quarta-feira, 25 de abril de 2012

INDÍGENAS EXPULSAM COORDENADORA REGIONAL DA FUNAI

Desde ontem a coordenação regional da Funai em Rio Branco está interinamente ocupada pelo senhor Juan Scalia, substituto imediato da coordenadora Sra. Maria Evanizia, destituída do cargo pelos indígenas que há sete (07) dias ocupam a sede do órgão onde reivindicam principalmente a demarcação de 21 terras indígenas. Além disso reclamam do abandono nas áreas de educação e saúde.

Até o momento as negociações não avançaram quase nada. O principal entrave é que a Funai se recusa a fornecer a documentação dos processos de demarcação em curso. Segundo Juan, a coordenação precisaria de pelo menos até julho para apresentar a documentação, já que não está em órdem. Diante desta afirmação os indígenas questionaram sobre o que a Funai esteve fazendo durante os úlrimos douze anos, já que todos os processos de demarcação estão paralisados desde então.

A presidência do órgão, em brasília, primeira mente disse que não poderia vir ao Acre por falta de previsão orçamentária. A isso os indígenas disseram que pagariam as passagens. Diante desta generosa oferta dos indígenas, o discurso mudou e passou a ser "por motivos de agenda". Acontece que anteriormente, em nota, a a Funai havia dito que a questão do Acre era prioridade. A isso os indígenas responderam: "se é prioridade, porque não está na agenda?"

Ontem durante todo o dia, pessoas estranha estiveram no acampamento tentando desmobilizar e dividir. Também a imprensa tem sido utilizada para desqualificar o movimento. Ontem, em um programa de entrevista, o assessor para assuntos indígenas do Governo do Estado pautou toda a sua fala no sentido de denegrir as lideranças do movimento e enaltecer os "grandes feitos" do governo do Acre.

Mas o acampamento segue firme.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

CIMI: 40 ANOS



Quero hoje, dia 23 de abril de 2012, enquanto a Funai Regional do Acre está sob ocupação dos povos indígenas, lembrar o feliz aniversário do Cimi - as 4 letras danadas. 4 letras que já são senhoras, fazem 40 anos!! e pensar que ainda temos muito por fazer!!
 
23 de abril de 1972 surgia, em plena ditadura militar, o Cimi. Hoje, sob o julgo das mesmas repintadas ditaduras, segue com passos firmes desarticulando os canhões do preconceito, das diferentes formas (talvez novas de uma velha prática) de roubarem os territórios indígenas. Formas assumidas em PSA, REDD, manejos..., que chegam a se autodenominarem "sustentáveis".
 
Lamento que ainda seja preciso existir um organismo como o Cimi. Que bom seria se não mais fosse preciso denunciar as violações de direitos, os assassinatos, os estrupos, os suicídios por falta de perspectivas, as escolas abandonadas, a saúde na UTI, uma Funai que mais parece uma fábrica de caixões, governos mergulhados em corrupção. Mas, já que infelizmente ainda é preciso, que o Cimi siga sem jamais se curvar aos interesses de ideologias fáceis e à sedução do poder que assassina. 

Não tenho veia poética, tão pouco sou compositor. Então, faço minhas as palavras de D. Pedro Casaldáliga, expressas neste texto composto por ocasião dos 25 anos do Cimi. É tão atual que parece ter saído hoje mesmo desta mente profética.

Segue o texto:

Mesmo sendo tantos os motivos de indignação

em torno à CAUSA INDÍGENA

neste nosso Brasil e em toda nossa Abia Yala,

agora macrocolonizados pelo império neoliberal de satanás,

é hora de celebrarmos teus 25  (40) anos, querido e maltratado Cimi,

criatura do Deus dos pequenos,

sacramento da alteridade respeitada,

evangelho do Evangelho inculturado!

Tuas danadas 4 letras - C I M I,

que soam até a nome indígena de fruta ou de animal ou de ser mitológico da selva,

têm dado uma bonita batalha nesses densos 25 (40) anos...

Condenado como subversivo pelos carrascos da Segurança Nacional ou Continental, no Pretório;

perseguido acirradamente pelas udrs, as paranapanemas e as multinacionais,

acumuladoras de lucro e depredadoras da vida;

e quase excomungado, no Templo, pelos guardiães da Lei da Pureza;

tu vens sendo selado na verdade e na esperança do Reino

pelas testemunhas da Lei da Aliança:

Rodolfo, João Bosco, Vicente, Cleusa, Ezequiel...

e antes e com muito mais sangue pelos Marçais

de todas as tribos e das lutas antigas e novas.

Abertas as janelas pelo Vaticano II, mesmo sendo ainda um concílio primeiromundista

e abertas as consciências pelo concílio nativo de Medellin;

sacudida a Igreja missionária

pela profecia agnóstica dos antropólogos de Barbados

e pelas matanças da ditadura...,

não dava mais para seguir catequizando compulsoriamente.

Não se podia seguir dando cultura ocidental importada

por Evangelho supracultural e macroecumênico.

Já não era mais tolerável acompanhar Povos Indígenas inteiros

dando-lhes a unção da agonia como povos.

O Deus das Igrejas se auto-reivindicava no Deus das Aldeias.

O Verbo, que, ao se fazer carne e história, se fez palestino,


queria seguir fazendo-se carne e história, se fazendo índio.

E tu, Cimi querido e maltratado,

seria um pequeno grande “sim” providencial para essa nova Encarnação!

E nasceste, discreto, inseguro ainda, como um rebento marginal,

como um toquinho verde do Resto.

A partir da calada presença das Irmãzinhas azuis do Tapirapé

e das intuições e loucuras daqueles heróicos Iasis da primeira hora

e da entusiasmada generosidade da garotada da OPAN.

E possibilitaste as assembléias de chefes, para o reencontro das raízes;

suscitaste para a Causa militantes, assessores e jornalistas amigos;

agitaste a Igreja e a Sociedade,

anestesiadas por séculos de etnocentrismo, de colonialismo e de integração;

estimulaste a organização autônoma dos Povos Indígenas e suas federações,

multiplicaste, em parceria, os manifestos e os encontros, as denúncias e as convocações;

ajudaste a continentalizar a luta e a esperança ameríndias

e proclamaste a boa nova da Boa Nova

urgindo a Terra, a Cultura, a Autodeterminação, o Diálogo Inter-religioso

e a inculturação da Solidariedade e do Evangelho.

Por ti, “a utopia cativa” desabrochou

e o Y-Juca-Pirama (aquele que por decreto genocida devia morrer)

está vivo e resolveu crescer e ser ele e dar vida outra

e ajudar a criar um Céu Novo e uma Nova Igreja, uma Terra Nova e uma Nova Sociedade...

Por tudo isso e muito mais, querido Cimi maltratado,

apesar do sistema excluidor das diferenças e alternativas...,

é hora de celebrar mesmo este jubileu de barro cozido e de sangue militante

dos teus 25 (40) anos, tão pascais!

Bem é verdade, porém, que também é hora, jovem velho renovando Cimi,

de re-sacudir, de re-alistar, de re-inventar a utopia cativa,

de quotidianizar a causa, de ser aliança mais eficaz das novas reivindicações

dos Povos Indígenas do Brasil e do Continente.

Para glória do Deus de todos os nomes, cúmplice dos hapirús das tribus índias

e para a ressurreição esperançosa de Nossa Abia Yala.
 
 
Pedro Casaldáliga

domingo, 22 de abril de 2012

CIMI: 40 anos junto aos povos indígenas

CNBB E CIMI IRMANADOS NA DEFESA DOS POVOS INDÍGENAS




A presença da Igreja nas aldeias juntos aos povos indígenas, em uma perspectiva de solidariedade, de doação, de respeito e de generosa aceitação das culturas. Esta é a missão do Conselho Indiginista Missionário (CIMI), conforme afirmou o bispo da Prelazia de Xingu (PA) e presidente do CIMI, Dom Erwin Kräutler.

“Precisamos sensibilizar a sociedade, pois só envolvendo as pessoas com os sofrimentos desse povo vamos conseguir conscientizar que temos uma grande dívida com os povos indígenas”, afirmou o bispo.

Fundado em 1972, o CIMI celebra neste ano 40 anos de lutas a favor dos povos indígenas. De acordo com Dom Erwin o que mais marcou a luta do CIMI ao longo destes anos foi o sangue derramado de seus mártires. “Acredito que não exista uma pastoral que tenha gerado tantos mártires quanto esta. O sangue derramado dos mártires é a semente dessa luta pela ressurreição dos povos indígenas”, acrescentou.
Dom Erwin destacou que o atual cenário dos povos indígenas não é favorável à suas lutas. “A política indigenista oficial não é favorável aos povos indígenas. Lamentamos que embora os índios estejam ancorados pela lei, ela não seja respeitada”, concluiu.

(Fonte: sitio CNBB)

BELO MONTE: Revolta, incerteza e dor


Ver lá do alto a magnitude dos três canteiros de obras de Belo Monte deixa evidente o rastro de destruição que ela já está provocando.

Falar sobre Belo Monte desencadeia revolta. Falar sobre Belo Monte provoca incerteza. Falar sobre Belo Monte gera dor. Em um determinado momento, torna-se impossível falar sobre Belo Monte sem verter lágrimas. Com a voz embargada, Antonia Melo, coordenadora do Movimento Xingu Vivo para Sempre, é a personalização desse momento delicado em que vive a região de Altamira, situada no Pará, aonde está sendo erguida a terceira maior hidrelétrica do mundo, Belo Monte, atrás apenas da chinesa Três Gargantas, e Itaipu, que fica na divisa do Brasil e Paraguai.

Além de ser um dos expoentes desta luta que se arrasta por mais de 20 anos, a vida de Antonia será diretamente afetada pela obra: ela faz parte da triste estimativa de que 30 mil a 40 mil pessoas terão de deixar seus lares porque serão alagados quando as barragens estiverem em pé.

Por mais de duas horas tivemos o privilégio de conversar com Antonia e Dom Erwin Kräutler, Bispo do Xingu e Presidente do Cimi (Conselho Indigenista Missionário). Estas duas proeminentes lideranças transformaram os protestos contra Belo Monte sua razão de vida, ou mais precisamente, de sobrevivência.

Ver lá do alto a magnitude dos três canteiros de obras de Belo Monte deixa evidente o rastro de destruição que ela já está provocando. Árvores e mais árvores no chão ou jogadas no rio Xingu, madeireiras espalhadas pela obra, enormes quantidades de terra sendo removidas, um canal sendo construído, o primeiro barramento, o frenezi de inúmeros caminhões, escavadeiras, tratores.

A floresta chora. Com ela também chora seu povo, isolado, sozinho, ignorado. E Antonia enfatiza: “Estas pessoas, ao longo de todo este tempo, não receberam um benefício sequer, não tiveram um direito garantido. É o total abandono.”

O silêncio do governo Dilma Rousseff é contundente. Tem se omitido por não ter realizado as oitivas indígenas nas aldeias impactadas e ignora as críticas que tem sofrido de organismos internacionais. Brasília já foi interpelada pela OIT (Organização Internacional do Trabalho); pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos, que faz parte da OEA (Organização dos Estados Americanos), e também pelo MPF (Ministério Público Federal).

O CCBM (Consórcio Construtor Belo Monte) e os burocratas do setor elétrico da capital federal adotam uma postura típica da época nos anos de chumbo da ditadura militar, na avaliação de Dom Erwin e Antonia. Ou seja, não há diálogo com os movimentos sociais e com os atingidos. “O que há é um monólogo. Os indígenas estão sendo esquecidos neste processo, assim como os ribeirinhos, os quilombolas, os extrativistas, os moradores das cidades do entorno˜, critica o bispo.

E o presidente do Cimi vai mais longe: a estratégia dos responsáveis pela construção da usina é deixar de informar o povo, criar uma certa expectativa de que as coisas serão feitas. Com isso, o objetivo é cortar a resistência. Matar pelo cansaço. Tal expediente tem dado resultado. O próprio Dom Erwin se viu obrigado a afastar-se de algumas pessoas pois foram cooptadas. Acabaram mudando de lado. Quase toda casa de Altamira tem alguém direta ou indiretamente ligado à construção de Belo Monte.

Delicada também é a situação das condicionantes ambientais e sociais que deveriam estar sendo cumpridas pelo construtor. Chegam a ser mais de 100, entre as licenças prévia, provisória e de instalação. De acordo com Antonia, “até o momento, nenhuma condicionante saiu do papel para o povo. O que tem saído são convênios entre prefeituras, como se fosse uma moeda de troca. Mas para o povo, nada.”

Enquanto a obra vai sendo erguida rapidamente, os impactos sociais já estão sendo sentidos. Prevê-se que em três anos a população passará dos atuais 109 mil habitantes para 200 mil. Altamira vive o boom da construção civil, e assim, a extração de areia no Xingu não para. Está caro e difícil encontrar um pedreiro.

Tal migração tem inflacionado os preços dos imóveis e até da comida. Está muito caro comer e morar em Altamira. A população sofre com a falta de hospitais e escolas. Saneamento básico é artigo de luxo e doenças como diarreias e verminoses se alastram.

O discurso dominante que foi montado para justificar Belo Monte é de que ela levaria desenvolvimento regional, que a Transamazônica seria asfaltada, que finalmente Altamira teria uma infraestrutura à altura das necessidades de seus habitantes. “Onde está esse desenvolvimento que eu não vejo?”, questiona Dom Erwin. “Na minha concepção, desenvolvimento é colocar o ser humano no centro da questão. E isto não está acontecendo aqui”, observa.

Paulatinamente, os conflitos vão se acirrando. Dom Erwin saia da Prelazia apenas com seus guarda-costas. Antonia, o jornalista Ruy Sposati – que tem sido ameaçado e perseguido – e mais outras duas pessoas do Movimento Xingu Vivo para Sempre estão proibidas de se aproximarem dos canteiros.

A ação de interdito proibitório concedida pela justiça do Pará ao CCBM estabelece que os quatro estão sujeitos a receber uma multa de 100 mil reais caso causem “qualquer moléstia à posse.” Esta reação aconteceu após uma greve de 7 mil funcionários da usina no fim de março. Na acusação dos advogados de Belo Monte, eles incitaram a paralisação.

Entretanto, o estado se faz presente somente por meio do emprego da força e da repressão. Os idealizadores da usina exigem que a Força Nacional de Segurança e a Polícia Militar garantam a proteção das obras e dos funcionários. “Nosso direito de ir e vir está sendo violado”, resume Dom Erwin.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

INDIOS DO ACRE DIZEM NÃO AO REDD

Durante as manifestações que tem ocorrido desde o último dia 17, várias faixas e cartazes foram empunhados pelos indígenas, todos alusivos às suas reivindicações. Uma pequena faixa porém, chamava particularmente a atenção. É essa que aparece aí nesta foto vinculada na internet onde se lê claramente "OS POVOS INDÍGENAS DIZEM NÃO AO REDD".

A faixa chama especialmente a atenção pelo fato dos índios estarem reivindicando principalmente a demarcação de suas terras. Por isso mesmo, os mecanismos de pagamentos por serviços ambientais previstos na inconstitucional lei 2308/10 do Estado do Acre e no mecanismo de REDD, são inaplicáveis a estes povos. Cai por terra, então, o velho discurso do Governo do Acre e suas ONGs de que a questão indígena no Acre é apenas de gestão. De outro lado a mentirosa e enganadora tese de que os índios vivem no tempo dos direitos também é desmascarada.

Lamentavelmente enquanto os índios estavam acampados na Funai para reivindicar seus direitos, o Governo (sem o governador que preferiu ir para a Itália) realizava com suas ONGs eventos propagandiosos para falar de "amenidades" numa atitude do tipo : o rei está nú e precisamos cobrí-lo.

Um dia do índio de vergonha e muita tristeza.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

INDIGENAS CERCAM O PALÁCIO RIO BRANCO, SEDE DO PODER EXECUTIVO DO ESTADO DO ACRE

Cerca de 150 lideranças indígenas de 10 povos do Acre estão neste momento cercando o palácio Rio Branco, sede do poder executivo estadul. A manifestação tem por objetivo externar ao governo do Estado o descontentamento destes povos em relação às ações do governo. Chama a atenção o descontentamento dos indígenas  em relação à lei 2308/10 que criou o Sistema Estadual de Serviços Ambientais (SISA). A lei, segundo os indígenas, foi criada sem que a comunidades fosse ouvida e nela estão as mais diversas formas de ingerência do governo e de empresas nas terras indígenas, principalmente através de contratos de carbono como o REDD.

Antes de se dirigirem à sede do poder executrivo, os indígenas foram ao ministério Publico Federal onde foram recebidos pelo Dr. Paulo Henrique, procurador federal. Na ocasião protocolaram um documento com as principais reivindicações e pediram providências quanto as constantes ameaças de morte que vem sofrendo incluindo duas lideranças do povo Jaminawa, sendo que a ameaça ao sr.João Pedro Jaminawa já foi objeto de denúncia por este blog.

Com falas duras, as lideranças teceram criticas à Funai a qual acusaram de inoperância e de trabalhar mais para satisfazer as suas próprias vontades que para solucionar os problemas dos indios, especialmente os ligados à terra. pediram para que o MPF determine que a Funai retome os processos de demarcação e, finalmente, cumpra com suas obrigações. A este respeito o procurador informou que amanhão, às 11:00 terá uma reunião com a coordenação da Funai e que vai esternar as vontades e desejos dos povos indígenas.

Mesmo com a saída de 150 lideranças, a funai não foi e não será desocupada até que as autoridades cumpram com suas obrigações, declararam as lideranças que deixaram cerca de 50 pessoas na sede da Funai por medida de segurança e voltarão para lá, na Funai, ao anoitecer.