terça-feira, 4 de outubro de 2011

Há um desencanto com o governo Evo, afirma indigenista

Para antropólogo, insatisfação se aprofundou com a repressão aos indígenas do Tipnis e expôs contradições do presidente boliviano

Felipe Prestes


“Mal”, qualifica sem hesitar o antropólogo Xavier Albó, jesuíta e fundador do Centro de Investigación y Promoción del Campesinado (Cipca) na Bolívia. Com uma palavra, resume o modo como agiu o governo Evo Morales diante da insatisfação dos indígenas do Tipnis (Território Indígena Parque Nacional Isiboro Sécure). No último dia 25, eles foram reprimidos por policiais enquanto marchavam rumo à capital La Paz. O motivo é a construção de uma grande rodovia no território indígena, sem a anuência de seus habitantes.
"Outro desenvolvimento é possível", diz o cartaz, resumindo
a contradição vivida pelo Governo Evo - Fotos: Pablo Rivero/Flickr

Para o antropólogo, que conversou com o Sul21 por telefone, desde La Paz, o governo do Movimiento al Socialismo (MAS) teve uma trajetória ascendente até começar a causar “desencanto” em vários de seus apoiadores. Isto teve início em dezembro do ano passado, com o ‘gasolinazo’, quando o governo aumentou por decreto em 83% o preço dos combustíveis. “O governo disse que havia muito contrabando de gasolina, o que provavelmente é verdade. Mas houve uma reação popular, que levou a um desencanto. Inclusive, gente que era muito próxima ao governo se desencantou”, diz Albó.

Contradições

A questão se aprofundou com a repressão aos indígenas do Tipnis e expôs contradições do presidente boliviano. “A construção da estrada entra em conflito com dois pontos chaves que deram popularidade a Evo, inclusive no plano internacional”, afirma o indigenista. O prestígio do presidente, dentro e fora da Bolívia, se alicerça em sua origem indígena e por sua defesa da “Pacha Mama” ou da “Madre Tierra”, explica o antropólogo. Evo ganhou notoriedade, inclusive, por aprovar leis que garantem direitos à Mãe Terra. Na ânsia por desenvolvimento e por cumprir uma obra já contratada junto à brasileira OAS com crédito do BNDES, Evo se vê agora contradizendo tanto a defesa dos povos indígenas quanto do meio-ambiente.

As contradições se dão dentro da própria base de sustentação do MAS, nos movimentos sociais. A rodovia ligará os departamentos de Cochabamba e Bení. Aos cocaleros do departamento de Cochabamba e aos colonizadores, como são chamados os pequenos agricultores, a rodovia interessa. Será uma ligação das terras altas, dos Andes, em que habitam; para as terras baixas, na Amazônia, com muitas áreas inabitadas que guardam a maior biodiversidade do país. Evo Morales teve sua formação política como líder sindical cocalero. É dos Andes e da etnia aimará, a segunda maior nação boliviana. Ao passo que os que vivem no Tipnis não chegam a 1% da população do país, uma minoria que habita a Amazônia.

Xavier Albó afirma que, de fato, a Bolívia precisa muito se desenvolver, é um país extremamente defasado em infraestrutura, mas ressalva que a estrada pode ser um perigo para os indígenas pela “fome de terras” dos cocaleros e colonizadores. Ele conta que na semana passada esteve em um encontro de indígenas do Peru, Bolívia e Brasil. “Os indígenas brasileiros disseram: ‘as estradas sempre vão contra nós’”, destaca.
Indígenas temem o que a estrada pode levar a seu território 

Tanto a estrada interessa aos agricultores que um grupo de camponeses bloqueou a marcha dos indígenas do Tipnis. Policiais foram acionados pretensamente para proteger os indígenas, mas, com este pretexto, impediram a sequência dela. O chanceler David Choquanca, bastante identificado com os movimentos sociais, foi até o bloqueio no dia 24 de setembro para conversar com os moradores do Tipnis. Um grupo de mulheres aproveitou a situação e forçou o chanceler a passar com os índios pelo bloqueio que os policiais faziam. Junto com um integrante do primeiro escalão de governo, os policiais cederam, mas a questão ganhou peso, porque o caso passou a ser tratado como se os indígenas tivessem sequestrado o chanceler.

No dia seguinte, um grande contingente de policiais atacou de surpresa o acampamento dos indígenas e tentou embarcá-los à força de volta para o Tipnis. A população da localidade em que se encontravam se solidarizou com os índios e impediu que a viagem forçada se concretizasse. O governo boliviano só teve a perder com a péssima repercussão do caso – que levou a pedidos de demissão de quatro integrantes do governo e cinco deputados a deixarem o MAS – porque a marcha continua e já se aproxima de La Paz. “Não creio que repetirão a experiência de bloqueá-la”, projeta Albó.

Presença brasileira

O governo brasileiro negociou crédito de mais de R$ 300 milhões do BNDES para a obra, que será tocada pela também brasileira OAS.  “Desde os militares, o Brasil busca uma integração regional que se dá pela construção de grandes estradas, barragens, etc.”, opina Albó. O Brasil se beneficiaria porque a estrada facilita a ligação do Pacífico. Ligar este oceano com o Atlântico pela Amazônia, por meio de hidrovias, rodovias e ferrovias é um dos objetivos da Iniciativa para a Integração da Infraestrutura Regional Sul-Americana (IIRSA), iniciativa dos doze países sul-americanos que começou em 2000 e definiu vários eixos para a construção de obras de infraestrutura.

“Não se pode descartar a presença de forças interessadas do Brasil”, diz Xavier Albó. O indigenista acredita que por ser muito intuitivo, Evo contratou a obra sem refletir que estava desrespeitando o que dizem a Constituição boliviana e tratados internacionais assinados pelo país: que não se pode construir a estrada sem fazer uma consulta prévia aos indígenas da reserva.

Com a obra já comprometida, com participação da maior potência continental, Evo não quis ceder. “Pelo compromisso que tinha com o Brasil e com setores locais resultou que não quis ceder. Evo disse que estava feito, que seria construída queiram ou não queiram”, diz Albó.

O presidente tem buscado, por outro lado, reagir à péssima repercussão que a repressão aos indígenas teve no país e no Exterior. Disse que não houve qualquer recomendação de governo para que atacassem o acampamento dos integrantes da marcha, que foi destruído, e insinuou que alguns policiais têm má vontade com seu governo. Evo cobrou forte apuração do caso.

Nesta segunda-feira, o Ministério Público iniciou investigação que inclui o ex-ministro do Interior, Sacha Llorentti. Ele não suportou a pressão e renunciou ao cargo na semana passada. Enquanto isto, Morales anunciou a suspensão das obras do trecho 2 da rodovia e sinalizou que pode consultar os povos do Tipnis sobre a construção desta parte da estrada, mas o discurso foi ambíguo, insinuando que os habitantes dos outros locais beneficiados pela construção da via devem ser consultados. O presidente disse que a ligação é uma demanda de décadas dos moradores de Bení e também do departamento mais ao norte, Pando, que será o destino final da estrada. Afirmou também que organismos internacionais que se colocam contra a obra deveriam conhecer o local. “Visitei as comunidades de San Antonio e Santo Domingo, no coração do Tipnis, e vi como viviam, como estavam as escolas, uma pena, não têm energia, gás, nem caminhos, nem saúde, nem educação”, declarou no último sábado. Morales disse também que os meios de comunicação tentam confundir a população.

Unidade e oposição

Membros do governo chegaram a insinuar antes dos fatos do dia 25 que os habitantes do Tipnis estavam mancomunados com os norte-americanos. Foi divulgado, inclusive, que houve ligações entre líderes da Confederación de los Pueblos Indigenas del Oriente Boliviano (Cidob) – entidade que abriga os povos originários da Amazônia e do Chaco, entre eles os do Tipnis – e da Embaixada dos Estados Unidos. De fato, as ligações aconteceram. A explicação foi de que os norte-americanos queriam se inteirar do que estava ocorrendo.

Xavier Albó minimiza estas relações. “Os cocaleros sempre pensam que os Estados Unidos estão por trás”, diz. Para o antropólogo, as práticas do governo demonstram que ainda pensam estar nos sindicatos. “É típico da origem de Evo e do MAS. Quando estava na oposição, a tática sempre foi a dos sindicalistas: temos que derrotar o inimigo, derrotar o inimigo. Mas agora já não é derrotar um burguês, ao imperialismo ianque, mas a seus aliados”.
Para Albó, Evo sairá maior do que entrou da crise, se ceder
aos indígenas - Foto: Daniel Caballero/Presidencia de Bolivia

Enquanto isto, a oposição ao MAS tenta buscar espaço. “Opositores que nunca se importaram com a Mãe Terra agora se importam com ela”, ironiza Albó. Ainda assim, o antropólogo não vê grande margem de manobra para a direita. “Não há uma oposição bem organizada, não há uma liderança. No momento em que houver espaço, vão brigar entre eles”, analisa.

Rupturas podem ocorrer na base de apoio ao MAS. Xavier Albó explica que as cinco grandes organizações sindicais indígenas bolivianas tiveram seu momento de maior união durante a Assembleia Constituinte que trabalhou na nova Constituição entre 2006 e 2009, quando houve um pacto pela unidade das organizações indígenas. Agora, são mais perceptíveis as diferenças entre as três organizações mais ligadas ao governo e as duas que também o apoiam, mas sem o mesmo fervor.

São elas o Cidob, dos povos do Oriente boliviano, que organizou a marcha, e o Consejo Nacional de Ayllus y Markas del Qollasuyo (Conamaq), que representava povos indígenas das terras altas, mas que apoiou desde o início a causa dos índios do Tipnis e é comumente mais crítico ao governo. Albó ressalta, contudo, que o MAS não tem o poder de manejar nenhuma das grandes organizações. “Quando houve o gasolinazo, pessoas dos três grupos mais alinhados também se desencantaram. Por isto, há divisões internas nestes grupos. O MAS não tem o controle absoluto sobre os movimentos sindicais. Estes setores têm sua própria lógica, seus próprios interesses”, diz.

“O grande desafio é que sendo todos estes grupos distintos não entrem em fortes conflitos entre eles, uma vez que os inimigos principais são outros, os grandes detentores de terra. Nesta marcha, se quebrou um pouco isto”, opina o indigenista. Ele afirma, porém, que, dada a fragilidade em que se encontra a oposição, está nas mãos de Evo a possibilidade de retomar os rumos de seu governo, consultando a população do Tipnis sobre a passagem da estrada, mesmo que isso implique em alterar uma obra que já está contratada com os brasileiros.

“A oposição de direita, a de sempre, no caso da Bolívia está desarticulada. Está nas mãos do próprio governo. Se Evo souber chegar a um acordo com a OAS e com o governo brasileiro, a oposição não cresce mais. Se continuar insistindo nessas coisas, dá de presente a possibilidade de que a oposição se organize”, opina. Ele projeta que se Evo Morales tiver o gesto de ceder aos indígenas, pode sair desta crise maior do que entrou, como Lula em 2005.

Fonte: Brasil de Fato

A mãe terra clama pelo Bem Viver: Começa a assembléia geral do Cimi

Sob o tema “A Mãe Terra Clama pelo Bem Viver”, cerca de 200 pessoas, entre missionários e convidados, estarão reunidas a partir de hoje, 4 de outubro, para a XIX Assembleia Geral do Conselho Indigenista Missionário (Cimi). Durante o evento será eleita a nova diretoria da entidade e os novos representantes de seu Conselho Fiscal. O encontro acontecerá no Centro de Formação Vicente Cañas, em Luziânia (GO), até o próximo sábado, dia 8.

Por cinco dias, as atividades girarão em torno da temática do Bem Viver, discussão que há cerca de dois anos vem sendo realizada pelo Cimi, seus missionários - atualmente divididos em 11 regionais - e pelas comunidades indígenas. O tema chegou ao Brasil há pouco tempo, mas já é bastante discutido em países vizinhos ao Brasil, como Bolívia e Equador. 

De acordo com Saulo Feitosa, secretário adjunto da entidade, o Cimi traz a discussão ao país, pois acredita que ela é uma nova possibilidade de descolonização, de oposição ao capitalismo neoliberal. “Ela traz uma nova alternativa ao atual modelo econômico, que já dá sinais de esgotamento, tanto sociais quanto financeiros”, avalia Feitosa.

A proposta do Bem Viver diz que é preciso romper com o sistema mercantilista de produção e consumo, propondo ainda que se repartam os bens para que todos possam viver bem e não viver melhor, acumulando riquezas como prega o capitalismo neoliberal e seu consumo desmedido. 

Para o Bem Viver é preciso descolonizar, romper ética, cultural e economicamente, valorizando a identidade e o equilíbrio é preciso ainda democratizar os meios de produção, priorizar a vida e os direitos cósmicos, bem como lutar por direitos e pelo protagonismo social.

Convidados

Para subsidiar as reflexões, lideranças indígenas, pesquisadores e estudiosos falarão sobre a temática do encontro sob diversos ângulos. Paulo Suess, assessor Teológico do Cimi, falará sobre O Bem Viver na Ação Profética da entidade. O Bem Viver e o Reino de Deus ficará a cargo de Carlos Mesters, frade carmelita holandês que vive no Brasil desde 1949.

Sob a ótica budista, os participantes acompanharão as falas de Monja Coen sobre O Bem Viver na perspectiva do Zen Budismo. A antropóloga Rita Segatto e o padre jesuíta Xavier Albó levarão as discussões sobre as Experiências Ameríndias do Bem Viver.

Fonte: CIMI

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Cimi realiza o II Seminário Internacional de Formação em Pando – Bolívia



Nos dias 28 a 30 de setembro, o Cimi realizou, no departamento de Pando, cidade de Cobija, Bolívia, o II Seminário internacional de formação. O primeiro foi realizado em 2010, em Rio Branco, Brasil e o terceiro será realizado em 2012 no Perú. Proposto e organizado pelo imi, Regional Amazônia Ocidental, o seminário contou com a colaboração de instituições peruanos e bolivianas, com as quais o Cimi mantem estreita articulação.

Com o tema “Sueños e realidades frente al modelo de desarrollo” o seminário teve como foco principal a crítica ao modelo de desenvolvimento capitalista proposto pelos governos para a região amazônica e a alternativa do Bem Viver – vida para todos e para sempre. O seminário foi também forte momento de solidariedade aos indígenas que estavam na marcha contra a construção de uma carreteira (estrada) que corta a reserva de Tipnis.

Sob forte tensão por causa dos lamentáveis conflitos entre os povos indígenas bolivianos e o Governo de Evo Morales, o encontro contou com a presença de cerca de 100 pessoas dos três países.  Nas análises e painéis apresentados, ficou claro a farsa do modelo dito “sustentável” e as manobras dos governos para enganar as populações e, principalmente os financiadores.

Osmarino, líder da reserva extrativista Chico Mendes, desmascarou o governo do Acre e conclamou a todas e todos presentes a iniciarem uma nova onda de empates, desta vez contra a destruição provocada pelos manejos florestais. “Precisamos nos articular para barrarmos essa destruição que beneficia alguns em detrimento de todos e da vida de nosso planeta terra, nossa mãe terra”.

Estávamos durante todo o tempo, sem conexão com a internet e, por isso só agora pude iniciar uma série de post que pretendo postar aqui sobre os principais painéis apresentados durante o seminário. Acompanhe durante os próximos dias. 

A arte de desaprender

Análise: Assim como há escolas e cursos para aprender, deveria também existir para ensinar a desaprender

Por Frei Beto

Apresentou-se à porta do convento um médico interessado em tornar-se frade. O prior encarregou o mestre de noviços de atendê-lo.

― Caro doutor – disse o mestre – o prior envia-lhe esta lista de perguntas. Pede que tenha a bondade de respondê-las de acordo com os seus doutos conhecimentos.

O jovem médico, acomodado no parlatório, tratou de preencher o questionário. Em menos de uma hora devolveu-o ao mestre. Este levou o papel ao prior e retornou quinze minutos depois:

― O prior reconhece que o senhor demonstra grande conhecimento e erudição. Suas respostas são brilhantes. Por isso pede que retorne ao convento dentro de um ano.

O médico estampou uma expressão de desapontamento:

― Ora, se respondi corretamente todas as questões – objetou – por que retornar dentro de um ano? E se eu tivesse dado respostas equivocadas, o que teria sucedido?

― O senhor teria sido aceito imediatamente e, na próxima semana, já estaria entre os noviços.

― Então, por que devo retornar em um ano?

― É o prazo que o prior considera adequado para que o senhor possa desaprender conhecimentos inúteis.

― Desaprender? – surpreendeu-se o médico.

― Sim, desaprender. Entrar na vida espiritual é como empreender uma viagem: quanto mais pesada a bagagem, mais lentamente se cobre o percurso. Na sua há demasiadas coisas substantivamente inúteis.

E o doutor partiu sob promessa de retornar dentro de um ano, o que de fato sucedeu.

Assim como há escolas e cursos para aprender, deveria também existir para ensinar a desaprender. Quantas importantes inutilidades valorizamos na vida! Quantos detalhes sugam nossas preciosas energias e consomem vorazmente o nosso tempo! Quantas horas e dias perdemos com ocupações que em nada acrescentam às nossas vidas; pelo contrário, causam-nos enfado e nos sobrecarregam de preocupações.

Precisamos desaprender a considerar os bens da natureza produtos de uso próprio, ainda que o nosso uso perdulário se traduza em falta para muitos. Desaprender a valorizar um modelo de progresso que necessariamente não traz felicidade coletiva e uma economia cuja especulação supera a produção. Desaprender a olhar o mundo a partir do próprio umbigo, como se o diferente merecesse ser encarado com suspeita e preconceito.

O desaprendizado é uma arte para quem se propõe a mudar de vida. Nessa viagem, quanto menos bagagem e mais leveza, sobretudo de espírito, melhor e mais rápido se alcança o destino. Vida afora, carregamos demasiadas cobranças, mágoas, invejas e até ódios, como se toda essa tralha fizesse algum mal a outras pessoas que não a nós mesmos.

O que nos encanta nas crianças com menos de cinco anos é a interrogação incessante, o interesse pela novidade, o espírito despojado. Era isso que sinalizou Jesus quando alertou a Nicodemos ser preciso nascer de novo, sem retornar ao ventre materno, e tornar-se criança para ingressar no Reino de Deus.

O médico candidato a noviço comprovou ser bem informado, mas ignorava a distinção entre cultura e sabedoria. Soube elencar as mais célebres telas da pintura universal, sem no entanto ter noção do que significam e por que o artista fez isto e não aquilo. Conhecia todas as doenças de sua especialidade, sem a devida clareza de como se relacionar com o doente.

A humanidade não terá futuro promissor se não desaprender a promover guerras e a considerar a pobreza mero resultado da incapacidade individual. Urge desaprender a valorizar o supérfluo como necessário e a ostentação como sinal de êxito. Desaprender a perder tempo com o que não tem a menor importância e se dedicar mais nos cuidados do corpo que do espírito.

A vida espiritual é um contínuo desaprender de apegos e ambições, vaidades e presunções. A felicidade só conhece uma morada: o coração humano. Eis aí milhões de viciados em drogas a gritar a plenos pulmões terem plena consciência de que a felicidade resulta de uma experiência interior, de um novo estado de consciência. Como não aprenderam a abraçar a via do absoluto, enveredaram pela do absurdo.

E convém aprender: no amor mais se desaprende do que se aprende.

sábado, 1 de outubro de 2011

NOTA DE REPÚDIO À VIOLÊNCIA POLICIAL CONTRA A MARCHA INDIGENA EM DEFESA DO TIPNIS

O Fórum Social Pan-Amazônico (FSPA), coletivo composto por mais de 50 organizações e movimentos sociais do Brasil, Peru, Estado Plurinacional de Equador, Estado Plurinacional de Bolívia, Colômbia, República Bolivariana da Venezuela, República Cooperativa da Guiana, Suriname e Guiana, repudia veementemente a violenta, covarde e brutal agressão que as forças policiais bolivianas cometeram contra os indígenas do Território Indígena Parque Nacional Isiboro Sécure (TIPNIS).

Há mais de 40 dias estes indígenas encontram-se marchando em defesa de seu território, ameaçado pelo governo boliviano e pela empreiteira brasileira OAS, que querem construir uma rodovia que passará por dentro daquele parque sem o consentimento das comunidades que o habitam. A intenção dos manifestantes é ir de Trinidad até La Paz, exigir que o presidente Evo Morales escute as populações que serão impactadas.

Não é de hoje que governos latino-americanos servem para implementar as agendas das grandes corporações, nacionais e internacionais, sem se preocupar com o que pensam ou sofrem os povos, em especial, os povos indígenas. Em nome de um desenvolvimento que já destruiu mais de um terço de todos os recursos naturais do planeta, destroem-se florestas, rios, vidas.

Reafirmamos que o direito dos povos originários de manterem suas culturas, suas identidades e seus territórios é sagrado. Povos indígenas e quilombolas devem ter suas terras demarcadas e juntamente com as comunidades tradicionais ter reconhecidos seus direitos à autonomia e ao autogoverno sem que isto signifique separatismo ou cisão do território nacional. Isto significa que nenhum projeto pode ser implantado sem o prévio consentimento das comunidades que vivem nestes territórios. Somos contra mega-projetos que alteram a geografia, destroem o meio-ambiente, desalojam populações, afogam culturas, gerando miséria e sofrimento. Somos contra o agronegócio e modelos que exploram a terra com o intuito de lucro. Defendemos o direito inalienável de todos os seres humanos de viverem em paz, com saúde, educação, moradia e todas as garantias para desenvolverem plenamente suas potencialidades.

O que aconteceu no dia 25 de setembro não pode ser de forma nenhuma aceito. Nada justifica a violência que irmãos e irmãs indígenas sofreram. Certamente todos os abusos e autoritarismos serão mundialmente denunciados.

Exigimos que todas as mulheres e homens presos sejam imediatamente libertados. Que nenhum deles seja processado por ter se defendido dos violentos ataques que sofreram. Que nenhum deles seja criminalizado por lutar pela justiça, pela igualdade, por uma forma de viver que não leve ao fim do planeta.

O FSPA está ao lado de todos aqueles que lutam por um TIPNIS livre da opressão e ganância do capital. Esta luta não pode e não deve ser interrompida.

VIVA O TIPNIS LIVRE!
VIVA A PAN-AMAZÔNIA LIVRE!
  
COMITÊ DE ARTICULAÇÃO DO Fórum Social Pan Amazônico

CPT denuncia manejo florestal no Riozinho do Rôla

Alerta vem sendo feito desde agosto, quando famílias do seringal São Bernardo procuraram a comissão
 
A bacia hidrográfica do Riozinho do Rôla, com 7.637 quilômetros quadrados e mais de 1.400 famílias morando na área, está ameaçada de extinção. O alerta vem sendo feito pela Comissão Pastoral da Terra (CPT) desde agosto, quando famílias do seringal São Bernardo procuraram a comissão para denunciar a exploração ilegal de madeira e a destruição de igarapés na região. 

De acordo com a coordenadora da CPT, Darlene Braga, faz tempo que São Bernardo deixou de ser uma área de seringal, mas uma grande área de fazendas que supostamente pertencem ao madeireiro e pecuarista Mozart Marcondes Filho. Na região do São Bernardo residem aproximadamente 20 famílias de extrativistas que vivem da caça, pesca e da extração dos produtos da floresta. 

Pelos relatos das famílias, o fazendeiro Mozart Marcondes chegou a propor um acordo com os moradores da área, “oferecendo” 75 hectares de terra, uma colocação e R$ 25 mil em dinheiro para quem fosse trabalhar com o manejo nas terras que diz serem dele. Sem medir as consequências, seis famílias chegaram a assinar um acordo, sendo que alguns se arrependeram em seguida, de acordo com relato de Antônio Evangelista da Silva feito à CPT. 

Darlene Braga lembrou que o promotor especializado de Conflitos Agrários, Vinícius Menandro Evangelista, assegurou que o acordo não chegou a ser oficializado e que a intenção do MPE é pôr um fim à problemática social em questão e proporcionar o bem-estar às famílias daquela região. O acordo só será firmado, informou o promotor à coordenadora da CPT, após o Termo de Ajuste de Conduta (TAC) ser assinado. 

O promotor Vinícius Evangelista chegou a propor a realização de uma audiência pública para discutir a situação agrária da área em conflito, mas Darlene Braga ponderou que numa audiência dessa natureza o debate não poderia se restringir à questão agrária, mas a uma discussão mais ampla sobre o campo ambiental. “Afinal, a problemática central não é só o seringal São Bernardo, mas toda a bacia hidrográfica do Riozinho do Rôla, uma área de grande interesse econômico por ser região de mata contínua”, observou a ativista.

DEPOIMENTOS

Darlene Braga lembrou que após a visita de um grupo de moradores à CPT, os agentes da comissão foram ao seringal ver e ouvir o que as famílias tinham a dizer sobre o que está ocorrendo após o manejo promovido pela empresa Laminados Triunfo Ltda. Na colocação de Claudino dos Santos Lima, por exemplo, o que viram foram ramais abertos pela madeireira sem autorização dos posseiros, igarapés aterrados com troncos de madeira que impedem o transporte de pequenas embarcações, animais sem água para beber, milhares de peixes mortos e as estradas de seringa e os piques de castanha destruídos. 

Pelo relato de Jorgenilson Nogueira da Costa, posseiro da colocação Alto Alegre 2, no seringal Cachoeira, o manejo não está sendo corretamente seguido pela madeireira, pois estão tirando madeira no mesmo local por vários anos seguidos, com a visível e crescente derrubada de madeira de lei como seringueira e castanheira, além de aterrarem o igarapé São Raimundo com troncos e terra. Em outro ponto do mesmo igarapé o aterro deixou os animais sem água para beber e causou a morte dos peixes. 

Quem também fez um relato aos agentes da CPT foi Antônio Evangelistas da Silva, posseiro na colocação Centrinho 1, no seringal São Bernardo. Segundo ele, lá também aterraram o igarapé, mataram animais e destruíram as nascentes de outros igarapés, além de desviar o curso das águas do Riozinho do Rôla. 

A coordenadora da CPT fez questão de observar que a situação na bacia hidrográfica do Riozinho do Rôla não está controlada. Até quinta-feira da semana passada, segundo ela, a empresa continuava explorando a área, tendo sido aplicada a ela uma multa de R$ 1 mil confirmada por Marcela Fidélis, do Instituto de Meio Ambiente do Acre (Imac), identificada por Marcela. “É vergonhoso saber que uma madeireira explora uma área sem qualquer critério, causa dano ambiental de proporções animalescas e ao final é premiada com uma multa de R$ 1 mil. E o mais grave: depois disso tudo foi liberada para continuar o manejo florestal”, reagiu indignada a coordenadora da CPT..

Fonte: Pagina 20

Amazônia 2011: O poder da justiça