A Fundação Right Livelihood Award divulgou hoje, em três línguas, Nota sobre as recorrentes invasões à sede da CPT no Acre e sobre as ameaças e violências praticadas contra trabalhadores rurais e militantes sociais no Brasil. Segundo o documento, "O Diretor Executivo da Fundação Right Livelihood Award, Ole von Uexküll, reiterou sua preocupação com a falta de proteção dada aos trabalhadores rurais no Brasil e pediu aos governos estadual e federal para prosseguir com determinação as investigações nos casos relatados"
A Comissão Pastoral da Terra (CPT), que há anos vem lutando incansavelmente para promover a justiça social e os direitos dos pequenos agricultores e sem-terra no Brasil, sofreu três ataques a sua sede no estado do Acre este ano. Suspeita-se que estes são ataques de represália ao trabalho da CPT, que recentemente denunciou irregularidades na gestão florestal e na concentração fundiária nos estados do Acre e Amazonas. A Fundação Right Livelihood Award, que em 1991 reconheceu o trabalho da Comissão Pastoral da Terra, condena os ataques e exige o aumento da segurança para os trabalhadores rurais e para os agentes da Pastoral.
A Fundação Right Livelihood Award está profundamente preocupada pelo fato de que a CPT tenha sido invadida sete vezes nos últimos dois anos e três vezes desde janeiro de 2013. Estes ataques ocorreram na sede da CPT no estado do Acre, onde a organização tinha questionado a concentração de recursos naturais nas mãos de poucos.
Em 1991, a CPT, conjuntamente ao MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), recebeu o Prêmio Right Livelihood precisamente por causa de seu trabalho em prol da justiça social e o respeito pelos direitos dos pequenos agricultores e camponeses sem terra no Brasil.
Segundo a Coordenação Nacional da CPT, os assaltantes forçaram o acesso à sede da CPT de Rio Branco, no Acre, na manhã de 21 de janeiro, e roubaram itens de trabalho, como computadores, impressoras, câmaras e documentação institucional importante. A polícia não conseguiu encontrar quaisquer impressões digitais para fornecer pistas sobre os agressores. Outro ataque ocorreu no mesmo local, durante as primeiras horas de 22 de janeiro. Nesse dia os criminosos roubaram apenas documentos, incluindo o relatório da polícia sobre o ataque do dia anterior. Um ataque idêntico ocorreu no dia 30 de janeiro.
Além das recorrentes invasões, ameaças foram feitas ao agente pastoral que atua no município de Boca do Acre (AM), Cosme Capistano da Silva, e a Maria Darlene Braga Martins, coordenadora da CPT na região. A CPT acredita que as ameaças de morte são feitas tendo em vista a atuação da Comissão no Acre em questões de redistribuição de terras em zonas de conflito da região. Reiteradas denúncias tem sido feitas ao Ministério Público Estadual (MPE), Ministério Público Federal (MPF), secretarias de Direitos Humanos e de Segurança Pública.
De acordo com um relatório do CPT, 29 pessoas foram mortas no Brasil durante 2011 por causa dos conflitos relacionados com a propriedade da terra. Um levantamento parcial realizado em 2012 indica que esta tendência continua.
O conflito sobre a terra no Brasil está em ascensão, assim como o número de ativistas sendo ameaçados. Para cada novo ataque violento, a CPT atribui as mesmas causas: interesses econômicos, impunidade, demora em processos judiciais e ineficiência na implementação da política de reforma agrária.
O Diretor Executivo da Fundação Right Livelihood Award, Ole von Uexküll, reiterou sua preocupação com a falta de proteção dada aos trabalhadores rurais no Brasil e pediu aos governos estadual e federal para prosseguir com determinação as investigações nos casos relatados: "Esses ataques recentes aos trabalhadores e aos escritórios da CPT em conjunto com os recentes assassinatos dos ativistas do MST, Cícero Guedes e Regina Santos Pinho, mostram que as ameaças aos trabalhadores rurais precisam ser levadas a sério e merecem toda a nossa atenção."
terça-feira, 19 de fevereiro de 2013
MENSAGEM DE DOM PEDRO CASALDÁLIGA
Do Blog dos 40 anos do Cimi
O Cimi e a CPT têm sido, concretamente no Brasil, principalmente no continente da América Latina, pastorais de fronteira, pastorais proféticas, pastorais do arrisco. É bom sempre recordar nas assembleias do Cimi e da CPT. Não se tratam de pastorais específicas, que não podem seguir módulos das tradicionais pastorais. Aliás, todas as pastorais deveriam se renovar e responder aos sinais dos tempos de outros modos.
O Cimi foi uma resposta aos sinais dos tempos. Um dos sinais era a reunião de antropólogos em Barbados, no Caribe. Darcy Ribeiro estava lá também e cobrava dos missionários católicos uma nova e diferente evangelização. O Cimi se viu no desafio de mudar radicalmente o modo de evangelização. Mas de fazer evangelização nova. Já desde o primeiro momento teve o respaldo da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).
Dom Ivo Lorsheiter era o secretário-geral da CNBB. Estava tramitando, no Congresso Nacional, o Estatuto do Índio. Pediu a um grupo de missionários encontro na fundação no Instituto Antrophos, em Brasília. O secretário das atas da fundação foi monsenhor Sigoud, que depois me denunciou como comunista. Por certo que eu escrevi para ele. Como resposta eu recebi um cartão carinhoso, com ele pedindo desculpas.
O Cimi nascia então num ambiente quente: sonhador, utópico, de pós Concílio Vaticano II (1962-1965). Agora incomodava porque cobrava. Muitos bispos de várias dioceses ou prelazias nem sabiam que tinham índios no seu espaço hierárquico. Discutia-se não apenas o modo de evangelização, mas se deveríamos evangelizar. E não discutia isso o Cimi, discutia isso um grupo de antropólogos, de políticos, de pensadores, de intelectuais que, cansados de ver as consequências de uma colonização supostamente evangelizadora, pediam que de uma vez por todas a igreja se retirasse.
Desde o primeiro momento, o Cimi encontrou outras igrejas nas áreas. Aprendemos a dialogar ecumenicamente. O Cimi é nesse sentido também uma pastoral de fronteira, agora reconhecida, abençoada. Algumas figuras deram o testemunho com o próprio sangue. A característica material do Cimi é mais do que evidente: se poderia dizer que o Cimi deu, sobretudo, o sangue, mais do que palavras, mais do que gestos. Foi e é uma pastoral de testemunhas.
Não se pode fazer uma pastoral esquecendo as outras pastorais. O Cimi e a CPT estão em cheio na pastoral da mulher marginalizada, na pastoral da criança, na pastoral da saúde, na pastoral da educação. Um aspecto que muitas vezes tem sido criticado é de que oramos pouco. O pessoal não é espiritualista. Preocupamos-nos muito com os problemas de terra, problemas técnicos e problemas de língua.
O Papa, o Cimi e os índios
O próprio Papa Bento XVI perguntava se os índios da Prelazia de São Gabriel eram todos católicos e se confessavam. Em uma das visitas ad limina, o Papa perguntou se os índios sabiam escrever. Gente da igreja do Brasil não tem noção da situação dos índios e não se distingue os vários estágios dessa situação, quando ela se revela de alguma forma.
Se é uma missão de fronteira, a pastoral do Cimi é também uma missão muito realista, que deve, inclusive, cada vez mais aproveitar a contribuição das ciências antropológicas, das ciências sociais e que deve procurar assessoria técnica, alta assessoria e cada vez mais com a participação protagonista dos próprios povos indígenas.
Agora se deve reconhecer, depois de anos de dificuldade, de aproximação, que praticamente todas as lideranças indígenas destacadas no Brasil reconhecem o trabalho do Cimi e até pedem colaboração. Uma contribuição importante do Cimi é para a Ameríndia. Dioceses e prelazias de ‘Nossa América’ têm se aproveitado da presença dos trabalhos, do testemunho do Cimi. Isso tem sido essencial para a continuidade da vida de nossas causas.
Eu digo sempre que o continente ameríndio, Nossa América, como diziam os libertadores, só se salvará se todos se salvarem. Não pode ser os países isolados, cada um por conta esquecendo que somos uma mesma história de massacre e colonizações, mas também de levante, criatividade e resistência. Somos uma série de países formando uma pátria superior.
A esperança não pode faltar
O princípio de todos os horizontes, de todos os caminhos é a esperança. Chegamos ao cansaço, à decepção. Sentimos que a força dentro da própria igreja não colabora; às vezes, o próprio trabalho nos angustia. Achamos que os índios não deveriam entrar tão precipitadamente na cultura moderna, no consumismo. Falta-nos um pouco de compreensão, um pouco de paciência histórica e um pouco de confiança no futuro.
A palavra é esperança. Pode falhar tudo, mas a esperança não falha. Uma esperança creditada com a prática, com a conduta, com as ações não pode ser uma esperança fútil. Esmeramos-nos nas utopias realizáveis. Como dizia um soldado espanhol, somos soldados derrotados de uma causa invencível.
Poderá falhar tudo, mas essa causa não falha, a causa é o Reino de Deus. Esse Reino de Deus que é indígena, que é negro, que é camponês, que é latino americano, que é asiático. O Reino de Deus que é o sonho de Deus para o universo inteiro.
Guarani Kaiowá de 15 anos é assassinado com tiro na cabeça
Ruy Sposati, CIMI
de Campo Grande (MS)
O Kaiowá Denilson Barbosa, de 15 anos, morador da aldeia Tey'ikue, foi encontrado morto no domingo, 17, no município de Caarapó (MS), em uma estrada vicinal a sete quilômetros do perímetro urbano da cidade, com um tiro na cabeça. Segundo relatos de testemunhas, Denilson e outros dois indígenas estavam indo pescar no sábado, 16, quando foram abordados por três pistoleiros ligados ao proprietário e arrendatário de uma fazenda vizinha à terra indígena de Caarapó, onde foi criada uma reserva no início do século XX.
Os indígenas correram dos homens armados, mas Denilson acabou apreendido pelos pistoleiros e assassinado - segundo as testemunhas, além do tiro confirmado pela perícia criminal da Polícia Civil de Caarapó, o jovem Kaiowá levou mais um tiro na cabeça e outro no pescoço. Por questões de segurança, os nomes das testemunhas serão omitidos nesta reportagem.
Revoltados, familiares e moradores da aldeia enterraram o corpo de Denilson na fazenda onde ocorreu o assassinato, arrendada para a criação de gado e o monocultivo de soja. A comunidade também planeja realizar uma série de protestos para denunciar a ação violenta. Conforme o relato dos indígenas sobreviventes e as características da morte, os indícios apontam para execução.
Denilson, uma criança de 11 anos e outro indígena saíram no final de sábado para pescar no córrego Mbope'i, cuja nascente fica dentro da terra indígena, e que cruza fazendas do entorno. Quando se aproximaram de um criadouro de peixes, foram abordados por três homens armados. Os sobreviventes identificam os três indivíduos - entre eles, um paraguaio - como ‘funcionários’ de um arrendatário da fazenda.
Os três homens atiraram contra os indígenas, que saíram em fuga do local. Dois deles conseguiram se esconder. Denilson caiu e ficou preso no arame farpado de uma cerca. Os três homens, então, o pegaram e passaram a desferir coronhadas na cabeça e no estômago do Kaiowá, mandando que ele se levantasse. Segundo os sobreviventes, quando se pôs de pé, Denilson foi alvejado com três tiros: dois na cabeça e um no pescoço.
Fazenda evacuada
Os dois sobreviventes, ainda escondidos, viram, na sequência, os homens colocarem o corpo de Denilson na caçamba de uma caminhonete. Após a saída do veículo, os indígenas voltaram à aldeia para relatar o ocorrido à família. Impactado pela notícia, o pai de Denilson decidiu ir até a fazenda procurar o filho. Ao chegar ao local, conforme relatou, o pai do jovem assassinado não encontrou ninguém. A fazenda fora evacuada.
O corpo de Denilson foi encontrado por um caminhoneiro - segundo os indígenas, também funcionário de outra fazenda da região - que circulava pela vicinal, próxima à reserva, por volta das 5 da manhã de domingo, 17. Os indígenas acreditam que, após o assassinato, os pistoleiros desovaram o corpo de Denilson em uma estrada longe da fazenda, num entroncamento conhecido como "Pé de Galinha".
Segundo a perícia criminal da Polícia Civil, Denilson foi encontrado com um tiro abaixo do ouvido. O laudo cadavérico do Instituto Médico Legal (IML), contudo, ainda não foi concluído. A Polícia já iniciou as investigações, mas não quis dar detalhes sobre o caso.
Segundo relatos, essa não foi a primeira vez que jagunços ligados ao fazendeiro atiraram contra os indígenas. Também, o problema da pesca é recorrente entre os Guarani e Kaiowá da Terra Indígena de Caarapó, onde vivem confinadas aproximadamente cinco mil pessoas em 3594 hectares de terra. Desde a criação do território indígena pelo Serviço de Proteção ao Índio (SPI), em 1924, os indígenas precisam pescar fora da área reservada, onde só há nascentes de córregos, mas não há peixes, sofrendo pressões e ataques de fazendeiros.
As reservas são áreas de confinamento - e depois da Constituição de 1988 uma categoria de terra indígena - criado pelo SPI durante o processo de espoliação dos Guarani e Kaiowá em decorrência da colonização do então Estado do Mato Grosso. O confinamento é apontado por especialistas como uma das principais causas dos suicídios e, consequentemente, da luta pela terra de ocupação tradicional travada pelos indígenas desde o início da segunda metade do século XX.
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013
A entrevista de Leonardo Boff sobre Bento XVI
Leonardo Boff,
Dei generosamente uma entrevista à Folha de São Paulo que quase não aproveitou nada do que disse e escrevi. Então, publico a entrevista inteira a seguir para reflexão e discussão entre os interessados pelas coisas da Igreja Católica. As perguntas foram reordenadas.
1. Como o Sr. recebeu a renúncia de Bento XVI?
Eu, desde o principio, sentia muita pena dele, pois pelo que o conhecia, especialmente em sua timidez, imaginava o esforço que devia fazer para saudar o povo, abraçar pessoas, beijar crianças. Eu tinha certeza de que um dia ele aproveitaria alguma ocasião sensata, como os limites físicos de sua saúde e o menor vigor mental, para renunciar. Embora mostrou-se um Papa autoritário, não era apegado ao cargo de Papa. Eu fiquei aliviado, porque a Igreja está sem liderança espiritual que suscite esperança e ânimo. Precisamos de um outro perfil de Papa mais pastor que professor, não um homem da instituição-Igreja, mas um representante de Jesus que disse: “se alguém vem a mim eu não mandarei embora” (Evangelho de João 6,37), podia ser um homoafetivo, uma prostituta, um transexual.
2. Como é a personalidade de Bento XVI já que o Sr. privou de certa amizade com ele?
Conheci Bento XVI nos meus anos de estudo na Alemanha entre 1965-1970. Ouvi muitas conferências dele, mas não fui aluno dele. Ele leu minha tese doutoral: "O lugar da Igreja no mudo secularizado” e gostou muito a ponto de achar uma editora para publicá-la, um calhamaço de mais de 500 páginas. Depois trabalhamos juntos na revista internacional Concilium, cujos diretores se reuniam todos os anos na semana de Pentecostes em algum lugar na Europa. Eu a editava em português. Isso entre 1975-1980. Enquanto os outros faziam sesta, eu e ele passeávamos e conversávamos temas de teologia, sobre a fé na América Latina, especialmente sobre São Boaventura e Santo Agostinho, do quais é especialista e eu até hoje os frequento a miúde.
Depois, em 1984, nos encontramos num momento conflitivo: ele como meu julgador no processo do ex-Santo Ofício, movido contra meu livro “Igreja: carisma e poder” (Vozes 1981). Ai tive que sentar na cadeirinha onde Galileo Galilei e Giordano Bruno, entre outros, sentaram. Submeteu-me a um tempo de “silêncio obsequioso”; tive que deixar a cátedra e fui proibido de publicar qualquer coisa. Depois disso nunca mais nos encontramos. Como pessoa é finíssimo, tímido e extremamente inteligente.
3. Ele como Cardeal foi o seu Inquisidor depois de ter sido seu amigo: como viu esta situação?
Quando foi nomeado Presidente da Congregação para a Doutrina da Fé (ex-Inquisição) fiquei sumamente feliz. Pensava com meus botões: finalmente teremos um teólogo à frente de uma instituição com a pior fama que se possa imaginar. Quinze dias após me respondeu, agradecendo e disse: vejo que há várias pendências suas aqui na Congregação e temos que resolvê-las logo. É que praticamente a cada livro que publicava vinham de Roma perguntas de esclarecimento que eu demorava em responder. Nada vem de Roma sem antes de ter sido enviado a Roma.
Havia aqui bispos conservadores e perseguidores de teólogos da libertação que enviavam as queixas de sua ignorância teológica a Roma a pretexto de que minha teologia poderia fazer mal aos fiéis. Ai eu me dei conta: ele já foi contaminado pelo bacilo romano que faz com que todos os que ai trabalham no Vaticano rapidamente encontrem mil razões para serem moderados e até conservadores. Então, sim, fiquei mais que surpreso, verdadeiramente decepcionado.
4. Como o Sr. recebeu a punição do “silêncio obsequioso”?
Após o interrogatório e a leitura de minha defesa escrita, que está como adendo da nova edição de “Igreja: carisma e poder” (Record 2008), são 13 cardeais que opinam e decidem. Ratzinger é um apenas entre eles. Depois submetem a decisão ao Papa. Creio que ele foi voto vencido, porque conhecia outros livros meus de teologia, traduzidos para alemão, e me havia dito que tinha gostado deles, até, uma vez, diante do Papa numa audiência em Roma fez uma referência elogiosa. Eu recebi o “silêncio obsequioso” como um cristão ligado à Igreja o faria: calmamente o acolhi. Lembro que disse: “é melhor caminhar com a Igreja que sozinho com minha teologia”. Para mim foi relativamente fácil aceitar a imposição, porque a Presidência da CNBB me havia sempre apoiado e dois Cardeais, Dom Aloysio Lorscheider e Dom Paulo Evaristo Arns, me acompanharam a Roma e depois participaram, numa segunda parte, do diálogo com o Cardeal Ratzinger e comigo. Ai éramos três contra um. Colocamos algumas vezes o Cardeal Ratzinger em certo constrangimento, pois os cardeais brasileiros lhe asseguravam que as críticas contra a teologia da libertação que ele fizera num documento saído recentemente eram eco dos detratores e não uma análise objetiva. E pediram um novo documento positivo; ele acolheu a ideia e realmente o fez dois anos após. E até pediram a mim e ao meu irmão teólogo Clodovis, que estava em Roma, que escrevêssemos um esquema e o entregássemos na Sagrada Congregação. E num dia e numa noite o fizemos e o entregamos.
5. O Sr deixou a Igreja em 1992. Guardou alguma mágoa de todo o affaire no Vaticano?
Eu nunca deixei a Igreja. Deixei uma função dentro dela, que é de padre. Continuei como teólogo e professor de teologia em várias cátedras aqui e fora do país. Quem entende a lógica de um sistema autoritário e fechado, que pouco se abre ao mundo, não cultiva o diálogo e a troca (os sistemas vivos vivem na medida em que se abrem e trocam), sabe que se alguém, como eu, não se alinhar totalmente a tal sistema, será vigiado, controlado e eventualmente punido. É semelhante aos regime de segurança nacional que temos conhecido na América Latina sob os regimes militares no Brasil, na Argentina, no Chile e no Uruguai. Dentro desta lógica, o então Presidente da Congregação da Doutrina da Fé (ex-Santo Oficio, ex-Inquisição), o Cardeal J. Ratzinger, condenou, silenciou, depôs de cátedra ou transferiu mais de cem teólogos. Do Brasil fomos dois: a teóloga Ivone Gebara e eu. Em razão de entender a referida lógica, e lamentá-la, sei que eles estão condenados a fazer o que fazem na maior das boas vontades. Mas como dizia Blaise Pascal: “Nunca se faz tão perfeitamente o mal como quando se faz de boa vontade”. Só que esta boa vontade não é boa, pois cria vítimas. Não guardo nenhuma mágoa ou ressentimento, pois exerci compaixão e misericórdia por aqueles que se movem dentro daquela lógica que, a meu ver, está a quilômetros luz da prática de Jesus. Aliás é coisa do século passado, já passado. E evito voltar a isso.
6. Como o Sr. avalia o pontificado de Bento XVI? Soube gerenciar as crises internas e externas da Igreja?
Bento XVI foi um eminente teólogo, mas um Papa frustrado. Não tinha o carisma de direção e de animação da comunidade, como tinha João Paulo II. Infelizmente ele será estigmatizado, de forma reducionista, como o Papa onde grassaram os pedófilos, onde os homoafetivos não tiveram reconhecimento e as mulheres foram humilhadas como nos EUA, negando o direito de cidadania a uma teologia feita a partir do gênero. E também entrará na história como o Papa que censurou pesadamente a Teologia da Libertação, interpretada à luz de seus detratores, e não à luz das práticas pastorais e libertadoras de bispos, padres, teólogos, religiosos/as e leigos que fizeram uma séria opção pelos pobres contra a pobreza e a favor da vida e da liberdade. Por esta causa justa e nobre foram incompreendidos por seus irmãos de fé, e muitos deles presos, torturados e mortos pelos órgãos de segurança do Estado militar. Entre eles estavam bispos como Dom Angelelli, da Argentina, e Dom Oscar Romero, de El Salvador. Dom Helder foi o mártir que não mataram. Mas a Igreja é maior que seus papas e ela continuará, entre sombras e luzes, a prestar um serviço à humanidade, no sentido de manter viva a memória de Jesus, de oferecer uma fonte possível de sentido de vida que vai para além desta vida. Hoje sabemos pelo Vatileaks que dentro da Cúria romana se trava uma feroz disputa de poder, especialmente entre o atual Secretário de Estado Bertone e o ex-secretário Sodano, já emérito. Ambos têm seus aliados. Bertone, aproveitando as limitações do Papa, construiu praticamente um governo paralelo. Os escândalos de vazamento de documentos secretos da mesa do Papa e do Banco do Vaticano, usado pelos milionários italianos, alguns da mafia, para lavar dinheiro e mandá-lo para fora, abalaram muito o Papa. Ele foi se isolando cada vez mais. Sua renúncia se deve aos limites da idade e das enfermidades, mas foram agravadas por estas crises internas que o enfraqueceram e que ele não soube ou não pode atalhar a tempo.
7. O Papa João XXIII disse que a Igreja não pode virar um museu, mas uma casa com janelas e portas abertas. O Sr. acha que Bento XVI não tentou transformar a Igreja novamente em algo como um museu?
Bento XVI é um nostálgico da síntese medieval. Ele reintroduziu o latim na missa, escolheu vestimentas de papas renascentistas e de outros tempos passados, manteve os hábitos e os cerimoniais palacianos; para quem iria comungar, oferecia primeiro o anel papal para ser beijado e depois dava a hóstia, coisa que nunca mais se fazia. Sua visão era restauracionista e saudosista de uma síntese entre cultura e fé, que existe muito visível em sua terra natal, a Baviera, coisa que ele explicitamente comentava. Quando na Universidade, onde ele estudou e eu também, em Munique, viu um cartaz me anunciando como professor visitante para dar aulas sobre as novas fronteiras da teologia da libertação, pediu ao reitor que protelasse esse dia, o convite já acertado. Seus ídolos teológicos são Santo Agostinho e São Boaventura, que mantiveram sempre uma desconfiança de tudo o que vinha do mundo, contaminado pelo pecado e necessitado de ser resgatado pela Igreja. É uma das razões que explicam sua oposição à modernidade, que a vê sob a ótica do secularismo e do relativismo e fora do campo de influência do cristianismo que ajudou a formar a Europa.
8. A igreja vai mudar, em sua opinião, a doutrina sobre o uso de preservativos e em geral a moral sexual?
A Igreja deverá manter as suas convicções, algumas que estima irrenunciáveis como a questão do aborto e da não manipulação da vida. Mas deveria renunciar ao status de exclusividade, como se fora a única portadora da verdade. Ela deve se entender dentro do espaço democrático, no qual sua voz se faz ouvir junto com outras vozes. E as respeita e até se dispõe a aprender delas. E quando derrotada em seus pontos de vista, deveria oferecer sua experiência e tradição para melhorar onde puder melhorar e tornar mais leve o peso da existência. No fundo, ela precisa ser mais humana, humilde e ter mais fé, no sentido de não ter medo. O que se opõe à fé não é o ateísmo, mas o medo. O medo paralisa e isola as pessoas das outras pessoas. A Igreja precisa caminhar junto com a humanidade, porque a humanidade é o verdadeiro Povo de Deus. Ela o mostra mais conscientemente, mas não se apropria com exclusividade desta realidade.
9. O que um futuro Papa deveria fazer para evitar a emigração de tantos fiéis para outras igrejas, e especialmente pentecostais?
Bento XVI freou a renovação da Igreja incentivada pelo Concílio Vaticano II. Ele não aceita que na Igreja haja rupturas. Assim que preferiu uma visão linear, reforçando a tradição. Ocorre que a tradição a partir dos séculos XVIII e XIX se opôs a todas as conquistas modernas, da democracia, da liberdade religiosa e outros direitos. Ele tentou reduzir a Igreja a uma fortaleza contra estas modernidades. E via no Vaticano II o cavalo de Troia por onde elas poderiam entrar. Não negou o Vaticano II, mas o interpretou à luz do Vaticano I, que é todo centrado na figura do Papa com poder monárquico, absolutista e infalível. Assim se produziu uma grande centralização de tudo em Roma sob a direção do Papa que, coitado, tem que dirigir uma população católica do tamanho da China. Tal opção trouxe grande conflito na Igreja até entre inteiros episcopados, como o alemão e francês, e contaminou a atmosfera interna da Igreja com suspeitas, criação de grupos, emigração de muitos católicos da comunidade e acusações de relativismo e magistério paralelo. Em outras palavras, na Igreja não se vivia mais a fraternidade franca e aberta, um lar espiritual comum a todos. O perfil do próximo Papa, no meu entender, não deveria ser o de um homem do poder e da instituição. Onde há poder, inexiste amor e desaparece a misericórdia. Deveria ser um pastor, próximo dos fiéis e de todos os seres humanos, pouco importa a sua situação moral, étnica e política. Deveria tomar como lema a frase de Jesus que já citei anteriormente: “Se alguém vem a mim, eu não o mandarei embora”, pois acolhia a todos, desde uma prostituta como Madalena até um teólogo como Nicodemos.
Não deveria ser um homem do Ocidente que já é visto como um acidente na história. Mas um homem do vasto mundo globalizado, sentindo a paixão dos sofredores e o grito da Terra devastada pela voracidade consumista. Não deveria ser um homem de certezas, mas alguém que estimulasse a todos a buscarem os melhores caminhos. Logicamente se orientaria pelo Evangelho, mas sem espírito proselitista, com a consciência de que o Espírito chega sempre antes do missionário e o Verbo ilumina a todos que vêm a este mundo, como diz o evangelista São João. Deveria ser um homem profundamente espiritual e aberto a todos os caminhos religiosos, para juntos manterem viva a chama sagrada que existe em cada pessoa: a misteriosa presença de Deus. E, por fim, um homem de profunda bondade, no estilo do Papa João XXIII, com ternura para com os humildes e com firmeza profética para denunciar quem promove a exploração e faz da violência e da guerra instrumentos de dominação dos outros e do mundo. Que nas negociações que os cardeais fazem no conclave e nas tensões das tendências, prevaleça um nome com semelhante perfil. Como age o Espírito Santo ai é mistério. Ele não tem outra voz e outra cabeça do que aquela dos cardeais. Que o Espírito não lhes falte.
Funai pede que Ibama suspenda licença para prospecção de petróleo em terra indígena do AM
Lideranças indígenas da região do Vale do Javari enviaram carta à Funai em dezembro dizendo que atividade causa impactos ambientais e sociais
A área em questão faz parte do mesmo bloco que incide sobre o território do Acre, região do Vale do Juruá. Aqui, como lá, muitas comunidades serão atingidas especialmente o povo indígena ainda sem contato com a nossa sociedade que habita a cabeceira do igarapé Tapada, dentro do Parque Nacional da Serra do Divisor. Temos feito denúncias, mas o governo do Acre, em nome de um desenvolvimento a qualquer custo e para pouquíssimos, faz vistas grossas e desdenha.
A matéria é de ELAÍZE FARIAS
A Fundação Nacional do Índio (Funai) pediu a suspensão da Licença de Operação das atividades de prospecção de petróleo e gás na área próxima à terra indígena Vale do Javari, em Atalaia do Norte, no Amazonas, na região do Alto Solimões. O pedido foi enviado na última terça-feira (08), por meio de ofício, ao Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama).
O pedido de suspensão ocorreu após protestos e cobrança da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja), principal organização indígena daquela região. Em dezembro passado, a Univaja enviou um documento à Funai denunciando a atividade.
A assessoria de imprensa da Funai disse ao jornal A CRÍTICA que o pedido de suspensão ocorreu “diante dos impactos que a atividade tem apresentado aos povos indígenas do Vale do Javari e aos povos isolados da região”.
A prospecção está sendo realizada pela empresa Georadar Levantamentos Geofísicos S.A, sob autorização da Agência Nacional de Petróleo (ANP), mas a Funai nega que tenha dado anuência ao Ibama para que as atividades de campo seja realizada. A atividade é oficialmente descrita como Pesquisa Geofísica Terrestre na Bacia Sedimentar do Acre (divisa com o Vale do Javari).
A Funai também prepara uma expedição à área para monitorar as denúncias feitas pelos indígenas e apurar os impactos que as atividades têm causado. A assessoria de imprensa da Funai, porém, não informou quando isso vai ocorrer.
Descaso
Em documento enviado no dia 18 de dezembro à Funai, os indígenas afirmaram que não aceitam a atividade da empresa, pois ela causa impactos na floresta, no rio e na população. A maior preocupação é com os índios isolados. O Vale do Javari é região onde se concentra o maior número de grupos isolados e de pouco contato com a sociedade não-indígena.
“Nossa terra é a nossa vida. Com terra desprotegida, não teremos vida útil. Basta o que enfrentamos com o descaso de doenças, que já levou um terço dos nossos povos. Não queremos ficar na história. Queremos continuar com a nossa área protegida que faz parte das nossas vidas”, diz a nota.
De acordo com os indígenas, se as pesquisas avançarem, os impactos delas vão atingir o maior rio da fronteira, o Javari, e prejudicar os povos que vivem em Atalaia do Norte e no Alto Solimões.
A assessoria de imprensa do Ibama foi procurada, por telefone e por e-mail, para falar sobre o assunto, mas não retornou até a conclusão desta matéria e fechamento desta edição.
ANP
A assessoria de imprensa da ANP, por meio de nota enviada ao jornal A CRÍTICA em dezembro, após publicação de matéria sobre a manifestação da Univaja, disse o trabalho só foi iniciado após a emissão de licença ambiental pelo Ibama e consulta prévia à Funai, que informou não haver incidência direta do traçado das linhas sísmicas sobre grupos de índios.
A ANP diz também que nunca foi procurada pela Funai ou por qualquer liderança indígena para prestar esclarecimento sobre o trabalho na Bacia do rio Acre, mas se coloca à disposição para prestar esclarecimentos.
Na nota, a ANP diz que respeitou todas as condicionantes ambientais e trâmites legais exigidos ao realizar o levantamento sísmico na Bacia do Acre. Também contou que o projeto sísmico foi desenhado respeitando as áreas de restrição ambiental do Ibama e da Funai e respeitou uma zona de amortecimento de 10 quilômetros.
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013
Que tipo de Papa? As tensões internas da Igreja atual
Leonardo Boff.com
Não me proponho apresentar um balanço do pontificado de Bento XVI que acaba de renunciar, coisa que foi feito com competência por outros. Para os leitores talvez seja mais interessante conhecer melhor uma tensão sempre viva dentro da Igreja e que marca o perfil de cada Papa. A questão central é esta: qual a posição e a missão da Igreja no mundo?
Antecipando dizemos que uma concepção equilibrada deve assentar-se sobre duas pilastras fundamentais: o Reino e o mundo. O Reino é a mensagem central de Jesus, sua utopia de uma revolução absoluta que reconcilia a criação consigo mesma e com Deus. O mundo é o lugar onde a Igreja realiza seu serviço ao Reino e onde ela mesma se constrói. Se pensarmos a Igreja demasiadamente ligada ao Reino, corre-se o risco da espiritualização e do idealismo. Se demasiadamente próxima do mudo, incorre-se na tentação da mundanização e da politização. Importa saber articular Reino-Mundo-Igreja. Ela pertence ao Reino e também ao mundo. Possui uma dimensão histórica com suas contradições e outra transcendente.
Como viver esta tensão dentro do mundo e da história? Apresentam-se dois modelos diferentes e, por vezes, conflitantes: o do testemunho e o do diálogo.
O modelo do testemunho afirma com convicção: temos o depósito da fé, dentro do qual estão todas as verdades necessárias para a salvação; temos o sacramentos que comunicam graça; temos uma moral bem definida; temos a certeza de que a Igreja Católica é a Igreja de Cristo, a única verdadeira; temos o Papa que goza de infalibilidade em questões de fé e moral; temos uma hierarquia que governa o povo fiel; e temos a promessa de assistência permanente do Espírito Santo. Isto tem que ser testemunhado face a um mundo que não sabe para onde vai e que por si mesmo jamais alcançará a salvação. Ele terá que passar pela mediação da Igreja, sem a qual não há salvação.
Os cristãos deste modelo, desde Papas até simples fiéis, se sentem imbuídos de uma missão salvadora única. Nisso são fundamentalistas e pouco dados ao diálogo. Para que dialogar? Já temos tudo. O diálogo é para facilitar a conversão.
O modelo do diálogo parte de outros pressupostos: O Reino é maior que a Igreja e conhece também uma realização secular, sempre onde há verdade, amor e justiça; o Cristo ressuscitado possui dimensões cósmicas e empurra a evolução para um fim bom; o Espírito está sempre presente na história e nas pessoas de bem; Ele chega antes do missionário, pois estava nos povos na forma de solidariedade, amor e compaixão. Deus nunca abandonou os seus e a todos oferece chance de salvação, pois os tirou de seu coração para um dia viverem felizes no Reino dos libertos. A missão da Igreja é ser sinal desta história de Deus dentro da história humana e também um instrumento de sua implementação junto com outros caminhos espirituais. Se a realidade tanto religiosa quanto secular está empapada de Deus devemos todos dialogar: trocar, aprender uns dos outros e tornar a caminhada humana rumo à promessa feliz, mais fácil e mais segura.
O primeiro modelo do testemunho é da Igreja da tradição, que promoveu as missões na África, Ásia e América latina, sendo até cúmplice em nome do testemunho da dizimação e dominação de milhares de povos originários, africanos e asiáticos. Era o modelo do Papa João Paulo II que corria o mundo, empunhando a cruz como testemunho de que ai vinha a salvação. Era o modelo, mais radicalizado ainda, de Bento XVI que negou o título de “Igreja” às igrejas evangélicas, ofendendo-as duramente; atacou diretamente a modernidade pois a via negativamente como relativista e secularista. Logicamente não lhe negou todos os valores mas via neles como fonte a fé cristã. Reduziu a Igreja a uma ilha isolada ou a uma fortaleza, cercada de inimigos por todos os lados dos quais temos que nos defender.
O modelo do diálogo é do Concílio Vaticano II e de Medellin e de Puebla na América Latina. Viam o cristianismo não um depósito, sistema fechado com o risco de ficar fossilizado, mas como uma fonte de águas vivas e cristalinas que podem ser canalizadas por muitos condutos culturais, um lugar de aprendizado mútuo porque todos são portadores do Espírito Criador e da essência do sonho de Jesus.
O primeiro modelo, do testemunho, assustou a muitos cristãos que se sentiam infantilizados e desvalorizados em seus saberes profissionais; não sentiam mais a Igreja como um lar espiritual e, desconsolados, se afastavam da instituição mas não do Cristianismo como valor e utopia generosa de Jesus.
O segundo modelo, do diálogo, aproximou a muitos pois se sentiam em casa, ajudando a construir uma Igreja-aprendiz e aberta ao diálogo com todos. O efeito era o sentimento de liberdade e de criatividade. Assim vale a pena ser cristão.
Esse modelo do diálogo se faz urgente caso a instituição-Igreja quiser sair da crise em que se meteu e que atingiu seu ponto de honra: a moralidade (os pedófilos) e a espiritualidade (roubo de documentos secretos e problemas graves de transparência no Banco do Vaticano).
Devemos discernir com inteligência o que atualmente melhor serve a mensagem cristã no contexto de uma crise social e ecológica de gravíssimas consequências. O problema central não é a Igreja mas o futuro da Mãe Terra, da vida e da nossa civilização. Como a Igreja ajuda nessa travessia? Só dialogando e somando forças com todos.
Leonardo Boff é autor de Igreja: carisma e poder, livro ajuizado pelo então Cardeal Joseph Ratzinger.
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