Semana passada tivemos a grata informação de que finalmente a Funai, depois de 26 anos, aprovou o relatório circunstanciado de identificação e delimitação da Terra Indígena Nawa. Embora tenha sido uma notícia boa, o relatório aprovado peca por ter deixado fora dos limites da terra delimitada importantes áreas frequentadas pelos Nawa. Inicialmente a terra teria 83 mil hectares e não apenas 65 mil. Peca ainda por acrescentar “Kapanawa” ao etnônimo, uma vez que todos os estudos até aqui consideraram apenas o etnônimo “Nawa”. Tanto é que historicamente o nome do povo tem sido empregado para valorizar marcas, produtos e mesmo lugares. Por exemplo café Naua, Guaraná Nauense e teatro dos Nawa.
Mesmo que os Nawa
se reconheçam como tendo origem comum com os Kapanawa, e isso é legítimo, ao
acrescentar o etnônimo Kapanawa se tenta apagar a história de massacres e de
quase extermínio do povo. Afinal, os Kapanawa sempre existiram e, portanto, os
Nawa, igualmente. Assim, o estado brasileiro, mais uma vez, tenta ocultar e
deturpar a verdade histórica ao invés de assumir sua responsabilidade e, eu
diria, até mesmo foge e se nega a patrocinar os reparos e consequente
indenização a este povo vítima de etnocídio (genocídio). Vejamos o que diz a
matéria em um determinado trech:
"A Fundação
Nacional dos Povos Indígenas (Funai) aprovou, na sexta-feira (13), as
conclusões do Relatório Circunstanciado de Identificação e Delimitação (RCID)
da Terra Indígena (TI) Nawa, de ocupação tradicional indígena Nawa/Kapanawa,
localizada nos municípios de Mâncio Lima e Rodrigues Alves, no Acre. A
aprovação se deu por meio da assinatura do Despacho Decisório pela presidenta
da autarquia indigenista, Joenia Wapichana, com a presença online de
lideranças e representantes do povo Nawa/Kapanawa". (https://www.gov.br/funai/pt-br/assuntos/noticias/2026/funai-aprova-relatorio-de-identificacao-e-delimitacao-da-terra-indigena-nawa-no-acre).
(grifo meu).
Por certo os Nawa
saberão como lidar com essa situação e eles, sim, somente eles podem se
autodeclarar. Esperamos, no entanto, que o Estado brasileiro assuma seu papel e
promova a devida indenização do povo pelos massacres sofridos e, assim,
reestabeleça a verdade. Me vejo na obrigação de falar sobre isso porque
acompanhei todo o processo de etnogênese e ressurgimento. Vejamos como se deu à
época:
"Já era final da Assembleia do povo Inu Kuî
(Nukini), em 2000, na Aldeia República, quando Rosenilda (Rose) e Lindomar
Padilha foram convidados pelo líder Paulo Nukini para visitar a Serra do
Divisor, um dos pontos turísticos do Acre. Os dois, que trabalham no Conselho
Indigenista Missionário (Cimi) - organização vinculada à Igreja Católica que
apoia o protagonismo dos povos indígenas - estavam animados com a participação
e a discussão política que aconteceu numa das aldeias no extremo oeste do Brasil,
na divisa com o Peru. Rose e Lindomar voltaram do passeio no Rio Moa e
resolveram parar, a pedido da liderança Inu Kuî, na casa de Dona Chica do Celso
(Francisca Nazaré da Costa), de 64 anos, cabelos grisalhos, rosto com marcas de
anos de trabalho sob o sol da roça e de esforços com a produção da borracha.
Desembarcaram na
"colocação" 7 de Setembro - hoje aldeia - do lado direito do Rio Moa
e dentro do Parque Nacional da Serra do Divisor (PNSD), a bajola (barco) foi
amarrada para não ser levada pelas águas barrentas. No caminho para chegar à
casa de dona Chica, uma supressa para a indigenista do Cimi: vários túmulos
eram visíveis no quintal. A receptividade do ribeirinho é regra e dona Chica
convidou os visitantes para entrar. Ofereceu café e os indigenistas perguntaram
o que significavam aquelas sepulturas. "Ah, isso é coisa de índio",
exclamou a senhora. Eles, então, admiraram-se com a resposta da anfitriã:
"Minha filha, nós somos Nawa!" Falava de um povo silenciado". (https://terrasindigenas.org.br/pt-br/noticia/219443).
Trata-se ainda de uma vitória
parcial porque muito ainda há que ser feito e, convenhamos, a luta não é de
hoje. Desde o início da luta pelo reconhecimento, a partir de 1999, o povo Nawa
vem sofrendo preconceitos e tentativas de anulação de sua história. Por
exemplo, logo de cara, o IBAMA e uma ONG que estava a seu serviço, exigiram um
laudo (estudo) que comprovasse que eram indígenas e, espalharam com auxílio
inclusive de um antropólogo, que eles, os Naua (era assim que grafávamos à época)
eram apenas "uma invenção da equipe do Cimi que atuava em Cruzeiro do Sul.
A afirmação de
que os Nawa (ou Naua) são uma "invenção" do Cimi (Conselho
Indigenista Missionário) é um posicionamento polêmico, frequentemente levantado
por setores contrários à demarcação de suas terras no Acre, que argumentam que
o grupo não manteria costumes tradicionais. No entanto, os registros históricos
e antropológicos indicam que o povo Nawa é real, sobreviveu a massacres no
período da borracha, foi considerado extinto e, posteriormente, reconhecido
oficialmente pela Funai após um processo de retomada de identidade. (Meta,
IA)
Temos que
desconfiar quando aquela mesma gente que era contra o povo Nawa agora aparece
tentando “reescrever” a história segundo seus interesses. Além de desconfiar,
temos que fazer justiça aqueles e aquelas que sempre lutaram juntos e mesmo os
que faleceram sem ver a terra demarcada, como é o caso do seu Chicon, Dona
Chica e seu Milton Peba. Também temos
que fazer justiça ao falecido Antônio Pereira Neto, administrador da Funai à
época e com toda sua força saiu em defesa do povo. Assim fala o cacique
Railson, em entrevista concedida Cloude de Souza Correia.
nós vivíamos assim numa região tranqüila, trabalhando, tinha nossa
sobrevivência. E aí foi quando começou a aparecer as visitas, as autoridades passando.
E começaram a mexer com a gente. Falaram olha, isso aqui não é mais o que vocês
pensam que era. Isso aqui é outra atividade diferente. Isso aqui é o Parque
Nacional da Serra do Divisor. Aí a gente já foi ficando mais... Assim, eu
pensando, agora a gente já vai começar a andar com as próprias pernas da gente,
porque já que nós não estamos mais sendo dirigido pela nossa própria pessoa a
gente vai procurar um rumo. Aí a gente conversa, nossos parentes Nukini aqui
também sempre faz parte de reuniões em Mâncio Lima, Cruzeiro do Sul, e conversa
vai eles soltaram que aqui dentro do Parque Nacional da Serra do Divisor tinha
um povo diferenciado do deles. Então, a dona Rose veio aqui, mais o seu
Lindomar, veio só mesmo nos ver, ver o que nós éramos. Ela veio diretamente na
casa da dona Francisca do Celso, porque nem lá em casa ela passou. Chegou: -
dona Francisca nós temos notícias que vocês são povos indígenas, que nós somos
missionários do CIMI que trabalham com povos indígenas, então é obrigação nossa
saber se vocês são índios ou não. Falou: - nós somos índios e nós somos índios
Nawa. Aí ela ficou toda surpresa disso. Ela andou no cemitério, bateu foto da
dona Francisca e voltou novamente. Nesse intervalo ela já passou e a gente já
mandou uma carta diretamente pedindo o apoio do CIMI, para que ele mandasse
essa carta até a FUNAI, ou entregasse para o próprio IBAMA mesmo para ter o
reconhecimento (Railson, 2003, Novo Recreio).
A afirmação de
dona Francisca de que eram indígenas e que pertenciam ao povo Nawa, viria a
mudar a história do indigenismo no na Amazônia Ocidental e foi, e ainda é, por medo
de perder a primazia do indigenismo que tanto lá como agora, os que se julgam “donos”
da história se apressam a desqualificar as ações de muitos outros que não eles.
Fizeram o mesmo em relação aos Apolima-Arara, Kuntanawa e agora também em
relação aos Sharanawa. Primeiro negam com veemência a existência e, sem conseguir
fazer a mentira prevalecer, recuam, mas dizem que a história não foi bem assim.
O fato é que a
história do indigenismo no Acre sempre será lembrada e contada antes e depois
do ressurgimento dos Nawa. O reconhecimento e a demarcação do território,
quando ocorrer, não será mérito de ninguém, mas mérito do próprio povo que tem
lutado incansavelmente na busca por seus direitos.
PARABÉNS AO
POVO NAWA!
Em memória aos que tombaram lutando!
Referências
CORREIA,
Cloude de Sauza. ETNOZONEAMENTO, ETNOMAPEAMENTO E DIAGNÓSTICO ETNOAMBIENTAL: Representações
Cartográficas e Gestão Territorial em Terras Indígenas no Estado do Acre. Tese
de doutorado. Universidade de Brasília, UNB, 2007.
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