segunda-feira, 19 de abril de 2021

COMO CANTAR EM TERRA ESTRANHA? 19 de abril de 2021

 

Lindomar Dias Padilha[1]

... pois aqueles que nos levaram  cativos nos pediam

 para entoar belas canções,  e os nossos opressores,

 que fôssemos alegres, exclamando:

“Entoai-nos algum dos cânticos de Sião!”

Como, porém, haveríamos de cantar as

Canções do Eterno numa terra estranha?

(Salmo 137)

 

            Lembrei-me deste Salmo quando um amigo repórter pediu que eu falasse sobre a situação dos povos indígenas no Acre, neste dia 19 de abril (dia do índio) de 2021 considerando o contexto de pandemia. Os povos indígenas, mesmo após 1521 anos de invasão oficial de seus territórios, ainda vivem como estrangeiros em sua própria terra e seguem assistindo os seus territórios sendo espoliados e seus direitos negados. Claro que sei que mesmo o governo Federal tomou como aceitável que os indígenas fossem considerados entre os grupos prioritários, até mesmo para o processo de vacinação. Entretanto, os povos originários são vítimas frequentes de desinformação, e é neste ponto que pretendo concentrar o meu parecer e minhas críticas.

            Os povos e comunidades são vítimas constantes de prosélitos dos mais diversos e variados grupos. De um lado, há o proselitismo religioso, especialmente advindo de religiões fundamentalistas ditas cristãs. Porém temos que considerar o proselitismo de outras religiões, como por exemplo, as que se baseiam no espiritismo culturalista, que são aquelas religiões que utilizam aspectos da própria cultura indígena como o uso de chás e ervas com destaque para as que fazem uso do chá da Chacrona e do Mariri, ou Caapi, conhecido como ayahuasca[2]. O proselitismo religioso é desrespeitoso para como os povos e culturas originários deste o início da invasão, mesmo que em alguns momentos da história esse proselitismo tenha se apresentado como forma de acorrer estes povos.

            Mais recentemente, notamos um grande crescimento do proselitismo político/ideológico, especialmente com o acirramento entre ideologias que tendem aos extremos do que chamamos de “direita e esquerda[3]”.  Os povos e comunidades estão sendo bombardeados com falsas notícias vindas de ambos os lados. Isso se dá, por exemplo, na implantação de projetos do tipo REDD+[4] e REM[5] onde as comunidades não são ouvidas, mas recebem informações falsas de que estes projetos são efetivamente a remissão econômico-financeira para estes povos e comunidades. Mais uma vez os espoliadores e saqueadores se apresentam como santos portadores da “boa nova” em um contexto quase bíblico/salvífico. Esse tipo de proselitismo ocorre ábdito das autoridades que deveriam fiscalizar a atuação desses prosélitos em terras indígenas. Como isso se dá, por exemplo, no contexto das vacinas? , me perguntaria você.

            O governo Federal e seus seguidores obscurantistas divulgam informações falsas para quebrantar o interesse desses povos no caso da aceitação da vacina. Frases como a já muito conhecida dita pelo próprio presidente da República “se você virar um jacaré, é problema seu”, procuram atuar justamente no campo do imaginário e, sim, podem levar à recusa em receber a vacina. Por outro lado, vimos prosélitos adeptos do culturalismo religioso incentivando esses povos a seguirem ou a adotarem o uso de substâncias já existentes entre os povos como maneira de prevenir e tratar a doença decorrente da contaminação pelo novo Coronavírus. É o caso, por exemplo, do incentivo ao uso do chá da quina, muito utilizado por essas populações no tratamento da malária associando-o a outras substâncias naturais, até mesmo a ayahuasca. No Acre temos até comunidade se recusando a fornecer informações sobre casos de contaminação ludibriados de que se tratam sozinhos e que não registraram nenhum caso. Infelizmente  parte da mídia segue divulgando este tipo de suposta notícia sem contudo checar sua veracidade.

            Como dizia Antônio Prates: “O fanatismo e a inteligência nunca moraram na mesma casa”. Esta frase explica parcialmente o que tenho dito sobre a atuação dos radicais de direita e de esquerda que atuam nas comunidades indígenas. Tem instituições atuando em favor dos dois extremos e, infelizmente algumas são até tidas como indigenistas. Considero natural que uma pessoa, mesmo ligada a alguma instituição indigenista, tenha preferências políticas. Eu mesmo tenho as minhas. O que considero grave é o proselitismo em favor de uma ou de outra ideologia e mesmo em favor de algum partido político específico. Na história dos povos originários não existe, apenas exemplificando, Lulopetistas versus Bolsonaristas, direita versus esquerda ou qualquer outro tipo de radicalismo ignorante e divisionista. O que existe é o Estado Brasileiro que nasce justamente da espoliação e roubo dos territórios destes povos originários versus estes povos e seus direitos. Portanto, o Estado brasileiro sempre atuará se não contra, pelo menos com desconfiança em relação aos povos originários, seja este Estado governado por quem quer que seja e sob o julgo de qualquer ideologia. Observar a realidade e tentar intervir nesta apenas com um olhar obscurecido pelas eleições gerais previstas para 2022 é seguir condenando essas populações às desinformações e negando-lhes o direito a autodeterminação.

            A Constituição brasileira, em seu artigo 231 reafirma o respeito aos direitos desses povos quando diz: “São reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam...”. Reconhecer aos indígenas sua organização social, crenças, línguas e tradições, é reconhecer que o proselitismo de qualquer natureza fere esses direitos, tanto mais se acompanhado de ideologias radicais como o que temos assistido nestes tempos cabulosos em que vivemos. Neste contexto, as organizações indígenas e indigenistas, públicas ou da sociedade civil, deveriam construir seu foco de atuação na garantia desses direitos constitucionais e na fiscalização do cumprimento das obrigações do Estado brasileiro para com esses povos. Considero sempre bom trazer exemplos que possam ilustrar melhor o que digo. Vejamos:

            O controle da pandemia, incluindo a vacinação dos povos indígenas, está sob a responsabilidade da SESAI[6]- Secretaria Especial de Saúde Indígena, naturalmente em colaboração e sob fiscalização da Funai – Fundação Nacional do Índio e do MPF – Ministério Público Federal. Ocorre que nem a Funai e nem o MPF contam com servidores preparados e em número suficiente para realizar tal acompanhamento. Por outro lado, as organizações da sociedade civil, estão proibidas ou pelo menos com muita dificuldade para se fazerem presentes nas comunidades e contribuir adequadamente, tanto na fiscalização e denúncias de eventuais práticas irregulares e mesmo omissões, como na orientação adequada e no combate às notícias e informações mentirosas. Isso sem contar que muitas dessas organizações, como já o disse, estão mais a serviço de ideologias que mesmo dos direitos e interesses dos povos. Esse conjunto de fatores traz muita incerteza sobre o que está acontecendo de fato e como estes povos e comunidades estão efetivamente sentindo os efeitos da pandemia.

            Com base em informações incertas e inseguras de que os povos indígenas estão se recusando, em larga medida, a tomarem a vacina, muitas prefeituras no Acre já estão pedindo o remanejamento de parte das doses de vacinas destinadas aos povos indígenas para outros grupos, como os trabalhadores em segurança pública. Esta constatação demonstra claramente o que a desinformação ou informação incompleta pode acarretar nas comunidades. Admitir que os povos indígenas estejam se recusando a se vacinar por causa de mentiras como a de que poderão virar jacaré, é também e ao mesmo tempo, não reconhecer nesses povos a capacidade de discernirem. É não reconhecer que estes povos são plenamente capazes e que a eles são reconhecidos os direitos às suas organizações sociais, crenças, línguas e tradições. Entre os oportunistas de direita e de esquerda, estão os povos com seu modo de enxergar e de se autodeterminarem. Neste momento, cabe às instituições realmente sérias, zelar para que as informações cheguem de forma correta, esclarecedora e, claro, que sejam verdadeiras.

            Nenhuma instituição sabe dizer ao certo o que realmente está acontecendo nas comunidades. As informações são sempre vagas e incompletas por um lado. Por outro, não há uma fiscalização adequada capaz de reagir a eventuais práticas nocivas e mesmo às mentiras e desinformações deliberadas. Creio que demorará muitos anos para que possamos realmente saber o está de fato acontecendo neste momento. Pesquisadores terão ainda que realizar muitos estudos e pesquisas para se aproximarem da verdade do que está ocorrendo. Creio que demoraremos algo em torno de uns sete a oito anos, isso se conseguirmos superar o divisionismo político/ideológico, sempre obscurantista.

            Eu poderia citar aqui números de casos e mesmo de mortos por causa de complicações da Covid divulgados oficialmente ou por ONGs, mas seriam sempre apenas casos, números e ainda assim, subnotificados. A Covid entre as populações indígenas é muito mais grave que supõem as autoridades. Os casos de morte são muito maiores que os informados, no dia de hoje, por exemplo, o Cimi registrou que lamentavelmente ultrapassamos 2.500 casos tendo sido mais de 47 casos fatais[7]. Além das inúmeras mortes evitáveis, outras consequências decorrentes da pandemia parecem-me que não estão sendo consideradas. Constatamos um aumento e consequente agravamento do uso abusivo de substâncias como álcool e gasolina entre alguns desses povos. Constatamos ainda o aumento dos casos de suicídios. Suicídios à letra ou por descaso com a própria vida, como em vários casos de afogamento registrados como sendo em decorrência de embriaguez. Grave também é a constatação de casos de suicídios ocorridos em povos onde nunca fora registrada tal prática. Cresceram também os registros de aumento de violências intracomunitárias e o sentimento de impotência frente ao descaso das autoridades.

            Que este 19 de abril sirva para que, pelo menos, possamos avaliar nossa atuação em relação aos povos originários que, deste o início da invasão, foram impedidos de se autodenominarem como Apolima-Arara, Huni Kui, Xixinawa, Sharanawa (...) e outros tantos. Além de verem seus territórios espoliados e seus direitos negligenciados, para falar o mínimo, ainda hoje vêm seus direitos aos territórios e a autoafirmação negados sob pretexto de serem menos, inferiores e até incapazes.

Ou superamos todos esses preconceitos e conceitos incorretos e nos mobilizemos para que os direitos dos povos originários sejam efetivados e respeitados, ou seguiremos escrevendo lamentos sobre a sorte (má sorte) desses povos por vários 19 de abril. Quero que o 19 de abril seja o dia do grito de liberdade preso nas gargantas de mulheres e homens, de todas as raças, crenças e opções sexuais, juntando seus gritos aos dos povos originários e, assim, faremos juntos a festa da libertação, a festa do que poderemos finalmente chamar de humanidade. Parabéns aos povos indígenas, não apenas por este dia, mas por nos ensinarem a resistência e a crença, que é certeza, de que haverá um novo dia apesar destes tempos absconsos e estranhos!



[1] Filósofo, Indigenista, mestre em direito, especialista em Desenvolvimento Social no Campo: Povos Indígenas, Quilombolas e Comunidades Tradicionais.

[2] bebida alucinógena preparada com o caule do caapi ( Banisteriopsis caapi ) e folhas de chacrona ( Psychotria viridis ), us. ritualmente por populações amazônicas e milhares de adeptos de diversas seitas em todo o Brasil e no exterior; auasca, daime, iagê, mariri, uasca.

[3] Durante o processo revolucionário começado em 1789, na França, os girondinos, considerados mais moderados e conciliadores, ocupavam o lado direito da Assembleia Nacional Constituinte, enquanto os jacobinos, mais radicais e exaltados, ocupavam o lado esquerdo. Essa é a origem da nomenclatura política que categoriza os posicionamentos políticos no interior dos sistemas políticos contemporâneos. Essa polarização tem suscitado inúmeros problemas e demasiadas polêmicas, sobretudo porque, a partir do século XIX, houve uma radicalização ideológica tanto de um lado quanto do outro. O desenvolvimento das ideias de autores considerados de direita, como Donoso Cortez e Charles Maurras, bem como o daqueles considerados de esquerda, como Karl Marx e Bakunin, entre outros, estimulou gerações de intelectuais, movimentos políticos e ativistas que levaram às últimas consequências a crença em sua ideologia. (cf: https://brasilescola.uol.com.br/politica/direita-esquerda.htm)

[4] REDD significa Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação. Alterado para REDD+ ou REDD-plus, o conceito inclui conservação de florestas, manejo florestal sustentável e o carbono que possa ser armazenado por “reflorestamento”, inclusive através de plantações industriais de árvores. Apesar de estar diretamente relacionado às florestas e ao desmatamento tropical, o REDD+ está sendo debatido pela ONU no âmbito da Convenção sobre Mudança do Clima (UNFCCC) e considerado pelos países do Norte como uma opção importante para que eles “reduzam” as emissões de carbono pagando a alguém para fazer a redução real por eles, e é considerado pelos países do Sul como uma oportunidade de obter dinheiro para a conservação da floresta. Os projetos-piloto de REDD+ mostram claramente que o mecanismo é uma mais uma grave ameaça para as populações florestais. (cf: https://wrm.org.uy/pt/navegue-por-tema/mercantilizacao-da-natureza/redd-3/)

[5] O relatório REDD Early Movers (REM) no Acre, Brasil compara a promessa da redução das emissões de carbono causadas pelo desmatamento mediante incentivos financeiros com a implementação de medidas REDD+ no âmbito do programa REM (REDD Early Movers) no Brasil. Faça o download do relatorio em pdf em : (https://wrm.org.uy/pt/outras-informacoes-relevantes/redd-early-movers-rem-no-acre-brasil/).

[6] A Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI) é responsável por coordenar e executar a Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas e todo o processo de gestão do Subsistema de Atenção à Saúde Indígena (SasiSUS) no Sistema Único de Saúde (SUS). (cf: https://antigo.saude.gov.br/saude-indigena/sobre-a-sesai).

[7] O Cimi, Regional Amazônia Ocidental, registra os casos ocorridos não apenas entre os indígenas aldeados, mas todas as mortes informadas.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Nada é tão ruim que não possa piorar: o drama dos Jaminawa em Sena Madureira - Acre

 

Zé Correia, líder Jaminawa e esposa
Foto Lindomar Padilha


Fiz esta foto no sábado quando fui à sena Madureira prestar solidariedade e levar alguma ajuda. Fomos eu e Rose como equipe do CIMI. Tudo me pareceu muito sintomático a começar pela ironia de "a FUNAI estar também indo por água abaixo". Irônico porque agora foi meio que literal, já que na prática a estrutura oferecida pela FUNAI sempre foi mínima e acompanho há anos a luta dos indígenas por melhor assistência, incluindo aí a angústia do seu Zé Correia que além de principal liderança do povo Jaminawa é o único representante da FUNAI na região. Até hoje o representante da FUNAI, administrador regional Purus, se quer esteve na região para pelo menos ver a situação.

Não bastasse a falta de estrutura da FUNAI, até hoje não chegou uma única dose da vacina contra a Covid 19 para a vacinação dos indígenas. Também não temos uma explicação clara da SESAI para tamanho atraso. Pois bem, sem FUNAI, sem vacina e debaixo d'agua. O problema da alagação não está apenas na cidade. Praticamente todas as aldeias do povo Jaminawa foram destruídas pela enchente. Perderam tudo incluindo os roçados. Não podemos nos esquecer que o território não está demarcado e se encontra invadido quase que totalmente. Sem assistência adequada, sem território demarcado, sem condições de caça, sem as plantações ... Muito difícil!

Não há abrigo exclusivo para os indígenas que se encontram espalhados pelos diversos abrigos disponibilizados pela prefeitura. Embora sem abrigos exclusivos foram acolhidos , na medida do possível estão recebendo amparo. A paróquia disponibilizou sua cozinha para que fossem cozidas lá as marmitas que estão sendo oferecidas. Deixamos lá os alimentos que levamos para contribuir. Quer dizer, problemas existem e não são poucos. Porém, dadas as circunstâncias, estão sendo acolhidos. O descaso não é de hoje! A situação chegou neste ponto porque o poder público nunca deu a atenção devida.

Se os indígenas não podem mudar suas aldeias para as terras mais altas é porque elas estão invadidas e as melhores terras estão nas mãos dos invasores. Enquanto isso a FUNAI simplesmente não dá continuidade ao processo de demarcação para a necessária extrusão e retirada dos invasores. Os processos demarcatórios estão paralisados há mais de 20 anos e com o atual governo, dificilmente serão retomados, ao contrário, sofrerão regressões. Isso serve como incentivo aos invasores e a todos aqueles que veem nos povos indígenas uma espécie de estorvo.


Foto: Lindomar Padilha
Há algumas semanas fizemos a entrega de ferramentas para os Jaminawa que moram na terra indígena Mamoadade, que é compartilhada com o povo Machineri, justamente para que pudessem construir suas casas em local mais apropriado segundo os interesses e necessidades do povo. As autoridades precisam se antecipar aos problemas e adotar políticas preventivas e transparentes. Não posso deixar de lembrar que milhões de EUROS foram repassados ao governo do Acre por meio do acorde e projeto de REDD+, REM, da parte do governo alemão banco nacional de desenvolvimento daquele país, o KFW, destinado em grande parte às comunidades indígenas. A pergunta necessária é: onde todo este dinheiro foi gasto? Porque não apresentaram um projeto que pudesse efetivamente contribuir com as comunidades de forma mais sustentada?  O fato é que não se constroem projetos junto com as comunidades. São sempre projetos para favorecer um determinado grupo a partir de interesses alheios às comunidades.

Ora, sem terem seus territórios demarcados, sem conseguirem construir suas casas e aldeias em terras altas, sempre viverão com a ameaça de alagações e perdas das plantações. Veja que situação estão vivendo: Para o governo alemão, para a Europa e para o mundo, eles estão sendo beneficiados pelos projetos de REDD/REM do Acre, mas não estão. Em pleno surto de dengue, em plena pandemia de Corona Virus ainda estão sem nenhuma vacina se quer, sem seus territórios e sob uma das maiores alagações, sem o amparo das instituições que deveriam zelar por dever de ofício, seguem resistindo e insistindo para fazer valer os seus direitos.

Como dissemos, nada é tão ruim que não possa piorar. Na nossa analise, este ano, no pós alagação, a situação vai piorar e muito porque após as águas baixarem, aparecerão diversas e graves doenças contagiosas além de verminoses e diarreias principalmente infantis. Além de tudo, como as plantações foram destruídas, estarão sem condição se quer de se alimentarem. Sem plantações, sem colheitas. Sem colheitas, sem comida. Como deverão retornar às aldeias após o recuo das águas, provavelmente serão esquecidos e até mesmo as cestas básicas tendem a desaparecer ou pelo menos diminuirão muito. 

A situação é grave e exige um planejamento muito mais a longo prazo. É preciso que as instituições se unam e construam, junto com os povos, um cronograma de ações que possam pelo menos minimizar os sofrimentos de agora e no futuro.

Foto: Lindomar Padilha


segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Nota Pública do Povo Tembé-Theneteraha

 Nota Pública do Povo Tembé-Theneteraha

O coração do povo Tembé-Tenetehara sangra com o brutal assassinato do nosso jovem guerreiro Isac Tembé. A bala que lhe tirou a vida, com apenas 24 anos, atingiu a todos que desde tempos imemoriais habitamos essa terra e fazemos a permanente defesa da floresta e de nossos saberes tradicionais.

O jovem Isac foi executado a tiros por policiais militares na noite da última sexta-feira, 12. Ele saiu para caçar depois de um dia de trabalho na construção de sua casinha para morar com sua família. Perguntamos: por que esses agentes da segurança pública servem de milícia privada para fazendeiros que invadem terra indígenas? Por que chegaram atirando contra nossos jovens, filhos, netos e sobrinhos, que caçavam, prática que faz parte da cultura de nosso povo?

A Polícia Militar assassinou duas vezes Isac Tembé: mataram seu corpo e tentam matar sua memória quando atacam a índole de nosso jovem guerreiro e liderança exemplar.

Isac era um cidadão honrado, professor de história, atuante na comunidade e na organização da juventude. Sua esposa está grávida e em breve dará à luz a mais uma criança Tembé, garantia da continuidade deste povo originário. Jamais se envolveu em qualquer ato ilícito e nunca em sua vida portou ou disparou uma arma de fogo.

Por isso, repudiamos como mentirosa a versão dos policiais militares, que alegam ter reagido a uma agressão a tiros. Somos um povo da alegria e da festa; um povo pacífico, ordeiro e cumpridor da lei. Exigimos das autoridades uma apuração rápida, transparente e rigorosa, a fim de identificar e punir os responsáveis por esse crime.

Nosso território sofre diariamente invasões e ataques por parte de exploradores ilegais de madeira ou de fazendeiros que insistem em manter a ocupação de partes da Terra Indígena Alto Rio Guama, através de cabeças de gado e de outras atividades econômicas.

Há décadas lutamos contra essa violência e não vamos parar até que nenhum metro de nossa terra esteja ilegalmente ocupado. Não temos medo. A Constituição Federal protege nossos direitos e o Estado brasileiro precisa fazer cumprir o que manda a Lei maior.

Apelamos às autoridades do Brasil e do mundo para que não nos deixem sós!

Exigimos que Funai, MPF, Polícia Federal e todos os órgãos competentes venham até o nosso território e vejam o que passamos.

Exigimos perícia no local do ocorrido. Exigimos resposta urgente pois não vamos nos calar e deixar que esse crime permaneça impune.

Que a memória viva de Isac Tembé fortaleça nossa caminhada. Que o espírito dos nossos ancestrais guie o povo Tembé-Tenetehara em sua luta em favor da vida.

Convocamos a imprensa e as autoridades para uma reunião pública, nesta segunda (15), às 10 horas, na aldeia São Pedro, Terra Indígena Alto Rio Guama, ocasião em que o povo Tembé decidirá o caminho da luta em busca de justiça.

Exigimos justiça!

Punição dos assassinos e mandantes da morte de Isac Tembé !
 

Terra Indígena Alto Rio Guama, 14 de fevereiro de 2021.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

Morre Fernando Katukina

 Faleceu nesta madrugada (por volta das 03:30 horas), Fernando Rosas Katukina, cacique geral do povo Katukina da BR, Katukina do Campinas. Fernando faleceu aos 56 anos vítima de complicações pelo diabetes. Acompanhei toda a luta pela mitigação dos danos causados à comunidade por causa da pavimentação da BR 364, e o Fernando foi o principal articulador do povo Katukina.

Meu amigo pessoal, Fernando deixa saudades e a ele sou grato pelo acolhimento junto a seu povo desde 1998. Aos familiares minhas condolências. Vá em paz Fernando!


Lindomar Padilha

segunda-feira, 30 de novembro de 2020

Lideranças indígenas de povos que serão afetados pela estrada CZS /Pucallpa se reúnem para exigir consulta

 

Foto Dom Flávio

Na terça, dia 24 de novembro, lideranças dos povos Nawa, Apolima-Arara, Nukini e Katukina, se reuniram no salão paroquial da Catedral Nossa Senhora da Glória em Cruzeiro do Sul para exigirem que seja feita a consulta prévia, livre e informada, conforme determina a convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho - OIT, no que se refere ao projeto de construção da estrada ligando Cruzeiro do Sul no Acre à Pucallpa, no Peru.

As lideranças disseram que já estão cansadas de verem seus direitos desrespeitados, especialmente o direito à consulta. Não foram consultados por ocasião da pavimentação da BR 364, não foram consultados sobre a exploração de petróleo e gás, não foram consultados sobre a exploração mineral, não foram consultados para a implantação dos projetos de REDD/REM e agora não fora consultados sobre a construção da estrada. Enquanto os povos e comunidades não são consultados, as autoridades já realizaram diversas reuniões com empresários e outros interessados em que a estrada seja efetivamente construída.

Cumprindo todos os protocolos sanitários, a reunião foi um marco na articulação entre povos, tanto os que vivem em território brasileiro, quanto os que vivem do lado peruano. Os povos que moram no Peru também não foram consultados e alegam que a estrada, se de fato for construída, trará impactos irreversíveis tanto para a fauna e flora, quanto para as pessoas. A mesma  leitura fazem os brasileiros.


Por este mapa, podemos notar que não se trata apenas de uma estrada, mas de três. Sendo uma ligando ao Rio Amônia, no município de Marechal Thaumaturgo, outra ligando ao  Rio Breu, além, claro, da que lugará Cruzeiro do Sul.. Os indígenas estão preocupados porque as estradas facilitarão a invasão dos territórios, inclusive de povos em situação de isolamento, a o roubo de madeira e até mesmo o tráfico de drogas. Além do mais, uma estrada nunca chega sozinha. ela sempre traz forasteiros que vão se estabelecendo em suas margens e com isso, aumenta o impacto e as pressões sobre os territórios.

Mesmo não se posicionando totalmente contrários a construção das estradas, os indígenas, juntos com o Ministério Público Federal, exigirão que sejam realizadas consultas e que sejam cumpridos todos os requisitos legais exigidos. O que não se pode aceitar é que empreendimentos continuem sendo realizados sem que se considerem a existência desses povos e sem que sejam devidamente realizados os estudos de impactos. 

Outros encontros serão realizados e os povos construirão seus protocolos de consulta. Afinal, se as estradas trazem desenvolvimento, a que se perguntar: para quem?


quinta-feira, 12 de novembro de 2020

O povo Madija pede mais que justiça, exige vida plena.



Este vídeo, que é uma produção do Cimi do Acre, reflete  lamentavelmente uma realidade de dor e sofrimento de um povo que se vê à beira do desespero e, ainda mais grave, os governos com seus projetos de desenvolvimento, falsas soluções, tipo REDD,  seguem alimentando  o extermínio e o assassinato dessa gente que é " gente verdadeira", MADJÀ! Será que não doem os corações de governos e ONGs que defendem o REDD e o REM no Acre ou em qualquer lugar no mundo?

Este blog sabe que representa uma fatia mínima daquelas e daqueles que sonham com dias melhores. Ainda assim, quero e preciso, me manifestar em favor desta causa. Reafirmo: NÃO AO REDD E NÃO AOS PROJETOS DESENVOLVIMENTISATAS!

Acrescimo em 18/11/2020:

Algumas pessoas e instituições que defendem os projetos de REDD e REM no Acre, e que trabalham e recebem seus salários com recursos  vindos justamente desses projetos, questionaram a relação entre os projetos de REDD e o descaso narrado pelo povo Madjá. A relação é óbvia: O Banco de Desenvolvimento da Alemanha (KFW) e outros, enviaram milhões ao Acre com a promessa de que esse recurso chegaria nas comunidades. A pergunta é simples: se esses milhões realmente fossem destinados aos povos indígenas a situação estaria tão ruim? Porque os defensores de projetos tipo REDD não abrem mão de seus gordos salários e lucros para realmente ajudarem os povos e comunidades? Como pode ter recursos para bancar festas e torneios nas comunidades, politiqueiramente, e não os ter para cuidar do povo?