sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Após a Operação do Exercito e Ibama na TI Alto Turiaçu - MA, o território indígena do povo Ka’apor fica vulnerável a agressão dos devastadores e grupos de indígenas prendem trabalhadores de madeireiros em aldeia

Há 10 dias da saída do Exercito e Ibama da região noroeste do Estado do Maranhão, especificamente da região de Zé Doca, o povo Ka’apor ficou mais vulnerável a ação dos agressores (madeireiros, fazendeiros, posseiros e caçadores). 

Os órgãos chegaram à região afirmando que vieram para “proteger” a floresta, a terra dos índios e retirar os agressores. Durante os dias que permaneceram na região fecharam serrarias, impuseram multas aos agressores que não conseguiram retirar seus maquinários e sair a tempo do interior do território. 

Porém, com a saída desses órgãos o que vem se constatando é que os indígenas ficaram mais expostos aos agressores; estão impossibilitados de sair de suas aldeias para cidade, passar por povoados e, até estão sofrendo discriminação na cidade por pessoas comuns e servidores públicos municipais quando procuram por serviços nestes órgãos. 

Segundo comerciantes, donos de serrarias, fazendeiros, prefeitos e outras pessoas, com a operação da “policia”, caiu muito o movimento nos comércios e mais pessoas estão desempregadas. Tal realidade mostra o (dês) governo federal, estadual e municipal com a ausência de políticas sociais sérias que respondam as necessidades da população local sem que venham ser aliciados para o trabalho com a exploração ilegal de madeira, cipós, aves, caças e, até de apropriação indevida de benefícios sociais (bolsa família, salário maternidade, aposentadoria) de indígenas na região. 

Com o descaso dos órgãos públicos, indígenas resolveram por conta própria realizar a proteção de sua terra em defesa da principal fonte de vida que é a floresta. 

No último final de semana, além de prenderam trabalhadores de serrarias também apreenderam motosserras e pequenos maquinários que estavam sendo utilizados para derrubar e transportar a madeira das duas terras indígenas da região (TI Awá e TI Alto Turiaçu) para serrarias em um povoado do município de Zé Doca. 

Após o retorno dos madeireiros para retirada ilegal de madeira, mais grupos de indígenas resolveram adentrar o interior do território para impedir que a floresta continue sendo destruída. Na madrugada do dia 07 para o dia 08/08/2013, mais um grupo de indígenas de uma aldeia localizada no município de Araguanã prenderam 04 trabalhadores de serrarias que derrubavam árvores que serviriam de estacas para cercas de fazendas. Os indígenas já comunicaram os órgãos fiscalizadores do meio ambiente que se encontram na região, mas até o presente momento não tiveram retorno. 

Segundo liderança indígena que coordenou a ação onde apreenderam equipamentos e pessoas, estão temendo uma reação dos madeireiros. A situação está tensa, outros grupos de indígenas estão se direcionando para o interior do território e os trabalhadores aprisionados continuam sob o poder dos indígenas na aldeia.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Frente Indígena impetra mandado de segurança para abolir da Câmara a PEC 215

Mandado de Segurança para impedir a criação de Comissão Especial para avaliar a Proposta de Emenda Constitucional (PEC 215/2000) e extinguir da deliberação da Câmara dos Deputados matéria que “leva em consideração não os interesses indígenas mas os interesses dos Estados-Membros” e  “interessados na exploração das terras indígenas” será protocolado  amanhã (8) no Supremo Tribunal Federal (STF).

A PEC 215, defendida amplamente pela bancada ruralista, transfere do Executivo para o Legislativo a prerrogativa da decisão final sobre o direito dos povos indígenas às terras que tradicionalmente ocupam, medida considerada inconstitucional pelos autores do Mandado de Segurança.    

A iniciativa da ação judicial é das Frentes Parlamentares de Apoio aos Povos Indígenas e Direitos Humanos, que tem travado embate no Congresso Nacional, particularmente na Câmara, para impedir que retrocessos aos direitos indígenas consagrados pelo Constituinte originário em 1988 sejam consumados.

“Nossa iniciativa tem por objetivo precaver da possibilidade cada vez mais insurgente do parlamento deliberar por uma alteração constitucional que terá como consequência a subordinação dos interesses indígenas aos interesses de grupos econômicos,  interesses da política dos Estados da Federação, o que contraria frontalmente a Constituição. A literatura jurídica produzida não deixa margem à dúvidas: o artigo 231 é intocável, uma conquista que corrige omissão histórica do Brasil em relação aos primeiros habitantes”, declara o deputado federal Padre Ton  (PT-RO), coordenador da Frente Parlamentar de Apoio aos Povos Indígenas.

O Mandado de Segurança está fundamentado no entendimento, consagrado inclusive por ministros do STF, de que o artigo 231 (capítulo Dos Índios) e todos os seus parágrafos estão protegidos pela imutabilidade das clausulas pétreas porque visam resguardar, na ordem constitucional vigente e na forma como foi estruturada, a dignidade humana e a própria existência da população indígena no Brasil. 
   
O instrumento da medida por parte de legisladores no STF, segundo Padre Ton,  encontra sustentação na própria instituição, que promove a negativa da ação somente quando se trata de questão interna corporis, o que não é ocaso. “O que está posto é a possibilidade enorme de afronta à ordem e à estabilidade de direitos e garantias individuais assegurados na Carta Magna”, diz Padre Ton.  

Serviço:

Protocolo no STF de ação em Mandado de Segurança

Data:  8 de agosto de 2013

Horário: 11 h

Presença: Parlamentares Frente Indígena e de Direitos Humanos com CIMI e APIB  

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Alternativas de capital e capital de créditos de carbono levado ao Supremo Tribunal pela Autoridade de Conduta Financeira

Por Chris Lang
A Autoridade Reino Unido Conduta Financeira tomou Alternativas de Capitais e várias outras empresas para o Supremo Tribunal, acusando-os de "promover e / ou operar esquemas de investimento colectivo (CISs) no Reino Unido ilegalmente e sem a nossa autorização".
Em seu website , Alternativas Capitais afirma ser "principais promotores do Reino Unido alternativas de investimento", oferecendo diversos produtos para venda, incluindo o óleo de palma, trigo australiano, reflorestamento australiano, ouro, prata e platina, recordações, e vinho. A ação judicial tomada pelaAutoridade de Conduta Financeira concentra-se em dois esquemas de investimento :
  • Terra africano (também conhecido como Agri Capital), que oferece investimentos em colheitas agrícolas de arroz em Serra Leoa, e é operado pela Africano terra limitada.
  • Projetos de reflorestamento (também conhecida como a capital de Créditos de Carbono), que oferece investimentos em créditos de carbono gerados a partir de terra em Serra Leoa, Brasil e Austrália. Ele é operado por projetos de reflorestamento Limited.
O julgamento está a ter lugar no Outono de 2013. Nesse meio tempo, os ativos das empresas foram congelados. Se o tribunal decidir que os planos de investimento foram executados ilegalmente, pode encomendar as empresas a pagar uma indemnização aos investidores. A Autoridade de Conduta Financeira porém ressalta que,
você deve estar ciente de que, mesmo que o tribunal concede uma ordem para os investidores a ser compensado, temos encontrado em casos semelhantes, que os réus geralmente não têm recursos ou fundos suficientes para pagar o valor total solicitado.
Capitais Créditos de Carbono foi fundada em dezembro de 2010. No mês seguinte, um novo diretor ingressou na empresa, que se chama Mark Eyres. Em março de 2013, o jornalista investigativo Andrew Penman no The Mirror olhou para Capital Créditos de Carbono, sob a manchete "Danger: investimento verde de Capitais Créditos de Carbono". Penman descobriu que enquanto Eyres tem um fundo interessante, tem pouco a ver com o comércio de carbono, a conservação da floresta ou a mudança climática.
http://www.redd-monitor.org/wordpress/wp-content/uploads/2013/08/ayres.pngEyres não é o seu nome real. Mark Andrew Heaver ingressou na polícia depois de deixar a escola, mas durou apenas 18 meses . No início de 1990, ele trabalhou como chefe de segurança. Em 1995, ele foi condenado a 13 anos para pagar pistoleiros para matar Michael Donovan, gerente de boxe em Liverpool. O juiz descreveu o crime como de "extrema gravidade".
Depois de sete anos, Heaver foi libertado da prisão. Ele mudou seu nome para Mark Ayres e em 2005 criou uma empresa chamada ITA Escorts no exterior. Trabalho principal da gestão de uma empresa envolvida £ 8.000.000 contrato do Ministério do Interior para "remover e deportar solicitantes de asilo rejeitados e os imigrantes ilegais provenientes do Reino Unido". Ayres CV incluído histórias inventadas sobre alcançando a patente de major depois de servir com a Royal Marines eo Special Boat Service. Quando ITA Escorts Overseas entrou em liquidação, a empresa pagou apenas £ 370 de uma dívida fiscal de £ 427.000, de acordo com o Serviço de Insolvência. Em novembro de 2010, ele foi proibido de ser um diretor da empresa durante seis meses.
Ayres mudou seu nome para Eyres e tornou-se diretor de Capitais Créditos de Carbono em janeiro de 2011. Ele disse Penman ele não tinha idéia de que ele tinha sido proibido de ser um diretor da empresa e foi um erro administrativo que seu nome apareceu como "Eyres". Capitais Créditos de Carbono mudou seu nome para projetos de reflorestamento Limited, em fevereiro de 2013.
Eyres também foi diretor de outra empresa chamada Climate Care Investments Limited . Eyres dissePenman que seu papel era o de garantir que o projeto Carbon Capital "créditos de compensação de carbono tem BBB.
Capitais Créditos de Carbono alegou ter 50 mil hectares de floresta que fazem fronteira com a Floresta de Gola em Serra Leoa:
A Floresta de Gola é a maior área de floresta tropical copa várzea fechado permanecendo em Serra Leoa. Como resultado, é uma região em que a geração de chave de crédito de carbono é provável.
Uma empresa chamada Climate Care global foi "parceiro BBB" capital "Créditos de Carbono. Mark Gibbs, diretor da Climate Care Global também foi diretor de projetos de reflorestamento limitada (como capital de Créditos de Carbono é chamado agora). Site da Climate Care global já não existe, mas Capitais Créditos de Carbono inventou uma história sobre a empresa ser um "desenvolvedor líder do projeto":
Clima Global Care é uma das empresas líderes do setor de projetos em sourcing e desenvolvimento de Redução Certificada de Emissão (RCE) projetos por meio do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) aplicado a projetos de redução de emissões em países em desenvolvimento que proporcionam reduções de emissões reais e mensuráveis.
A empresa site explica que a empresa estava oferecendo uma série de parcelas de um hectare de terra para venda com sub-arrendamento por 45 anos. "Uma vez que 80% da área total arrendada foi sub-alugada, as parcelas individuais serão legalmente registrada, o que não tem impacto sobre a concessão dos créditos de carbono." Dificilmente reconfortante, não é?

Crédito da foto: Marcos Ayres dando uma palestra para funcionários da Capital Créditos de Carbono.

Tradutor de Texto Google

Original em inglês:

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Meu Velho Pai - Minha homenagem ao meu pai já falecido, mas, vivo em minha vida

PORQUE EU SEMPRE TE AMAREI, PAPAI !!!

Estarei em viagem a partir de amanhã e, como vou para as aldeias indígenas, dificilmente conseguirei atualizar o blog. Portanto, aproveito para desejar tudo de bom para todos os pais e deixar minha homenagem ao meu pai CLARINDO DIAS PADILHA, já falecido mas que deixou o que me é mais importante: a dignidade e a intransigência na defesa dos direitos e igualdades. Valeu papai!

Convenção 169 e a regulamentação da consulta prévia

O Conselho Indigenista Missionário (Cimi), assim como outras organizações indigenistas, decidiu não participar da "Oficina com a Sociedade Civil sobre o processo de regulamentação da Consulta Prévia - Convenção 169 da OIT", promovida pela Secretaria Geral da Presidência da República, em Brasília (DF), nessa semana.

A Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) é uma conquista histórica e fruto das lutas travadas pelos povos originários e tradicionais em defesa de suas terras. Desse modo, é de fundamental importância assegurar a aplicação deste instrumento internacional, pois a Convenção 169 pode significar uma nova forma de relação entre o Estado e os povos originários e tradicionais.

Justamente por essa razão a discussão deve ter um caráter que assegure de fato a emergente possibilidade, e não tratada como mera formalidade ou forma de melhorar a imagem do país no mundo. Por enquanto, a opção governamental é pela formalidade, para a decepção de todos e todas envolvidos – seja para quem está acima, como para quem está abaixo da rampa do Palácio do Planalto. A análise do movimento indígena é de que o governo federal precisa sinalizar com o interesse de conduzir de forma efetiva essa nova relação entre Estado e comunidades tradicionais.

Infelizmente a maneira como a regulamentação vem sendo conduzida apura a linguagem ideológica colonialista, aprofundando na democracia os instrumentos de dominação racial; o sistema de eticidade ‘branco’ determina regras que visam salvaguardar direitos de comunidades indígenas, quilombolas. Justo e necessário, portanto, é o posicionamento da Articulação dos Povos Indígenas Brasileiros (Apib) em não prosseguir com o diálogo pela regulamentação enquanto o governo não revogar a Portaria 303 da AGU.  

É de conhecimento público que tal portaria se contrapõe e ofende a Convenção 169 quando permite a entrada de grandes empreendimentos em terras indígenas sem nenhuma consulta às comunidades que nelas habitam. Não é aceitável lançar regulamentação de tal importância na arena de ferinas contradições, estimulando a autofagia jurídica. Infelizmente tratamos de medidas e conteúdos inconciliáveis e o governo deverá, de uma vez por todas, fazer uma opção política cristalina, sem tergiversações.     

Na última semana, nos deparamos com a notícia de que os ministros da Justiça, José Eduardo Cardozo, e da AGU, Luiz Inácio Adams, orientaram a bancada ruralista a elaborar o PLP 227. Causa estranhamento que tal projeto contenha em si termos presentes na Portaria 303 como marco regulador para definir, na Constituição, em seu artigo 231, o que é exceção para o usufruto exclusivo das terras tradicionais. Permeado por essas ‘coincidências’, com figuras como Adams figurando em quase todas elas, o governo segue errando em tentativas de conciliações de classe, achando que pode com o pensamento ideológico colonial fazer o Bom Governo para as comunidades indígenas, quilombolas e tradicionais.     

Tal caminho torna-se ainda mais acidentado pela decisão em alterar o procedimento de demarcação de terras indígenas, ressaltado pela presidente Dilma Rousseff em encontro com lideranças no último dia 11 de julho. Não há razoabilidade e tampouco garantia do cumprimento dos verdadeiros efeitos da Convenção 169 no processo de regulamentação tocado pelo governo. Experiências como a construção de usinas hidrelétricas nos rios Xingu, Teles Pires e Tapajós, no Pará, reforçam ainda mais a análise exposta.   

Não é por falta de aviso e postura política dos movimentos indígena e indigenista que as partes se vêem em tal contenda. Na carta final do IX Acampamento Terra Livre dos Povos Indígenas, ocorrido entre 15 e 23 de julho de 2012, durante a Cúpula dos Povos, no Rio de Janeiro, os povos expuseram o que pensavam sobre a regulamentação da Convenção 169. Segue:     

“Exigimos a garantia do direito à consulta e consentimento livre, prévio e informado, de cada povo indígena, em respeito à Convenção 169 da OIT – Organização Internacional do Trabalho, de acordo com a especificidade de cada povo, seguindo rigorosamente os princípios da boa-fé e do caráter vinculante desta convenção. Precisamos que seja respeitado e fortalecido o tecido institucional de cada um de nossos povos, para dispor de mecanismos próprios de deliberação e representação capazes de participar do processo de consultas com a frente estatal”.

A Seca e as indústrias sedentas


A concentração de bens, especialmente de bens comuns, é a maior prova de nosso subdesenvolvimento moral.

sábado, 3 de agosto de 2013

O Acre, o seu povo e uma verdadeira economia sustentável

*Jorge Natal

Quando o espanhol Luiz Galvez aportou por estas paragens, despertou-se nos acreanos um sentimento de altivez e um espírito libertário que contribuíram muito para a formação da identidade do nosso povo e do nosso Estado. Em querer criar uma nação independente, sabia ele que as nossas terras eram boas, tínhamos gente trabalhadora e uma posição estratégica na geografia político-econômica do mundo.
Alguns tempo depois, isso pôde ser confirmado: nossa região já havia sido incorporada pelo Brasil. Sendo “o filho mais novo”, já enchemos a nossa pátria de orgulho. No início do século passado, a extração do látex gerou muitas divisas para o Brasil. A borracha chegou a ser o segundo produto mais exportado do país, ficando atrás apenas do café.
É se a cultura cafeeira gerou a sua aristocracia nós, os borracheiros, também formamos a nossa.  O renomado historiador Leandro Tocantins conta, em seu livro Formação Histórica e Econômica do Acre, que os barões da borracha ganhavam tanto, mas tanto dinheiro, que acendiam charutos com notas de 100 contos de réis.
Mesmo com a desleal concorrente borracha asiática e o descaso/ingratidão do governo federal, a nossa produção gomífera continuou sendo a principal atividade extrativista da região. A deflagração da Segunda Guerra Mundial e o conseqüente retorno da produção em alta escala provaria o que Galvez já havia preconizado: o Acre era viável.
Se a história não se repete, não como farsa ou tragédia, como bem disse o pensador alemão Karl Marx, aconteceu a segundo imigração de nordestinos para a nossa região, desta feita em maior contingente. Os nordestinos que vieram para o Acre, chamados arigós, travaram e venceram a batalhada da borracha. Porém, a mentira do governo federal logo veio à baila. Prometeu-se que os valorosos combatentes ficariam ricos e retornaria para o sertão. Isso jamais foi cumprido. Ocorreu o contrário. Eles foram abandonados à própria sorte na selva. O beribéri, a malária, os animais silvestres e a melancolia dizimaram milhares deles, constituindo o que podemos chamar de hecatombe social.
Dissabores e adversidades à parte, formamos um povo e um território. Os ideais de autonomia, no entanto, nunca saíram do imaginário coletivo dos acreanos e, em 1962, transformamo-nos em um ente federativo, remontam-se, daquela época, também, as políticas do governador Guiomard Santos, que ousou investir na agricultura e pecuária, na tentativa de criar alternativas para substituir a então combalida produção extrativista.
Década de 70
“O Acre é um sul sem geada, um nordeste sem seca”. Com este apelo, o jornalista Amaral Neto promovia, na imprensa nacional, uma série de anúncios convidando os empresários da área do agronegócio a se instalar no Acre. Não agia só. Amaral era um aplicado garoto-propaganda bancado pelo governo do Estado do Acre, que na época era administrado por Francisco Wanderlei Dantas, professor oriundo de uma família de abastados seringalistas, interessados em transformar as terras acreanas num celeiro de grãos e num pasto de boi que geraria uma carne tipo exportação.
A propaganda de Amaral Neto funcionou. Durante o governo de Francisco Wanderlei Dantas (1971 a 1974), o Acre foi loteado por fazendeiros oriundos de vários estados brasileiros. Enormes faixas de terras eram adquiridas a preços correspondentes a uma palma de banana. A fertilidade, a abundância e o preço ínfimo de terras atraíram ao Acre centenas, em alguns momentos milhares de fazendeiros e outros empresários ligados ao agronegócio. Oriundo de diversos estados da federação, no Acre logo receberam o apodo de “paulistas”, numa clara alusão ao contraste entre os recém-chegados e a população nativa.
A produção pecuarista, que nunca ultrapassou 5% de arrecadação para o Estado, ainda gerou conflitos entre os fazendeiros e a população cabocla. Os novos donos das terras acreanas, com o apoio dos governos federal e estadual, pretendiam promover a limpeza das florestas, com a derrubada de homens e da mata, para a transformação do solo em área de pastagens. Começava ali a substituição da floresta pelo capim e do homem pelo boi. E o extrativismo, notadamente a borracha e a castanha, mesmo desprezado pelo poder público e concorrência desleal do agronegócio, continuou sendo a principal fonte de arrecadação do estado.
Válvula de escape
Para conter os problemas socioeconômicos causados no campo e na cidade, ao mesmo tempo em que criava uma alternativa econômica para o estado, o governo subseqüente, o de Geraldo Gurgel Mesquita, implantou os Núcleos de Apoio Rurais Integrados, os Nari´s. Foi a primeira e única política agrícola arrojada implantada no Acre desde a sua constituição.
A abertura política no final da década de 70 e redemocratização das instituições nos anos seguintes foram, para a nossa gente, a esperança de dias melhores. Os acreanos esperavam mudanças estruturais, mas elas não vieram. Do governo de Nabor Júnior ao de Orleir Cameli, como disse o poeta, nada de novo surgiu nos rugir das tempestades.
 O governo petista
Capitaneada pelo PT, que projetou ficar no poder por 20 anos, a Frente Popular já está no quarto mandato. A sua longevidade acontece por vários fatores. Comecemos ao analisar como ela chegou ao governo do Estado. Fora as habilidades individuais do principal líder, o então candidato a governador Jorge Viana, o grupo se aproveitou da seguinte conjuntura favorável: os desgovernos de seus antecessores e a apropriação de um discurso político-ideológico, que encontrou ressonância na sociedade.
No exercício do cargo, Jorge Viana se desvencilhou de aliados incômodos [“os problemáticos”], formou alianças com políticos e empresários inescrupulosos e controlou/cooptou os partido, inclusive o PT. Ele também amordaçou a imprensa e perseguiu os seus profissionais, investindo maciçamente em propaganda para promover a sua imagem. Tudo isso com as condescendências de membros do Ministério Público Estadual (MPE) e Poder Judiciário.
Se o ex-governador institucionalizou novamente o estado, o fez para servir aos seus próprios interesses, criando um regime autoritário jamais visto. Senão, vejamos: instituiu insígnias; criou e articularam uma rede de agentes políticos em todos os seguimentos socais; traficou influência; grampeou adversários; uso o aparato do Estado para perseguir quem não submetia aos seus ditames, lavou dinheiro de corrupção; enriqueceu ilicitamente, perseguiu o funcionalismo público. Em síntese, implantou o “estado do medo”, no qual quem não se enquadrasse era acusado de não gostar do Acre, numa alusão ao ufanista Ame-o ou Deixe-o, de triste memória, legada pelo Regime Militar.
Culto à personalidade
Não obstante à lavagem de dinheiro operada pelas agências de publicidade, toda a propaganda do governo de Jorge Viana era para cultuar a sua imagem e difundir um engodo que responde pela alcunha de florestania. Apropriado indevidamente, o termo é uma metáfora alusiva à história bonita do povo acreano, que começou com os nossos ancestrais povos indígenas, passando pelos revolucionários nordestinos, e terminando com resistência dos seringueiros (empates) nas décadas de 70 e 80.
A tal florestania sentenciou os acreanos a quase duas décadas de atraso econômico e social. A chamada economia sustentável, principalmente o extrativismo nas reservas, impediu as populações tradicionais de melhorar de vida, obrigando-as a viver de programas sociais como o Bolsa Família e o Bolsa Verde , dentre outros. Sem escolas e assistência em saúde de qualidade, todo o futuro de uma geração ficou comprometido.
Enquanto o Imac e o Ibama davam autorização aos poderosos, os pequenos produtores rurais eram perseguidos com multas confiscatórias. Portanto, além de ser um retumbante fracasso enquanto alternativa econômica, incapaz de gerar riquezas e distribuí-las, aflorestania só beneficiou os grandes proprietários. Que o digam os pecuaristas e madeireiros.
Enquanto isso, nas cidades, a miséria e a violência campeiam. De acordo com recentes estatísticas do IBGE, quase 135 mil pessoas vivem abaixo da linha de pobreza. Em recente pesquisa sobre IDH do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), dois municípios acreanos estão entre os piores para se viver. Sem emprego e sem perspectivas, a juventude está sendo tragada pelo consumo e tráfico de drogas. Não é por acaso que temos, proporcionalmente, a maior e mais jovem população carcerária do país.
 Enquanto o abismo entre ricos e pobres aumenta, o grupo do PT, aliado a uma elite predatória, desvia tanto dinheiro que criou uma casta de novos milionários. Para se ter uma idéia apenas na construção da BR 364, já existe uma condenação na Justiça Federal e sete inquérito sendo investigados pelos órgãos de controle e Polícia Federal.
A agricultura como alternativa
Quando o caçador-coletor homem da caverna enterrou algumas sementes, a humanidade, dali em diante, passaria a conviver com a agricultura. Assim, milênio após milênio, passou a fazer parte da história do homem. Das antigas civilizações, passando pela a Idade Média, Moderna e Contemporânea, o setor primário sempre foi vanguardista. Nenhum povo ou nação atingiu etapas de desenvolvimento sem investir maciçamente neste setor.
O Brasil, mesmo fazendo parte do Novo Mundo, tem parte considerável de seu PIB oriundo do agronegócio. De dimensões continentais, o nosso território tem as condições naturais para se tornar a maior potência mundial na produção e exportação de alimentos. Esse caminho é quase inevitável e já pode ser percebido na expansão das nossas fronteiras agrícolas.
O Acre, por sinal, é o único estado da federação que ainda não entendeu o quanto esse setor é estratégico. Saímos do combalido extrativismo para o nada. O saudoso economista e escritor, Celso Furtado, defendia que a agricultura chegasse aos rincões para desenvolvê-los de forma exógena (de fora para dentro), ou seja, do interior para os grandes centros urbanos.
Assim dizia o velho mestre: “Se tivermos uma grande produção agrícola, nos alimentaremos melhor e o excedente vai para a exportação”. Óbvio que Furtado formulou uma bem definida cadeia produtiva, chamando-a de autodesenvolvimento ou agroindustrialização.
Concomitantemente, podemos investir naquilo que temos em abundância.  O Vale do Silício, na costa oeste americana, desenvolve-se no meio do deserto. Eles montaram um parque industrial para empresas de tecnologia no meio do nada. Estamos em uma das regiões de maior biodiversidade de planeta. Podemos criar o “Vale Bio”, onde empresas das ramos de fármacos e cosméticos possam se instalar.
*Jorge Natal é jornalista e atua atualmente no município de Cruzeiro do Sul