segunda-feira, 17 de junho de 2013

Mato Grosso do Sul: assassinatos, prisões e impunidade. Por Egon Heck

"Isso já passou de todos os limites", exclama Otoniel Kaiowá Guarani, ao ser informado do assassinato de mais um parente.

A polícia se apressa em ir ao local para esclarecer (ou não) mais essa morte de indígena no Mato Grosso do Sul. E para evitar animosidade, já vai adiantando que provavelmente a morte não tenha nada a ver com o conflito de terras indígenas na região. Enquanto Celso Figueiredo vai sendo velado, com prantos indignados, em Dourados cinco Kaiowá Guarani são presos, inclusive a professora Efigenia, grávida. As lideranças são da terra indígena Panambi - Lagoa Rica, aldeia Ytaí, município de Douradina.

Nada disso é novidade no Estado mais anti-indígena do país. Enquanto, o Guarani Celso, assassinado por pistoleiros, está sendo velado, na terra indígena Paraguasu, no município de Paranhos, fronteira com o Paraguai, uma delegação Kaiowá Guarani e Terena, se encontram com vários ministros e parlamentares, para repetir mais uma vez o que foi denunciado milhares de vezes nas últimas décadas: demarquem nossas terras, parem de nos matar, punam os assassinos confessos e reconhecidos.

Porém, os Estado brasileiro e do Mato Grosso do Sul, fazem a leitura ao avesso: matam e prendem os índios. Isso tem seu preço. O Brasil e o mundo não aguentam mais esse genocídio. Os povos indígenas não podem continuar sendo sacrificados no altar do progresso.

Enquanto isso, roncam os tratores e as vozes estridentes de Katia Abreu e outros lideres do agronegócio em todo o país. Talvez estejam temerosos de que o Relatório Figueiredo e as CPIs de 1953 e 1963 façam vir à luz as maracutaias que se faziam, apossando-se as elites do então estado do Mato Grosso, das terras indígenas. Não é por nada que não se realiza um levantamento sério e aprofundado das cadeias dominiais e da estrutura fundiária.

Rodas de diálogo

Enquanto nos gabinetes e corredores vai sendo costurado um novo modelo de identificação e regularização das terras indígenas, com mais interlocutores na mesa, vão sendo constituídos rodadas de negociação e esclarecimentos entre vários ministérios e lideranças indígenas Kaiowá Guarani e Terena. Também a Comissão Especial formada pelo Conselho Nacional de Justiça - CNJ, voltou a se reunir, para ajudar a encontrar saídas para a grave situação das terras indígenas no MS, que tem ocasionado um gravíssimo cenário de assassinatos, feridos, prisões e ameaças.

Conforme Lindomar Terena, apesar de não ter nenhuma ilusão de que seja fácil ou rápida a solução do reconhecimento e demarcação das terras indígenas no Mato Grosso do Sul, acredita que é importante manter os espaços de diálogo e a visita das autoridades à região para ver e sentir no local as dramáticas realidades das comunidades e povos indígenas desta região. Para o mês que vem várias visitas de comissões e ministérios estão previstas. Quem sabe em alguma coisa se avance.

Conforme relato dos membros da Aty Guasu, de 1988 a 2012 mais de mil suicídios aconteceram entre os Kaiowá e Guarani, o que evidencia o grau de desespero e descrença na solução dos problemas, principalmente da terra. “Nos últimos dez anos, mais de 300 indígenas do nosso povo foram assassinados. Relatamos que no Mato Grosso do Sul, existem propagação permanente de racismo, discriminação e ódio contra os indígenas tanto pela mídia local quanto pela manifestação pública dos fazendeiros anti-indígenas e autoridades locais. O genocídio dos povos indígenas do MS em curso foi e é alimentado pelos fazendeiros anti-indígenas. Centenas de lideranças foram assassinadas por pistoleiros das fazendas. Os assassinos das lideranças indígenas não são punidos no MS, a impunidade alimenta as violências contras os indígenas do MS. Destacamos na reunião que nós indígenas do Mato Grosso do Sul sofremos violências tanto pelos pistoleiros dos fazendeiros quanto pela decisão da Justiça Federal, que nenhuma decisão da justiça não considera os nossos direitos, todas as decisões foram favoráveis aos fazendeiros, ignorando os nossos direitos" (Comissão das lideranças da assembleia geral Aty Guasu Guarani-Kaiowá e Terena. Brasília-DF, 12 de junho de 2013).

Mais uma semana de muita conversa, reuniões e manifestações dos povos indígenas em Brasília. Foram acionadas as válvulas de escape da panela de pressão. Os povos indígenas do Xingu, Tapajós e Teles Pires retornaram a suas aldeias, depois de mais de uma semana aguentando o frio do planalto central. Deram o recado. Voltaram de cabeça erguida, certos de que a luta apenas começou.

Os Kaiowá Guarani e Terena tiveram mais uma rodada das eternas conversações, nesse jogo de faz de conta.

Por Egon Heck

domingo, 16 de junho de 2013

Índios, os estrangeiros nativos.

Por ELIANE BRUM

A volta dos indígenas à pauta do país tem gerado discursos bastante reveladores sobre a impossibilidade de escutá-los como parte do Brasil que têm algo a dizer não só sobre o seu lugar, mas também sobre si. Os indígenas parecem ser, para uma parcela das elites, da população e do governo, algo que poderíamos chamar de “estrangeiros nativos”. É um curioso caso de xenofobia, no qual aqueles que aqui estavam são vistos como os de fora. Como “os outros”, a quem se dedica enorme desconfiança. No processo histórico de estrangeirização da população originária, os indígenas foram escravizados, catequizados, expulsos, em alguns casos dizimados. Por ainda assim permanecerem, são considerados entraves a um suposto desenvolvimento. A muito custo foram reconhecidos como detentores de direitos, e nisso a Constituição de 1988 foi um marco, mas ainda hoje parecem ser aqueles com quem a sociedade não índia tem uma dívida que lhe custa reconhecer e que, para alguns setores – e não apenas os ruralistas –, seria melhor dar calote. Para que os de dentro continuem fora é preciso mantê-los fora no discurso. É isso que também temos testemunhado nas últimas semanas. Entre os exemplos mais explícitos está a tese de que não falam por si. Aos estrangeiros é negada a posse de uma voz, já que não podem ser reconhecidos como parte. Sempre que os indígenas saem das fronteiras, tanto as físicas quanto as simbólicas, impostas para que continuem fora, ainda que dentro, é reeditada a versão de que são “massas de manobra” das ONGs. Vale a pena olhar com mais atenção para essa versão narrativa, que está sempre presente, mas que em momentos de acirramento dos conflitos ganha força. Desta vez, a entrada dos indígenas no noticiário se deu por dois episódios: a morte do terena Oziel Gabriel, durante uma operação da Polícia Federal em Mato Grosso do Sul, e a paralisação das obras de Belo Monte, no Pará, pela ocupação do canteiro pelos mundurucus. O terena Oziel Gabriel, 35 anos, morreu com um tiro na barriga durante o cumprimento de uma ordem de reintegração de posse em favor do fazendeiro e ex-deputado pelo PSDB Ricardo Bacha, sobre uma terra reconhecida como sendo território indígena desde 1993. Pela lógica do discurso de que seriam manipulados pelas ONGs, Oziel e seu grupo, se pensassem e agissem segundo suas próprias convicções, não estariam reivindicando o direito assegurado constitucionalmente de viver na sua área original. Tampouco estariam ali porque a alternativa à luta pela terra seria virar mão de obra barata ou semiescrava nas fazendas da região, ou virar favelados nas periferias das cidades. Não. Os indígenas só seriam genuinamente indígenas se aceitassem pacífica e silenciosamente o gradual desaparecimento de seu povo, sem perturbar o país com seus insistentes pedidos para que a Constituição seja cumprida. Aí já há uma pista para o que alguns setores da sociedade brasileira entendem como identidade “verdadeira”: ser índio seria, quando não desaparecer, ao menos silenciar. No caso dos mundurucus, questionou-se exaustivamente a legitimidade de sua presença no canteiro de obras da hidrelétrica de Belo Monte, por estarem “a 800 quilômetros de sua terra”. De novo, os indígenas estariam extrapolando fronteiras não escritas. Os mundurucus estavam ali porque suas terras poderão ser afetadas por outras 14 hidrelétricas, desta vez na Bacia do Tapajós, e pelo menos uma delas, São Luiz do Tapajós, deverá estar no leilão de energia previsto para o início de 2014. Se não conseguirem se fazer ouvir agora, eles sabem que acontecerá com eles o mesmo que acabou de acontecer com os povos do Xingu. Serão vítimas de um outro discurso muito em voga, o da obra consumada. A trajetória de Belo Monte mostrou que a estratégia é tocar a obra, mesmo sem o cumprimento das condicionantes socioambientais, mesmo sem a devida escuta dos indígenas, mesmo com os conhecidos atropelamentos do processo dentro e fora do governo, até que a usina esteja tão adiantada, já tenha consumido tanto dinheiro, que parar seja quase impossível. Adiantaria os mundurucus gritarem sozinhos lá no Tapajós, para serem contemplados no seu direito constitucional, respaldado também por convenção da Organização Internacional do Trabalho, de serem ouvidos sobre uma obra que vai afetá-los? Não. Portanto, eles foram até Belo Monte se fazer ouvir. Mas, como são indígenas, alguns acreditam que não seriam capazes de tal estratégia política. É preciso resgatar, mais uma vez, o discurso da manipulação – ou da infiltração. Já que, para serem indígenas legítimos, os mundurucus teriam de apenas aceitar toda e qualquer obra – e, se fossem bons selvagens, talvez até agradecer aos chefes brancos por isso. Quando os indígenas levantam a voz, a voz não seria sua. Seria de um outro, a quem emprestam o corpo. Ninguém é ingênuo a ponto de acreditar que o discurso dos indígenas como massa de manobra seja inocente. Ele serve a muitos interesses, inclusive o de tirar do foco os reais interesses sobre as terras indígenas de quem o difunde. Mas esse discurso não teria ressonância se não tivesse a adesão de uma parte significativa da população brasileira. E esta adesão se dá, me parece, por essa espécie de xenofobia invertida. Estes “estrangeiros nativos” ameaçariam um suposto progresso, já que seu conhecimento não é decodificado como um valor, mas como um “atraso”, sua enorme diversidade cultural e de visões de mundo não são interpretadas como riqueza e possibilidades, mas como inutilidades. Neste sentido, há uma frase bastante reveladora de como esse olhar – ou não olhar – contamina amplas parcelas da sociedade, inclusive no governo. Ao falar em uma audiência pública na Câmara dos Deputados, em dezembro passado, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, disse que sua pasta atendia “da toga à tanga”. Entre os dois extremos, podemos ver em qual deles o ministro situa o ápice da civilização e também o seu oposto. Há ainda uma dupla invocação do estrangeiro nesse discurso, já que a única coisa pior do que ser “massa de manobra” de ONGs nacionais seria ser das estrangeiras. Evocar a ameaça externa parece sempre funcionar, como naqueles SPAMs, que volta e meia reaparecem, de que “os gringos estão invadindo a Amazônia” – esta também, tão nossa que podemos destruí-la, tarefa a que temos nos dedicado com afinco. Ao denunciar uma suposta apropriação do corpo simbólico dos indígenas por outros, o que se revela, de fato, é a frustração porque esse corpo não se deixa expropriar e manipular pelas elites como antes. Porque apesar de todas as violências, há uma voz que ainda escapa – e que demanda o reconhecimento de seu corpo-terra, de seu pertencimento. Aquele que é visto como o de fora se torna um incômodo quando diz que é parte. Vale a pena prestar atenção em quem amplifica o discurso dos indígenas como “massa de manobra”, para verificar que fazem exatamente o que acusam outros de fazer: afirmam o que os indígenas, todos eles, precisam e querem. Parece haver um consenso, inclusive, de que o verdadeiro desejo dos indígenas seria se tornar um trabalhador assalariado e urbano ou, pelo menos, o beneficiário de algum programa de transferência de renda do governo. Nesta posição, eles não atrapalhariam ninguém – e menos ainda os produtores rurais. Este é o momento chave para a entrada de outro discurso recorrente: o de que os indígenas querem terra “demais”. Basta fazer as contas, como fez o jornalista Fabiano Maisonnave, na Folha de S. Paulo: com uma população de 28 mil indígenas em Mato Grosso do Sul, os terenas têm sete reservas, somando cerca de 20 mil hectares; já o produtor rural Ricardo Bacha, em cuja fazenda foi morto o terena Oziel Gabriel, tem cerca de 6.300 hectares, dos quais 800 em litígio. Se é de concentração de terra na mão de poucos que se pretende falar, há muitos números ilustrativos que podem ser citados. Outro dado interessante vem de uma pesquisa da Embrapa, citada em artigo do engenheiro florestal Paulo Barreto, no site O Eco: há 58,6 milhões de hectares de pastos degradados pela pecuária, o equivalente a 53% da área total de terras indígenas. “A Embrapa tem demonstrado que já existem as tecnologias para aumentar a produtividade dos pastos degradados. Assim, ocupar terra indígena é, além de inconstitucional, prova de incompetência”, afirma Barreto. A Embrapa é um dos novos atores que deverão ser chamados para opinar sobre as demarcações, numa manobra para esvaziar a Funai e agradar a bancada ruralista. O lugar de estranho indesejado,supostamente sem espaço no Brasil que busca o desenvolvimento, tem permitido todo o tipo de atrocidades contra indivíduos e também contra etnias inteiras ao longo da história. Seria muito importante que cada brasileiro reservasse meia hora ou menos do seu dia para ler pelo menos as primeiras 16 páginas do resumo do Relatório Figueiredo, um documento histórico que se acreditava perdido e que foi descoberto no final de 2012 por Marcelo Zelic, vice-presidente do Grupo Tortura Nunca Mais, de São Paulo. No total, o procurador Jáder Figueiredo Correia dedicou 7 mil páginas para contar o que sua equipe viu e ouviu. A íntegra também está disponível na internet. O relatório, datado de 1968, documentou o tratamento dado aos povos indígenas pelo extinto Serviço de Proteção aos Índios (SPI). Entre os crimes, cujos responsáveis foram nominados, mas jamais punidos, estão os “castigos” infligidos pelos funcionários aos indígenas, como crucificações e uma tortura conhecida como “tronco”, na qual a vítima tinha o tornozelo triturado. Crianças eram vendidas para abusadores, mulheres, estupradas e prostituídas. Duas aldeias de pataxós, na Bahia, foram dizimadas para atender aos interesses de políticos de expressão nacional da época.Uma nação indígena inteira foi extinta por fazendeiros, no Maranhão, sem que os funcionários sequer tentassem protegê-la. O procurador cita a possível inoculação do vírus da varíola em uma etnia de Itabuna, na Bahia, para que as terras fossem liberadas para “figurões do governo”, assim como o extermínio de um grupo de cintas-largas, em Mato Grosso, de várias formas: atirando dinamite de um avião e adicionando estricnina ao açúcar, além de caçá-los e matá-los com metralhadoras. O massacre ocorreu em 1963, ainda no período democrático, portanto, e os que ainda assim sobreviveram foram rasgados com o facão, “do púbis a cabeça”. A lista é longa. É importante ressaltar que tudo isso não se passou na época de Pedro Álvares Cabral, nem mesmo no tempo dos bandeirantes, mas na década de 60 do século XX. Praticamente ontem, do ponto de vista histórico. Cabe enfatizar ainda que os crimes foram infligidos aos indígenas, num comportamento disseminado por todo o país, por representantes do Estado brasileiro. Menciono o relatório não só porque acredito que precisamos conhecê-lo, mas porque ele demonstra que tipo de olhar permite que atrocidades dessa ordem tenham se tornado uma política não oficial, mas exercida como se fosse – e não por um único psicopata, mas por dezenas de funcionários e suas esposas, com o apoio e às vezes a ordem da direção do órgão criado para proteger os povos tradicionais. Para estas pessoas, o corpo dos indígenas era território a ser violado, como violada foi a sua terra. Como aqueles sem lugar, os indígenas não eram reconhecidos como iguais, nem mesmo como humanos. Eram o que, então? O procurador responde: “Tudo como se o índio fosse um irracional, classificado muito abaixo dos animais de trabalho, aos quais se presta, no interesse da produção, certa assistência e farta alimentação”. Para quem imagina que este capítulo é parte do passado, vale a pena lembrar que apenas nos últimos dez anos, nos governos Lula-Dilma, foram assassinados 560 indígenas. A Constituição precisa ser cumprida, as demarcações devem ser feitas, os fazendeiros que possuem títulos legais, distribuídos pelo governo no passado, têm direito a ser indenizados pelo Estado. Mas há um movimento maior, mais profundo, que é preciso empreender. Como “estrangeiro nativo”, uma impossibilidade, só é possível perpetuar a violência.É necessário fazer o gesto, também em nível individual, de reconhecer o indígena como parte, não como fora. Para isso é preciso primeiro desejar conhecer, o gesto que precede o reconhecimento. Só então o Brasil encontrará o Brasil.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Guarani Kaiowá: um é assassinado em Paranhos e cinco são presos em Dourados

Mais um dia de violência e morte no Mato Grosso do Sul. De acordo com informações do cacique Nicolau Guarani Kaiowá, da aldeia Paraguassú, Terra Indígena Takwarity/Ivykwarusu, município de Paranhos, Celso Rodrigues, 42, indígena da comunidade, foi morto a tiros por pistoleiros enquanto caminhava para o trabalho, na manhã desta quarta-feira, 12. Além disso, cinco indígenas foram presos em Dourados (MS), entre eles uma mulher grávida.

Fonte: Cimi/CPT

“Dois pistoleiros o tocaiaram enquanto ele passava perto de um córrego. O pai dele está muito triste e revoltado. Eu também (...) é muito doloroso ver parentes morrer”, explica o cacique. A Polícia Civil esteve no local para perícia, o delegado Rinaldo Gomes Moreira pediu abertura de inquérito e o corpo de Celso foi encaminhado ao Instituto Médico Legal (IML) de Ponta Porã.

A região de Paranhos, sul do estado, é foco de conflitos entre indígenas e fazendeiros que mantêm terras em áreas de ocupação tradicional Guarani. No mês de agosto do ano passado, os Guarani Kaiowá retomaram parte do tekoha – lugar onde se é – Arroio Korá, em Paranhos. Homologada desde 21 de dezembro de 2009, a terra se mantinha nas mãos de fazendeiros. Durante visita de equipe do Ministério Público Federal (MPF), pistoleiros atiraram contra a comunidade.

Um mês depois, em setembro, 500 indígenas Guarani Nhandeva retomaram parte dos 4.025 do tekoha Potrero Guasu, a 10 km de Paranhos, declarado como indígena desde 13 de abril de 2000. Uma criança morreu durante fuga da comunidade em invasão de pistoleiros.

Em outras duas ocasiões, os Guarani Kaiowá da Paraguassú foram ameaçados por pistoleiros. No tekoha vivem 127 famílias num espaço de 2.700 hectares homologados. Os indígenas pediram a revisão da demarcação. Técnicos da Fundação Nacional do Índio (Funai) realizaram os estudos e os resultados devem ser publicados no 2º semestre deste ano. “Três fazendas estão dentro do território que reivindicamos. A principal delas é a Califórnia. Mexem com agropecuária. Agora vamos enterrar o parente e seguir na luta”, declara o cacique.

Para a liderança Otoniel Ricardo Guarani Kaiowá, a situação no Mato Grosso do Sul ultrapassou todos os limites de controle do Estado e dos governos. “Os mecanismos de diálogo da Justiça e do Estado como um todo são ineficientes. Já existe até a vontade dos fazendeiros de sair das áreas, mas mortes ainda ocorrem”, diz.     

Dourados: mulher grávida presa

Se pela manhã Celso Rodrigues foi morto, pela tarde a Polícia Civil de Dourados prendeu cinco indígenas do acampamento Ita’y Ka’agurussu, Terra Indígena Lagoa Rica/Panambi, município de Douradina. Entre os presos está a cacique Isigeninha Hirto, grávida, além dos Guarani Kaiowá Samuel Gonçalves, Sérgio da Silva, Elaine Hilton e João Isnarde.

Ainda não se sabe os detalhes do mandado de prisão expedido no último dia 28 de maio para sete indígenas, mas as prisões têm relação com fato ocorrido no dia 13 de abril, no próprio acampamento. Arnaldo Alves Ferreira, policial militar reformado, invadiu à cavalo a aldeia efetuando seis disparos contra os indígenas, acertando na orelha o Guarani Kaiowá João da Silva.

Durante o ataque, integrantes da comunidade indígena conseguiram desarmar o militar reformado, defendendo-se dos disparos. Arnaldo foi mantido seguro pela comunidade, que informou a ocorrência à polícia local. O PM e o indígena ferido foram encaminhados ao Hospital da Vida, em Dourados. Arnaldo morreu ainda na ambulância; o Kaiowá ferido foi preso pela polícia, acusado de homicídio em flagrante. Ainda segue preso. Leia aqui matéria na íntegra.

O delegado Marcelo Damaceno, que preside o inquérito, notificou a Funai a apresentar os indígenas no último dia 6 de junho. Por conta da Marcha Indígena, Quilombola e Camponesa, que chegou à capital Campo Grande no mesmo dia, a apresentação dos indígenas ficou para esta quarta-feira, 12. Dos sete indígenas nominados no mandado de prisão, apenas cinco compareceram ao distrito policial.

Ao receber voz de prisão, na presença de advogados da Funai e do Cimi, a cacique Isigeninha se desesperou. Com truculência, conforme os observadores, investigadores tentaram contê-la e na sequência registraram boletim de ocorrência contra a indígena por desacato. “Os Guarani Kaiowá chegaram de boa-fé para colaborar”, critica o advogado Natanael Santiago Dave, que defenderá os indígenas.   

O advogado informa que os presos foram recolhidos para a Cadeia Pública de Dourados. “Estamos avaliando qual a medida a ser tomada, precisamos ver o inquérito. Agora eu acompanho o caso desde o início e não há circunstâncias para fundamentar as prisões, conforme diz o artigo 312 (Código Penal). O que está lá juntado não é suficiente para decretar a prisão”, defende.

Otoniel Guarani Kaiowá é enfático e adianta qual será a forma do povo protestar: “Enganaram eles, mentiram. Chamaram para depor e prenderam. Todo mundo está revoltado e vamos fazer retomadas. Não dá mais para aceitar isso. Os Ñanderu (pajé/xamã) decidiram e está decidido. Vamos buscar nossos direitos”.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Roberto Requião: governo Dilma retrocede na questão indígena

Agência Senado

Requião lamentou que as lideranças indígenas venham a Brasília, para tratar de assuntos de interesse de sua comunidade, e não sejam recebidas no Palácio do Planalto, enquanto representantes do agronegócio tornam-se “figurinhas carimbadas” nos eventos oficiais.Em pronunciamento nesta terça-feira (11), o senador Roberto Requião (PMDB-PR) disse que o governo da presidente Dilma Rousseff retrocedeu no tratamento da questão indígena, em relação aos governos de José Sarney (1985-1990), Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) e de Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010).
- De todos os governos desde a redemocratização, este foi o único que não recebeu os índios. Recebe todo mundo, até o Carlinhos Brown e sua ridícula caxirola, mas não recebe índios. Os representantes do agronegócio têm na ministra-chefe da Casa Civil [a senadora licenciada Gleisi Hoffmann] um interlocutor privilegiado. Já os índios mendigam ouvidos e corações abertos pelos corredores legislativos, pelos jardins da Esplanada dos Ministérios, expondo-se à indiferença, ao escárnio e ao preconceito - afirmou.
Roberto Requião disse que “o Brasil está em guerra contra os índios” e que o assassinato do terena Oziel Gabriel, em processo de desocupação de terras em Sidrolância, no Mato Grosso do Sul, “nada mais é do que um trivial e corriqueiro episodio desse conflito”.
- Afinal, matar índio faz parte dos usos e costumes nacionais desde que Cabral aqui aportou. Era de esperar que, com o passar dos tempos, com a civilização e com o refinamento de nossas elites fazendeiras, o velho costume de matar índios fosse superado.
Embora nos livros escolares a abertura dos portos seja o ponto alto da chegada da família real portuguesa à colônia brasileira, Roberto Requião lembrou que Dom João, dois meses depois, “tomou outra decisão que nossos livros e a memória coletiva dos fatos escondem”, ao assinar a Carta Régia, que declara guerra aos índios botocudos que resistiam à expansão das fazendas e das áreas de exploração de minérios, na capitania de Minas Gerais.
No entanto, observou Roberto Requião, proprietários de terras, minas e tropeiros de toda a colônia expandiram o alcance da Carta Régia, e se consideraram licenciados a empreender guerra contra todos os índios que habitavam o território brasileiro.
No Paraná, afirmou, a Carta Régia chancelou um antigo costume, que subsistiu até o final do século 19, em que os fazendeiros das regiões dos Campos Gerais e dos Campos de Guarapuava e Palmas organizavam uma expedição guerreira anual contra os índios, para expansão da agricultura, pecuária, plantio de mate e exploração de madeira.
Roberto Requião disse que a Carta Régia continha as mesmas justificativas hoje usadas para usurpar terra aos índios. Estão lá, segundo ele, os argumentos em defesa da produção e os apelos para que os índios submetam-se aos brancos, para "gozarem os bens permanentes de uma sociedade pacífica e doce, debaixo de justas e humanas leis”. Também se encontram no documento as acusações aos índios de violência, crueldade e perturbação da ordem, como se fossem eles, ontem e hoje, os causadores dos conflitos, acrescentou.
Roberto Requião disse que a prática do genocídio indígena "alçou a heróis da Pátria genocidas como Raposo Tavares, Borba Gato e outros aventureiros que se distinguiram pela preação de índios, para fazê-los escravos”.
- Além de destruírem as reduções jesuíticas, que abrigavam milhares de índios, bandeirantes como Raposo Tavares capturaram no Paraná e levaram para São Paulo mais de 200 mil índios. Se glorificamos os genocidas do passado, como punir os torturadores do presente? Quem serão os heróis do genocídio de hoje? – perguntou.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Um “Keffiyeh” para o líder indígena Ninawá Huni Kuin*

“...Falei do que representa a territorialidade, da relação da água como um ente vivo para os povos do deserto e de sua importância para a sobrevivência de todos seres do planeta, seja pelo aspecto espiritual quanto pelo valor econômico;  da fundamental importância para quem quiser compreender a luta entre conceitos ligados ao neoliberalismo e às forças populares emancipatórias, sobretudo na Amazônia, região em que os gatos são pardos...”

 Por Amyra El Khalili

“ Fere a cabeça da víbora com o punho de seu inimigo.
Disto necessariamente te resultará num bem:
se o inimigo vencer a víbora morrerá.
Se a víbora vencer, terás um inimigo a menos!”
Provérbio beduíno

Deixei uma parte de mim no estado do Acre quando coloquei sobre o ombro do grande líder indígena Ninawá Huni Kuin um Keffiyeh (lenço beduíno)** durante a conferência que proferi  à convite do  Conselho Indigenista Missionário (CIMI) na Universidade Federal do Acre.

Símbolo da luta contra a ocupação dos territórios palestinos, o Keffiyeh  tornou-se indumentária de ativistas solidários à causa palestina em todo o mundo. Para o povo palestino, o Keffiyeh representa o começo e o fim. O tudo e o nada. É manifesto aberto dos que não aceitam a infame paz dos túmulos.

Nossos mártires são velados e enterrados envoltos no Keffiyeh. O Keffiyeh para Ninawá Huni Kuin foi presente da Fearab-Brasil (Federação da Entidades Árabes Brasileiras) dado por intermédio do Dr. Eduardo Felício Elias, e da FEPAL (Federação das Entidades Palestino-Brasileiras), pelas mãos de Emir Mourad, com o apoio do Dr. Alem Garcia, Presidente da Fearab Uruguai (Federação das Entidades Árabes Uruguaias), entregue por esta beduína palestino-brasileira em  agradecimento pela solidariedade dos Povos Indígenas no VI Fórum Social Pan-Amazônico 2012 (Cobija, Bolívia) (1) eFórum Social Mundial 2013 (Túnis, Tunísia) (2) (3),  além de tantas outras manifestações em apoio a nossa justa causa.

Nesta ocasião, presenteamos também com o Keffiyeh os companheiros Lindomar Padilha e o Prof. Elder Andrade de Paula por estarem à frente do bom combate e registramos nosso respeito e admiração pela trajetória de Dercy Teles de Carvalho, primeira mulher a assumir a presidência de um Sindicato de Trabalhadores Rurais no Estado do Acre e uma das primeiras também no Brasil.

NAKBA indígena

Expulsos de seus territórios e massacrados há 513 anos neste continente, os indígenas são o exemplo da resistência e da sabedoria nos cuidados com o ambiente e, mesmo espoliados de suas terras, ainda encontram forças para se solidarizarem com o povo palestino, vítimas da Nakba (tragédia da ocupação) há 65 anos.

Na conferência proferida, contei como funciona na prática a engrenagem da  “financeirização da natureza e espoliação dos territórios indígenas e camponeses na Amazônia".

Falei da origem do mercado de carbono desde o seu real motivador militar, o “Conselho da Bolha”, na década de 60.  Analisei a formação do comércio de emissões a partir da década de 70 (4), posteriormente na Eco92, o Protocolo de Kyoto (1997), e segui traçando paralelo sobre quanto custam as guerras para os povos do Oriente Médio e as “semelhanças” entre o que ocorre lá com o que vem ocorrendo cá.

Falei do que representa a territorialidade, da relação da água como um ente vivo para os povos do deserto e de sua importância para a sobrevivência de todos seres do planeta, seja pelo aspecto espiritual quanto pelo valor econômico; da fundamental importância para quem quiser compreender a luta entre conceitos ligados ao neoliberalismo e às forças populares emancipatórias, sobretudo na Amazônia, região em que os gatos são pardos.

Atravessamos o deserto cantando e dançando em caravana beduíno-indígena e chegamos nas florestas tropicais contando “causos” enquanto perdidos ficam vagando na superfície sem chegar a lugar nenhum ao defenderem como solução para a crise ambiental as tais geringonças financeiras como o REDD, REDD+, PSA , RCEs, PSE, MDL, Créditos de Compensação, Créditos de Carbono, Créditos de Efluentes, etcetera, etcetera e etcetera... (5)

Há tempos, venho alertando que isso tudo é uma coisa só. Porém, os que pretendem confundir querem nos fazer crer que cada uma destas siglas são coisas diferentes e, desta forma, tentam justificar o injustificável, ou seja, que o mercado financeiro resolve tudo pelas vias do próprio mercado. O mercado financeiro se autorregula e será capaz de combater com eficiência os males que afetam o ambiente.

Se querem provocar convulsões sociais com suas doutrinas neoliberais para implantar o neocolonialismo do carbono como “experimento” (experiências aprendidas?) usando os povos das florestas como cobaias, temos que parabenizá-los, pois,  neste intento, estão alcançando  com sucesso seus objetivos. Estamos testemunhando violentos conflitos no seio das florestas e nos campos ao levantarmos vozes contra a usurpação de terras, rapinagem dos bens comuns e desrespeito aos direitos humanos viabilizados por reformas legislativas como tem denunciado o CIMI (6) (7).

O que acontece no Oriente Médio, para incautos, nunca acontecerá neste lado do Sul Global. E os palestinos, somos os terroristas, radicais e fundamentalistas por estarmos deste lado de cá, alertando para mais um  assalto de atores que conhecemos muito bem, os responsáveis com “nome e sobrenome” deste crime lesa-humanidade, de que essa estratégia contra as nações indígenas e demais povos das florestas é aquela idêntica que tem exterminado milhares e milhares de palestinos, iraquianos, afegãos, libaneses, sírios, africanos entre outros “parentes”. Diz o provérbio beduíno: “No deserto a verdade é a melhor camuflagem, porque ninguém acredita nela!”

Foi neste “Abril Indígena 2013”, em ritual de pajelança e intifada indígena** que o guerreiro Ninawá Huni Kuin, sua família, seu povo,  companheiros e parentes (os do lado de cá) receberam a proteção espiritual  (Keffiyeh) do povo beduíno (os do lado de lá) sob a mira atenta do mundo,  assim como foi a trajetória - o começo e o fim - daquele que tombou em defesa da Amazônia, o mártir palestino Chico Mendes.


Não iremos embora (8)
Tawfic Zayyad***

Aqui
Sobre vossos peitos
Persistimos
Como uma muralha
Em vossas goelas
Como cacos de vidro
Imperturbáveis
E em vossos olhos
Como uma tempestade de fogo
Aqui
Sobre vossos peitos
Persistimos
Como uma muralha
Em lavar os pratos em vossas casas
Em encher os copos dos senhores
Em esfregar os ladrilhos das cozinhas pretas
Para arrancar
A comida de nossos filhos
De vossas presas azuis
Aqui sobre vossos peitos
Persistimos
Como uma muralha
Famintos
Nus
Provocadores
Declamando poemas
Somos os guardiões da sombra
Das laranjeiras e das oliveiras
Semeamos as ideias como o fermento na massa
Nossos nervos são de gelo
Mas nossos corações vomitam fogo
Quando tivermos sede
Espremeremos as pedras
E comeremos terra
Quando estivermos famintos
Mas não iremos embora
E não seremos avarentos com nosso sangue
Aqui
Temos um passado
E um presente
Aqui
Está nosso futuro

Notas:
*Conferência proferida no dia 12 de abril, às 19 horas, no Anfiteatro Garibaldi Brasil, da Universidade Federal do Acre, na agenda “ Abril Indígena 2013” organizado pelo Conselho Indigenista Missionário (CIMI), Federação do Povo Huni Kuin do Acre (FEPHAC), Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri (STTR- Xapuri), Conselho de Missão entre Índios (COMIN) e o Núcleo de Pesquisa Estado, Sociedade e Desenvolvimento na Amazônia Ocidental da Universidade Federal do Acre (NUPESDAO/UFAC), com a participação dos debatedores Ninawá Huni Kuin ( Presidente da FEPHAC )Dercy Teles de Carvalho (Presidente do  STTR Xapuri), Lindomar Padilha ( CIMI) e Prof.  Elder Andrade de Paula (CFCH/UFAC).

**Keffiyeh é o nome dado ao pano usado na cabeça pelos homens no Médio Oriente, tipicamente branco e preto pelos beduínos, branco e vermelho pelos habitantes da Jordânia (geralmente possui cordões de algodão) e da Arábia Saudita, e branco imaculado pelos homens das cidades. O keffiyeh, também grafado kaffiyahkeffiyakaffiya ou ainda kufiya, é associado ao movimento nacionalista palestiniano desde a Revolta Árabe (1916-1918) até mais recentemente, devido à sua adoção pelo ex-líder palestiniano Yasser Arafat.  http://pt.wikipedia.org/wiki/Keffiyeh
***Intifada é um termo que pode ser traduzido como "revolta" . É freqüentemente empregado para designar uma insurreição contra um regime opressor ou um inimigo estrangeiro, mas tem sido especialmente utilizado para designar dois fortes movimentos da população civil da palestina contra a presença israelense nos territórios ocupados e em certas áreas teoricamente devolvidas à Autoridade Palestina (Faixa de Gaza e Cisjordânia). http://pt.wikipedia.org/wiki/Intifada
****Tawfic Zayyad, palestino de Nazaré, é considerado um pioneiro da poesia de resistência. A maior parte de sua obra foi escrita na prisão.

(1)   Carta de Cobija . VI Fórum Social Pan-Amazônico. 28 de novembro a 01 de dezembro de 2012. Cobija, Bolívia.http://vifspaamazonico.blogspot.com.br/2012/12/normal-0-21-false-false-false.html

(2)   Declaração da Assembleia dos Movimentos Sociais – Fórum Social Mundial 2013 – Tunísia – 29 de marçohttp://www.rededemocratica.org/index.php?option=com_k2&view=item&id=4198:declara%C3%A7%C3%A3o-do-f%C3%B3rum-social-mundial-2013

(3)   Lideranças indígenas participam do Fórum Social Mundial na Tunísia, Publicado em 01/04/2013http://www.juruaonline.com.br/cidades/liderancas-indigenas-participam-do-forum-social-mundial-na-tunisia/

(4)   Para saber sobre como funciona o Mercado de Carbono e por que é controvertido, acesse em português:http://www.fern.org/book/trading-carbon e http://www.fern.org/pt-br/book/o-comercio-de-carbono
(5)    Carta-denúncia aberta ao governo da Califórnia (ACRE) . 29/04/2013. http://lindomarpadilha.blogspot.com/2013/04/carta-denuncia-aberta-ao-governo-da.html

(6)   Conjuntura político-indigenista no Brasil: enfrentamento ou retrocesso! Cimi, Informe nº 1059, 04/04/2013.http://www.cimi.org.br/site/ptbr/?system=news&conteudo_id=6793&action=read.

(7)   Governo federal e a militarização como instrumento político. 02/04/2013. Nota do Cimi - Conselho Indigenista Missionário http://www.cimi.org.br/site/ptbr/?system=news&conteudo_id=6788&action=read

(8)   Lindomar Padilha, A Amyra El Khalili – agradecimentos. Poema de Tawfic Zayyad, http://lindomarpadilha.blogspot.com.br/2013/04/a-amyra-el-khalili-agradecimentos.html


Amyra El Khalili* é economista, autora do e-book "Commodities Ambientais em Missão de Paz: Novo Modelo Econômico para a América Latina e o Caribe". São Paulo: Nova Consciência, 2009. 271 p. Acesse gratuitamente www.amyra.lachatre.org.br

sábado, 8 de junho de 2013

Operação G-7: uma leitura política

Israel Souza[1] Publicado originalmente no Blog Insurgente Coletivo

No dia 10 de maio do corrente ano, foi deflagrada a Operação G-7. Trata-se de uma operação da PF que, abrangendo apenas o período de 2011 a 2013 e analisando somente 6 contratos, apontou um esquema envolvendo funcionários públicos, secretários do governo e empresários que, juntos, fraudavam licitações de obras públicas para favorecer sete grandes empresas. Ao todo, 29 pessoas foram indiciadas por formação de cartel, falsidade ideológica, corrupção ativa e passiva, formação de quadrilha, fraude à licitação e desvio de verbas públicas.  

            Desde que deflagrada, a Operação tem levantado polêmica e abalado profundamente o cenário político acreano e os grupos que o conformam. Mas quais as implicações políticas de tal Operação? Como ela ajuda a entender a recente história política do Acre? De que estratégias as forças governistas estão se valendo para abafar o escândalo ou, pelos menos, minorar seus efeitos? Quais seus possíveis desdobramentos?

            O presente texto dá continuidade à análise de conjuntura que já faz algum tempo ensaiamos. Cremos importante esclarecer, desde já, que se trata de uma análise político-sociológica (como denota o título) e não jurídica, embora esta dimensão do caso não seja descuidada.

Como havíamos adiantado em texto anterior (Amor nos tempos da cólera: notas sobre democracia no Acre), à medida que declinava em legitimidade e se afastava das bases populares, a FPA ia estreitando “laços com as empreiteiras responsáveis por obras no estado, com as oligarquias e o empresariado locais”. Hoje, o grosso de sua força política está assentado nessas relações.

Com todos esses ela passou a compartir interesses e a atendê-los com relativa segurança - coisa em que as antigas forças políticas ficaram devendo. E ela pôde fazê-lo, sobretudo, dizíamos, porque é forte a influência que o Executivo exerce sobre outros poderes e instituições, como Assembleia Legislativa do Acre, Ministério Público Estadual, TRE-AC, Tribunal de Contas do Estado entre outros. Entre esses outros, agora destacaremos o Judiciário.

Relações entre poder estatal e poder econômico

A estreiteza das relações entre o poder político estatal e o econômico, bem como a influência do Executivo sobre outros poderes e instituições, foi ainda mais explicitada pela Operação aqui em foco.

Quanto ao primeiro ponto, sintomático é o fato de um agente governamental avisar a empresários sobre a liberação de um Edital de chamamento, orientando-os a entrarem em “acordo” entre si. O agente em questão fazia isto em tom de cobrança, e arrematava afirmando que “tem que meter o governador” e que ele estaria “bufando de raiva” ("Vambora trabalhar, rapaz", diz funcionário do governo do Acre acusado de formação de cartel em conversa gravada pela PF).

Do que foi divulgado naquela diminuta parcela da mídia que o governo não submete a seu talante (com destaque para o Blog do Altino e o ac24horas, esses benditos heréticos), dois outros fatos chamam a atenção. Um deles foi Tião Viana ter tentado intermediar, pessoalmente, um financiamento do Banco do Estado de Sergipe para empresas envolvidas no escândalo.

Mais que ao Basa, ao Banco do Brasil e à Caixa, convinha recorrer ao Banco de Sergipe porque ele não tinha as “garantias de obras e as amarras” dos outros. Neste caso, a ausência de “garantias” e “amarras” significava mais facilidades e/ou liberdade para as empresas envolvidas (Tinel Macedo diz que Tião Viana conversou com o governador de Sergipe).

Outro fato que explicita a relação do governo com empresários foi o próprio governador ter “aconselhado” o empresário Narciso Mendes Filho (ou Narcisinho, como também é conhecido) a abrir uma clínica (Centro Medicina Diagnostica Ltda Centro), assegurando “compromisso com ele” (Sobrinho de Tião Viana e empresário citam o governador em desvio de verba do SUS).

A PF afirma irregularidades no contrato da empresa com o governo. Narcisinho foi indiciado por corrupção ativa, falsidade ideológica, peculato, formação de quadrilha e fraude em licitação. E a proximidade que ele tem com o governador é expressa em seu modo algo carinhoso de chamá-lo “o dono da porra toda” (Narcisinho: "Vou conversar com o dono da porra toda, que é o governador"). 


            Um e outro caso dão fortes indícios do envolvimento direto do governador no caso. Os documentos divulgados e as intercepções telefônicas dão entender que o governador cumpria o papel de “articulador”.

Importa destacar também que tudo isso põem em evidência os motivos materiais da “conversão” do empresário Narciso Mendes (o pai) à FPA. Antes, o empresário era um crítico intransigente. Agora, porém, um dos mais apaixonados defensores.

De igual modo, a Operação G-7 lançou luz sobre o “companheirismo” existente entre a FIEAC (Federação das Indústrias do Estado do Acre) e o governo. Na referida Operação, entre os presos estavam Carlos Sasai (empresário e presidente da instituição) e João Francisco Salomão (empresário e ex-presidente da instituição).

Segundo matéria veiculada na imprensa local (Empreiteiros, secretários estaduais e servidores são presos durante Operação G7 da Polícia Federal no Acre), os dois empresários foram os maiores beneficiários de licitações de obras públicas nas administrações de Jorge Viana (PT) e Binho Marques (PT).

            Não estariam aí as razões pelas quais a FIEAC saiu em defesa do governo quando a revista de circulação nacional, a IstoÉ, publicou denúncias contra o manejo praticado no estado?    

A instituição fez a defesa do governo através de uma espécie de carta cujo título era Em defesa do desenvolvimento sustentável. Eis um trecho significativo do documento:


Entretanto, em face de reportagem veiculada na revista IstoÉ (edição de 14 de outubro de 2011), intitulada “O golpe verde”, (a FIEAC) vem repudiar, de maneira veemente, a forma como vem sendo conduzida esta pauta, uma vez que a mesma causa prejuízos econômicos e sociais a um importante setor da nossa sociedade. Não apenas isso, mas também, principalmente, pelos danos que pode vir a causar ao Estado do Acre, que tem norteado sua política com extremo zelo pela defesa do meio ambiente - podendo incitar, inclusive, a uma desconfiança quiçá internacional sobre o setor florestal, que é uma das bases de sustentação da economia acreana (grifos nossos).


No final das contas, a razão estava com a revista criticada, como depois mostrou a decisão do MP que recomendou a suspensão do plano de manejo na Fazenda Ranchão II.

Não cremos que a FIEAC tenha cometido o erro por simples ignorância ou por zelar intransigentemente pelo desenvolvimento do Acre. Para isso contou, e mais que qualquer outro motivo, seu atrelamento e subserviência ao governo local.

Antes de passar a outro ponto da reflexão, reputamos importante deitar aqui algumas perguntas de caráter mais geral. A Operação G-7 teve seu ponto de partida em 2011 e se deteve na análise de apenas 6 contratos. Entretanto, será que o esquema por ela desvendado não teria começado bem antes disso? Será que a prática denunciada envolveria apenas as empreiteiras ou estas seriam apenas a parte mais graúda do esquema?[2]

Tomando parte no esquema, certamente funcionários públicos e secretários ganhariam “algum”. Mas será que parte desse “algum” não seria colocada a serviço das campanhas eleitorais dos candidatos governistas?

Consideramos que a pergunta última não é descabida. Lembremos que entre as denúncias que sustentam o pedido de cassação dos irmãos Viana nas últimas eleições estava a de “abuso do poder econômico”. Já aí apareciam nomes envolvidos no escândalo aqui analisado. 

Com efeito, é mais que razoável, com base na investigação da PF, perguntar se o esquema desvendado não era uma “via de mão dupla”. Será que as forças políticas governistas e os empresários não dividiam entre si (de modo igual ou não) os ganhos do esquema? Ou, noutra perspectiva, será que os empresários não retribuíam o “companheirismo governamental” financiando (através de doações contabilizadas ou não) as campanhas dos candidatos governistas?

As estratégias do governo para abafar o escândalo ou minorar seus efeitos

Tão logo a Operação G-7 veio à luz, o governo reagiu. Como se tornou costume nestas paragens, passou a se valer dos meios de comunicação. Em geral, as matérias veiculadas nos meios comandados pelo governo apresentaram a Operação de um modo distorcido e superficial. A maioria das matérias sequer tocava no nome dos envolvidos no caso.

Isso contribuiu fortemente para desinformar a população quanto ao caso e a impossibilitar a formação de manifestações, fortes e coesas, contra o governo. 

Por outro lado, temendo que a oposição se apropriasse do escândalo e dele tirasse proveito, resolveu atacá-la. Então, pôs-se a relembrar a falência do Banacre e a atacar aqueles que aparecem como prováveis candidatos da oposição para as eleições governamentais do ano que vem, isto é, Petecão (PSD) e Márcio Bittar (PSDB).

Compreendendo que isso era insuficiente para resolver um problema desta monta, concomitantemente passou a desqualificar a atuação da PF e da desembargadora Denise Bonfim, denunciando “arbitrariedades”, “abusos” e coisas congêneres.

Os senadores petistas se notabilizaram nas últimas semanas por denúncias sistemáticas neste sentido. Jorge Viana chegou a insinuar que a PF estaria sob condução de um parente de Flaviano Melo (PMDB) (Senador Jorge Viana se equivoca ao insinuar relações políticas na Operação G-7).


            Por seu turno, Aníbal Diniz foi mais taxativo e esdrúxulo, como sempre. Para ele, “a Polícia Federal, o Ministério Público e o Tribunal de Justiça estão a serviço de uma oposição que quer, a todo custo, tomar o poder a custa de mentiras” (Operação G-7: "PF, MP e Justiça estão a serviço da oposição", acusa senador do PT).

            Nos dias que correm, é Sibá Machado quem se destaca a desqualificar a atuação e a moral da desembargadora Denise Bonfim. Com a comicidade que lhe é peculiar, o deputado petista alardeia que a desembargadora poderia estar agindo motivada por um sentimento de “vingança”, que ela seria “inimiga declarada” do governador Tião Viana (Guerra declarada - Sibá Machado acusa Denise Bonfim de abuso de poder, ilegalidades, vingança e perseguição a políticos ligados ao Governo do Acre).


            Ah... Como é assustador esse mundo dos “meninos do PT”. Fora de seu círculo, inimigos por toda parte. Afrontado por suas virtudes todas, o universo inteiro parece conspirar contra eles... Mas, em contrapartida, esse é também um mundo simples e moralmente tranquilizador. É que eles já distribuíram, prévia e copiosamente, virtudes e vícios. Virtudes, todas as virtudes, para eles. Vícios, todos os vícios, para os outros. Só eles amam o Acre. Os outros odeiam o Acre. Até parece coisa de menino buchudo!!! Vôte!!!    

A campanha de constrangimento público e desmoralização posta em marcha contra a atuação da PF e a desembargadora Denise Bonfim está associada a uma campanha de “defesa”, de “apoio e solidariedade” aos presos e ao governador Tião Viana.

A manifestação da FECOMERCIO é disso um claro sinal. A leitura de um pequeno trecho seu é suficiente para entender-lhe o espírito:


A diretoria da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado do Acre, vem de público, se solidarizar com as famílias dos empresários presos na operação G7. Por entender que os empresários supostamente envolvidos, são pessoas idôneas e que contribuíram ao longo dos anos para o desenvolvimento econômico e social deste Estado, seja através de suas empresas ou ainda das instituições sociais que representam.

Exilá-los do convívio da família, da sociedade e de seus negócios é medida extrema, que assusta não só a sociedade em geral, mas que deixa perplexa a classe empresarial e todas as pessoas que colaboram direta ou indiretamente com as instituições que representam.

O Governo tem demonstrado ao longo dos anos, compromisso com a sociedade, buscando sobremaneira o desenvolvimento social e econômico, com transparência, através de arrojados programas como a ZPE, Projeto do Complexo de Piscicultura, Ruas do Povo e Cidade do Povo. Os fatos noticiados certamente poderão causar prejuízos a sociedade como um todo, o que não é diferente aos empreendimentos dos acusados (Operação G-7: não é para rir nem chorar).


Sejamos breves e didáticos na análise desse texto apologético que, a rigor, segue quase o mesmo padrão da carta citada anteriormente em que a FIEAC defendia o governo.

Destacamos: 1) a defesa dos presos; 2) o questionamento implícito da decisão judicial de manter os envolvidos presos e a intenção de causar insegurança na população. Vão neste sentido frases como “Exilá-los do convívio da família, da sociedade e de seus negócios é medida extrema, que assusta” e “Os fatos noticiados certamente poderão causar prejuízos a sociedade como um todo”; 3) a desabrida e superficial apologia ao governo: “O Governo tem demonstrado ao longo dos anos, compromisso com a sociedade, buscando sobremaneira o desenvolvimento social e econômico”.    

Será que a instituição sugere aí que a imprensa deixe de noticiar o escândalo e seus desdobramentos? Muito provavelmente. Isso muito interessa ao governo. De qualquer forma, ela tenha certeza: as pessoas que acompanham atentamente o fato ficariam muito mais assustadas se os envolvidos não estivessem presos.

As manifestações nas redes sociais de apoio à Operação G-7 o comprovam. E que ninguém se engane ou tente nos enganar, afirmando que quem assim se manifesta é da oposição e/ou inimigo do governo. Alguns certamente aí se enquadram. Outros, porém, são apenas cidadãos cansados dos desmandos que faz tempo campeiam por aqui.    

Usemos de franqueza. O que a PF provou através de sua investigação foi aquilo que muitos dos acreanos, relativamente bem relacionados e informados, há muito ouvíamos: a existência de uma relação promíscua entre o governo e certos setores do empresariado local. Só não podíamos provar nem tínhamos os pormenores e a dimensão do caso. Para isso, era necessária a intervenção de uma instituição com a credibilidade e a competência da PF. 

A verdadeira romaria de lideranças e autoridades (juízes maçons, prefeitos, líderes religiosos etc.) em “apoio e solidariedade” ao governador também desempenhava o papel de, por um lado, desmoralizar as ações da PF e da desembargadora, e, por outro, de blindar os envolvidos no caso e de modo especial o governador. Tivessem consciência disso ou não, foi esse papel que fizeram aquelas lideranças e autoridades que, agindo como militantes de baixa patente, hipotecaram sua autoridade moral ao governador.

Talvez não saibam, mas é provável que, pelo feito, tenham maculado suas imagens ligando-se àquele que pode ser o maior escândalo político da história do Acre, diante do qual a falência do Banacre pode parecer coisa pouca.

Em verdade, por tudo o que fez de ilegal e mesmo de legal, os governos da FPA passaram para a história como aqueles que, até aqui[3], mais comprometeram financeira e politicamente o Estado. As pesquisas que temos feito em conjunto apontam para isso.

A disputa no Judiciário

Antes de avançar, uma reflexão de caráter mais teórico. Os governistas têm se esmerado em denunciar o caráter político da atuação da PF e da desembargadora Denise Bonfim na condução do caso.  

            Eles não se cansam de reprovar a relação entre justiça e política. Todavia, olhando de perto a singularidade do caso: fora das perspectivas tacanhas ou hipócritas, há como separar um campo do outro? A Operação G-7 e o processo que ela ensejou têm uma dimensão política, sim. Lidam com autoridades estatais e dinheiro público. Mas desqualificá-los, atribuindo-os exclusivamente a uma manobra das forças oposicionistas, reduzindo-os à política partidária, também tem.

Claro que levar a cabo uma investigação e um processo que podem implicar diretamente o governador e parte de seu secretariado tem uma dimensão política, sim. Mas querer defendê-los, a todo custo, querendo colocá-los acima da lei e da justiça não tem?  

            O governo tinha a pretensão de resolver tudo no Judiciário acreano. Infelizmente para ele, não foi o que aconteceu. Como bem mostrou o texto de Ricardo Brant (CNJ determina correição no TJ do Acre a pedido da desembargadora Denise Bonfim), o Tribunal de Justiça do Acre (TJ/AC) “tentou votar os pedidos de liberdade de 14 dos 22 indiciados pela Polícia Federal no caso, sem competência para isso”.

            Quando na sessão em que os pedidos seriam julgados, a desembargadora Bonfim alertou que, dos nove magistrados presentes, cinco tinham alguma relação de parentesco com os indiciados, inclusive o presidente do TJ, o desembargador Roberto Barros. Tal fato os colocava numa condição de impedimento e/ou suspeição.

Bonfim solicitou que o caso fosse enviado para o Supremo Tribunal Federal (STF). Mesmo assim, houve a tentativa de votar os pedidos. A desembargadora Denise Bonfim comunicou o caso ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e ao STF.

Em sessão posterior, sob a observação de membros do CNJ, 5 magistrados se declararam impedidos de votar e/ou sob suspeição. Foram eles: Regina Longuini, Eva Evangelista, Francisco Djalma, Waldirene Cordeiro e Roberto Barros. 

            A “baixa” dos 5 magistrados impediu a formação do quórum necessário para decidir a questão aqui. Por tal circunstância, o caso foi encaminhado ao STF, sob forte protesto do desembargador Adair Longuini. Este denunciava o que chamou de “julgamento de exceção”, termo também utilizado pelos “companheiros” insatisfeitos com a condenação de José Genuíno, Zé Dirceu e consortes no julgamento do “mensalão”.   

            Antes de prosseguir na análise dos possíveis desdobramentos do caso, deixemos aqui outra reflexão.

            Cabe destacar que, mesmo consciente das relações mais que suspeitas com os envolvidos no escândalo, parte dos magistrados pretendia julgar os pedidos de liberdade. Se não o fizeram, foi em razão da corajosa e competente atuação da desembargadora Bonfim que, imediatamente, recorreu a órgãos superiores a fim de evitar o comprometimento do processo.

Guardadas as diferenças, é lícito dizer que esse fato despertou em muitos acreanos um sentimento similar àquele que o STF despertou em muitos brasileiros ao julgar os “mensaleiros”. Despertou o sentimento de que a justiça pode servir também para julgar os grandes.

            Quando os magistrados reconheceram as relações com os envolvidos e o impedimento e a suspeição que isso implicava, não o fizeram somente movidos por virtude e autocrítica. Ousamos dizer que o fizeram por força da presença de observadores de fora. O olhar dos superiores deve ter intimidado.

            O que essa atuação de parte do Judiciário acreano revela é algo profundo e sério. Mostra como as oligarquias e os poderes do estado andam juntos, numa relação de mútuo favorecimento.

            Como os poderes político estatal e econômico se reforçam mutuamente mostramos na parte primeira desse texto e em outros artigos que temos publicado. E a atuação de parte do Judiciário acreano no julgamento desse caso mostra como que, a partir da influência do Executivo, há a clara intenção de ocupar cargos nas mais diversas e estratégicas funções, fazendo com que as oligarquias locais consolidem e até ampliem seu domínio nas entranhas da máquina estatal.

            Por um lado, tal permite distribuir entre “companheiros” e familiares (por nepotismo simples ou cruzado) cargos bem remunerados, garantindo a estes agraciados também prestígio social. Aos que vierem de fora das oligarquias, até é permitida a ascensão, contanto que eles contribuam para a manutenção dos interesses dos já incluídos.

            Unidos pelo sangue e/ou pelos interesses materiais mais desabridos, aos assim alocados cumpre o sagrado (ou diabólico?) dever de zelar, a partir da função que exercem, pelos interesses compartidos entre as oligarquias. O tamanho do quinhão é decidido na correlação de forças entre as oligarquias. Desde já, porém, é preciso salientar a proeminência do grupo que controla o Executivo.

            Por tanto, o julgamento do pedido de liberdade dos envolvidos na Operação G-7 desnudou o entrelaçamento entre os poderes econômico, político (do Executivo) e do Judiciário. Mostrou que certos ministros têm plena consciência de que não foram indicados para este poder de graça ou por acaso. E que, por isso, procuravam cumprir fielmente a função para a qual foram designados, isto é, zelar pelos interesses das oligarquias às quais pertencem e/ou com as quais estão aliançados.   

            Em cenário assim, não pode grassar outra coisa senão um misto de despotismo, nepotismo e patrimonialismo. A força e o despotismo do Executivo possibilitam agraciar familiares e “companheiros” com cargos bem remunerados e politicamente estratégicos. É assim que o despotismo sustenta o nepotismo e é por ele sustentado. Unidos, um e outro facilitam a apropriação privada do patrimônio público, orientando, de dentro, as instituições investigativas, fiscalizadoras e jurídicas na direção mais cômoda aos dominantes.  



Possíveis desdobramentos


Por fim, o STF decidiu que o TJ/AC está impedido de julgar agravos regimentais, bem como qualquer processo alusivo à Operação G-7. A decisão liminar partiu do ministro Luiz Fux. 


Isso representou uma considerável derrota para o governo e todos os envolvidos no escândalo. Nas instâncias federais, as oligarquias locais não apitam tanto quanto aqui, em seu terreiro. A condenação dos “mensaleiros” assim o demonstra e aponta uma tendência em que as coisas podem piorar bastante para elas. 

No campo mais estritamente político local, o governo não vai tão mal. Controlando largamente os meios de comunicação, consegue desinformar a população e até convencer muitos de sua alegada inocência.

De outra banda, a oposição segue muito mais a reboque do que à testa dos acontecimentos. A oposição não conseguiu se apropriar do escândalo e extrair dividendos políticos dele. A fraca manifestação realizada em frente o Palácio Rio Branco mostrou o quanto ela foi precipitada e está despreparada para lidar com as massas.

            O conjunto de tudo isso prova que apenas cérebros aloprados (e como os há por aqui por essas bandas!!!) podem creditar a Operação G-7 à uma “manobra da oposição”. A oposição não consegue dar conta de si mesma, de se organizar. A sorte dela é que o governo vem acumulando uma trapalhada atrás da outra e agora a justiça está nos seus calcanhares.

Com isso, ainda que permaneça a “boa relação” do empresariado com as forças governistas, ela deve ser mais comedida. Afinal, a justiça está de olho, o que, talvez, possa resultar em uma menor estrutura de campanha nas eleições do ano que vem.

            As ameaças de morte dirigidas à desembargadora Denise Bonfim dão conta de que, entre os que foram pegos na operação G-7, há aqueles que não pretendem restringir a luta apenas aos campos político e jurídico.

Mais uma vez em nossa história, o crime volta a afrontar as instituições e a ameaçar a vida daqueles que buscam zelar pela lei. Em razão disso, aguardamos com certo receio as novidades que os dias que se avizinham nos trazem...    

            Por último, cabe dizer que verdadeiramente o rei está nu. Faz tempo alguns de nós temos alertado para isso. A PF apenas denunciou de modo mais contundente a nudez.

Contudo, por simpática que seja, cremos que a metáfora acima não dá conta do que de mais forte e podre há neste processo. Em verdade, a Operação G-7 veio comprovar de modo cabal o processo de decadência política, intelectual e moral por que faz tempo a FPA vem passando.    

[1] Cientista Social com habilitação em Ciência Política, mestre em Desenvolvimento Regional e membro do Núcleo de Pesquisa Estado, Sociedade e Desenvolvimento na Amazônia Ocidental - NUPESDAO. E-mail: israelpolitica@gmail.com
[2] A prisão de Tiago Viana (diretor de Análises Clínicas da Secretaria de Estado de Saúde do Acre e sobrinho dos irmãos Viana) aponta positivamente para o fato de a corrupção estar presente em outros setores do governo e envolverem mais que os empreiteiros, abarcando uma gama maior e mais variada de empresários. Segundo a PF, Tiago Viana favoreceria empresas em processos de licitação pública. 
[3] Pode ser que, depois, ele ou outro consiga superar o que até aqui foi feito.