terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Para que nunca nos esqueçamos de onde surgiu a luta contra a AMACRO

 

Carta do Acre - Em defesa da vida, da integridade dos povos e de seus territórios e contra o REDD e a mercantilização da natureza.

Rio Branco, Acre, 07 de outubro de 2011.

Estivemos reunidos em Rio Branco - AC, entre os dias 3 a 7 de outubro de 2011 na Oficina: Serviços Ambientais, REDD e Fundos Verdes do BNDES: Salvação da Amazônia ou Armadilha do Capitalismo Verde?

Estávamos presentes, organizações socioambientais, de trabalhadoras e trabalhadores da agricultura familiar, organizações de Resex e Assentamentos Extrativistas, de direitos humanos (nacionais e internacionais), organizações indígenas, organizações de mulheres, pastorais sociais, professores, estudantes e pessoas da sociedade civil comprometidas com a luta “dos de baixo”.

Percebemos a formação de um consenso em torno da ideia de que, desde 1999, com a eleição do governo da Frente Popular do Acre (FPA), foram tomadas iniciativas para a implantação de um “novo modelo” de desenvolvimento. Desde então, tal modelo é celebrado como primor de harmonia entre desenvolvimento econômico e conservação da floresta, de seus bens naturais e do modo de vida de seus habitantes. Com forte apoio dos meios de comunicação , de sindicatos, de ONGs promotoras do capitalismo verde na região amazônica, de bancos multilaterais, de oligarquias locais, de organizações internacionais, ele é apresentado como “modelo exitoso” a ser seguido por outras regiões do Brasil e do mundo.

Nesses dias, tivemos oportunidade de conhecer, em campo, algumas iniciativas tidas como referência no Acre. Vimos de perto os impactos sociais e ambientais do “desenvolvimento sustentável” em curso no estado. Visitamos o Projeto de Assentamento Agroextrativista Chico Mendes, Fábrica de Preservativos NATEX e o Seringal São Bernardo (Projeto de Manejo Florestal Sustentável das Fazendas Ranchão I e II). As visitas nos colocaram diante de um cenário bastante distinto daquilo que é propagandeado nacional e internacionalmente.

No Seringal São Bernardo, pudemos constatar que o atendimento dos interesses das madeireiras se faz em detrimento dos interesses das populações locais e da conservação da natureza. Mesmo as questionáveis regras dos planos de manejo são desrespeitadas e, segundo dizem os moradores, com conivência de gestores estatais. No caso do Projeto de Assentamento Agroextrativista Chico Mendes Cachoeira (em Xapuri), constatamos que os moradores continuam subjugados ao domínio monopolista, atualmente vendem a madeira para a empresa “Laminados Triunfo” a R$90,00 m3, quando a mesma quantidade de madeira chega a valer até R$1200 na cidade. Por isso, endossamos a reivindicação de diversas comunidades pela suspensão dos famigerados projetos de manejo. Solicitamos a apuração de todas as irregularidades e exigimos a punição dos culpados pela destruição criminosa dos bens naturais.

Os dias em que tivemos reunidos foram dedicados ainda ao estudo sobre Serviços Ambientais, REDD e Fundos Verdes do BNDES. Compreendemos o papel dos Bancos (Banco Mundial, FMI, BID e BNDES), ONG´s comprometidas com o capitalismo verde, tais como WWF, TNC e CI; bem como o papel de outras instituições como ITTO, FSC e USAID, setores da sociedade civil e Governos Estadual e Federal que têm se aliado ao capital internacional na intenção de mercantilizar o patrimônio natural da Amazônia.

Ressaltamos que, além de desprovida de amparo constitucional, a Lei N° 2.308, de 22 de outubro de 2010, que regulamenta o Sistema Estadual de Incentivo a Serviços Ambientais foi criada sem o devido debate com os setores da sociedade diretamente impactados por ela, isto é, os homens e mulheres dos campos e floresta. Reproduzindo servilmente os argumentos dos países centrais, os gestores estatais locais a apresentam como uma forma eficaz de contribuir com o equilíbrio do clima, proteger a floresta e melhorar a qualidade de vida daqueles que nela habitam. Deve-se dizer, entretanto, que a referida lei gera “ativos ambientais” para negociar os bens naturais no mercado de "serviços ambientais", como o mercado de carbono . Trata-se de um desdobramento da atual fase do capitalismo cujos defensores, no intuito de assegurar sua reprodução ampliada, lançam mão do discurso ambiental para mercantilizar a vida, privatizar a natureza e espoliar as populações do campo e da cidade. Pela lei, a beleza natural, a polinização de insetos, a regulação de chuvas, a cultura, os valores espirituais, os saberes tradicionais, a água, plantas e até o próprio imaginário popular, tudo passa a ser mercadoria. A atual proposta de modificação do Código Florestal complementa esta nova estratégia de acumulação do capital, ao autorizar a negociação das florestas no mercado financeiro, com a emissão de "papéis verdes", a chamada Certidão de Cotas de Reserva Ambiental (CCRA). Desse modo, tudo é colocado no âmbito do mercado para ser gerido por bancos e empresas privadas.

Embora apresentada como solução para o aquecimento global e para as mudanças climáticas, a proposta do REDD permite aos países centrais do capitalismo manterem seus padrões de produção, consumo e, portanto, também de poluição. Eles continuarão consumindo energia de fontes que produzem mais e mais emissões de carbono. Historicamente responsáveis pela criação do problema, agora propõe m a “solução” que mais atende a seus interesses. Possibilitando a compra do “direito de poluir”, mecanismos como o REDD forçam as denominadas “populações tradicionais”is (ribeirinhos, indígenas, quilombolas, quebradeiras de coco, seringueiros etc.) a renunciarem a autonomia na gestão de seus territórios.

Com isso, embaralham-se os papeis. O capitalismo, civilização mais predadora da história da humanidade, não representaria nenhum problema. Ao contrário, seria a solução. Os destruidores seriam agora os grandes defensores da natureza. E aqueles que historicamente garantiram a conservação natural são, agora, encarados como predadores e por isso mesmo são criminalizados. Não surpreende, portanto, que recentemente o Estado tenha tornado mais ostensiva a repressão, a perseguição e até expulsão das populações locais de seus territórios. Tudo para assegurar a livre expansão do mercado dos bens naturais.

Com o indisfarçável apoio estatal, por esse e outros projetos o capital hoje promove e conjuga duas formas de re-territorialização na região amazônica. De um lado, expulsa povos e comunidades do território (como é o caso dos grandes projetos como as hidrelétricas), privando-os das condições de sobrevivência. De outro, tira a relativa autonomia daqueles que permanecem em seus territórios, como é o caso das áreas de conservação ambiental. Tais populações até podem permanecer na terra, mas já não podem utilizá-la segundo seu modo de vida.Sua sobrevivência não seria mais garantida pelo roçado de subsistência - convertido em ameaça ao bom funcionamento do clima do planeta -, mas por “bolsas verdes”, que, além de insuficientes, são pagas para a manutenção da civilização do petróleo.

Cientes dos riscos que tais projetos trazem, rechaçamos o acordo de REDD entre Califórnia, Chiapas, Acre que já tem causado sérios problemas a comunidades indígenas e tradicionais, como na região de Amador Hernández, em Chiapas, México. Por isso nos solidarizamos com as populações pobres da Califórnia e Chiapas que já têm sofrido com as consequências. Solidarizamo-nos também com os povos indígenas do TIPNIS, na Bolívia, sob ameaça de terem seu território violado pela estrada que liga Cochabamba a Beni financiada pelo BNDES.

Estamos num estado que, nos anos de 1970-80, foi palco de lutas históricas contra a expansão predatória do capital e pela defesa dos territórios ocupados por povos indígenas e populações camponesas da floresta. Lutas que inspiraram muitas outras no Brasil e no mundo. Convertido, porém, a partir do final da década de 1990, em laboratório do BID e do Banco Mundial para experimentos de mercantilização e privatização da natureza, o Acre é hoje um estado “intoxicado” pelo discurso verde e vitimado pela prática do “capitalismo verde”. Dentre os mecanismos utilizados a fim de legitimar essa ordem de coisas, ganha destaque a manipulação da figura de Chico Mendes. A crer no que nos apresentam, deveríamos considerá-lo o patrono do capitalismo verde. Em nome do seringueiro, defende-se a exploração de petróleo, o monocultivo da cana-de-açúcar, a exploração madeireira em larga escala e a venda do ar que se respira.

Ante tal quadro, cumpre perguntar o que mais não caberia nesse modelo de “desenvolvimento sustentável”. Talvez em nenhum outro momento os pecuaristas e madeireiros tenham encontrado cenário mais favorável. É por essa razão que cremos necessário e urgente combatê-lo posto que, sob aparência de algo novo e virtuoso, ele reproduz as velhas e perversas estratégias de dominação e exploração do homem e da natureza.
Por fim deixamos aqui nossa reivindicação pelo atendimento das seguintes demandas: reforma agrária, homologação de terras indígenas, investimentos em agroecologia e economia solidária, autonomia de gestão dos territórios, saúde e educação para todos, democratização dos meios de comunicação. Em defesa da Amazônia, da vida, da integridade dos povos e de seus territórios e contra o REDD e a mercantilização da natureza.

Estamos em luta.
Rio Branco, Acre, 07 de outubro de 2011.

Assinam esta carta:
Assentamento de Produção Agro-Extrativista Limoeiro-Floresta
Pública do Antimary (APAEPL)
Amazonlink
Cáritas - Manaus
Centro de Defesa dos Direitos Humanos e Educação Popular do Acre (CDDHEP/AC)
Centro de Estudos e Pesquisas para o Desenvolvimento do Extremo Sul da Bahia (CEPEDES)
Comissão Pastoral da Terra – CPT Acre
Conselho Indigenista Missionário – CIMI Regional Amazônia Ocidental
Conselho de Missão entre Índios – COMIN Assessoria Acre e Sul do Amazonas
Coordenação da União dos Povos Indígenas de Rondônia, Sul do Amazonas e Noroeste do Mato Grosso - CUNPIR
FERN
Fórum da Amazônia Ocidental (FAOC)
Global Justice Ecology Project
Grupo de Estudo sobre Fronteira e Identidade - Universidade Federal do Acre
Instituto Madeira Vivo (IMV-Rondônia)
Instituto Mais Democracia
Movimento Anticapitalista Amazônico - MACA
Movimento de Mulheres Camponesas (MMC - Roraima)
Nós Existimos - Roraima
Núcleo Amigos da Terra Brasil
Núcleo de Pesquisa Estado, Sociedade e Desenvolvimento na Amazônia Ocidental -Universidade Federal do Acre.
Oposição Sindical do STTR de Brasiléia
Rede Alerta Contra o Deserto Verde
Rede Brasil sobre Instituições Financeiras Multilaterais
Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Bujarí (STTR - Bujarí)
Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri (STTR- Xapuri)
Terra de Direitos
União de Mulheres Indígenas da Amazonia Brasileira
World Rainforest Movement (WRM)

sexta-feira, 24 de outubro de 2025

A TERRA NÃO ESTÁ À VENDA

 Por rupturas sistêmicas diante do colapso climático e em defesa da Terra e dos Povos

O Brasil vai sediar em novembro, na cidade de Belém (PA), a COP 30. Este processo de negociação entre países, iniciado em 1995 pela Conferência das Partes (COP), no âmbito da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), não conseguiu até o momento assegurar compromissos e soluções eficazes para combater as mudanças climáticas. O motivo principal está nas resistências dos Estados e dos poderes econômicos globais em enfrentar as causas estruturais do colapso ambiental que ameaça a vida no planeta.

O colapso ambiental tem raiz histórica e tem causa principal. Ele é resultado da lógica predatória do modelo econômico capitalista, cujas condições de existência emergiram a partir do processo de invasão colonial do que hoje conhecemos como América. O projeto mercantilista imposto pelos colonizadores e suas matrizes nasceu sob o signo da violência, da expropriação territorial, da destruição da natureza, da mão de obra escrava e do genocídio de povos. Com sua falsa perspectiva de crescimento ilimitado em um planeta finito, está provocando a exaustão de todas as fontes da vida. Esse é o marco que precisa ser enfrentado por toda a humanidade e, principalmente, pelos Estados, através de decisões políticas, éticas e econômicas firmes e que passam pela necessidade urgente de rupturas sistêmicas.

Está suficientemente demonstrado que as mudanças profundas nas condições do clima têm uma relação direta com a forma do uso do solo e do subsolo. A expansão do agronegócio e da economia de extração de hidrocarbonetos, gás e minérios, com toda a malha de projetos de infraestrutura energética e de transportes a eles associada, transformou os modos de ocupação e de apropriação da terra, em continuidade ao processo colonial, enquanto os territórios dos povos indígenas e de comunidades tradicionais foram, e continuam sendo, sistematicamente assediados e esbulhados.

Atualmente, em uma nova fase de expansão do Capitalismo, novos mercados de ações tingidos de verde trazem falsas soluções a partir da financeirização da natureza e da vida como um todo. “A estratégia de compra-venda de ‘créditos de emissão’ pode levar a uma nova forma de especulação, que não ajudaria a reduzir a emissão global de gases poluentes. Este sistema parece ser uma solução rápida e fácil, com a aparência dum certo compromisso com o meio ambiente, mas que não implica de forma alguma uma mudança radical à altura das circunstâncias. Pelo contrário, pode tornar-se um diversivo que permite sustentar o consumo excessivo de alguns países e setores”, já nos alertava o Papa Francisco, uma década atrás, na encíclica Laudato Si’ (LS, 171).

Da mesma forma, o que os Estados e as grandes corporações apresentam como “transição energética” não é mais do que uma nova forma de transação de energia do Sul Global para os centros de poder econômico e uma substituição da dependência do petróleo por uma nova fase de exploração mineral intensiva, afetando novamente os territórios dos povos originários, quilombolas e comunidades tradicionais.

O Brasil chega à COP 30 no momento de maior retrocesso na política indigenista e na política ambiental desde a Constituição de 1988. A demarcação dos territórios indígenas, política fundamental para o enfrentamento do colapso ambiental, permanece estagnada pela vigência da Lei 14.701, flagrantemente inconstitucional, que inviabiliza as demarcações e abre os territórios à exploração econômica de terceiros. Ao mesmo tempo, o avanço no Congresso do PL 2159/2021, o chamado “PL da Devastação”, desmantela a política de proteção ambiental. A COP 30 se instala, justamente, neste contexto de profunda e inaudita desconfiguração dos direitos territoriais dos povos indígenas, conquistados na Constituição Federal de 1988 e balizados em instrumentos internacionais de direitos humanos.

A escolha de Belém do Pará, no coração da Amazônia brasileira, para sediar a COP 30 em 2025 carrega um profundo paradoxo que não pode ser invisibilizado. A Amazônia real dos territórios continua a sangrar sob a pressão da grilagem, do garimpo, do desmatamento e dos grandes projetos de infraestrutura que seguem validando a mesma lógica desenvolvimentista de sempre.  É sobre esta região que as frentes econômicas do agronegócio, a mineração e a exploração de petróleo continuam avançando, rasgando os territórios com estradas de ferro e de asfalto para o escoamento das commodities que o mercado internacional almeja. Os grandes rios da bacia amazônica estão hoje comprometidos com projetos de hidrelétricas, hidrovias e pela contaminação do mercúrio. E as falsas soluções do mercado de carbono e a financeirização da Natureza se configuram como a nova forma da apropriação dos territórios pelo capital.

A COP 30 não pode ser mais um momento perdido. Precisamos de decisões urgentes, ousadas e enérgicas que promovam uma mudança radical de rumo. Não existem duas crises, uma social e outra ambiental, mas uma única crise socioambiental, como afirmou o Papa Francisco. Uma crise civilizacional que exige de todos, e particularmente dos Estados e das grandes corporações, as medidas necessárias e a ruptura sistêmica imprescindível.

É fundamental uma ampla mobilização crítica da sociedade civil, das organizações sociais e dos movimentos populares, do mundo acadêmico e das Igrejas que permita uma participação efetiva na tomada de decisões. É imprescindível que o Estado brasileiro e todos os Estados participantes apresentem compromissos concretos em suas Contribuições Determinadas em nível Nacional (NDCs). Diante desta encruzilhada histórica, o Cimi se une aos povos e a toda a sociedade comprometida com a justiça para defender ações firmes e estruturantes. Essa transformação exige rupturas profundas, como:

  • A demarcação integral de todos os Territórios Indígenas, Quilombolas e Tradicionais.
  • Uma transição energética que seja verdadeiramente justa, construída desde os povos, dos povos e para os povos.
  • A criação de mecanismos transparentes para a restituição financeira das dívidas históricas ligadas à exploração de pessoas e territórios.
  • A implementação de políticas públicas robustas para a proteção ambiental e a regularização e distribuição agrária.
  • A garantia da primazia dos direitos humanos e da natureza sobre os interesses corporativos.
  • A reparação histórica integral pela violência colonial, incluindo a anulação das dívidas externas ilegítimas destes povos e a transferência dessa responsabilidade ao Norte Global, como parte de suas dívidas ecológicas.
  • O engajamento do Estado brasileiro no reconhecimento do Ecocídio como crime junto aos Tribunais Internacionais, para que os destruidores do planeta sejam responsabilizados.
  • Reafirmamos a soberania alimentar e a agroecologia como o único caminho possível para um futuro com comida de verdade, justiça no campo e respeito aos ciclos da natureza.

Este é um chamado à peregrina rebeldia e à insurgência da Esperança. Um apelo a todos e todas que se recusam a aceitar um futuro de cinzas. É hora de construir nas ruas, nas praças, nas aldeias e nos territórios a força popular capaz de fazer acontecer uma agenda real de ruptura e transformação. A resposta não virá dos palácios nem dos acordos corporativos. Ela está sendo semeada historicamente na resistência dos povos que defendem seus territórios com o próprio corpo e na sabedoria ancestral que nos ensina a coexistir com a Terra.

A Terra é Mãe. A ela pertencemos, e não está à venda!

 Conselho Indigenista Missionário – Cimi

13 de outubro de 2025

quarta-feira, 23 de abril de 2025

A CANOA, UM POVO

 

                                                                                                       

Lindomar Dias Padilha[1]                                                                                                      

I.             Introdução

A proposta deste trabalho é inicialmente apresentar ao leitor parte do tema sobre o qual me propus a discorrer em minha tese de doutorado que versará sobre a relação entre as conquistas territoriais do povo Apolima-Arara e a importância de suas manifestações míticas e espirituais neste processo. Para isso entendo, e este é o centro do atual trabalho, ser necessário narrar um pouco de como se deu o primeiro contato meu com este povo. Procurarei descrever o principal fato, o encontro, a partir da canoa e, em seguida, a vida vivida naqueles primeiros anos onde a escassez era a regra e os conflitos eram intensos, mas a história se fazia. A partir da visualização da canoa, posteriormente, pudemos visualizar o povo. Essa passagem da canoa ao povo é muito importante para que possamos compreender como isso resultou no, digamos, reencontro de um povo com seu território na busca por direitos. O trabalho está dividido em três momentos que se entrelaçam na construção do evento como todo. A canoa, que nos permitiu acessar o povo, quem são os Apolima-Arara e finalmente, a reconquista do território, sendo esta terceira parte um fechar como considerações. Pelo certo, dado que farei uma recuperação histórica, devo considerar que segundo BOAS (1896, p. 37) investigação histórica deve ser o teste crítico demandado pela ciência antes que ela admita os fatos como evidências, tomarei por base histórica as próprias pesquisas e conclusões apresentadas no relatório de identificação e delimitação do território.

Além de dados históricos, por certo farei uso de minhas próprias observações sempre considerando o que diz MALINOWSK (1978, p. 22) que um trabalho etnográfico só terá valor científico irrefutável se nos permitir distinguir claramente de um lado, os resultados da observação direta e das declarações e interpretações nativas e, de outro, as inferências do autor. Pelo fato de eu me fazer presente no processo desde o primeiro contato com o Povo Apolima-Arara, se torna impossível não recorrer às minhas memórias e outros registros pessoais.

Considero a escrita deste trabalho um revisitar os anos compreendidos entre 1998 e 2023, ano em que a terra dos Apolima-Arara foi finalmente homologada, mesmo que por lá ainda estejam algumas famílias de nawá, não indígena na língua Apolima-Arara. Porém, farei um recorte temporal menor, de 1999 a 2009 por ser o tempo em que ocorreram os principais acontecimentos. Tomarei por base os princípios da observação participativa nos termos de Malinowsk

Os princípios metodológicos podem ser agrupados em três unidades: em primeiro lugar. é lógico, o pesquisador deve possuir objetivos genuinamente científicos e conhecer os valores e critérios da etnografia moderna. Em segundo lugar, deve o pesquisador assegurar boas condições de trabalho, o que significa, basicamente, viver mesmo catre os nativos, sem depender de outros brancos. Finalmente, deve ele aplicar certos métodos especiais de coleta, manipulação e registro da evidência. (MALINOWSK, 1978, p.24).

Na atualidade, apresentarei apenas entrevistas realizadas com o cacique, via rede social, quando este se encontrava na cidade. Saliento que, como tratarei de fatos pretéritos, há uma dificuldade adicional que é aplicar e relacionar teoria sobre fados dados. Mas, aqui trago uma outra perspectiva: “o lugar da militância”. O lugar de minha formação militante foi que me possibilitou realizar tais observações e construir essas narrativas, sobretudo porque a base teórica só a estou podendo vislumbrar agora. Ao final retornarei a esta ideia.

 

II         A canoa

 

            O ano era 1999. No dia 09 de setembro daquele ano, iniciamos a histórica viagem e expedição rumo ao Alto Rio Juruá e seus afluentes, a partir da cidade de Cruzeiro do sul, estado do Acre até a fronteira com o Peru. Digo que foi histórica porque foi nesta viagem que encontramos o povo Apolima-Arara. Nossa modesta expedição contava comigo, Rose, Rosildo que era indígena pertencente ao povo Jaminawa Arara e Sr. Raimundo, barqueiro e comandante do batelão[2] de nome ajurí[3] de posse da equipe do Cimi. Também levávamos uma pequena canoa para ser utilizada nos igarapés onde o batelão não conseguisse entrar.

            A viagem, em seus primeiros dias principalmente, apresentou inúmeras dificuldade decorrentes sobretudo de nosso desconhecimento da região e, como arigós[4] que éramos, não imaginávamos encontrar tais obstáculos. O pior deles, porém, foi a severa seca do Rio Juruá naquele mês de setembro.

            Era 23 de setembro, uma quinta feira. Após quatorze dias de viagem, nos encontrávamos já próximo à sede do município de Marechal Thaumaturgo, cerca de oito praias, quando Rose avistou uma canoa que lhe pareceu diferenciar das que os ribeirinhos normalmente utilizam e me convidou para também observar a tal canoa. Fiz sinal para que o comandante parasse o batelão e retornasse para o local onde tínhamos avistado a canoa, o que ele fez de pronto. Ancoramos o batelão no barranco próximo à canoa e constatamos que de fato era muito diferente das demais que conhecíamos na região.

            A canoa era construída de um único tronco tendo suas proa e polpa arredondadas. Medindo cerca de cinco metros de cumprimento e a parte mais larga cerca de 80 centímetros, com madeira claramente cavada como que escupida. No interior da canoa três pequenos paus roliços serviam de banco. Um design inconfundível e uma verdadeira obra de engenharia aeronáutica. Na proa da canoa um cipó cujo nome não me fora dito, voltava-se para o alto do barrando até uma pequena árvore onde se encontrava cuidadosamente amarrado, uma âncora em direção oposta à água. Em relação a madeira utilizada e o processo de confecção daquele modelo de canoa o cacique Francisco me informou por meio de entrevista, via mensagens de áudio em rede social, que:

Outra coisa, seu Lindomar, referente a madeira que o senhor perguntou que a gente faz de um pau só é utilizado, às vezes, o Cumarú. Principalmente o Cumarú que é um pau melhor de abrir no fogo e a Guariúba. Esses dois são os pau melhor que tem para trabalhar aquele tipo de canoa. A gente abre no fogo. Primeiramente a gente cava, né? E aí quando tá cavada a gente abre ela no fogo. Tem dois tipos de fazer ela. Já diretamente cavada, sem ser preciso abrir no fogo e também ela já feita para abrir no fogo. Ela fica mais moldeada, né? Boleada. Mas a madeira mais utilizada mesmo é o Cumarú e a Guariúba. (SIQUEIRA, entrevista concedida em 26/07/24).

            Embora eu já soubesse o nome da madeira usada na fabricação daquele modelo de canoa, e o leitor saberá como eu soube do nome mais ao final, optei por consultar o cacique para maior legitimidade e atualização deste tipo de informação. Nesta entrevista, o cacique Francisco, também conhecido como Chiquinho Arara, explica o tipo de madeira utilizada para a construção daquele modelo de canoa e ainda explica, mesmo que de forma rápida, o processo de confecção da canoa. A entrevista indica ainda que eles continuam fazendo este tipo de canoa, digamos, tradicional e de forma artesanal. Ao final apresentarei uma foto que fiz de uma dessas canoas em 2023.

Decidimos subir o barranco, eu e Rose porque os demais permaneceram no batelão, para ver se encontrávamos o dono da canoa. O barranco estava muito alto porque o nível das águas do rio estava muito baixo em razão da seca já mencionada. Assim que subimos o barranco, nos deparamos com uma pequenina casa de madeira e coberta com palhas, elevada cerca de 1,30 metros do chão, típicas da região. Avistamos um senhor com traços marcadamente indígenas aparentando ter seus 70 anos, mais ou menos, de bermuda e sem camisa que ao nos ver apenas se acocorou em uma espécie de trapiche que avia logo na frente da casa, como se fosse uma pequena varanda sem cobertura. Atrás dele havia uma menina moça aparentando uns 15 anos de idade, que ao nos ver tratou de fugir pelos fundos da casa e esconder-se na mata.

Depois de longos segundos de silêncio total, resolvemos iniciar uma conversa. Iniciamos por nos apresentar. Dissemos quem éramos, para quem trabalhávamos e qual era o nosso interesse naquela região pouco visitada. Diante da dificuldade de estabelecermos um diálogo, perguntei se aquela canoa no rio era dele e aí sim, ele respondeu que sim. Então, indagamos a razão de ser uma canoa tão diferente das demais? Neste momento aparece uma terceira pessoa, também um senhor aparentando ter 70 anos mais ou menos. Este, porém, estava de bermudas, com camisa e ainda um boné de cor acinzentada. Somente com a chegada deste segundo senhor é que a conversa pode fluir melhor, tanto que depois de alguns minutos a menina foi chamada a retornar à casa.

O primeiro senhor finalmente se apresentou e em seguida tratou de apresentar os demais. Ele era Thaumaturgo de Azevedo, a moça chamava-se Celiene e era neta de seu Thaumaturgo. O outro senhor era chamado por Zé do Basílio. Seu Thaumaturgo falava misturando o português com espanhol e outra língua que não era possível identificar, mas foi possível a compreensão. Inicialmente seu Thaumaturgo, com muita desconfiança de nós, procurou desqualificar nosso trabalho associando-nos à Fundação Nacional do Índio – Funai, que hoje se chama Fundação Nacional dos Povos Indígenas. Ao ler Gluckman pude entender melhor o sentimento do senhor Thaumaturgo.

Contudo, como Fortes já salientou, "os agentes de contato" são "em larga escala, personalidades socialmente estereotipadas, tanto do ponto de vista dos nativos quanto do ponto de vista dos órgãos da civilização europeia, para quem funcionam como instrumentos". (GLUCKMAN, 2010, p. 332).

Os “agentes de contato”, lá como neste caso com os primeiros Apolima-Arara, fomos tratados como representantes do governo e isso criava uma barreira enorme entre nós. Todavia, com o tempo e com algumas intervenções do Sr. Zé do Basílio, seu Thaumaturgo foi se acalmando e pude finalmente perguntar a ele se eu podia tomar nota de algumas coisas sobre sua história e o porquê de estarem ali, ao que hesitante, disse sim, mas não via em nós possibilidade de ajudá-los. Então começamos a fazer anotações em nossos diários de campo lembrando aqui do que dizia Malinowsk:

devemos não só anotar os acontecimentos e detalhes ditados pela tradição como pertencentes à própria essência do ato, mas também registrar as atitudes de atores e espectadores, umas após as outras. (MALINOWSK, 1978, p. 35).

Quase lacrimejando, seu Thaumaturgo passou a contar a sua história, a história de dor e desterritorialização de seu povo. Quando terminei de anotar o seu relato perguntei se poderia levar aquelas informações às autoridades e ele disse sim, recobrando o semblante com uma leve expressão de esperança. Tanto que pedi para tirar uma foto deles e ele permitiu, não sem antes trocar umas poucas palavras com o Zé do Basílio e passar as mãos pelo rosto por umas duas vezes. Aquela atitude me fez pensar que ele ainda estava sob sentimentos ambíguos ou dúvidas. Então fiz a foto! Estávamos diante não apenas de três pessoas, mas de um povo que se revelava a nós, ao estado do Acre e ao Brasil. Sublime alegria a minha! E tudo por causa de uma canoa!

 

II.     Os Apolima-Arara

 

Em minha dissertação de mestrado PADILHA (2021, p. 69) destaco que as primeiras referências conhecidas aos Arara (Xawanáwa) do alto Juruá foram feitas no início do século XX, e que segundo PEREIRA NETO (2004, p. 26), é possível que naquele tempo mais de um grupo fosse chamado do mesmo modo ou de forma semelhante, localizando-se alguns deles, inclusive, na região do rio Tarauacá. Importa explicar aqui que o Rio Tarauacá, embora não seja afluente do Rio Juruá, àquela época era considerado um rio pertencente à administração do Alto Juruá.

um relatório da Prefeitura do Alto Juruá mencionava a existência de numerosas malocas indígenas naquele departamento citando na bacia dos rios Tarauacá e Envira as tribos dos aninauás, ararapinas, ararauás, canamaris, capanáuas, caiuquinas, caxinauás, contanauás, curinas, curinas espinhos e bocas pretas, aninauás, marinauás e tuxinauás. (MENDONÇA, 1998, p. 194).

Talvez seja justamente por isso que no povo Apolima-Arara há uma predominância dos ditos “Arara” pois, na verdade há uma miscigenação muito grande entre outros povos, especificamente, segundo COUTINHO (2003, p. 1) os Amawáka, Koníbo, Santa Rosa, Kampa e Kaxinawá. Esta miscigenação se deveu por algumas razões, mas especialmente pelo recrutamento forçado de indígenas para trabalharem no corte da seringa nos seringais por meio de ataques conhecidos como correrias[5] em toda a região.

Tentativas de retornarem ao território de origem foram feitas, mas a Funai, quando fez a demarcação do território para os Ashaninka do Rio Amônia, território contiguo ao hoje território dos Apolima-Arara, não procurou demarcar também a terra dos Apolima-Arara o que resultou em uma nova dispersão do povo que, mais uma vez foi expulso de seu território. Essa foi a segunda explicação mais dolorida que ouvi de própria boca de seu Thaumaturgo

Aparentemente, a FUNAI não se deu conta do que tinha ocorrido no rio Amônia até o ano de 1999. Nessa época, a equipe do Conselho Indigenista Missionário (CIMI) de Cruzeiro do Sul, nas pessoas de Lindomar Dias Padilha e Rosenilda Nunes Padilha, dirigiu ao chefe do Posto Indígena da FUNAI naquela cidade, Hudson de Melo Barros, um expediente datado de 18.11.1999 afirmando, entre outros assuntos, que durante uma viagem pelo alto Juruá nos dias 13 e 14 daquele mês haviam constatado a presença de um agrupamento indígena que denominaram 'Apolima'. (PEREIRA NETO, 2003, p. 56).

 

Aquele primeiro encontro com seu Thaumaturgo, Celiene e Zé do Basílio e a visita aos demais membros do povo que ficaram espalhados ao longo do Rio Amônia, afluente da margem esquerda do Rio Juruá, resultou em um relatório com fotos e textos apresentados à Funai que se comprometeu conosco a criar um grupo de trabalho para proceder à identificação do povo. Aqui cabe lembrar GEERTZ (2008, p. 14) quando diz que o etnógrafo "inscreve" o discurso social: ele o anota. Ao fazê-lo, ele o transforma de acontecimento passado, que existe apenas em seu próprio momento de ocorrência, em um relato, que existe em sua inscrição e que pode ser consultado novamente. A data apresentada pelo funcionário da Funai, à época chamado de “chefe de posto” em função do cargo, Sr. Hudson de Melo Barros, é bastante incerta.

A partir daquele primeiro encontro e após visitar os demais indígenas do povo espalhados pela região, nos programamos para realizar viagens mais frequentes e com maior permanência entre eles. Em menos de um ano decidiram retornar ao território de origem e passaram a viver em conjunto em uma só aldeia a qual denominaram Novo Destino. Inclusive seu Thaumaturgo que inicialmente estava descrente, voltou e foi morar na nova aldeia. Com o retorno ao território e a formação da aldeia, passamos a permanecer por dias e até meses morando com o povo para aprender melhor a história e a forma de viverem sua cultura. Além do aprendizado de minha parte, a convivência com eles também os ajudava a acreditar e lutar pela reconquista do território que se encontrava totalmente invadido.

 

III.    Considerações:

 

A partir da reconstituição da aldeia, além da esperança, aumentaram os conflitos e, portanto, aumentou muito a necessidade de me fazer presente por mais vezes e permanecer por mais tempo em cada uma dessas idas à aldeia. Aumento também a confiança deles em mim. Os cinco primeiros anos, enquanto me dedicava a escrever a história deles, fui também me apropriando de seu jeito de ser, de pensar de sonhar e pude, nesse processo, participar de diversos rituais. Não consegui refletir muito sobre os rituais porque a demanda para produzir documentos para encaminhar às autoridades e ainda o cuidado com a própria vida me consumia bastante.

Para produzir documentos confiáveis tínhamos, eu e os meus narradores, que centrar muito na condução histórica do processo e na formalidade. Não é fácil fazer registros sob forte pressão. Interessante que ao ler Malinowsk pude perceber com maior clareza aquilo que eu vivia e sentia quase que como uma intuição. Mas, ali também estava presente as informações adquiridas a partir da militância, o meu lugar. Me refiro mais especificamente à angústia de ter que fazer história, escrever no campo das leis, do direito e ainda fazer registros etnográficos.

Nas ciências históricas, como já foi dito, ninguém pode ser visto com seriedade se fizer mistério de suas fontes e falar do passado como se o conhecesse por adivinhação. Na etnografia, o autor é, ao mesmo tempo, o seu próprio cronista e historiador; suas fontes de informação são, indubitavelmente, bastante acessíveis, mas também extremamente enganosas e complexas, não estão incorporadas a documentos materiais fixos, mas sim ao comportamento e memória de seres humanos. (MALINOWSK, 1978, p. 23)

            Fazer essa referência a Malinowsk não significa necessariamente confirmar e simplesmente reafirmar o método, mas é unicamente colocar-me diante da experiência. Certa feita, quando eu estava na mata acompanhando um grupo de homens que ao mesmo tempo que caçavam fiscalizavam o território. Pela hora do almoço nos reunimos todos no acampamento. Enquanto comíamos uma carne de veado que que Assis havia matado, o próprio Assis começou a falar sobre uma árvore que ele havia visto ali pelas redondezas. Ele descreveu a árvore com tanta precisão e interesse que eu tive que perguntar o porquê aquela árvore era tão importante para ele? Ele respondeu com uma espécie de devoção à árvore: “aquela árvore é Cumarú. O Cumarú anda na terra e na água, por isso ele é muito importante para nós”. Eu não entendi e resolvi acrescentar mais uma pergunta: como ele anda na água? Como isso é possível? “seu Lindomar, é com o Cumarú que fazemos nossas canoas”.

A única coisa que historiadores e etnógrafos conseguem fazer, e a única coisa que se pode pedir que façam, é expandir uma experiência particular para as dimensões de uma experiência geral ou mais geral, de modo que ela se torne, por essa razão, acessível enquanto experiência a homens de outras terras ou outro tempo. (GEERTZ,2008, P. 32).

Com essa fala de Geertz quero retornar ao ponto onde iniciei para reforçar minha convicção pessoal de que o grande encontro que tive com os Apolima-Arara foi na verdade conduzido inteiramente pelo “espírito do Cumarú”, a canoa!

 

Referências

 

Boas, Franz, 1858-1942. Antropologia cultural / Franz Boas; textos selecionados, apresentação e tradução, Celso Castro. - 2.ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005

 

COUTINHO, Walter JR. Relatório de Identificação e Delimitação da Terra Indígena Arara do Rio Amônia, Fundação Nacional do Índio – FUNAI, Brasília 2003.

 

GEERTZ, Clifford, A interpretação das culturas (1926) 1ª Ed. LTC, Rio de Janeiro, 2008.

 

GLUCKMAN, Max. Análise de uma situação social na Zululândia moderna. In: FELDMAN-BIANCO, Bela (org.). Antropologia das sociedades contemporâneas. 2. ed. São Paulo: Editora UNESP, 2010. p. 237-265.

 

MALINOWSKI, B. Argonautas do Pacífico Ocidental: um relato do empreendimento e da aventura dos nativos nos arquipélagos da Nova Guiné melanésia. São Paulo: Abril Cultural, 1978. (Coleção Os Pensadores).

 

MENDONÇA, Belarmino. Reconhecimento do Rio Juruá (1905). Ed. Italiana e Fundação Cultural do Estado do Acre, coleção Reconquista do Brasil, vol. 152, Acre, 1989.

 

PADILHA, Lindomar Dias. Dissertação de mestrado. Direitos humanos e povos originários na Amazônia Ocidental: Demarcação dos territórios como fundamento para um modelo baseado no Bem Viver O caso Apolima-Arara. UCP,2020

 

PEREIRA NETO, Antônio “Relatório de conclusão da delimitação da terra indígena Arara do rio Amônia, município e Marechal Thaumaturgo-AC, em cumprimento à I.E. no 165/DAF de 04/12/03”. Brasília: FUNAI, 19 de janeiro, 2004.

 

SIQUEIRA, Francisco. Cacique do povo Apolima-Arara: entrevista concedida a Lindomar Padilha em 26 de julho de 2024.



[1] Doutorando em Antropologia pela Universidade Federal de Pelotas (PPGANT/UFPEL), mestre em Direito pela Universidade Católica de Petrópolis (UCP), Pós-graduado em Desenvolvimento Social no Campo: Povos Indígenas, Quilombolas e Comunidades Tradicionais pela Universidade de Brasília (UnB), Filósofo indigenista.

[2] Nome dado na região embarcações de médio e grande porte, mas que têm o fundo chato e pequeno calado para facilitar a navegação em águas mais rasas, como era o caso no Alto Juruá.

[3] Significa “eu vim ajudar ou simplesmente mutirão. Palavra muito utilizada na Região Amazônica para designar a forma de produção das comunidades.

[4] No acre “arigó” inicialmente se referia aos nordestinos que vinham trabalhar no corte da borracha e, por não conhecerem a região, tinham dificuldade para locomoção entre as estradas de seringa.

[5] As correrias eram perseguições armadas aos povos indígenas que acompanharam a abertura e a instalação dos seringais no Acre, no final do século XIX e início do século XX.  Disponível em: https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Kuntanawa#:~:text=%5BAs%20correrias%20eram%20persegui%C3%A7%C3%B5es%20armadas,e%20in%C3%ADcio%20do%20s%C3%A9culo%20XX%5D. Acessado em: 27/07/24.

sexta-feira, 21 de março de 2025

TEMPO DE DESCARTE

 

Meu tempo é liberdade!

(Sobre a Rose)

Há tempo para o tempo

O viver como passatempo

O não cronos, a arte

Não pode haver tempo de descarte

 

Há o tempo da Vida

Não pode haver o da cida

O tempo é o todo, não uma parte

O tempo da vida, não do descarte

 

Tempo ontem no ritual

No tempo presente, atual

Tempo linear... desastre

Tempo da mentira... descarte

 

Não me dói o tempo da dor

Poderia, porém, ser do amor

Dói o crime do bacamarte

Dói o crime do descarte

 

Mas, viverei no meu tempo!

Sempre!