terça-feira, 13 de agosto de 2019

REDD EARLY MOVERS (REM) NO ACRE: VIOLAÇÕES DE DIREITOS DOS POVOS ORIGINÁRIOS E A PERSPECTIVA DE ACESO À JUSTIÇA EM CAPPELLETTI


Lindomar Dias Padilha[1]

            RESUMO

            O presente trabalho pretende apresentar uma rápida análise sobre as violações de direitos dos povos originários, notadamente os que habitam a região onde se encontra o estado do Acre, na perspectiva do acesso à justiça em Cappelletti tendo como pano de fundo o programa REDD EARLY MOVERS (REM)[3] implementado naquele estado. Abordaremos o REM como parte de um grande conjunto de mecanismos como REDD + contidos na Economia Verde[4] por meio da mercantilização e Financeirização da natureza.

PALAVRAS CHAVES: Povos Originários, Acesso à Justiça, REDD, Economia Verde.

I.                   INTRODUÇÃO


A inclusão de REDD+ como instrumento de proteção florestal e climática, aparece nas negociações sobre o clima a partir de 2005. REDD é uma sigla em inglês para designar Reducing Emissions from Deforestation and Forest Degradation ou Redução das Emissões por Desmatamento e Degradação florestal em português.

Como se vê, a intenção, a olhos pouco atentos, pode parecer excelente já que se propõe a diminuir as emissões de gazes de efeito estufa, notadamente o CO2 e ao mesmo tempo conter o desmatamento. Este é o ponto central dos críticos deste mecanismo e outros oriundos deste como PSA (Pagamentos por Serviços Ambientais) e o Redd Early Movers (REM), mecanismo que nos propomos apresentar neste texto a partir de uma perspectiva crítica frente aos direitos dos povos originários.

            Portanto, o REM é o mesmo que REDD+, só que aplicado jurisdicionalmente. Ou seja, em todo o território do estado em questão. No nosso caso, o estado do Acre. Apresentamos neste trabalho as críticas e contradições deste programa especialmente por incidir sobre territórios indígenas, o que fere a Constituição Federal em seu artigo 231 que define terras indígenas como de usufruto exclusivo dos povos que nelas habitam e ainda o que preconiza a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho – OIT, da qual o Brasil é signatário.

            Apresentaremos o REM com suas definições e propostas para em seguida apresentar os pontos conflitantes com a legislação brasileira atual e limites ao acesso à justiça e ao final, apontarmos as consequências deste tipo de programa para os povos originários bem como as violações de direitos decorrentes deste programa considerando sua implantação no estado do Acre. A utilização deste mecanismo além de violar direitos, dificulta, quando não impede, o acesso à justiça. 

            Pelo óbvio que, dado que se trata de um tema por demais extenso, não pretendemos apresentar soluções muito menos trata-lo com a profundidade que merece. Nossa intenção ao final é apenas realizar apontamentos com base em experiências vividas e em estudos realizados por diversas organizações e pesquisadores. Muito há que se refletir e desejamos a todas e todos uma ponta de reflexão a partir deste trabalho.

II.                REDD EARLY MOVERS (REM) NO ACRE

            O REM só se difere do programa de REDD+ por recair sobre todo o território de um determinado estado, no nosso caso, o estado do Acre. É uma forma de burlar a legislação para aplicar o REDD em terras indígenas, uma vez que a Constituição veta este tipo de programa, salvo quando de interesse nacional, cabendo aos índios o usufruto exclusivo sobre seus bens e riquezas. (BRASIL, Constituição Federal, 1988, artigo 231, § 2º)

REM é um programa piloto por meio do qual o governo alemão destina recursos para estados que começaram antes que outros com a implementação do chamado REDD+ jurisdicional. É um programa baseado na suposta redução das emissões de carbono em toda a jurisdição estadual, como o estado do Acre. (KILL, 2018, P. 1).

            Kill fala em “suposta redução” por considerar este mecanismo uma falsa solução. Portanto, além de violar direitos dos povos originários, este mecanismo não é capaz de cumprir o que se propõe. Estes são os dois pontos chaves que nos propomos a detalhar melhor oportunamente: viola direitos e não soluciona o problema ambiental.

Uma publicação de 2012 do Ministério do Desenvolvimento e Cooperação da Alemanha analisado por Jutta Kill, descreve a abordagem do governo daquele país ao REDD, o que definiu o programa REDD Early Movers:

O REDD é um mecanismo de conservação florestal baseado em desempenho, que visa reduzir em muito os gases de efeito estufa em países emergentes e em desenvolvimento; planeja pagar uma compensação por reduções mensuráveis ​​e verificáveis ​​nas emissões de CO2. (KILL, 2018, P. 2).

            O mesmo documento explica que o REDD se baseia em uma “abordagem trifásica” que foi adotada na conferência climática da ONU em Cancún, México, em 2010. Como vimos anteriormente, a inclusão de REDD+ como instrumento de proteção florestal e climática, aparece nas negociações sobre o clima a partir de 2005. Logo, o REM tem um período de gestação mínimo de cinco anos. Interessante notar que a lei 2.308 do Estado do Acre, foi promulgada justamente em 22 de outubro de 2010. Falaremos mais a frente sobre esta lei.

            Aspectos legais, por meio de criação de leis, que violam direitos dos povos originários têm sido comuns, mas voltaremos ao tema das violações no capítulo posterior onde também trataremos do acesso à justiça propriamente dito. Por hora sigamos apresentando o programa REM no Acre.

            O governo alemão, também em documento oficial escreve que:

O REM está voltado aos pioneiros. São atores que tomaram a iniciativa já no início e estão trabalhando na criação das condições necessárias para receber financiamento de carbono no âmbito do programa de REDD. (KILL, 2018, P. 3).

A primeira jurisdição aceita no programa REDD Early Movers foi o estado do Acre. O KfW[1] e o Ministério do Desenvolvimento e Cooperação da Alemanha sempre descreveram o REDD Early Movers como um programa que fornece financiamento transitório para essa terceira fase do REDD, porque as negociações da ONU estavam avançando mais devagar do que o esperado inicialmente.

O financiamento do setor privado para essa terceira fase também continuava difícil, de forma que os financiadores, como o governo alemão, através do KfW, entraram em cena para fornecer fundos públicos como financiamento provisório ou transitório e ajudar a criar uma espécie justificativa conceitual. Durante as negociações do REDD, eles sempre afirmaram que, segundo a opinião do governo alemão, os fundos públicos não serão suficientes e o REDD deve ser um mecanismo que também sirva para atrair financiamento do setor privado.

O Estado do Acre, portanto, ao se abrir ao REDD jurisdicional, ou REM, está em última instância, abrindo seu território, notadamente as áreas ainda preservadas, ao capital privado. Fato que o governo nega peremptoriamente até hoje, mesmo com diversas críticas apresentadas por especialistas, como é o caso de Jutta Kill, do Conselho Indigenista Missionário - CIMI[2], do Movimento Mundial pelas Florestas Tropicais e várias outras organizações e pesquisadores.

Uma análise do histórico do REDD e do contexto das negociações climáticas da ONU sobre o REDD+ mostra claramente que o primeiro foi desenvolvido como um mecanismo que paga por reduções verificadas no fluxo de emissões entre o “estoque” de carbono na floresta e a atmosfera. O SISA e, segundo (KILL, 2018 P. 5), e em particular  o programa REM financiado pelo KfW, baseiam-se em um modelo que paga não só pela redução verificada do fluxo de emissões da floresta para a atmosfera, mas também pela manutenção do estoque de carbono.

Esta característica de “manutenção de estoque” é bastante peculiar ao REM aplicado ao Estado do Acre. Significa que, mesmo ainda não negociando em bolsas com os créditos de carbono, o KFW mantém um estoque impressionante e tão logo estes créditos venham a ter alto valor no mercado, seguramente serão utilizados.

Mas os pagamentos simplesmente por manter a floresta como estoque de carbono não são coerentes com o REDD na forma negociada na ONU nem com instrumentos de financiamento elaborados para o REDD: o REDD é construído com base em incentivos financeiros para reduzir emissões ou, no caso do REDD jurisdicional, visa mostrar que as emissões planejadas foram evitadas como resultado de programas governamentais que contribuem para que o governo obtenha uma redução na taxa de desmatamento. É por isso que todos os governos dos países do Sul global que têm terras florestais significativas, no contexto do REDD, estabeleceram metas para reduzir o desmatamento (e não para manter a floresta).

Estranhamente o REM no Acre não visa evitar ou reduzir as emissões por meio do mecanismo de REDD, mas sim, apenas manter os estoques. Estoques que, no caso dos povos indígenas, são resultantes de séculos de conservação e preservação. Ao transferir esses estoques a governos ou a iniciativa privada, o governo do Acre através do REM viola o que preconiza a Constituição Federal em seus artigos 231 e 232.
É somente através dessa estrutura incomum de pagamento, que inclui pagamentos por manter o “estoque de carbono” em lugares onde não há risco de o carbono fluir para a atmosfera que o financiamento do REM no Acre foi disponibilizado para financiar atividades em Terras Indígenas. Esses pagamentos são feitos a atividades em áreas onde não há risco imediato de desmatamento e para as quais o governo do Acre não pode mostrar uma redução verificada do fluxo de carbono para a atmosfera porque não havia risco de tal fluxo acontecer: os povos indígenas vinham mantendo a floresta dentro do seu território demarcado. Os pagamentos são feitos para recompensar a conservação do estoque de carbono, e não para reduzir o fluxo de carbono para a atmosfera, conforme sugerido pela primeira letra na sigla REDD, que significa “Redução”.

Sobre este aspecto Jutta Kill destaca que:

Do ponto de vista da justiça, esses pagamentos podem ser louváveis. Aliás, o REDD+ tem sido criticado por muitas organizações da sociedade civil desde o início como um mecanismo que proporciona um incentivo perverso ao oferecer dinheiro àqueles que representam riscos para a floresta (que planejavam destruir a floresta e liberar emissões), mas não aos que sempre a protegeram. Assim, a decisão do programa do REDD Early Movers, do KfW, de permitir pagamentos por atividades em locais onde não há risco de desmatamento é louvável sob a perspectiva da justiça, e provavelmente também foi essencial para criar uma “licença social para operar” e evitar a oposição à implementação do REM no Acre. (KILL, 2018 P. 5).

            Sim por um lado, o REDD oferece dinheiro para quem polui e ameaça o meio ambiente, por outro, o mecanismo de REM peca por considerar justamente os que mais conservam a natureza como potenciais destruidores. Também a “injustiça” se manifesta no fato de o REM ser realizado diretamente entre o governo do Acre e o banco alemão KFW, sem contudo considerar o valor da natureza em si mesmo e as comunidades como sendo detentoras de saberes tradicionais capazes de realizar o usufruto sem comprometer a natureza e os demais recursos, incluindo seus recursos culturais e medicinais. A perspectiva da justiça sinalizada por Kill é mais uma farsa do programa REM porque em nada tem a ver com a verdade da história desses povos e não os considera como sujeitos de direitos.

O programa REDD Early Movers se baseia na mesma abordagem do Fundo de Carbono do FCPF: enquanto o governo alemão – inclusive para não parecer estar prejudicando as negociações climáticas internacionais – não solicita créditos ou “compensações” de carbono em troca dos “pagamentos baseados em resultados” que faz ao estado do Acre, 30% do financiamento do REM são usados para operacionalizar o SISA e, em particular, seu programa ISA-Carbono. O ISA-Carbono, por sua vez, é uma estrutura destinada a gerar pagamentos... (KILL, 2018, P. 5).

            Para entendermos como isso funciona na prática no Estado do Acre, vale a pena ler e estudar a análise da cartilha do governo do estado do Acre intitulada: “Serviços Ambientais, Incentivos para a sua conservação. SISA: dialogando com os Povos Indígenas”, produzida pelo Instituto de Mudanças Climáticas e Regulação de Serviços Ambientais (IMC)[3]. A análise da cartilha foi elaborado por Winnie Overbeek e de pronto nos salta aos olhos uma observação:

Além do IMC, a Cartilha foi uma realização da Assessoria de Assuntos Indígenas do gabinete do governador do Acre, Tião Viana, e da ONG Norte americana Forest Trends. O apoio para a publicação vem do banco alemão de desenvolvimento KfW, do organismo de cooperação técnica alemã GIZ, do fundo da multinacional mineradora VALE e da ONG internacional conservacionista WWF. (OVERBEEK, 2013, p. 37).

            Um banco Alemão (KFW), uma mineradora (VALE) Governo do Acre, ONGs internacionais e assessoria indígena se juntaram para a publicação de uma cartilha, com o intuito apenas de orientar a população indígena sobre Serviços Ambientais? Relembramos que a Forest Trends é uma ONG que assessora o Governo do Acre justamente na área de mercado de carbono. Se a ação do KFW no Acre é apenas “doação” seria correto deduzirmos também que a Forest Trends e a Vale também estão fazendo sua parte nesta espetacular doação? Claro que não. Bancos e mineradoras visam lucro e as ONGs que delas dependem só as defendem justamente por dependerem inclusive para custeio de salários.

            Imaginar que o Banco de desenvolvimento da Alemanha faz caridade com o Acre e simplesmente o premeia é mesmo uma demonstração de imensa crença no amor à humanidade da parte do sistema financeiro. Nós não cremos nisso. De outro lado, “redução na emissão de gases de efeito estufa por desmatamento e degradação florestal é exatamente a definição de REDD. Se esta redução não mantém vínculo com as terras indígenas e nem com as unidades de conservação, onde está sendo feita então? Nas cidades? É sabido e notório que as terras indígenas e as unidades de conservação são as áreas naturalmente mais preservadas. Se excluirmos as unidades de conservação e as terras indígenas, o que sobrará para o REDD ou REM acreano? Nada. REM no Acre então, é mera ficção.

III.               REM COMO VIOLAÇÂO DE DIREITOS – Limites ao acesso à justiça.

A Constituição Federal brasileira (CF), em seu artigo 231 garante aos povos indígenas o direito ao território. Segundo esta mesma constituição todos os territórios indígenas deveriam ser demarcados até o ano de 1994. Entretanto, como já vimos essa determinação jamais foi observada e, consequentemente muitos dos povos indígenas permanecem sem a devida regularização de seus territórios. Vejamos o que diz a Constituição sobre o direito dos povos originários, notadamente o direito ao território e à consulta:

Art. 231. São reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens.
§ 2º As terras tradicionalmente ocupadas pelos índios destinam-se a sua posse permanente, cabendo-lhes o usufruto exclusivo das riquezas do solo, dos rios e dos lagos nelas existentes. (...)
§ 5º É vedada a remoção dos grupos indígenas de suas terras, salvo, "ad referendum" do Congresso Nacional, em caso de catástrofe ou epidemia que ponha em risco sua população, ou no interesse da soberania do País, após deliberação do Congresso Nacional, garantido, em qualquer hipótese, o retorno imediato logo que cesse o risco.
§ 6º São nulos e extintos, não produzindo efeitos jurídicos, os atos que tenham por objeto a ocupação, o domínio e a posse das terras a que se refere este artigo, ou a exploração das riquezas naturais do solo, dos rios e dos lagos nelas existentes, ressalvado relevante interesse público da União, segundo o que dispuser lei complementar, não gerando a nulidade e a extinção direito a indenização ou a ações contra a União, salvo, na forma da lei, quanto às benfeitorias derivadas da ocupação de boa fé. (BRASIL, Constituição 1998)

            A simples não observância da Constituição Federal, por si só, já representa gravíssima violação de direitos desses povos originários e, claro, limites ao acesso à justiça. Claro que estamos falando de direitos ainda fundamentais. Se não há garantia dos direitos fundamentais aos povos originários, certamente não há do que se falar em acesso à justiça porque evidentemente acessar a justiça pressupõe a aceitação e reconhecimento de tais direitos. É preciso que nos empenhemos no sentido de localizar os pontos onde estes direitos estão sendo negados ou mesmo negligenciados. Para tanto, vale vislumbrar os obstáculos, conforme identifica e aponta Cappelletti:

(...) quantos dos obstáculos ao acesso efetivo à justiça podem e devem ser atacados? A identificação desses obstáculos, consequentemente, é a primeira tarefa a ser cumprida. (CAPPELLETTI, 1998, p. 6).

            Identifica-se também, no caso do Acre, como obstáculo ao acesso à justiça. A elaboração de legislação que visa burlar as normas constitucionais e decretos federais, bem como tratados internacionais. O caso mais eloquente produzido pelo governo do Acre foi a Lei 2.308/2010, conhecida como lei SISA que diz, entre outras coisas:
Cria o Sistema Estadual de Incentivos a Serviços Ambientais - SISA, o Programa de Incentivos por Serviços Ambientais - ISA Carbono e demais Programas de Serviços Ambientais e Produtos Ecossistêmicos do Estado do Acre e dá outras providências.
Art. 1º Fica criado o Sistema Estadual de Incentivos a Serviços Ambientais - SISA, com o objetivo de fomentar a manutenção e a ampliação da oferta dos seguintes serviços e produtos ecossistêmicos:
I - o sequestro, a conservação, a manutenção e o aumento do estoque e a diminuição do fluxo de carbono;
II - a conservação da beleza cênica natural;
III - a conservação da sociobiodiversidade;
IV - a conservação das águas e dos serviços hídricos;
V - a regulação do clima;
VI - a valorização cultural e do conhecimento tradicional ecossistêmico; e
VII - a conservação e o melhoramento do solo. (ACRE, Lei 2308/2010 – grifo nosso).

            A lei SISA, do Estado do Acre é, pois um grande exemplo de lei que desrespeita leis e normas federais e até tratados internacionais, como observamos. Alguns aspectos são particularmente preocupantes nessa lei. Um deles é que prevê legislar sobre territórios públicos federais, como as terras indígenas, reservas extrativistas e áreas de preservação. Outro aspecto é que foi elaborada sem nenhum debate público e prevê ações nas terras indígenas, por exemplo, sem que haja consulta prévia, instrumento internacional fruto de acordos que visam justamente garantir os direitos e, claro, orientar os países e favorecerem o acesso a estes direitos.
Ademais o Brasil, é signatário entre outras, da convenção 169 da OIT – Organização Internacional do Trabalho e, portanto, tal convenção tem poder de lei e deve ser assim aplicada internamente. Ou seja, a convenção faz parte do conjunto das normas e leis do brasil. Então vejamos o que diz a convenção sobre direito à consulta prévia, livre e informada em seu artigo 6º:

1. Ao aplicar as disposições da presente Convenção, os governos deverão:       
a) consultar os povos interessados, mediante procedimentos apropriados e, particularmente, através de suas instituições representativas, cada vez que sejam previstas medidas legislativas ou administrativas suscetíveis de afetá-los diretamente;
 b) estabelecer os meios através dos quais os povos interessados possam participar livremente, pelo menos na mesma medida que outros setores da população e em todos os níveis, na adoção de decisões em instituições efetivas ou organismos administrativos e de outra natureza responsáveis pelas políticas e programas que lhes sejam concernentes;
c) estabelecer os meios para o pleno desenvolvimento das instituições e iniciativas dos povos e, nos casos apropriados, fornecer os recursos necessários para esse fim.
2. As consultas realizadas na aplicação desta Convenção deverão ser efetuadas com boa fé e de maneira apropriada às circunstâncias, com o objetivo de se chegar a um acordo e conseguir o consentimento acerca das medidas propostas. (CONVEÇÃO 169, OIT 1989- grifo nosso).

            Como pudemos constatar, além de não respeitar o que preconiza a carta maior brasileira, mecanismos como REM desrespeitam instrumentos internacionais e alteram as constituições estaduais (no nosso caso a do estado do Acre) para que possam ser implementados e assim satisfaçam aos interesses do capital numa clara ameaça a soberania nacional e fere de morte o usufruto exclusivo dos povos originários dos bens existentes sobre os seus territórios. Neste sentido já observava Cappelletti que:

Atriste constatação é que, tanto em países de common law, como em países de sistema continental europeu, as instituições governamentais que, em virtude de sua tradição, deveriam proteger o interesse público, são por sua própria natureza incapazes de fazê-lo. O Ministério Público dos sistemas continentais e as instituições análogas, incluindo o Staatsanwalt alemão e a Proleuratura soviética, estão inerentemente vinculados a papéis tradicionais restritos e não são capazes de assumir, por inteiro, a defesa dos interesses difusos recentemente surgidos. Eles são amiúde sujeitos a pressão política — uma grande fraqueza, se considerarmos que os interesses difusos, frequentemente, devem ser afirmados contra entidades governamentais. (CAPPELLETTI, 1998, p.19 – Grifo nosso).

            É exatamente essa pressão política a que se refere Cappelletti, somada às pressões econômicas, no caso do REM no Acre, que determinam as violações de direitos e impossibilitam que os povos originários tenham acesso à justiça. O Ministério Público Federal, que no caso dos povos originários é o responsável para acompanhar os processos, também possui limites que no caso do Acre se tornam ainda mais evidentes como por exemplo a falta de recursos humanos, as longas distâncias e a acessibilidade às comunidades. Tudo isso concorre para que o REM seja implementado sem o devido respeito aos direitos desses povos. Neste contexto, não há que se falar efetivamente em direitos por força mesmo do que também observa Cappelletti:
Embora o acesso efetivo à justiça venha sendo crescentemente aceito como um direito social básico nas modernas sociedades, o conceito de “efetividade” é, por si só, algo vago. A efetividade perfeita, no contexto de um dado direito substantivo, poderia ser expressa como a completa “igualdade de armas” (CAPPELLETTI,1998, p. 6)

            A ausência de consulta prévia, livre e informada, prevista na convenção 169 da OIT, é clara demonstração de que não “igualdade de armas”. Os povos originários não se encontram em condição de, digamos, negociar no mercado internacional e por isso ficam a mercê do estado para que os seus direitos e o acesso efetivo à justiça se consolide. Não tendo o estado do Acre e nem o Estado Nacional interesse de que estes povos tenham seus direitos efetivados, tanto mais por isso seus territórios ficam abertos e livres para iniciativas como os mecanismos de REDD e REM.

            É evidente que os povos originários não possuem as condições para realizarem este tipo de enfrentamento. Se por um lado se encontram em locais de difícil acesso e em franca desvantagem em relação à sua capacidade de articular para enfrentar o mercado, de outro, o mercado com claros interesses no que há nesses territórios, conta além do apoio explícito de órgãos governamentais com vasto poder aquisitivo. E ai, mais uma vez valemo-nos das observações de Cappelletti:

Pessoas ou organizações que possuam recursos financeiros consideráveis a serem utilizados têm vantagens óbvias ao propor ou defender demandas. Em primeiro lugar, elas podem pagar para litigar. Podem, além disso, suportar as delongas do litígio. Cada uma dessas capacidades, em mãos de uma única das partes, pode ser uma arma poderosa (CAPPELLETTI, 1998, p. 7).

Evidentemente salta-nos aos olhos a superioridade financeira dos interessados na efetivação de programas vinculados ao ISA Carbono, caso de REDD e REM sobre os povos originários. Se os povos originários possuíssem recursos significativos poderiam, por exemplo custear o grupo de trabalho para realizar estudos em vistas a demarcação de seus territórios. Os territórios tradicionais, pois, não são demarcados porque há interesses de setores (inclusive internacionais) financeiros sobre seus territórios e bens naturais ali existentes de um lado e, de outro lado os povos não possuem recursos necessários para demandar contra estes interesses. Vejamos o que diz Kill quanto ao financiamento:

O governo alemão também é um dos maiores financiadores do Fundo de Parceria Florestal do Banco Mundial (FCPF, na sigla em inglês). Há financiamento para duas fases: uma fase de preparação ou “prontidão” e uma fase em que os países são pagos pelas reduções verificadas das emissões provenientes de perdas de florestas. Essa segunda fase é semelhante ao programa REDD Early Movers, mas em um contexto multilateral em vez de um programa bilateral, como o REM. (KILL, 2018, P. 5).

            O financiamento do governo alemão, bem como de empresas e bancos privados, é fator determinante. Há financiamentos abundantes para a implementação desses programas e não há nenhuma forma de financiamento, ou talvez haja poucas, que visem a efetivação e garantia de direitos dos povos originários. CAPPELLETTI (1998, p. 6) observa que de qualquer forma, torna-se claro que os altos custos, na medida em que uma ou ambas as partes devam suportá-los, constituem uma importante barreira ao acesso à justiça. Neste caso específico de financiamento internacional, a um só tempo temos violação de direitos e limites claros de acesso à justiça.

IV.              CONSIDERAÇÕES: REM e as consequências aos povos originários

            Claro está, pois, que a intenção do governo do Acre, com o REM, foi e é atuar de forma mercadológica por meio dos PSA – Pagamentos por Serviços Ambientais e, entre estes “serviços” merecem destaque o programa ISA Carbono, onde está sendo executado o programa REM, e os chamados produtos Ecossistêmicos. Para tanto, é fundamental um arranjo que possa considerar os territórios dos povos originários, maior berço Ecossistêmico. Ocorre que a lógica desses povos não obedece e muitas vezes não se enquadra na lógica mercadológica do capital e isso exigiu um grande esforço para fazer com que os povos fossem, digamos, considerados, enquanto parte do processo de geração de capital e serviços. Atentemos também para o fato de que os elementos da natureza sempre desempenharam “funções” e não “Serviços”. Mudam-se as funções para serviços e para tanto se espera que haja um “pagamento”. Tudo para satisfazer ao mercado.

A primeira e gravíssima consequência para os povos originários é a perda da autonomia sobre o território e do direito ao usufruto exclusivo. Claro que o banco KFW ou quem quer que seja que venha a adquirir o direito ao carbono fixado nas árvores não permitirá que nada que possa significar “alteração” a esta fixação não mais será permitido. Assim, os povos indígenas não poderão mais fazer seus roçados de subsistência, construir suas casas, enfim, realizar tudo aquilo que faz parte de suas práticas tradicionais. A perda da autonomia sobre os territórios poderá levar a uma possível perda cultural. Por exemplo, se não puderem mais realizar tarefas cotidianas comuns e tradicionais, daqui a alguns anos os mais jovens não saberão mais como realiza-las.

A “hipoteca“ dos territórios já é uma realidade muito grave. O Acre não está, digamos, exportando os créditos de carbono mas está comercializando a fixação deste. Ou seja, os créditos ficam como que em estoque para o Banco Alemão. Assim, ainda que seja fato de que o KFW ainda não está negociando estes créditos, poderá fazê-lo no futuro se julgar vantajoso do ponto de vista econômico. Todas as terras indígenas são tratadas como estoque. Portanto, sim as terras indígenas são uma espécie de garantia para o Banco KFW, dadas em hipoteca, e são negociados, os créditos, diretamente com o governo do acre. Essa é basicamente a diferença. Ou seja, os créditos não são negociados pelas comunidades e povos indígenas, mas fazem parte de uma espécie de garantia de estoque negociadas por meio do chamado REDD jurisdicional onde todo o Estado do Acre figura como território de REDD e os acordos são feitos com o governo.

Uma espécie de “Sebraelização” das relações, a mercantilização dos artesanatos e mesmo da cultura, assim como a Financeirização da natureza por meio da economia verde (base do modelo econômico do REM) tem um vício de origem. Ou seja, não procuram equacionar e resolver os gravíssimos problemas dos povos originários, mas apenas resolver os problemas de falta de políticas públicas da parte do governo e em vários casos, resolver o problema de caixa de governos e ONGs. Esses projetos tendem ao fracasso especialmente porque não escutam os povos indígenas nem durante a elaboração e muito menos na execução. São sempre vindos de “fora”, nunca nascem da vontade desses povos e se quer essa vontade é considerada. Mais do que fracassarem, esses projetos criam dependências.

Os recursos adquiridos por meio destes “projetos” não são eternos e nem suficientes para manter as comunidades. Então nos deparamos com uma outra consequência: acabado o dinheiro, como farão para garantir sua sobrevivência e a sobrevivência das gerações futuras?

Como recebem algum recurso com o compromisso de não alterar o meio natural, não farão mais seus roçados, não realizarão mais atividades como caça e pesca. Com o recurso deverão comprar tudo de que necessitam. Ai aparece uma outra consequência que é o aumento de “lixo” nas comunidades e aldeias, principalmente garrafas pet e sacolas plásticas. Nesta mesma direção, com o lixo e com mudanças nos hábitos alimentares aparecerão ainda mais doenças sobre as quais o pajé não tem controle e não sabe como curar trazendo consequências ainda mais graves para as crianças em especial.

Por fim, deixo estas considerações, mais uma vez reportando-me a Cappelletti que ao demonstrar as “ondas” termina por, digamos, aferir a necessidade de um maior debruçar sobre os temas de acesso à justiça apontando para um movimento que não cessa já que a ideia de ondas é uma ideia de que se está sempre em movimento. Para os povos originários serve como ponta de esperança.

Podemos afirmar que a primeira solução acesso - a primeira “onda” desse movimento novo - foi a assistência judiciária; a Podemos afirmar que a primeira solução acesso - a primeira “onda” desse movimento novo - foi a assistência judiciária; a segunda dizia respeito às reformas tendentes a proporcionar representação jurídica para os interesses “difusos”, especialmente nas áreas da proteção ambiental e do consumidor; e o terceiro - e mais recente - é o que nos propomos a chamar simplesmente “enfoque de acesso a justiça” porque inclui os posicionamentos anteriores, mas vai muito além deles, representando, dessa forma, uma tentativa de atacar as barreiras ao acesso de modo mais articulado e compreensivo. (CAPPELLETTI, 1998, p. 12 Grifo nosso).

Reconhecer direitos e respeitar esses povos e seus territórios é questão de respeito à democracia pode ser o maior passo rumo a uma sociedade realmente justa, ou que prima pela busca dessa justiça. Neste sentido, quando falamos em Processo e Justiça de acesso à justiça, não estamos dizendo que a justiça esteja lá em algum lugar sagrado aguardando que alguém a encontre. Não. Estamos antes falando de uma justiça que é caminho e porta, busca incessante e construção contínua. O acesso à justiça é um direito porque o é também o direito de buscar, construir e até de experimentar, mesmo que parcialmente, o sabor da justiça.

Talvez seja mais que esperança. Talvez seja um caminho a ser trilhado. O futuro destes povos depende de que façamos um mutirão de solidariedade para construirmos este futuro, pois, futuro não nos é apenas dado, é construído por mãos, mentes e corações solidários.

Neste sentido os povos originários seguem sendo exemplo de caminhar. Há séculos que vem resistindo e se renovando nessa resistência, sempre na esperança que já é certeza de que haverá um novo dia. Por mais que a noite seja fria e escura, o alvorecer virá com o cantar dos pássaros e com o aquecer dos raios do sol. É no amanhecer que festejaremos a justiça e finalmente o acesso a ela. Este é o processo, Processo e Justiça.






Referências:
ACRE, Instituto de Mudanças Climáticas, IMC, Serviços Ambientais, Incentivos para a sua conservação. SISA: dialogando com os Povos Indígenas. Rio Branco, 2013
BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil.
CAPPELLETTI, Mauro – BRYANT Garth, Acesso à Justiça. Sergio Antônio Fabris Editor. Porto Alegre, 1988.
KILL, Juta. REDD Early Movers (REM) no Acre, Brasil. World Rainforest Movement (WRM) - Movimentos Mundial pelas Florestas Tropicais, Montevideo, 2018. Disponível em https://www.fdcl.org/publication/2018-01-01-redd-early-movers/ Acessado em 19/06/2019.




[1] Fundado em 1948 como uma instituição pública, o KfW pertence hoje à República Federal da Alemanha (80%) e aos estados federados (20%). Com ativos totais de mais de 518 bilhões de euros (dados de novembro de 2012) é um dos três maiores bancos alemães. O KfW capta os recursos para suas atividades de fomento quase exclusivamente nos mercados de capitais internacionais. O grupo KfW está ativo tanto na Alemanha como internacionalmente. As atividades de fomentoda economia interna são divididas nos segmentos de negócios KfW Mittelstandsbank (KfW banco para PME), KfW Privatkundenbank (KfW banco de retalho), KfW Kommunalbank (KfW banco de municípios) e Kapitalmarktnahe Produkte (produtos voltados para o mercado de capitais). As atividades de financiamento internacionais abrangem a área de financiamento à exportação e project finance, que é da responsabilidade de subsidiária KfW IPEX-Bank, a área de negócios KfW Entwicklungsbank (KfW Banco de Desenvolvimento), e a DEG (Sociedade Alemã para Investimentos e Desenvolvimento, na sigla em alemão).

[2] Cimi é um órgão vinculado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil - CNBB.
Foi criado pela CNBB no ano de 1972 com o objetivo de lutar pelo direito à diversidade cultural dos povos indígenas, neste trabalho denominados de povos Originários. Busca fortalecer a autonomia destes povos na construção de projetos alternativos, pluriétnicos, populares e democráticos frente ao desrespeito a seus direitos e à tentativa de integração destes povos à sociedade majoritária.

[3] O Instituto de Mudanças Climáticas e Regulação de Serviços Ambientais – IMC é o órgão responsável por articular as políticas referentes à mitigação e adaptação aos impactos de mudanças climáticas, realizar periodicamente o inventário de emissões de gases de efeito estufa – IGEE e articular ações de gestão de riscos associadas aos incentivos aos serviços ambientais. Além disso compete ao IMC gerir o Sistema de Incentivo a Serviços Ambientais do Estado do Acre – SISA.



[1] Lindomar Dias Padilha é mestrando em Direito pelo Programa de Pós-Graduação em Direito, PPGD, pela Universidade Católica de Petrópolis - UCP
[2] Flávio Mirza é Pós Doutor em direito pela Universidade de Coimbra atualmente leciona na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, na qualidade de professor adjunto, na graduação, mestrado e doutorado em Direito e na Universidade Católica de Petrópolis, graduação e mestrado. É advogado criminalista.
[3] REM é um programa piloto por meio do qual o governo alemão destina recursos para estados que começaram antes que outros com a implementação do chamado REDD+ jurisdicional. É um programa baseado na suposta redução das emissões de carbono em toda a jurisdição estadual, como o estado do Acre. O programa piloto foi criado para promover financiamento aos governos que demonstraram interesse no mecanismo REDD+ assim que o debate sobre ele foi iniciado, de modo a recompensá-los pela “ação pioneira” e pela contribuição na forma que o REDD+ tomou nas negociações climáticas da ONU.
[4] A expressão “economia verde” substituiu o conceito de “ecodesenvolvimento” usado pelo canadense Maurice Strong, primeiro diretor-executivo do Pnuma e secretário-geral da Conferência de Estocolmo (1972) e da Rio-92.

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Movimento Nacional de Direitos Humanos coloca Bolsonaro em seu lugar

NOTA PÚBLICA DO MNDH
SOBRE DECLARAÇÕES DO PRESIDENTE DA REPÚBLICA 
EM ATAQUE AO PRESIDENTE DA OAB


O Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH) repudia com veemência as declarações do Presidente da República que atacaram ao presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), à sua família e às vítimas da ditadura civil-militar brasileira. 

As declarações manifestam completa falta de moralidade pública: tripudiam a dor alheia e re-vitimizam aqueles/as que foram atacados pela ditadura. Elas reforçam que a luta pelo direito à memória, à verdade e à justiça como direitos humanos é profundamente necessária e cada vez mais urgente, especialmente em razão da repercussão no cotidiano da garantia dos direitos humanos. Lembramos que, como já se pronunciou a Corte Interamericana de Direitos humanos, a privação do acesso à verdade dos fatos sobre o destino de um desaparecido constitui uma forma de tratamento cruel e desumano para os familiares e, em razão disso, uma grave violação aos direitos humanos.

O MNDH se solidariza com a família Santa Cruz, com a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e com todos/as que foram e continuam sendo vítimas da ditadura e dos ataques antidemocráticos dos setores que dela se beneficiaram e continuam se beneficiando. 

O MNDH cobra das autoridades a imediata apuração e a responsabilização do Presidente da República, visto não ser aceitável que a maior autoridade do país diga publicamente ter informações tão importantes sobre um desaparecido político, sem que as encaminhe às autoridades para que sejam devidamente processadas.


Brasília, 30 de julho de 2019.



Coordenação Nacional do MNDH

domingo, 7 de julho de 2019

O “BEM VIVER” COMO GARANTIA DE DIREITOS E ALTERNATIVA AO DESENVOLVIMENTISMO.


Lindomar Dias Padilha[1]


RESUMO:
Neste trabalho pretende-se apresentar o “Bem Viver” sempre em relação aos direitos da natureza, tendo o ser humano como parte desta evidenciando-se o Bem Viver como alternativa ao desenvolvimentismo. Os riscos e ameaças representados pelo modelo desenvolvimentista não só recaem sobre a natureza, mas recaindo sobre esta, recai sobre cada uma e cada um de nós. Assim, a perspectiva critica ao desenvolvimentismo é antes um chamamento para a defesa de direitos e da vida mesma de gerações futuras. Nossa crítica aos rumos, caminhos e descaminhos do desenvolvimentismo quer incentivar debates que visem a construção de uma sociedade mais justa pautada no respeito tendo o Bem Viver como apontando para outros mundos possíveis.

Introdução:

            Propor uma reflexão sobre o “Bem Viver”[1] como garantia de direitos e, ao mesmo tempo uma alternativa ao desenvolvimentismo, pensado o desenvolvimentismo conforme o modelo amplamente implementado na América Latina, não é muito fácil quando ainda se tem “Veias Abertas”[2] se pensarmos como Eduardo Galeano. Assim, a reflexão encontra amparo histórico mas, principalmente emergência para o futuro.
            Na primeira parte faremos uma pequena apresentação do tema do “desenvolvimentismo” como teoria econômica, que no caso da América Latina converte-se em economicismo com reflexos profundos na desigualdade social e na má distribuição de renda, bem como apresenta reflexos negativos na conquista e garantias de direitos, tanto Direitos da Natureza quanto direitos das populações tradicionais e povos originários. O desenvolvimentismo, nestas condições, converte-se em ameaça planetária.
            Na tentativa de apresentar possível alternativa ao modelo desenvolvimentista, na segunda parte falaremos do “Bem Viver” associando-o necessariamente aos Direitos da Natureza por considerarmos, seguindo os rastros de Alberto Acosta[3], que um não existe sem o outro. Embora Acosta se apresente aqui como nosso principal autor, temos, a bem da verdade, que dizer que o Bem Viver tem sido pensado em toda a América Latina por diversos pensadores e sob várias perspectiva. Cabe ainda mencionar que, como modo de vida, o Bem Viver é praticado praticamente por todos os povos originários. Aliás, o vínculo dos povos originários com o bem viver é tamanho que nesta parte diremos que o Bem Viver implicaria no reconhecimento dos direitos desses povos e comunidades tradicionais e, por isso mesmo, no reconhecimento de que a natureza é de fato sujeito de direitos e não mero objeto que se compra.
            Na terceira e última parte e já como considerações, falaremos e apontaremos o próprio Bem Viver para sinalizar que sim, existem outros mundos possíveis. A ideia, decorrente principalmente do pensamento de Acosta, é de que sempre estamos em processo, em construção destes mundos. Portanto, temos uma utopia que não nos diz onde devemos ou queremos chegar, mas uma utopia que nos faz mover em direção dessses mundos possíveis.
I.                   O desenvolvimentismo:

Neste tópico apresentaremos o conceito em construção de desenvolvimentismo proposto por Pedro Cezar Dutra Fonseca[4] para quem, a despeito de análise de outros economistas, pode ser entendido como “desenvolvimento”, “bem-estar”, “equilíbrio” e “valor”, o sentido pode alterar-se total ou parcialmente de acordo com a abordagem teórica. (FONSECA, 2015, p. 7). O que nos salta aos olhos no proposto, mesmo que em construção conceitual, é a adoção de ideias de “valor” empregada como “equilíbrio”. Para os economistas, então, o desenvolvimentismo seria em sim um valor e que guarda relação de equilíbrio.

Entretanto, preferimos assinalar que a ideia de bem-estar, por exemplo, poderia implicar em acúmulo necessário à construção deste sentimento. Algo como bem-estar resultante da ideia de desenvolvimento como superação do próprio subdesenvolvimento. Mais:

Desenvolvimentismo pertence à mesma família de termos como “ortodoxia”, “neoliberalismo” e “keynesianismo”, os quais servem para designar alternativamente duas coisas por certo indissociáveis, mas que não são exatamente o mesmo nem do ponto de vista epistemológico, nem na prática cotidiana: i) um fenômeno do “mundo material”, ou seja, um conjunto de práticas de política econômica4 propostas e/ou executadas pelos formuladores de políticas, isto é, fatos concretos ou medidas “reais” que compartilham um núcleo comum de atributos que os caracteriza como tal; e ii) um fenômeno do “mundo do pensamento”, ou seja, um conjunto de ideias que se propõe a expressar teorias, concepções ou visões de mundo. (FONSECA, 2015, p. 8).

            Nesta perspectiva o desenvolvimento guardaria estreita relação aos modelos econômicos propostos para designar uma escola de pensamento que tenderia mais ou menos, segundo o grau de conservadorismo, a um maior ou menor acúmulo e controle fiscal, de fluxo econômico seguindo a ideia de desenvolvimento como oposição ao subdesenvolvimento. Estados desenvolvidos tenderiam ao “equilíbrio” ao passo que os estados subdesenvolvidos estariam em constante “desequilíbrio”. A imprecisão conceitual da qual nos chama a atenção Fonseca, não pode, no entanto, inviabilizar por completo o uso do termo em outra esfera que não a econômica. Se os termos são usados é porque são úteis, (FONSECA, 2015, p. 9) já que tanto os economistas quanto o público, como é o caso de “desenvolvimentismo”, continuam a utilizá-lo, depreendendo-se que não conseguem prescindir dele. Mais que conceito, imaginemos que o desenvolvimentismo seja uma espécie vontade econômica. Daí a ideia de que seja um conceito impreciso e que carece de informações metodológicas e o lugar de seu emprego.
            O subdesenvolvimentismo[5] se for tomado como ponto de análise para o desenvolvimentismo aplica-se em relação aos ditos países do primeiro mundo e os de terceiro mundo. Neste caso, sinalizo a relação com a América Latina, que particularmente nos interessa aqui. (FONSECA, 2015, p.10) sinaliza ainda que o conceito foi utilizado indiretamente para designar um conjunto de atributos caracterizadores, em termos ideais, da política econômica de determinados governos empenhados na superação do subdesenvolvimento.
            Neste caso, fica mais próximo do que trato aqui com o nome de desenvolvimentismo uma teoria econômica que está mais centrada no crescimento econômico, baseado na industrialização e na infraestrutura, com forte intervenção do estado, em detrimento do desenvolvimento social. (SANTIAGO, 2015, p.1). Toda a ideia, ou intenção manifesta nos termos “valor”, “bem-estar” e “equilíbrio”, nada mais seria que bons conselhos. De fato, o que realmente conta é o chamado desenvolvimento econômico, ainda que em detrimento do desenvolvimento social em alguns casos. Mas FONSECA, em sua formulação faz ainda a seguinte observação:

A inquietude vem da dúvida expressa na questão: será que os governos latino-americanos comumente citados pela literatura como exemplos de desenvolvimentismo apresentam, total ou parcialmente, os atributos arrolados pelos autores anteriormente pesquisados em suas conceituações? Este exercício adicional facilita e dá mais segurança para, em passo posterior, chegar-se à abstração inerente a qualquer exercício de conceituação. Possui, ademais, a vantagem de superar a multiplicidade caótica da empiria sem, todavia, cair em uma definição axiomática exclusiva, unívoca e fechada a ela. (FONSECA, 2015 p. 14).

            É louvável e plenamente compreensível a dúvida e a necessidade de aclaramento conceitual, tanto mais que Fonseca analisa o que há de comum nas diversas conceituações. Por outro lado, há claramente a intenção de evitar que se caia em uma definição unívoca e fechada. De nossa parte, porém, optamos pela construção do conceito localizando-o na relação entre subdesenvolvimento e desenvolvimentismo, notadamente na América Latina. Se por um lado, conceitos mais fechados limitam, por outro, facilitam a externar o local de nossa fala. Não obstante nossa escolha, temos que registrar a preocupação com a honestidade intelectual frente ao que propõe extensamente Fonseca.
Mas, no nosso caso, é quase indissociável a ideia de industrialização dos países latinos americanos e isso tem especial importância ao analisarmos aspectos dos direitos da natureza e ao Bem Viver. Falamos talvez de visões inegociáveis e díspares que excluiriam uma a outra:

É o que ocorre com desenvolvimentismo. De um lado, o termo remete a uma racionalidade imediata quanto a fins: crescimento da produção e da produtividade. Tal faceta descortina seu caráter “técnico”, objeto de planejamento, quantificável em metas e taxas desejáveis a serem buscadas conscientemente, através de meios tidos como mais adequados – os instrumentos de política econômica. Já os valores se manifestam quando o desenvolvimentismo toma a forma de ideologia de construir um novo mundo 28 Brasília, julho de 2015 “melhor” ou “mais harmônico”. (FONSECA, 2015, p. 28).

            A tentativa de conciliação entre Desenvolvimentismo, como crescimento infinito e altas taxas de produtividade, nos parece ser o cerne do problema que aqui apresentamos. E por julgarmos o crescimento permanente com preservação ambiental dados irreconciliáveis é que o Bem Viver se apresenta como necessariamente vinculado aos direitos da natureza, tema que abordaremos a seguir.


II.                O Bem Viver e os direitos da natureza

Como dissemos anteriormente, o bem viver opõe-se francamente ao desenvolvimento permanente, ou como disse TURINO ao prefaciar ACOSTA:

Conforme Acosta nos demonstra, somente podemos entender o Bem Viver em oposição ao “viver melhor” ocidental (ou à dolce vita de alguns), que explora o máximo dos recursos disponíveis até exaurir as fontes básicas da vida. Assim, o Bem Viver tem um forte sentido presente, contrapondo-se à iniquidade própria do capitalismo, em que poucos vivem bem em detrimento da grande maioria. (TURINO, Célio. Prefácil in: ACOSTA, Alberto. O Bem Viver: uma oportunidade para imaginar outros mundos. Elefante Ed. 2015).

            Eis aí uma espécie de nascedouro do que estamos chamando de Direitos da Natureza. Ou seja, os direitos dos que “ainda não”, direitos do por vir. Direito a que o planeta siga nos proporcionando a vida. Em larga medida, então, podemos dizer que o direito da natureza completa ou adiciona direitos aos direitos humanos. Parece-nos obvio que, se a natureza que é quem nos dá gratuitamente os meios para dela extrairmos alimentos e vida, ao defendê-la e conferir-lhe direitos, em última instância é a nós mesmos que defendemos e defendemos o direito de gerações futuras. Então, de onde nos vem que a natureza precisa de leis e direitos que garanta sua reprodução? Não seria a própria natureza que se organizaria e prepararia uma espécie de “vingança”? Cremos que não.
O processo de destruição da natureza e a não garantia de direitos é antes uma atitude suicida e de gigantesca irresponsabilidade. Urge que mudemos de atitude e, para conter o ímpeto destrutivo do desenvolvimentismo, tornam se necessárias leis e o mínimo de garantia dos direitos da natureza. E não falamos da natureza apenas como geradora, senão como mantenedora da vida e único abrigo até aqui seguro.

O mundo precisa de mudanças profundas, radicais. Urge superar as visões simplistas que transformaram o economicismo em eixo da sociedade. Necessitamos outras formas de organização social e novas práticas políticas. Para obtê-las, é imprescindível despertar a criatividade e consolidar o compromisso com a vida, para não nos convertermos em meros aplicadores de procedimentos e receitas caducas. (ACOSTA, 2015, p. 20).

            Mudanças profundas e radicais que desfoquem o economicismo e, consequentemente, o desenvolvimentismo como eixo principal. Evidentemente não falamos em negação da economia ou ainda de um devaneio sobre um mundo de santas e santos. Falamos antes de medidas políticas que regulem novas práticas sociais. Interessante como buscar o melhor exige de nós mesmos, enquanto sociedade, normas e até punições. O que há de tão difícil em fazer aquilo que nos fará melhor? Mas não. Seguimos criando obstáculos ao Bem Viver e, assim, promovendo a vida boa de alguns. A velha ideia de que se acumulam os benefícios e repartem-se os danos. Aqui é questão de responsabilidade. Tanto mais, tanto maior a responsabilidade. Os que mais acumulam são os que devem contribuir com mais e isso só se dará por meio de exigências e formas de defesa dos direitos da natureza. Não há e não haverá caminho se não o caminharmos juntos.
                                               A natureza como sujeito, superando a velha ideia de tomarmo-la como mero objeto ou como propriedade, já nos aponta possibilidades. Se não dermos este passo na direção de que a natureza tem o direito de existir, persistir, manter e regenerar seus ciclos biológicos, e aqui não falamos em “serviços ambientais”, mas, em ciclos que corresponderiam às “funções naturais”, dificilmente teremos condição de sairmos deste suposto dilema em que nos encontramos.  Os direitos da natureza, compreendidos como o equilíbrio do que é bom para os seres humanos de hoje os que ainda virão com o que é bom para as outras espécies do planeta, é a chave para a busca desta superação.

O Bem Viver apresenta-se como uma oportunidade para construir coletivamente novas formas de vida. Não se trata simplesmente de um receituário materializado em alguns artigos constitucionais, como no caso do Equador e da Bolívia (...). O Bem Viver deve ser considerado parte de uma longa busca de alternativas de vida forjadas no calor das lutas populares, particularmente dos povos e nacionalidades indígenas. São ideias surgidas de grupos tradicionalmente marginalizados, excluídos, explorados e até mesmo dizimados. São propostas invisibilizadas por muito tempo, que agora convidam a romper radicalmente com conceitos assumidos como indiscutíveis. Estas visões pós-desenvolvimentistas superam as correntes heterodoxas, que na realidade miravam a “desenvolvimentos alternativos”, quando é cada vez mais necessário criar “alternativas de desenvolvimento”. É disso que se trata o Bem Viver. (ACOSTA, 2015, p. 70).

            A superação que se mostra implícita nos direitos da natureza, será a mesma superação das populações e grupos marginalizados historicamente. Por isso mesmo, o Bem Viver não pode ser entendido como meras ingenuidades ou alternativas da parte daqueles que são tidos como contrários e empecilho ao desenvolvimento. Isso representa uma mudança radical e dota-se de caráter civilizatório e libertador ao mesmo tempo. Notadamente as populações que mais preservam e vivem em harmonia com a natureza são as que, assim como a própria natureza, precisam ter seus direitos respeitados e o quanto antes. Garantia de direitos aos povos originários e comunidades tradicionais reveste-se em direitos da natureza e aponta para um futuro possível, ainda.
            Ao dizermos “ainda” nos aproximamos da ideia de Bem Viver como uma oportunidade. Trata-se, antes, de uma nova chance que estes povos e comunidades originários, bem como de sorte a própria natureza, nos concede por mais uma vez. Abraçar esta oportunidade é sinal de inteligência ou nas palavras de ACOSTA:

O Bem Viver – ou melhor, os bons conviveres – é uma oportunidade para construir um mundo diferente, que não será alcançado apenas com discursos estridentes, incoerentes com a prática. Outro mundo será possível se for pensado e erguido democraticamente, com os pés fincados nos Direitos Humanos e nos Direitos da Natureza. (ACOSTA, 2015, p. 21)

            Respeito aos Direitos Humanos e aos Direitos da Natureza combina perfeitamente com Democracia. O Bem Viver é, portanto, uma proposta a ser construída pelos caminhos da democracia e rumados para outros mundos possíveis ou pelo menos, um outro mundo sonhado mas também construído e já experimentado por diversos povos e culturas. Abrir-se para recepcionar e, ao mesmo tempo exigir que os direitos Humanos e da Natureza sejam garantidos e respeitados é o primeiro e talvez o passo mais importante rumo a uma democracia participante capaz de construir novas sociedades, novas pessoas e novos mundos.

III.             Considerações: Outros mundos possíveis

Outros mundos são possíveis se, e somente se, nos abrirmos e juntarmo-nos na efetiva construção destes mundos. Um ponto central é abrirmos mão em definitivo da ideia de crescimento infinito e superexploração da natureza e da mão de obra. ACOSTA vincula a superexploração e, claro, o crescimento, ao extrativismo.

A construção do Bem Viver, que é a meta que deve inspirar o pós-extrativismo, tem de ser assumida como uma alternativa ao desenvolvimento. Mais que isso, o Bem Viver não só critica como combate o desenvolvimento. Muitas das críticas às teorias e práticas do desenvolvimento – temos visto ao longo das últimas décadas – propuseram outros tipos de desenvolvimento que não questionam sua essência. Não se pode fazer uma crítica ao desenvolvimento sem cair em sua repetição. Polemizando com os argumentos e os conceitos próprios do desenvolvimento não se mudará os fundamentos que possibilitam sua existência. É indispensável retirar do desenvolvimento as condições e as razões que facilitaram sua difusão massiva e sua – inútil – perseguição por quase toda a Humanidade. (ACOSTA, 2015, p. 238).

            Interessante notarmos que, mesmo sendo construção e utopia de partida, o Bem Viver se mostra, às vexes, como meta, como uma seta a apontar a direção para onde devemos nos mover. Isso não significa que nos moveremos necessariamente nesta direção. A superação do extrativismo como primeiro impulso do desenvolvimentismo é, por assim dizer, a meta e será a partir daí que vislumbraremos outros mundos possíveis. Os passos a serem dados serão antecipados pela superação do modelo extrativista e, consequentemente, o modelo de desenvolvimentismo que imagina ser possível um desenvolvimento permanente e infinito baseado na exploração da natureza e do ser humano.

O Bem Viver aceita e apoia maneiras distintas de viver,
valorizando a diversidade cultural, a interculturalidade, a
plurinacionalidade e o pluralismo político. Diversidade que
não justifica nem tolera a destruição da Natureza, tampouco
a exploração dos seres humanos, nem a existência de grupos
privilegiados às custas do trabalho e sacrifício de outros. (ACOSTA, 2015, p. 240).

            Respeitar e valorizar outras culturas e formas de viver, desde que estas mesmas formas de viver respeitem e valorizem as demais formas e a natureza como tal. Interdependência e inter-relação talvez possam explicar melhor as bases de um debate democrático e uma real construção de alternativas. A plurinacionalidade se revela como um passo a mais nesse respeito e busca de uma democracia cada vez mais participativa. Neste sentido, o reconhecimento dos territórios e direitos dos povos originários passa a ser indispensáveis. Só haverão “mundos possíveis” se o Bem Viver for capaz de contribuir na garantia desses direitos.
            Direitos humanos, direitos da natureza e Bem Viver se constituirão no tripé da construção de um novo mundo. Não se pode admitir a existência de grupos privilegiados em detrimento de outros. Por isso mesmo, se dizem que não há salvação fora do desenvolvimentismo, afirmamos exatamente o contrário: não nos haverá salvação se seguirmos violando os direitos dos seres humanos e da natureza. Não haverá vida no desenvolvimentismo, a continuarmos trilhando este caminho de superexploração dos recursos.

            Na construção do “bem viver”, dois eixos são sumamente importantes: o “bem viver” para todos, quer dizer, o combate contra uma sociedade de classes e privilégios, e o “bem viver” para sempre, que é o “bem viver” com memória histórica, o bem viver não apenas dos sobreviventes e vencedores, mas o bem viver que dá voz e ouvido aos vencidos. Sem essa dimensão de resgate histórico e horizonte escatológico é impossível pensar o bem viver para sempre. Portanto, o bem viver tem uma dimensão que perpassa o tempo (diacronia), uma dimensão transhistórica, e uma dimensão contemporânea e simultânea (sincrónica), que enfoca o aqui e agora do indivíduo e da sociedade. O bem viver não é construído em Spá nem em estúdio de wellnes, mas num laboratório no qual se entrelaçam ação política e gratuidade. (SUESS, 2010, p. 1).

            Dar voz e ouvidos aos vencidos nos parece querer significar garantias de direitos a estes povos, comunidades e segmentos, como bem observa Paulo Suess. Mais que isso, reconhecer que sim, os vencidos historicamente são hoje nossa esperança. Esperança em outros mundos possíveis. Uma esperança propositiva, que se põe a caminho, que faz o enfrentamento e que dialoga. Uma esperança que reconhece os problemas e limites, mas que se propõe honestamente a buscar soluções.
            Resgatamos a história na medida que nos propomos a reconstruí-la, não com rancor apenas, mas com compromisso com o futuro e responsabilidade com a humanidade e com a natureza. Eis ai um bom inicio para encontrarmos outros mundos possíveis: sairmos de nosso comodismo e nos lançarmos nessa busca.



Referências
COSTA, Alberto. O Bem Viver: Uma oportunidade para imaginar outros mundos. São Paulo. Autonomia Literária e Editora Elefante, 2015.
Também disponível eletronicamente em: https://rosaluxspba.org/wp-content/uploads/2017/06/Bemviver.pdf
FONSECA, Pedro Cezar Dutra: Desenvolvimentismo: A Costrução do Conceito. IPEIA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplixada, Brasília 2015.

SUESS, Paulo. Elementos para a busca do Bem Viver (Sumak Kawsay) para todos e sempre. 2010.







[1] “Bom Viver” é a tradução que mais respeita o termo utilizado pelo autor (Buen Vivir) e também o termo em kíchwa (sumak kawsay), língua da qual nasceu o conceito em sua versão equatoriana. De acordo com o Shimiyukkamu Dicionario Kichwa-Español, publicado pela Casa de Cultura de Ecuador em 2007, sumak se traduz como hermoso, bello, bonito, precioso, primoroso, excelente; kawsay, como vida. Ou seja, buen e sumak são originalmente adjetivos, assim como “bom” – seu melhor sinônimo em português, no caso. Vivir e sumak, por sua vez, são sujeitos.

[2] Essa é uma das grandes obras clássicas da literatura latino-americana. Leitura imperdível para aqueles que gostam, querem ou precisam entender a História da América Latina.

As veias abertas da América Latina, de Eduardo Galeano, foi publicado pela primeira vez em 1970 e editado em praticamente todos os países do continente, vários países da Europa e nos EUA.
Na obra o autor propõe um inventário dos 500 anos da história do continente retratando as suas principais bases: a economia agrícola e mineradora dominada pelo mercado internacional, com o objetivo de gerar lucros para a potência dominadora; a pobreza social como resultado de um sistema econômico externo e excludente, que privilegia uma minoria financeiramente capaz de integrar-se aos padrões de consumo; a opressão de governos centralizadores contra as minorias, produzindo genocídios e o caos social; a exploração do trabalho e as péssimas condições de sobrevivência para a grande maioria de sua população.

[3] Alberto José Acosta Espinosa , economista e esquerdista político equatoriano , nascido em Quito em 21 de julho de 1948 . Acosta ao longo de sua carreira manteve um perfil intelectual de esquerda , simpatizando com o marxismo , o terceiro-mundismo e, mais recentemente, com o movimento antiglobalização e contra a mineração .
[4] Professor titular do Departamento de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS e pesquisador do CNPQ (Pedro.fonseca@ufrgs.br)
[5] O subdesenvolvimento é um termo elaborado após o término da Segunda Guerra Mundial para designar aqueles países que possuem um baixo índice de riquezas, uma economia enfraquecida, com ausência de fatores estruturais e sociais, além de altos registros de pobreza, concentração de renda e miséria. Os países subdesenvolvidos – também chamados de “em desenvolvimento” – correspondem àqueles territórios que, em maior ou menor grau, apresentam uma relação de dependência econômica e estrutural para com outros países.  (O que é o subdesenvolvimento. BrasilEscola.



[1]  Mestrando em Direito, pela Universidade Católica de Petrópolis – UCP, no programa Processo e Efetivação da Justiça.