quinta-feira, 9 de maio de 2013

ARPINSUL responde ministra Gleisi Hoffmann


Uma queda de braço desigual e criminosa!

A Articulação dos Povos Indígenas da Região Sul - ARPINSUL, vem a público manifestar sua indignação e repúdio pela decisão da Ministra Chefe da Casa Civil Gleisi Hoffmann, em suspender as demarcações de terras indígenas no Estado do Paraná.

O pedido da Ministra Chefe da Casa Civil Gleisi Hoffmann, para suspender a demarcação de terras indígenas no Estado do Paraná, que sempre primou pelo diálogo com os Povos Indígenas, coloca um marco negativo nas relações respeitosas que o Paraná exemplarmente desenvolveu com os Povos Indígenas, o que retrata a arrogância do cargo que Gleisi ocupa na cúpula do governo.

A causa da lamentável decisão foi a sua suposta candidatura ao governo do Paraná, onde ela quer ser eleita governadora no próximo ano. As vaias que a Presidente Dilma recebeu quando em visita nos Estados do Paraná e Mato Grosso do Sul, por movimentos organizados pelo agronegócio que disputa a posse das terras tradicionalmente ocupadas com os Povos Indígenas transmitiu certo peso nas suas intenções políticas. E para ser eleita, tem que fazer as vontades dos fazendeiros que com certeza vão financiar seus gastos de campanha.

Outra condição absurda é submeter a EMBRAPA uma empresa de pesquisa do governo, a avaliação dos processos demarcatórios das terras indígenas. Isto é no mínimo um ato nefasto, na medida em que coloca por terra o trabalho sério de técnicos do próprio governo, para desavergonhadamente privilegiar o agronegócio! A EMBRAPA é tão somente uma empresa de pesquisa e que agora passa a ter o papel de avaliar, a fins inconfessáveis, os estudos em andamento realizados pela FUNAI, desmerecendo e publicamente desmoralizando um órgão do próprio governo, que chegou ao desgaste que hoje se encontra por desmandos e irresponsabilidades do próprio Executivo, que gradativamente provocou tal desgaste.

A falha não é da FUNAI, a falha se deve ao conjunto de decisões equivocadas que o Estado Brasileiro tem tomado em relação aos Povos Indígenas, que agora são colocados publicamente como os inimigos do governo e do agronegócio e consequentemente do desenvolvimento. É muito mais fácil encontrar um culpado para os seus sucessivos erros, do que encontrar uma saída negociada e civilizada para a questão indígena, que merece o respeito e a consideração das instituições do Estado.

Mais uma vez os direitos indígenas sofrem um duro golpe daquele que deveria defendê-lo, o Estado Brasileiro, no entanto o agronegócio é o merecedor das recompensas, da solidariedade e da proteção do Estado Brasileiro em detrimento de direitos humanos e fundamentais conquistados a nível nacional e na arena internacional a duras lutas pelos Povos Indígenas, direitos estes jogados no lixo da história pelos colonizadores e pelo Estado, que agora cala a nossa voz em nome do desenvolvimento.

Enquanto o Estado Brasileiro não tratar a questão indígena com o respeito que merece, os conflitos serão constantes e a violação de direitos humanos se intensificará ainda mais, porque não nos calaremos e seremos implacáveis na luta pelos direitos que custaram o sangue dos nossos antepassados!

NUNCA MAIS UM BRASIL SEM OS POVOS INDÍGENAS!

ARPINSUL
08 de maio de 2013

ARPINSUL - Articulação dos Povos Indígenas da Região Sul

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Greve de fome contra o golpe do Tião Viana

Foto: Juruá on line
O ex-deputado e professor da UFAC - Universidade Federal do Acre, João Correia, decidiu fazer greve de fome para que que seja respeitado o referendo que decidiu pela volta do fuso horário do Acre. A LEI Nº 11.662, DE 24 DE ABRIL DE 2008 , sancionada pelo presidente da república, Lula, nasceu de um projeto do então senador da República,  Tião Viana.

Tião Viana apresentou o projeto de lei, que foi aprovado em tempo record, sem consultar a população do Acre e mesmo contra a vontade da maioria, tudo para satisfazer a interesses econômicos e aos meios de comunicação televisivos nacionais que não queriam se submeter à lei de classificação indicativa alterada  PORTARIA nº 1.220, de 11 de julho de 2007.

Em 31 de outubro de 2010, 470.975 eleitores acreanos foram às urnas escolher o novo Presidente da República (já que o governador Tião Viana havia sido eleito em primeiro turno com 50% dos votos válidos) e ainda decidir sobre a mudança ou manutenção do fuso horário local. As votações começaram a partir das 8h e foram realizadas em duas urnas eletrônicas separadas, localizadas na mesma seção. Na primeira, o eleitor escolheu os candidatos à presidência. Na segunda urna, a disputa foi entre a Frente 55 e a Frente 77, que defendiam o “Sim” e o “Não”, respectivamente, em relação a alteração do fuso horário vigente no Acre desde 2008. O eleitor respondeu a seguinte pergunta: "Você é a favor da recente alteração do horário legal promovida em seu estado?"


Com 100% das urnas apuradas, os eleitores do Acre decidiram pelo retorno do fuso horário antigo, de duas horas de diferença em relação a Brasília. A Frente 77, contrária ao horário atual, recebeu 184.478 votos (56,87%), enquanto a Frente 55, favorável a manutenção do fuso horário, recebeu 139.891 (43,13%) dos votos válidos. A abstenção foi de 28,61% dos votos.


Mesmo com a vitória da frente 77, contrária ao horário atual e pela volta do horário anterior, mais uma vez, o povo acreano sofreu novo golpe e o resultado do referendo não foi acatado. O que se seguiu foi uma série de chacotas e deboches contra o povo que perdura até hoje. Inúmeras vezes diversos políticos atrelados ao Tião Viana ocuparam ora a tribuna ora os meios de comunicação para tecer comentários jocosos e escárnios à vontade popular. O mais debochado de todos tem sido o Senador (suplente que assumiu no lugar do Tião) Anibal Diniz que chegou mesmo a sugerir a realização de uma nova consulta popular.

Talvez a greve de fome não seja o caminho mais apropriado e adequado. Talvez a atitude do João Correia seja marketing político. Talvez uma temporada em Brasília faça bem ao João Correia. Talvez, talvez....

O fato relevante é que não podemos admitir que em um país que se supõe democrático o povo continue sofrendo golpes perpetrados por políticos que não honram a mesma democracia e se julgam senhores da lei, da vida, do fuso horário...

O cassino europeu do carbono perde dinheiro


Aliança RECOs
Redes de Cooperação Comunitária Sem Fronteiras


“.....Larry Lohmann, autor principal do livro Mercados de Carbono: a Neoliberalização do Clima, afirma que "o sistema foi se transformando em um mecanismo de comércio, as sanções se transformaram em prêmios e um sistema jurídico se transformou em um mercado". Para Tamra Gilbertson, da organização não governamental Carbon Market Watch, o "RCDE é um fiasco, um sistema onde imperam as armadilhas e as enganações". Em entrevista ao Terramérica Gilbertson disse que "o RCDE foi concebido pelas próprias empresas contaminadoras que se beneficiam dele hoje".
“....Larry Lohmann, autor principal del libro "Mercados de carbono: La neoliberalización del clima", sostiene que "el sistema (…) se fue transformando en un mecanismo de comercio, las sanciones se transformaron en premios y un sistema jurídico se transformó en un mercado".
Para Tamra Gilbertson, de la organización no gubernamental Carbon Market Watch, "el RCDE es un fiasco, un sistema donde imperan las trampas y las fullerías". En una entrevista con Tierramérica, Gilbertson dijo que "el RCDE fue concebido por las mismas empresas contaminadoras que se benefician hoy de él". ..”


DESTAQUESO cassino europeu do carbono perde dinheiro
Julio Godoy 
BARCELONA, Espanha, 6 de maio de 2013, (IPS) - (Tierramérica).- O desajuste entre oferta e demanda de autorizações para emitir gases-estufa na Europa lança mais dúvidas sobre os mecanismos de mercado para combater a mudança climática.

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Crédito: Patricia Grogg/IPS
Inundações provocadas pelo furacão Wilma em 2005, em áreas baixas de Havana.
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Apesar da evidência de que o mercado europeu de autorizações para emissões de carbono ser um fracasso e ter efeitos perversos na luta contra a mudança climática, o Parlamento Europeu deixou passar a oportunidade de reformá-lo. No dia 16 de abril o órgão legislativo da União Europeia (UE) votou contra a reforma do Regime de Comércio de Direitos de Emissão de Gases-Estufa (RCDE) do bloco, que consistia em adiar um leilão de 900 milhões de autorizações de emissão adicionais.

A maioria dos parlamentares argumentou que os governos não devem manipular mecanismos econômicos supostamente eficientes, como o da oferta e da procura, nem os preços que o mercado estabelece por meio de tais interações. Mas o RCDE sofre vários defeitos, principalmente o excesso de oferta de permissão de emissão - também chamados certificados ou bônus de carbono - e custos quase inexistentes para as empresas que se beneficiam deles e que ocasionam efeitos perniciosos, como um preço extremamente baixo do dióxido de carbono (CO2).

Ambientalistas criticaram o RCDE quase desde que começou a funcionar, em 2005, no contexto do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo definido pelo Protocolo de Kyoto, sobretudo porque os governos europeus concederam as autorizações, inicialmente, de maneira gratuita às grandes empresas que contaminam com CO2 e outros gases-estufa, causadores do aquecimento global.

O Protocolo de Kyoto obriga os países europeus a reduzirem seus volumes de gases-estufa. Entretanto, contém flexibilidades que permitem aos contaminadores financiarem projetos limpos em terceiros países - que supostamente reduzem as emissões humanas - mediante a compra de certificados de carbono.

Os críticos consideram ainda que o volume de emissões coberto pelos certificados é muito exagerado, permitindo, dessa forma, que as empresas mantenham uma elevada emissão contaminante e se beneficiem da troca destes certificados inflados e gratuitos contra reduções marginais de emissões de CO2, especialmente em países em desenvolvimento.

Segundo o centro de análise Point Carbon, que estuda os mercados globais de energia, o bônus de CO2 sofreu entre 2008 e 2012 um excesso de destinação de 13 bilhões de toneladas em relação à demanda estimada, de somente 11,5 milhões de toneladas. A UE também avaliou que, no final de 2012, o RCDE tinha 1,7 bilhão de bônus excedentes em relação à demanda real. Por causa deste desajuste entre oferta e demanda de certificados de emissão, o preço do CO2 no mercado europeu caiu, de 30 euros em 2010, para apenas 2,63 euros este ano.

Larry Lohmann, autor principal do livro Mercados de Carbono: a Neoliberalização do Clima, afirma que "o sistema foi se transformando em um mecanismo de comércio, as sanções se transformaram em prêmios e um sistema jurídico se transformou em um mercado". Para Tamra Gilbertson, da organização não governamental Carbon Market Watch, o "RCDE é um fiasco, um sistema onde imperam as armadilhas e as enganações". Em entrevista ao Terramérica Gilbertson disse que "o RCDE foi concebido pelas próprias empresas contaminadoras que se beneficiam dele hoje".

A UE, por intermédio da comissária de Ação pelo Clima, Connie Hedegaard, fez suas tais críticas e propôs adiar o leilão de 900 milhões de autorizações adicionais concebidas para seu intercâmbio nos próximos dois anos, remetendo-a para o período 2016-2020. "A UE não pode se permitir inundar um mercado já sobressaturado", disse Hedegaard em entrevista ao Terramérica. No entanto, no dia 16 de abril o Parlamento Europeu rejeitou a proposta de Hedegaard.

A posição da maioria foi resumida pelo deputado do Partido Liberal Democrático alemão, Holger Krahmer, que disse ao Terramérica que "o comércio de emissões de carbono foi concebido para que os políticos manipulem e determinem o preço". O presidente da Federação Alemã do Aço, Hans Jürgen Kerkhoff, em entrevista coletiva em Berlim, também rechaçou a proposta da UE. "Manipular o mercado atual de autorização para emissões destruiria a confiança e a segurança do planejamento das empresas e afetaria negativamente os investimentos futuros", afirmou.

Mas Bas Eickhout, porta-voz para questões ambientais do Partido Verde, afirmou ao Terramérica que tais argumentos são "cínicos ao extremo. Políticos conservadores e empresários de todos os países europeus podem ser culpados pelas deficiências do mercado de emissões que causaram o desastre atual. Ao se oporem à necessária reforma, estes mesmos políticos e empresários expressam seu desejo de destruir o sistema que constitui o pilar da política europeia contra a mudança climática".

Depois da votação do Parlamento, Hedegaard anunciou que pedirá ao comitê para a proteção ambiental do órgão legislativo que reconsidere a reforma do RCDE e que o plenário volte a discutir nos próximos meses. Porém, Stig Schjølset, diretor de análises da Ponit Carbon, disse ao Terramérica que "a proposta de adiar o leilão está politicamente morta. É muito improvável que haja um acordo para reformar o sistema planejado para o período 2013/2020". A consequência desse fracasso seria um preço baixo do carbono e a perpetuação do efeito perverso: emissões elevadas, dissimuladas pela troca de autorizações obtidas sem custos. (FIN/2013)

terça-feira, 7 de maio de 2013

Nota de Repúdio do Sinjor-PA


“O Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado do Pará e a Federação Nacional dos Jornalistas vêm a público repudiar, veementemente, a forma violenta e anti-democrática com que o fotógrafo da Reuters, Lunaé Parracho, o jornalista do Conselho Indigenista Missionário, Ruy Sposati, e o correspondente da Radio France Internationale (RFI) no Brasil, François Cardona, foram retirados do canteiro de obras no Sítio Belo Monte, localizado no município de Vitória do Xingu, a 60 Km de Altamira, em cumprimento a uma ordem judicial expedida dia 03 de maio deste ano, que determinou a retirada de pessoas não indígenas do local.

Cumprindo a decisão, e como não havia pessoas não indígenas no canteiro de obras ligadas ao movimento de ocupação, o oficial de Justiça, acompanhado de força policial (Força Nacional e PM/PA) e de representante da empresa Norte Energia, resolveu impedir os profissionais de jornalismo que estavam atuando na cobertura do fato, apesar da referida decisão ser direcionada às partes do processo.

A gritante inversão de valores, que condena quem se dispõe a prestar o serviço da denúncia de diversos problemas vividos pela população daquela região à sociedade paraense e brasileira, não é apenas mais um dos capítulos da história, onde judiciário, policiais e empresários, por puro desconhecimento, desrespeitam os profissionais de jornalismo no nosso Estado. É sim um fato lamentável que depõe, lamentavelmente, contra a empresa e o judiciário paraense, órgão que deveria agir como promotor da Justiça e não o seu contrário.

Diante de tal episódio, que demonstra claramente uma brutal agressão ao exercício profissional, o Sindicato acredita que atitudes como esta extrapolam o respeito e atingem  a liberdade de expressão e de imprensa em nosso Estado, tendência desgraçadamente verificada em vários outros estados, vitimando outros jornalistas e jornais.

O Sindicato não permitirá que fatos como estes intimidem a categoria dos jornalistas como um todo, a despeito de vivermos formalmente dentro de um regime democrático de direito, em que a liberdade expressão acha-se consagrada na Constituição.

Em vista disso, o Sindicato dos Jornalistas no Estado do Pará não medirá esforços, dentro do que lhe é possível, no sentido de garantir o livre exercício profissional e o respeito  aos profissionais de jornalismo. Ao mesmo tempo, motivar que a imprensa em nosso estado não se cale diante das violações de prerrogativas dos jornalistas.

Belém, 06 de maio de 2013.

Sindicato dos Jornalistas no Estado do Pará - Sinjor-PA
Federação Nacional dos Jornalistas – Fenaj”

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Declaração de solidariedade à carta do Acre, Brasil, que se opõe aos créditos de compensação de REDD no esquema de cap-and-trade da Califórnia

Estamos escrevendo para expressar nosso apoio à Carta Aberta que lhe foi enviada por organizações e pessoas brasileiras (em anexo carta aberta e Introdução) pedindo-lhe para não aceitar créditos de compensação de REDD do Acre em seu esquema de limitação e comércio (cap-and-trade).
Consideramos legítima a exigência que fazem de uma participação significativa em qualquer processo de consulta no Acre relacionado a legislação ou programas vinculados a atividades de REDD que já ou potencialmente afetem seu modo de vida. Os povos que dependem da floresta têm direito de dar ou negar seu consentimento a atividades que interfiram profundamente em seu modo de vida. Decisões sobre legislação ou programas de REDD+ já afetam, e afetarão no futuro, o modo de vida dos povos da floresta. Tendo em conta que essa participação significativa esteve ausente dos processos de REDD+ no Acre ou durante a elaboração de recomendações ao governo da Califórnia sobre o tema, pedimos que não se incluam créditos de compensação de REDD no regime de comércio de carbono da Califórnia.
Também compartilhamos as outras preocupações sobre o mecanismo de REDD+ e apoiamos a reivindicação feita na Carta Aberta, de que a Califórnia não inclua os créditos de compensação de REDD do Acre em seu esquema de comércio de carbono, e sim realize esforços para reduzir as emissões no próprio estado.
Atenciosamente,
Organizações:

AAE Asociación de Agricultura Ecológica – Peru
All India Forum of Forest Movement
ARA – Germany
Asian Pacific Environmental Network (APEN)
Biofuelwatch UK/US
Brainforest, Gabon
CAPPA-Ecological Justice, Indonesia
Carbon Trade Watch
CEIBA-Guatemala
COEOCEIBA-Friends of the Earth Costa Rica
FADEMAD-Peru
FEDICAMP-Nicaragua
FERN-UK
FOEI – Friends of the Earth International
Food & Water Watch, USA
Friends of the Earth-US – USA
Friends of the Earth Argentine
Friends of the Earth Australia
Friends of the Earth Malaysia
Global Forest Coalition
Health of Mother Earth Foundation – Nigeria
Hnutí DUHA – Friends of the Earth Czech Republic
ICCA Consortium
Institute for Agriculture and Trade Policy (IATP), USA
JA!Justiça Ambiental/ FOE Moçambique
MEFP, Central African Republic
Mujeres Saparas del Ecuador
NESPON, India
OLCA – Chile
Otros Mundos AC/Chiapas, México
Pro-Regenwald – Germany
RECOMA – Latinamerican Network Against Tree Monocultures
Rising the Tide North America
Russian NGO Friends of the Siberian Forests
Savia, escuela de pensamiento ecologista, Guatemala
Sobrevivencia/Friends of the Earth-Paraguay
Society for Threatened Peoples – Germany
Sustainable Development Institute (SDI) Liberia
The Cornerhouse – UK
Timberwatch Coalition – South Africa
World Rainforest Movement (WRM) – Uruguay
Individuais:

Ana Esther Ceceña – Observatorio Latinoamericano de Geopolítica
Instituto de Investigaciones Económicas, UNAM – México
Cristina Steffen, Universidad Autónoma Metropolitana-Iztapalapa, México
Guillermo Ortega – Investigador del Centro de Investigación BASE IS- Paraguay
José Enrique González Ruiz. Coordinador del Postgrado en Derechos Humanos de la Universidad Autónoma de la Ciudad de México
Josefina Mena Abraham, Pdta. Grupo de Tecnología Alternativa SC
Pablo Mansilla Salinas – México
Protet Judicaël Essono Ondo, Brainforest, Gabon
Rebeca Peralta Mariñelarena – Posgrado en Estudios Latinoamericanos-UNAM -México
Zenzi Fujiyama – Walhi – Indonesia

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Carta Pública do Acre/Brasil denuncia “consulta” sobre REDD+ na Califórnia


 A carta pública mostra que a imagem verde do Acre no mundo, como exemplo avançado de “sustentabilidade” e de como realizar o REDD+ em áreas de florestas tropicais - construída inclusive a partir da imagem e dos ideais de Chico Mendes - não corresponde à realidade, ao contrário.

Grupos e indivíduos do estado do Acre e outros estados do Brasil enviaram este mês uma carta-denúncia aberta ao governador da Califórnia e, também, a um Grupo de Trabalho (GT) sobre REDD+ da Califórnia. A carta denuncia a ilegitimidade de uma consulta através de três oficinas na Califórnia e outra feita pela internet, tudo em inglês, sobre a forma e as condições como deveriam ser incluídos créditos REDD+ - principalmente do Acre - no mercado de carbono que está sendo criado na Califórnia. Depois do dia 30 de abril de 2013, o GT afirma que encaminhará seu parecer ao governo da Califórnia, dando por encerrada a “consulta”. 


A iniciativa na Califórnia em torno do REDD+ é resultado de um acordo que foi assinado em 2010 entre os governadores da Califórnia (EUA), do Acre (Brasil) e de Chiapas (México) com o objetivo de concretizar negócios com REDD+, tendo Acre e Chiapas como estados que estariam “fornecendo” os créditos de carbono enquanto a indústria poluidora da Califórnia se beneficia destes créditos, comprando o “direito” de continuar poluindo.


A carta do Acre/Brasil denuncia em primeiro lugar que se trata de um processo ilegítimo: “Nós, organizações e ativistas do Acre e do Brasil, (...), denunciamos a proposta do governo do estado da Califórnia, nos EUA, de querer “reduzir” suas emissões de CO2 com a “aquisição” de créditos REDD+ dos estados do Acre e de Chiapas, em vez de fazer essa “redução” na própria Califórnia. Somos contrários a essa proposta e denunciamos o processo de “consulta” em curso sobre este tema na Califórnia, porque ele carece de legitimidade pela falta de participação efetiva das populações do Acre e de Chiapas que dependem das florestas para manter seu modo de vida, e que serão diretamente afetadas pela proposta de REDD+ da Califórnia. 



Além disso, a carta pública mostra que a imagem verde do Acre no mundo, como exemplo avançado de “sustentabilidade” e de como realizar o REDD+ em áreas de florestas tropicais - construída inclusive a partir da imagem e dos ideais de Chico Mendes - não corresponde à realidade, ao contrário. A carta diz que “o REDD+ não será capaz de reduzir as emissões de carbono no mundo e muito menos a destruição da floresta; aprofunda injustiças sociais e ambientais existentes; criminaliza práticas tradicionais das populações/povos/comunidades da floresta e tem um caráter profundamente neocolonial”.



A Carta sugere que o governo da Califórnia anule o processo ilegítimo de consulta que está em curso, “..caso não faça, a curto prazo, uma ampla consulta aos afetados nos territórios de onde pretende obter os créditos REDD.”



A Carta recebeu uma moção de apoio de um grupo de organizações internacionais que afirmam que: “Decisões em relação à legislação ou programas de REDD+ já estão causando ou causarão impactos no modo de vida de populações da floresta. Dado que nem no processo REDD+ no Acre e tampouco durante a elaboração de recomendações ao governo da Califórnia sobre o assunto houve a necessária participação significativa dessas populações, exigimos que não sejam incluídos créditos de “compensação” REDD+ no esquema de comércio de carbono da Califórnia”, completando que “compartilhamos também as outras preocupações sobre o mecanismo REDD+ e apoiamos a demanda da Carta Aberta, de que Califórnia não deveria incluir créditos de “compensação” REDD+ do Acre no seu esquema de comércio de carbono e deveria fazer esforços para reduzir suas emissões na própria Califórnia”. 



A carta-denúncia pública e a moção de apoio podem ser lidas na íntegra em português, enquanto também uma carta de rejeição a REDD desde Chiapas foi enviada para as autoridades na Califórnia (veja .http//wrm.org.uy/subjects/REDD/AcreSolidarity-OpenLetter.pdf http://wrm.org.uy/subjects/REDD/OpenLetter-Acre.pdf )

E acompanhe por este blog toda a discussão.

Publicado em WRM

quinta-feira, 2 de maio de 2013

O legado do Abril Indígena 2013


Clovis Antonio Brighenti
Doutor em História Cultural

A 11ª edição do Abril Indígena - Acampamento Terra Livre, que ocorre anualmente em Brasília (exceto em duas edições que ocorreram fora da Capital Federal, em Campo Grande/MS e Rio de Janeiro/RJ, respectivamente), marcou um passo significativo do movimento indígena brasileiro na manutenção dos direitos e na manifestação da necessidade da participação indígena em todos os temas que lhes digam respeito, conforme determina a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Pela excepcionalidade dos acontecimentos e pela unidade do movimento, esse Abril Indígena pode ser considerado uma singularidade na história recente do movimento indígena no Brasil.      

Inicialmente analisamos a participação dos jovens indígenas no ato acontecido na capital. Estes se fizerampresentes em grande número. Mais de 50% dos participantes eram jovens, muitos deles universitários, com caras e corpos pintados, portando cocar e fazendo uso de celular e computador. Acompanharam atentamente os sábios, escutaram, se manifestaram e demonstraram entendimento sobre os temas relacionados às suas comunidades. A não-passividade foi a marca da juventude indígena.

Os Tupinambá, de tanta bravura no período colonial, demonstraram porque Florestan Fernandes os denominou povo da guerra; porque Hans Staden os temeu; porque os portugueses tiveram dificuldades de dominar seu território; porque com positiva astúcia aliaram-se aos franceses no velho Rio de Janeiro para defender suas vidas. No Congresso Nacional ecoou o canto dos guerreiros Tupinambá. No Palácio do Planalto, sua fervente indignação – sendo necessária a intervenção de seus líderes para que não rompessem as grossas paredes de vidro que separam o governo da população; vidro que apesar da transparência torna-se opaco aos olhos de Dilma Rousseff, que não consegue perceber os indígenas. De um povo considerado extinto pelos historiadores, etnólogos e demógrafos, estão mais vivos do que nunca. Não perderam a coragem e a tenacidade.

As mulheres, sempre presentes e atuantes. Mulheres indígenas que não são coadjuvantes ou que precisam clamar pelo debate de gênero para serem ouvidas, elas estão onde suas comunidades estão.Seus lugares estão seguros em todos os espaços, seja na guerra ou na reza; em Brasília, ali estavam elas,ativas, defendendo seus povos e seus direitos. Mulheres mães com os filhos de colo e netos, que pareciam se divertir nos corredores do Congresso Nacional como se estivessem em suas aldeias.

As sábias lideranças de todas as regiões do país, calejadas das lutas em defesa do povo, também disseram presente em Brasília. Astutas ao perceber as malandragens de certos políticos e lúcidas ao orientar seus parentes, que não tinham nada de comandados, mas sim de dispostos participantes.

As lideres religiosos Guarani Kaiowá, que não cansaram de entoar seus m’baracás e takuapus e invocar por Nhamandu para abrir portas no Congressoforam marcantes. Não há dúvidas de que as rezas Kaiowá (com acento) e os torés dos povos do nordeste brasileiro foram fundamentais para as conquistas do movimento indígena.

As pinturas e adornos corporais foram algo à parte, pela beleza, imponência e delicadeza dos traços e contornos. Singulares nos rostos das mulheres Kadiwéu, grupo conhecido na literatura como Guaikuru, povo guerreiro das margens do rio Paraguai que aterrorizava espanhóis e portugueses. Hábeis cavaleiros que se em tempos passados foram fundamentais por defender o espaço a Portugal hoje lutam para que o estado brasileiro reconheça seu território e retire os latifundiários invasores. 

Essa é apenas uma mostra do marco da diversidade, das especificidades e das particularidades vistas na capital neste abril. Mais de 700 pessoas, quase 1% da população indígena nacional, e próximo a 100 povos ali representados. Falavam uma única língua. Não, não nos referimos à língua portuguesa, até porque alguns não falam, mas a linguagem da unidade, da defesa das terras e dos direitos. Mesmo quando o governo, através dos ministérios da Justiça e do Meio Ambiente, tentou levá-los a uma cerimônia para a “imprensa ver” recusaram o convite. Queriam falar com a Dilma, mas mal sabiam que Dilma não conhece a língua indígena; ela aprendeu apenas o “agronegociês” – o idioma do latifúndio, o idioma da repressão, da qual, aliás, foi vítima em tempos recentes.

A firmeza e a convergência das convicções levaram uma plateia inteira a silenciar para melhor ouvir os discursosconcordando ou discordando através do entoar dos chocalhos, palmas e vaias, demonstrando que já sabiam exatamente o que queriam e o que desejavam, ao terem ido à Capital Federal.

Quando o movimento indígena deflorou as portas invioláveis do plenário da Câmara disse aos deputados eaos poderes dominantes que invioláveis são seus direitos. Direitos que ainda estão no bê-á-bá. Os indígenas estão ainda empenhados em conquistar o direito básico como a posse, manutenção e controle das suas terras – estas deveriam ter sido regularizadas até 1993 (Art. 67 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias). As terras precisam estar regularizadas para que as comunidades e povos indígenas possam ampliar o debate sobre os direitos para outras temáticas, como a gestão territorial, a autonomia política, a construção de novas bases de relações com o estado brasileiro e com os demaisestados latinoamericanos, no caso de povos transfronteiriços. Demonstraram também aos deputados que aquele plenário protegido por portas de vidro não são casulos para metamorfose de propostas anti-indígenas e retrógradas; que elas devem estar abertas à oxigenação da sociedade. Aquelas portas nãopodem ser escudos de defesa de parlamentares, mas sim voláteis à organização da sociedade.

As conquistas do movimento indígena foram significativas. A principal delas foi a paralisação do trâmiteda PEC 215 na Câmara dos Deputados, mesmo que provisoriamente. Era algo que parecia impossível porque a bancada ruralista já tinha conseguido a criação da Comissão de Redação da PEC e pelo menos um partido já havia indicado os membros para compô-la.

O retorno da tramitação dessa matéria no Congresso Nacional está condicionado à análise de uma comissão paritária, criada com representantes indígenas e parlamentares. Essa comissão terá o encargo de analisar não apenas a PEC 215, mas todos os temas que estão tramitando na Câmara dos Deputados que dizem respeito aos direitos indígenas. Entre eles estão: o Estatuto dos Povos Indígenas – paralisado desde 1994;  PEC 237, que permite o arrendamento das terras com a posse indireta de terras indígenas por produtores rurais; Projeto de Lei 1610, que prevê a mineração em terras indígenas; e outros temas. Portanto haverá a possibilidade de fazer um debate amplo sobre os direitos indígenas, e não mais fracionado por assuntos de interesses anti-indígenas.

No Senado Federal não houve a mesma conquista. Barrados já na entrada do prédio, os indígenas não conseguiram romper as portas para ao menos sair o mofo que encobre aqueles senhores e senhoras que sequer dialogam com a sociedade.

Um pequeno grupo de cerca de 50 pessoas esteve debatendo com alguns poucos senadores que aindatêm dignidade. Mas a PEC 38 que dá “ao Senado Federal competência para aprovar processos de demarcação de terras indígenas” e determina que “a demarcação de terras indígenas ou unidades de conservação ambiental respeite o limite máximo de 30% da superfície de cada estado”, permanece tramitando na casa, a galopes.

No Palácio do Planalto não foram recebidos pela presidente Dilma;  se recusaram a falar com a ministra da Casa Civil e/ou seus auxiliares, mesmo quando estes imploraram por recebê-los. Disseram que não valia a pena conversar com quem não decide nada, com quem é mandado. As ações desses subservientes palacianos fizeram lembrar o “pelego”, aquele dirigente que bajulava o patrão e se dizia amigo do trabalhador, figura comum em chefias do movimento social e sindical nas décadas de 70 e 80, viva e piorada nos dias atuais. Avisaram a Sra. Dilma que se ela não conhece o caminho das aldeias eles conhecem os caminhos do Planalto.

A pauta com Dilma era longa, como longo é o saco de maldade do governo contra os indígenas. Portaria 303, de iniciativa da Advocacia Geral da União – AGU – que aplica a todas as terras indígenas do Brasil as 19 condicionantes propostas por um ministro do STF no julgamento da área Raposa Serra do Sol. Decreto nº 7.957/2013 que cria a Companhia de Operações Ambientais da Força Nacional de Segurança Pública para permitir o uso da força militar contra indígenas que se opõem a grandes obras do PAC, especialmente as hidrelétricas. Portaria Interministerial 419/2011 que pretende agilizar os licenciamentos de obras públicas mediante a redução dos direitos indígenas, de comunidades tradicionais e do meio ambiente.

O movimento indígena deixou claro que sabe exatamente quem comanda a edição de Decretos e Portarias. Se Dilma saiu pela porta dos fundos, 15 minutos antes dos indígenas chegaram ao Planalto, não terá como fugir permanentemente do diálogo com esses povos, a história não perdoará. O movimento indígena conseguiu se fazer ouvir. Pautou a imprensa, chamou a atenção da sociedade, firmou posição frente a seus perseguidores/detratores/adversários.

Boa parte da sociedade brasileira talvez não esperasse uma ação tão contundente dos povos indígenas.Eles mesmos devem ter se surpreendido com a disposição enérgica expressada em suas atitudes, porque nada do que aconteceu foi planejado de antemão. Foram para Capital Federal dialogar. Não foram ouvidos, tiveram que usar a força, física e espiritual, para serem ouvidos.

Talvez a maior conquista desses povos tenha sido a unidade na pluralidade, a consciência sobre as consequências das PEC, Decretos, Leis, Portarias que afetam seus direitos. Demonstraram tenacidade, capacidade de diálogo e determinação. Diferentemente de outros Acampamentos Terra Livre, neste o movimento indígena demonstrou amadurecimento, rompeu com uma forma “ordeira” de manifestações de esperar para se fazer ouvir; disseram não, basta, queremos que nos escutem, fizeram sua história, econtinuaram na história.

Demonstraram que fazer uso de tecnologias não os torna menos indígenas e que invadir as portas do mundo da política é exigência para ser protagonista de sua história, participando e vigiando todas as instâncias de decisão sobre seus direitos. Recuar na lei nunca mais, uma Constituição tão jovem precisa amadurecer e avançar, jamais retroceder.