porque precisa que alguém ou alguma
instituição que não o próprio povo com seu jeito próprio de se organizar, para “ajudar
a construir seus protocolos de consulta”? Se os protocolos de consulta são a
forma que querem ser consultados, não cabe a ninguém dizer como devem ser
feitos ou construídos. A nós (aos não indígenas), cabe apenas respeitar os
protocolos que eles mesmos tenham.
Se se
reconhece que os povos originários, indígenas, são os que mais preservam e são
os que sempre realizaram o manejo em seus territórios, que sentido faz buscar ONGs,
instituições ou qualquer forma de consultoria para auxiliá-los a construírem um
“plano de manejo”?
Esses dois
exemplos evidenciam com enorme clareza que a autonomia dos povos, na verdade,
não passa de discurso e segue o caminho das falsas soluções apresentadas pelo
mercado capitalista apoiado nos mercadores e financeirizadores da natureza.
Os espaços de
discussões, debates e luta por direitos, como o direito ao território, estão
cada vez mais ocupados por esses mercadores de tudo.
O indigenismo
social/político (engajado), por sua vez, ainda entende que a demarcação dos
territórios antecede qualquer outro direito em sua forma de ser aplicado, por
certo. É, por assim dizer, o indigenismo do indigenato.
Referências
BRASIL, Constituição Federal. Planalto, 1988. Disponível em:
https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra?codteor=469704
IMC, Programa para pioneiros em REDD+ (REM). Disponível em: https://imc.ac.gov.br/programa-para-pioneiros-em-redd-rem/
SEBRAE, Mas afinal, o que é empreendedorismo? Setembro,
2025. Disponível em: https://www.sebrae-sc.com.br/blog/o-que-e-empreendedorismo
RAIZES, Desenvolvimento Sustentável. O que fazemos: projetos
de empreendedorismo e geração de renda. Junho de 2021. Disponível em: https://raizesds.com.br/pt/empreendedorismo-e-geracao-de-renda/
PADILHA, Lindomar Dias. A "sebraelização do
indigenismo" na Amazônia Ocidental como estratégia para a mercantilização
e a financeirização. Revista 30 anos pós assassinato de Chico Mendes e
destruição oculta de florestas e vidas no Acre. Rio Branco, AC, 2018.
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