sexta-feira, 5 de abril de 2013

Conjuntura político-indigenista no Brasil: enfrentamento ou retrocesso!


Povos indígenas da regisão Sul durante ocupação no Ministério da Saúde. Foto: Renato Santana/Cimi


O governo brasileiro optou por um modelo econômico que vem sendo chamado de desenvolvimentista agroextrativista exportador - alguns teóricos analistas chamam o governo de neodesenvolvimentista. Este modelo de “desenvolvimento” é altamente dependente da exploração e exportação de matérias-primas; em especial de commodities agrícolas e minerais, dentre elas soja, milho, carnes, madeiras, agro-combustíveis e minérios em geral.


Para viabilizar a exploração e exportação dessas matérias-primas, o governo busca implementar, a qualquer custo, as obras de infraestrutura na área de transporte e geração de energia, tais como, rodovias, ferrovias, hidrovias, portos, usinas hidroelétricas, linhas de transmissão, dentre outras.

A dependência quanto a uma produção e exploração sempre maior de commodities agrícolas e minerais e das condições de infraestrutura para o escoamento da produção potencializa sobremaneira a disputa pelo controle do território no país. É muito evidente que os setores político-econômicos anti-indígenas e antidemocráticos, representantes do agronegócio, das mineradoras, das grandes empreiteiras e o próprio governo brasileiro estão articulados e empenhados para ampliar o acesso, o controle e a exploração dos territórios indígenas, quilombolas, dos pescadores artesanais, dos camponeses, de preservação ambiental, dentre outros.

Para tanto adotaram uma estratégia que tem três objetivos centrais:

- O primeiro é o de inviabilizar e impedir o reconhecimento e a demarcação das terras indígenas que continuam usurpadas, na posse de não índios. Este objetivo também se aplica no caso da titulação de terras quilombolas, na desapropriação de terras para a reforma agrária, na criação de novas unidades de preservação ambiental e no reconhecimento do direito fundiário de outras populações tradicionais do Brasil;

- O segundo grande objetivo é o de reabrir e rever procedimentos de demarcação de terras indígenas já finalizados;

- O terceiro objetivo é o de invadir, explorar e mercantilizar as terras demarcadas, que estão na posse e sendo preservadas pelos povos indígenas, pelos quilombolas, por outros grupos tradicionais, pelos camponeses.

Para concretizar estes objetivos, declararam guerra e buscam desconstruir os direitos historicamente conquistados pelos povos. De maneira particular, no que tange aos direitos dos povos indígenas, os setores anti-indígenas vêm fazendo uso de diferentes instrumentos político-administrativos, judiciais e legislativos para cada um dos objetivos acima mencionados.

Na sequência, destacamos aqueles que consideramos os principais instrumentos de ataque, de acordo com o respectivo objetivo da estratégia anti-indígena em curso.

Instrumentos para inviabilizar e impedir o reconhecimento e a demarcação das terras indígenas que continuam usurpadas, na posse de não índios.

1) Proposta de Emenda Constitucional 215/00: de autoria do deputado federal Almir Sá (PPB/RR), a proposição legislativa teve sua Admissibilidade aprovada pela Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJC) da Câmara dos Deputados em março de 2012. No relatório da matéria apresentado e aprovado na CCJC, o deputado federal Osmar Serraglio (PMDB/PR), então vice-líder do governo na Câmara, apensou outras 11 PECs que tramitavam na referida Comissão. Com isso, a PEC 215/00, sendo aprovada, alterará os artigos 49, 225 e 231 da CF transferindo a competência das demarcações do Executivo para o Legislativo nacional e, em última instância, determinará: a) que toda e qualquer demarcação de terra indígena ainda não concluída deverá ser submetida à aprovação do Congresso Nacional; b) que as áreas predominantemente ocupadas por pequenas propriedades rurais que sejam exploradas em regime de economia familiar não serão demarcadas como terras tradicionalmente ocupadas por povo indígena; c) que as Assembléias Legislativas sejam obrigatoriamente consultadas em casos de demarcação de terras indígenas em seus respectivos estados; d) que a demarcação de terras indígenas, expedição de títulos das terras pertencentes a quilombolas e definição de espaços territoriais especialmente protegidos pelo Poder Público sejam regulamentados por uma lei e não mais por um decreto como ocorre atualmente; e) que será autorizada a permuta de terras indígenas em processo de demarcação litigiosa, ad referendum do Congresso Nacional.

A PEC 215/00 aguarda a criação de Comissão Especial Temporária na mesa diretora da Câmara dos Deputados. A proposição foi tema central no processo de negociação para a eleição do novo presidente da Câmara, deputado Henrique Alves (PMDB/RN). Para receber os votos da Bancada Ruralista, Alves teria assumido o compromisso de criar a Comissão Especial no decurso de seu mandato.

2) Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 038/99: de autoria do senador Mozarildo Cavalcanti (PMDB/RR), a proposição legislativa está aguardando inclusão na ordem do dia para ser votada pelo plenário do senado. Caso seja aprovada, tal como o voto em separado do senador Romero Jucá (PMDB/RR), alterará os artigos 52, 225 e 231 da Constituição Federal (CF) estabelecendo competência privativa do Senado Federal para aprovar processo sobre demarcação de terras indígenas.

3) Portaria 2498/11: de autoria do Poder Executivo, foi publicada no dia 31 de outubro de 2011, pelo Ministério da Justiça, e determina a intimação dos entes federados para que participem dos procedimentos de identificação e delimitação de terras indígenas. Esta portaria tem como pano de fundo uma interpretação equivocada, por parte do Executivo, de Condicionante estabelecida pelo Supremo Tribunal Federal no julgamento da Petição 3388, única e exclusivamente relativa ao caso da Terra Raposa Serra do Sol, cujo julgamento não transitou em julgado.

4) Inoperância nas demarcações: politicamente deliberada pelo Poder Executivo, a inoperância quanto às demarcações de terras indígenas é praticamente absoluta. A Fundação Nacional do Índio (Funai) “não tem autorização”, ou seja, está proibida pela Presidência da República, de criar novos Grupos de Trabalho para estudos de identificação e delimitação de terras. Isso se constitui, sem sombra de dúvidas, em mais um ato de subserviência do governo brasileiro às demandas do agronegócio em nosso país, que vem pedindo, em audiências com Ministros de Estado, uma moratória nas demarcações sob o pretexto de se aguardar a decisão do Supremo Tribunal Federal sobre a Petição 3388.

5) Judicialização das demarcações: iniciativa articulada pela Confederação Nacional da Agricultura (CNA) e pelos sindicatos a ela filiados, incentiva os não-indígenas invasores de terras indígenas a questionarem judicialmente todo e qualquer procedimento administrativo que visa o reconhecimento e a demarcação de terras indígenas. O julgamento desses processos por parte do judiciário é extremamente demorado, o que, no mínimo, vem resultando em atrasos ainda maiores nas demarcações das terras indígenas.

Instrumento para reabrir e rever procedimentos de demarcação de terras indígenas já finalizados.

6) Portaria 303/12: de iniciativa do poder Executivo, por meio da Advocacia Geral da União (AGU), publicada no dia 17 de julho de 2012, a Portaria 303/12 manifesta uma interpretação extremamente abrangente, geográfica e temporal quanto às condicionantes estabelecidas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no julgamento do caso Raposa Serra do Sol (Petição 3388), estendendo a aplicação delas a todas as terras indígenas do país e retroagindo “ad eternun” sua aplicabilidade. A portaria determina que os procedimentos já “finalizados” sejam “revistos e adequados” aos seus termos.
Além disso, determina que sejam “revistos” os procedimentos de demarcação em curso e impõe limites severos aos direitos de usufruto exclusivo dos povos sobre suas terras, previsto na Constituição Federal, e de consentimento livre, prévio e informado, previsto na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

A aplicação da Portaria 303/12 está suspensa, mas prevista para entrar em vigor no dia seguinte à publicação do acórdão do julgamento dos Embargos de Declaração da Petição 3388 pelo STF. Em função disso, uma eventual decisão do STF que corrobore os termos estabelecidos pela Portaria, ampliaria profundamente a instabilidade jurídica e política vivida pelos povos indígenas e, na prática, significaria a conflagração de conflitos fundiários ainda mais graves envolvendo a posse das terras indígenas, inclusive a reabertura de conflitos solucionados com o ato demarcatório.

Consideramos tudo isso grave, uma vez que das 1046 terras indígenas, 363 estão regularizadas; 335 terras estão em alguma fase do procedimento de demarcação e 348 são reivindicadas por povos indígenas no Brasil, mas até o momento a Funai não tomou providências a fim de dar início aos procedimentos de demarcação.

Instrumentos para invadir, explorar e mercantilizar as terras demarcadas, que estão na posse e sendo preservadas pelos povos indígenas.

7- Decreto nº 7.957/13: de autoria do Poder Executivo, publicada no dia 13 de março de 2013, cria o Gabinete Permanente de Gestão Integrada para a Proteção do Meio Ambiente, regulamenta a atuação das Forças Armadas na proteção ambiental e altera o Decreto nº 5.289, de 29 de novembro de 2004. Com esse decreto, “de caráter preventivo ou repressivo”, foi criada a Companhia de Operações Ambientais da Força Nacional de Segurança Pública, tendo como uma de suas atribuições “prestar auxílio à realização de levantamentos e laudos técnicos sobre impactos ambientais negativos”. Na prática isso significa a criação de instrumento estatal para repressão militarizada de toda e qualquer ação de comunidades tradicionais, povos indígenas e outros segmentos populacionais que se posicionem contra empreendimentos que impactem seus territórios.

8- Portaria Interministerial 419/11: de autoria do Poder Executivo, a Portaria, publicada em 28 de outubro de 2011, regulamenta a atuação de órgãos e entidades da administração pública com o objetivo de agilizar os licenciamentos ambientais de empreendimentos de infraestrutura que atingem terras indígenas. Neste sentido: a) concede prazo irrisório de 15 dias para que a Funai se manifeste em relação a determinada obra que atinge terra indígena no país; b) determina que o governo só irá considerar como Terra Indígena atingida por uma determinada obra de infra-estrutura aquela que tiver seus limites estabelecidos pela Funai, ou seja, cujo Relatório Circunstanciado de Identificação e Delimitação tenha sido publicado nos Diários Oficiais da União e do respectivo estado federado. Este último ponto é especialmente danoso aos povos indígenas - reconhecidamente inconstitucional -, uma vez que desconsidera o fato de que o procedimento administrativo de demarcação de terra indígena é ato apenas declaratório do direito dos indígenas sobre suas terras tradicionais. Com a portaria 419, para efeito de estudo de impactos causados pelos empreendimentos, o governo desconsidera a existência de aproximadamente 370 terras indígenas ainda não identificadas e delimitadas no Brasil.

9- Projeto de Lei (PL) 1610/96: de autoria do senador Romero Jucá (PMDB/RR), o Projeto dispõe sobre a exploração e o aproveitamento de recursos minerais em terras indígenas, de que tratam os arts. 176 e 231 da Constituição Federal. Em fase final de tramitação, aguarda parecer da Comissão Especial. Relatório preliminar divulgado, no segundo semestre de 2012 pelo deputado federal Édio Lopes (PMDB/RR), é extremamente maléfico aos interesses dos povos indígenas. Caso a lei seja aprovada na forma do relatório em questão, dentre muitos outros aspectos problemáticos, destacamos: a) Não será admitido o direito de veto dos povos. Com isso, o direito de consulta livre, prévia e informada será transformado em mero ato formal, denominado “consulta pública”. A vontade dos povos não terá qualquer influência sobre a continuidade do processo de exploração mineral na própria terra. Nesse caso, inclusive, recupera o princípio da tutela, abominado pela Constituição, ao definir que uma comissão formada por não-índios decidirá sobre o que é melhor para os povos indígenas; b) Nenhuma salvaguarda constitucional é explicitada. Com isso, a exploração mineral poderá ocorrer em todo e qualquer espaço no interior da terra indígena. Não há qualquer referência que proíba a lavra de recursos minerais incidentes sob monumentos e locais históricos, culturais, religiosos, sagrados, de caça, de coleta, de pesca ou mesmo de moradia dos povos. Isso, como é evidente, oferece risco incalculável à sobrevivência física e cultural dos povos.

10- Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 237/13: de autoria do deputado Nelson Padovani (PSC/PR), busca alterar o art. 176 da Constituição, permitindo a posse de terras indígenas por produtores rurais. A PEC 237/13 acrescenta parágrafo à Constituição para determinar que a pesquisa, o cultivo e a produção agropecuária nas terras tradicionalmente ocupadas pelos índios poderão ocorrer por concessão da União, ao agronegócio. Aguarda designação de relator na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJC) da Câmara dos Deputados.

11- Projeto de Lei (PL) 195/11: de autoria da Deputada Rebecca Garcia (PP/AM), prevê a instituição de sistema nacional de redução de emissões por desmatamento e degradação (REDD+). Em flagrante desrespeito ao princípio constitucional que prevê usufruto exclusivo das terras pelos próprios povos indígenas, o PL elege, dentre outras, as terras indígenas como objeto de projetos de REDD+. Aguarda constituição de Comissão Temporária Especial na Mesa Diretora da Câmara dos Deputados.

12- Substituição do Direito pela Compensação/Mitigação: a omissão do governo brasileiro na efetivação de políticas públicas, tais como de saúde e educação, dentre outras, vem influenciando dezenas de povos a aceitarem projetos de exploração de seus territórios como forma de obter compensações/mitigações para responder as demandas criadas pelo abandono do Estado. Entendemos que isso é extremamente grave e prejudicial aos povos indígenas, uma vez que o direito tem caráter permanente, enquanto as compensações têm caráter efêmero e perduram tão somente enquanto perdurar a exploração do território. Com a aplicação deste instrumento, chegará o tempo em que povos terão seus territórios exauridos, não receberão mais as compensações/mitigações e não mais terão o direito ao atendimento nas diferentes áreas.

O desenvolvimento econômico do Brasil não beneficia indistintamente toda a população nacional, como a tese falaciosa do governo brasileiro quer fazer crer a sociedade nacional e internacional. O que efetivamente vem ocorrendo é que esse propagado “desenvolvimento brasileiro” é viabilizado devido à violação de direitos humanos, econômicos, políticos, sociais, culturais e ambientais de populações amplas e diversas, dentre elas, os povos indígenas.

Diante de tudo isso, fica evidente a urgência dos desafios a serem enfrentados pelos povos indígenas e seus aliados. Julgamos de extrema necessidade que sejam ampliadas as articulações, as mobilizações, as lutas e os enfrentamentos políticos por parte dos povos indígenas, em todos os espaços possíveis, a fim de:

1) que sejam mantidos os direitos conquistados pelos povos na Constituição Federal, evitando assim que ocorram os retrocessos históricos almejados pelos setores anti-indígenas;

2) que o governo brasileiro assuma a responsabilidade que tem no cumprimento dos direitos dos povos indígenas para um atendimento qualificado quanto às políticas públicas de saúde e educação, bem como, à demarcação e à proteção das terras indígenas conforme prevê a Constituição Brasileira.

Conselho Indigenista Missionário – Cimi

quinta-feira, 4 de abril de 2013

CHEGOU ABRIL!!!!!


Chegou mais uma vez o ABRIL INDÍGENA no Acre e no Brasil. Momento forte para que os povos indígenas e outras comunidades tradicionais possam refletir sobre a realidade vivida e gritar, bem alto: Os projetos desenvolvimentistas são contrários a vida!

É hora de desbancar a farsa e a propaganda enganosa de que no Acre está tudo bem com os indígenas e camponeses.

Se você é CONTRA A FINANCEIRIZAÇÃO DA NATUREZA E  ESPOLIAÇÃO DOS TERRITÓRIOS INDÍGENAS E CAMPONESES na Amazônia, não pode deixar de participar da mesa redonda que acontecerá dia 12 de abril no Anfiteatro Garibaldi Brasil, UFAC. 

Ser contra a financeirização é ser contra projetos de morte como REDD+, PSA e outras formas de apropriação indevida (privatização e roubo) de nossos bens comuns como a água, o ar e nossos territórios com tudo que os compreende. Vivemos em um planeta pequeno que é nossa casa comum e não podemos permitir que a ambição de alguns, ligada à sanha de perpetuação no poder de outros, destrua essa nossa casa comum. O momento é agora!!

Acompanhe toda a programação do ABRIL INDÍGENA 2013 e contribua com a vida!

OU O ACRE PARA COM A FINANCEIRIZAÇÃO DE NOSSA NATUREZA E A ESPOLIAÇÃO DE NOSSOS TERRITÓRIOS OU NÓS PARARAMOS O ACRE!

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Mentira, farsa e engodo: EIS O REDD+ INDÌGENA !!!!

Governo federal e a militarização como instrumento político



O Conselho Indigenista Missionário chama a atenção da sociedade e denuncia os mecanismos autoritários de exceção adotados pelo governo brasileiro. Diante da posição altiva e digna do povo Munduruku, que não tem se deixado iludir, nem ser corrompido, e que vem manifestando, repetidas vezes e de maneira unificada, sua posição contrária à construção do chamado Complexo Hidrelétrico do Tapajós, o governo federal publicou, no último dia 12 de março, o Decreto nº 7.957/13, que altera o Decreto nº 5.289, de 29 de novembro de 2004 e legaliza a intervenção e a repressão militarizada a todo e qualquer ato de resistência da sociedade civil organizada contra a invasão de seus territórios por obras de infraestrutura.

O Decreto 7.957/13, “de caráter preventivo e repressivo”, institui o “Gabinete Permanente de Gestão Integrada para a Proteção do Meio Ambiente”. Dentre as competências deste Gabinete estão as de “identificar situações e áreas que demandem emprego das Forças Armadas, em garantia da lei e da ordem, e submetê-las ao Presidente da República”, e “demandar das Forças Armadas a prestação de apoio logístico, de inteligência, de comunicações e de instrução”. De acordo com o Decreto “No caso de emprego das Forças Armadas para garantia da lei e da ordem em operações de proteção ambiental, caberá ao Ministério da Defesa a coordenação, o acompanhamento e a integração das ações a serem implementadas pelos órgãos e entidades envolvidos”.

Ainda por meio do referido Decreto, o governo federal cria “a Companhia de Operações Ambientais da Força Nacional de Segurança Pública”. Dentre os objetivos desta companhia, está o de “prestar auxílio à realização de levantamentos e laudos técnicos sobre impactos ambientais negativos”. Fica determinado ainda que “A Força Nacional de Segurança Pública poderá ser empregada em qualquer parte do território nacional, mediante solicitação expressa do respectivo Governador de Estado, do Distrito Federal ou de Ministro de Estado”.

Com base no Decreto 7.957/13, no dia 21 de março de 2013, o Ministro de Estado de Minas e Energia Edson Lobão encaminhou, ao Ministério da Justiça, Aviso Ministerial nº 040/13 “solicitando o apoio da Força Nacional de Segurança Pública ao Ministério de Minas e Energia”. Em resposta ao pedido, o Ministro de Estado da Justiça José Eduardo Cardoso publicou a portaria 1.035, de 22 de março de 2013, autorizando o emprego da Força Nacional de Segurança Pública no estado do Pará, o fim de “garantir incolumidade das pessoas, do patrimônio e a manutenção da ordem pública nos locais em que se desenvolvem as obras, demarcações, serviços e demais atividades atinentes ao Ministério de Minas e Energia”.

Imediatamente foi desencadeada a “Operação Tapajós”, formada por agentes das Forças Armadas, da Polícia Federal, da Polícia Rodoviária Federal e da Força Nacional de Segurança Pública. Por esta operação, o governo federal vem aterrorizando a vida do povo Munduruku na região de Itaituba e Jacareacanga, estado do Pará.

O governo federal não aceita o contraditório e por decreto lança forças militares contra as comunidades e povos que se opõem aos seus ditames. O que isso pode ser além de resquício catastrófico do período de exceção da ditadura militar, que agiu com as mesmas ferramentas em vista do milagre econômico nunca atingido? Hoje vemos o “nunca antes na história desse país”. O aprofundamento da experiência democrática é substituído por inflexões arrogantes, que desrespeitam leis, acordos internacionais e o direito ao futuro dos povos indígenas e comunidades tradicionais.

É inaceitável e ilegítimo que o governo imponha uma proposta de diálogo com a “ponta da baioneta” no pescoço dos povos indígenas. Não podemos aceitar um Estado de Exceção – ou a repetição dele.  

Conselho Indigenista Missionário – Cimi

terça-feira, 2 de abril de 2013

“O desenvolvimentismo não combina com princípios éticos e humanitários”


A relação deste governo, e dos que o antecederam, está muito longe de ser comprometida com o projeto de vida, de justiça e dignidade dos povos indígenas, aponta Roberto Antonio Liebgott

Por: Graziela Wolfart

Liebgott: "Lideranças indígenas de todas as regiões do Brasil analisam que as opções dos governos petistas foram pelo boi, pela soja, pelo agronegócio, pelas empreiteiras e empresas de energia elétrica (os barrageiros)"

Na opinião de Roberto Antonio Liebgott, “a ‘esquerda’ que assumiu o poder se tornou volátil, ou seja, diante das contingências do momento e da ânsia por assumir o governo, ajustou muito rapidamente seus propósitos e bandeiras históricas. Tornou-se, portanto, volúvel, instável e inconstante, tanto foi assim que aderiu, mesmo antes da posse do presidente Lula, aos programas e projetos de setores e grupos da estrema direita. Em função disso, logo no início do primeiro mandato do ex-presidente Lula, a governança do país foi alicerçada no plano desenvolvimentista dos governos neoliberais de Fernando Collor de Mello-Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso. No nosso entender não foi ‘a esquerda’ que assumiu o governo, e sim um partido que compôs com o poder existente”. Na entrevista que concedeu por e-mail para a IHU On-Line, Liebgott argumenta que “a demarcação das terras dos povos indígenas é a única alternativa concreta para que se coloque um ponto final nas atrocidades praticadas em diferentes regiões do país, nas quais também os povos indígenas sofrem com a precariedade das condições de vida e com a falta de terras”. Para ele, “o governo federal, ao impor ao país um modelo de desenvolvimento econômico fundamentado quase que exclusivamente na exploração da natureza, viola a premissa de que a terra não é um recurso à disposição dos interesses do homem, e sim o lugar de viver de inumeráveis seres, com os quais o homem compartilha o existir”.  

Roberto Liebgott é ex-vice-presidente do Conselho Indigenista Missionário – Cimi com atuação no Rio Grande do Sul, Regional Sul.
Confira a entrevista.

IHU On-Line - A partir da retrospectiva da política indigenista conduzida pela presidência da República nos últimos 10 anos, como o senhor analisa a relação da esquerda que está à frente do poder no Brasil com a problemática dos povos originários?

Roberto Antonio Liebgott - A relação deste governo, e dos que o antecederam, está muito longe de ser comprometida com o projeto de vida, de justiça e dignidade dos povos indígenas. Podemos exemplificar a falta de compromisso político dos governos petistas com a problemática indígena, em especial pelo contínuo e silencioso processo de genocídio a que os Guarani-Kaiowá estão sendo submetidos no Mato Grosso do Sul. Este estado lidera o ranking de violências contra os índios há anos, e o que tem feito, de concreto, o governo federal, que segundo a Constituição de 1988 é responsável pela proteção dos povos indígenas? Infelizmente não tem tomado mais do que medidas pontuais e paliativas. A demarcação das terras dos povos indígenas é a única alternativa concreta para que se coloque um ponto final nas atrocidades praticadas naquele estado e em diferentes regiões do país, nas quais também os povos indígenas sofrem com a precariedade das condições de vida e com a falta de terras.

Lideranças indígenas de todas as regiões do Brasil analisam que as opções dos governos petistas foram pelo boi, pela soja, pelo agronegócio, pelas empreiteiras e empresas de energia elétrica (os barrageiros). Vejamos como isso se processa: no âmbito político, devemos reconhecer que a "esquerda" que assumiu o poder se tornou volátil, ou seja, diante das contingências do momento e da ânsia por assumir o governo, ajustou muito rapidamente seus propósitos e bandeiras históricas. Tornou-se, portanto, volúvel, instável e inconstante, tanto foi assim que aderiu, mesmo antes da posse do presidente Lula, aos programas e projetos de setores e grupos da estrema direita. Em função disso, logo no início do primeiro mandato do ex-presidente Lula, a governança do país foi alicerçada no plano desenvolvimentista dos governos neoliberais de Fernando Collor de Mello-Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso. 

No nosso entender não foi “a esquerda” que assumiu o governo, e sim um partido que compôs com o poder existente. E é a partir dessa composição que podemos analisar a relação que se estabeleceu, nestes últimos 10 anos, do governo com os povos indígenas. Na nossa avaliação os governos petistas optaram por contemplar interesses de segmentos que fizeram e fazem parte de sua base de sustentação política e que se beneficiam de uma política indigenista protelatória e omissa,  muito aquém dos anseios, necessidades, expectativas e da efetiva aplicação dos preceitos constitucionais dos  povos indígenas.

IHU On-Line - O que o PT fez de mais significativo pelos povos indígenas ao longo desta década e o que ele deixou de fazer?

Roberto Antonio Liebgott - Para a governabilidade do país, o PT optou por estabelecer alianças com diferentes segmentos políticos e sociais. Recebeu, inegavelmente, muitos recursos para as campanhas eleitorais provenientes de forças econômicas e políticas que agora exigem retornos para seus “investimentos”. Significa dizer que o PT se tornou um partido refém das oligarquias econômicas vinculadas ao sistema financeiro, às empreiteiras e ao agronegócio. E, além disso, se tornou refém do PMDB, partido que hoje domina todas as ações parlamentares no Congresso Nacional e exerce funções importantes (ministérios, secretarias, autarquias, agencias reguladoras) no âmbito do Poder Executivo.

Como eu disse anteriormente, durante os dois mandatos do presidente Lula e nos dois anos de governo da presidente Dilma, as demandas indígenas relativas às demarcações, proteção e usufruto das terras foram negligenciadas. Portanto, no quesito mais importante do que deveria ser a base da política indigenista, que é a demarcação e garantia das terras, o PT pouco fez ao longo dos 10 últimos anos. O que ocorreu de mais relevante neste período foi o conjunto de decisões do STF nos casos das ações pendentes de julgamento acerca da manutenção da demarcação em área contínua de Raposa Serra do Sol e da nulidade dos títulos incidentes sobre a Terra do Povo Pataxó Hã-Hã-Hãe. Nos dois julgamentos mencionados, os ministros do STF decidiram as ações favoravelmente aos direitos indígenas. 

Recentemente ocorreu outra determinação judicial, também do STF, de que a terra indígena Marãiwatsédé, do Povo Xavante, fosse desintrusada. Ou seja, foi o Poder Judiciário que determinou que o Governo Federal retirasse da terra indígena todos os ocupantes – de boa ou má fé – que viviam sobre a terra indígena. Os três casos referidos, que tiveram grande repercussão midiática, não possuem um nexo direto com a política indigenista do Governo Federal, posto que foram resultantes da ação do Judiciário e de procedimentos que antecedem os 10 anos de governo petista. Ou seja, o Governo Federal foi intimado pelo STF a cumprir com suas funções de proteção, fiscalização e demarcação das terras ocupadas e reconhecidas como indígenas.

Políticas assistenciais de educação e saúde

No que concerne às políticas assistenciais, os povos indígenas enfrentaram grandes desafios, especialmente nas áreas de educação e saúde. No campo da educação, o governo decidiu pela implementação de um modelo de gestão da educação escolar estruturado na forma de territórios etnoeducacionais. Contudo, esse conturbado processo vem ocorrendo a passos lentos e as comunidades indígenas ainda não compreendem o funcionamento e as responsabilidades na oferta de serviços básicos, se estas são da União, dos estados, de municípios ou de prestadoras de serviço. Há ainda sérias denúncias, feitas por diferentes comunidades e povos indígenas, de que a audiência e consulta às comunidades não teria sido procedida de modo a envolver efetivamente os sujeitos a quem esta política se destina. No que se refere à saúde houve muita confusão e desencontros quanto à política a ser adotada. Num primeiro momento, o governo Lula deu seguimento à política de terceirização iniciada na era de Fernando Henrique Cardoso. Entretanto, a falta de consistência da política, principalmente no que se refere às responsabilidades pela gestão e execução das ações, que estavam pulverizadas entre os prestadores de serviços e a Funasa (Fundação Nacional de Saúde), gerou grandes descontentamentos, o que fez  com que o Tribunal de Contas da União realizasse uma auditoria em todos os aspectos da política de atenção à saúde indígena, coordenada pela Funasa. Além da má gestão dos serviços, havia má gestão dos recursos financeiros, gerando denúncias de que havia corrupção na gestão dos recursos da saúde indígena. Paralelo a isso houve uma determinação judicial, afirmando que era dever da União fazer a gestão e execução da saúde indígena e, assim sendo, o modelo de assistência realizado de forma terceirizada estava em desacordo com a legislação. Essas determinações judiciais obrigaram o governo e rever sua política e a criar a Secretaria Especial de Atenção à Saúde Indígena.

Comissão Nacional de Política Indigenista e Funai

É importante considerar também que ao longo dos 10 anos de governo petista os povos indígenas não foram tratados como protagonistas de suas histórias ou como portadores de direitos a serem reconhecidos. Houve uma iniciativa que até poderia ter se constituído em efetivo espaço de diálogo, de debates e de proposições sobre as demandas e realidades indígenas: a criação da Comissão Nacional de Política Indigenista – CNPI. No entanto, ela acabou sendo esvaziada logo no início do governo Dilma. Os líderes indígenas, integrantes da CNPI, convidaram a presidente Dilma para dialogar sobre as grandes questões que estavam afetando as terras e os direitos indígenas, a exemplo do complexo hidroelétrico de Belo Monte, a mortalidade indígena no Vale do Javari, as violências praticadas contra os Guarani-Kaiowá, a morosidade nos procedimentos de demarcação, a reestruturação da Funai, entre outros temas. A presidente se recusou ao debate e disse que não iria até a CNPI. Desde então, a Comissão foi esvaziada e não houve mais o cumprimento do cronograma de reuniões.

A Funai, órgão do governo que deveria responder por toda a política para os povos indígenas, tem como responsabilidade primeira a realização dos procedimentos demarcatórios, bem como a proteção e garantia do usufruto exclusivo das terras pelos povos indígenas, tem se mostrado absolutamente incapaz e acabou sucateada, sem recursos orçamentários suficientes para exercer suas funções. Pior ainda, esse órgão indigenista do governo tem se limitado a um tipo de atuação que, em muitos casos, avaliza e busca convencer os índios a aceitarem supostos benefícios e compensações decorrentes de empreendimentos e obras que afetarão suas terras, a exemplo das barragens, duplicações de rodovias, gasodutos, linhas de transmissão, hidrovias.

É necessário referir que, no âmbito das políticas governamentais para os povos indígenas, um dos desafios principais é o reconhecimento e o respeito às diferenças étnicas e culturais. Os que comandam os órgãos de governo não se preocuparam em qualificar os agentes e servidores públicos para as demandas advindas das relações inter-étnicas, ou resguardar os espaços de participação efetiva dos índios na proposição e planejamento destas políticas.

IHU On-Line - Como a cultura do desenvolvimentismo e do crescimento econômico protagonizada pelo governo federal se choca com a cultura do bem-viver indígena? 

Roberto Antonio Liebgott - O governo federal, ao impor ao país um modelo de desenvolvimento econômico fundamentado quase que exclusivamente na exploração da natureza, viola a premissa de que a terra não é um recurso à disposição dos interesses do homem, e sim o lugar de viver de inumeráveis seres, com os quais o homem compartilha o existir. Esse modelo unilateral viola o princípio da vida em plenitude, e a noção de igualdade de direitos entre as pessoas, posto que algumas têm acesso privado a certos recursos econômicos, ambientais, culturais e sociais e outras estão absolutamente excluídas ou marginalizadas. Tudo isso compromete as possibilidades de futuro de toda a humanidade, do planeta e dos povos que não compartilham esses mesmos imperativos do lucro e da produção em larga escala. O desenvolvimentismo não combina com princípios éticos e humanitários. 

Todos os seres e todas as coisas somente tem valor quando transformados em mercadoria, quando adequados ao consumo – como consumidores potenciais ou como objetos de consumo. Não se encaixando neste modelo de sociedade de consumo, os povos e comunidades tradicionais são tratados como obstáculos ao desenvolvimento e, necessariamente, os planos para eles são a remoção, a adequação ou o confinamento em locais onde não sejam inoportunos. É nesta lógica que se estabelecem os vínculos e as relações daqueles que governam o Estado com aqueles que têm nas mãos o capital e os recursos para explorar os bens existentes na natureza (terras, águas, matas, animais, a biodiversidade, os minérios, o turismo).

Os povos indígenas têm, em sua maioria, concepções de vida vinculadas ao inter-relacionamento dos seres tanto na dimensão física, quanto na espiritual. Assim, os vínculos entre as pessoas e seres da natureza são inseparáveis e estas é que asseguram o equilíbrio e o bem viver. Na medida em que essas redes de relações (das diferenças e das diversidades) são atacadas, agredidas e violadas rompem-se os elos que constituem o bem viver. O desenvolvimentismo a qualquer custo é, portanto, um decreto de morte aos modos diferentes de pensar e de construir a vida na terra. 

IHU On-Line - O que representa, do ponto de vista da posição do governo federal do PT em relação aos povos indígenas, a escolha de Marco Feliciano na presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados? 

Roberto Antonio Liebgott - Esse é um dos acontecimentos mais paradoxais e vergonhosos de nossa política atual. No Brasil e no exterior assistimos a uma justificada onda de protestos contra esse verdadeiro disparate – a escolha de Marco Feliciano para a presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. As declarações públicas desse parlamentar demonstram a mais absoluta falta de sensibilidade e abertura para as questões que concernem a esta Comissão. 
Como explicar essa escolha, se não por critérios exclusivamente político-partidários? No Congresso Nacional as definições não se coadunam com a vida e com os interesses da população. Parece haver um pacto para acomodar cada partido e cada sujeito em um lugar, seguindo interesses individuais do parlamentar, ou dos partidos e de governo. Não se justifica, sob nenhum pretexto, a escolha de um parlamentar acusado de homofobia, que utiliza uma retórica machista e discriminatória em seus discursos recentes, para presidir uma comissão parlamentar que pretende acolher demandas, denúncias, inquietações e reivindicações dos segmentos menos favorecidos da sociedade. Não se admite, sobretudo, que diante das seguidas manifestações de descontentamento e os atos de protesto da população, esta escolha não tenha sido reavaliada pelo Congresso Nacional e pelo governo.
Aliás, essa escolha, assim como a escolha de Blairo Maggi (conhecido pelas suas posições contrárias à proteção dos recursos ambientais e por promover desmatamento no Mato Grosso) para presidir a Comissão de Meio Ambiente do Senado, parece muito mais um reconhecimento público de que o país está definitivamente sob o comando dos partidos considerados de direita e vinculados aos interesses do latifúndio, do agronegócio, da mineração e da exploração energética.

Concessão

Lamentavelmente se constata que os partidos que mantinham certos vínculos com as demandas sociais e com as questões relacionadas aos direitos humanos (PT, PC do B, PSB) dos povos indígenas, quilombolas, dos sem tetos, dos atingidos por barragens, dos pequenos agricultores, dos homossexuais, das mulheres vítimas de violência, fizeram uma concessão e entregaram duas comissões estratégicas a parlamentares e partidos que primam, historicamente, pelo distanciamento dos segmentos sociais marginalizados. Os partidos da base do governo Dilma contribuirão, com essa postura, para o aprofundamento das violações aos direitos humanos em nosso país. 

Em nossa opinião, ao abrir mão dessas comissões permanentes, o Partido dos Trabalhadores confirma que as demandas sociais e os direitos humanos não estão na pauta dos assuntos que realmente interessam. Para os povos indígenas, obviamente, essa escolha se constitui em afronta e será um verdadeiro desastre.

IHU On-Line - Qual a contribuição para os povos indígenas que a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados já deu ao longo dos últimos 10 anos, de forma efetiva?

Roberto Antonio Liebgott - A Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados se constituiu, ao longo das últimas décadas como um dos poucos espaços do parlamento onde os segmentos sociais menos favorecidos tinham possibilidade de apresentar suas demandas e onde conseguiam debater suas questões e propostas. No âmbito da CDH inúmeros projetos de lei, que afetavam ou afetam a vida dos povos indígenas, seus direitos e interesses foram debatidos e inclusive rejeitados. Com as decisões da Comissão de Direitos Humanos alguns projetos de lei que visavam exclusivamente desfazer atos do Poder Executivo quanto às demarcações de terras, os chamados PDCs, que tentavam, como último caminho, impugnar procedimentos demarcatórios, não prosperavam e eram retirados das pautas de votação e de tramitação em outras comissões parlamentares que também deveriam se manifestar sobre o assunto.

IHU On-Line - Como o senhor percebe a conjuntura indigenista brasileira, de modo geral, pensando na cultura de nosso povo em relação aos povos indígenas? Há alguma mudança de foco, de olhar, nos últimos 10 anos? 

Roberto Antonio Liebgott - Os povos indígenas ainda são vistos pela sociedade, de uma maneira geral, como “seres vinculados ao passado”. As imagens, os estereótipos, os acontecimentos e até as celebrações ou eventos culturais veiculados sobre os povos indígenas têm geralmente uma referência a estes sujeitos como pertencentes ao passado, embora presentes na contemporaneidade, de tal modo que se pretende que suas culturas sejam fixas e voltadas para um tempo remoto. Assim, estranha-se, por exemplo, o fato de que os indígenas portem ou consumam bens tecnológicos, ou que vivam em espaços próximos ao que chamamos de mundo urbano. Há ainda uma representação de primitivismo que marca o olhar para os povos indígenas. Deseja-se encontrar neles um perfil que se encaixa com essa representação e espera-se deles uma vida inserida apenas nas florestas e matas, enquanto que, na realidade, estes habitam espaços variados e estão presentes no cenário político, apresentando suas lutas e reivindicações. Pensá-los como povos do passado e com primitivos justifica, por exemplo, a noção de que seriam signos de atraso, em um país que vislumbra o desenvolvimento. E essa visão contribui para que os direitos indígenas também sejam negligenciados pelos governantes, autoridades judiciárias e pelo parlamento brasileiro. Demarcar terras para eles, quando há sobre essas mesmas terras interesses mercantis, empresariais e exploratórios, parece absurdo a quem os imagina como entraves, obstáculos e signos de atraso. 

É em função a dessa visão equivocada que as políticas do Estado brasileiro são desconectadas das diferentes realidades indígenas no Brasil. Há no país 240 povos, que falam pelo menos 180 línguas diferentes e com uma população superior a 800 mil pessoas. Eles ocupam 1064 terras indígenas, das quais apenas 364 estão regularizadas. Muitos grupos indígenas, mais de 90, vivem em situação de isolamento na Amazônia, ou seja, eles não estabelecem contato e nenhum tipo de relacionamento com a nossa sociedade. Mas também existe uma expressiva parte da população indígena que vive em centros urbanos e desfruta muito precariamente dos direitos resguardados na Constituição Federal.

Respeito à diversidade

Essas realidades exigem uma compreensão que ultrapassa as normas e regras administrativas dos poderes públicos, portanto requer que sejam pensadas políticas que respeitem a diversidade de povos e culturas e que os proteja das violências impostas pelos setores da sociedade que buscam explorar a terra, os recursos hídricos, minerais e ambientais. Exige também que os direitos indígenas, expressos na Constituição Federal (artigos 231, 232, 215, 210) sejam assegurados como os demais direitos, a exemplo do tão referido direito de propriedade (comumente utilizado pelos defensores do agronegócio para se contrapor à demarcação das terras e a reforma agrária) e não relativizados em função de interesses econômicos.

É preciso registrar que hoje, especialmente através das redes sociais, uma parcela importante da população brasileira tem manifestado posições favoráveis aos povos indígenas. Foi assim, por exemplo, que se espraiou recentemente uma onda de protestos virtuais em favor dos Guarani-Kaiowá, um movimento designado Somos Todos Guarani. Nas redes sociais e nas ruas as pessoas protestaram e especialmente os jovens se inseriram nesta campanha em favor da vida. Também merece referência o apoio à luta contra a expulsão dos indígenas da Aldeia Maracanã, no Rio de Janeiro. Vemos que os povos indígenas são, na atualidade, um dos importantes segmentos a gerar mobilizações no país, especialmente no meio da juventude. Isso nos dá esperança.

IHU On-Line - Como a defesa pelo agronegócio por parte do governo do PT se contrapõe à luta dos povos indígenas pela demarcação de terras? 

Roberto Antonio Liebgott - Ao analisar a questão indígena no Brasil não se pode deixar de considerar a influência ideológica dos setores econômicos que exploram a terra através do que se denomina agronegócio. E para ilustrar, lembro uma expressão usada pelo ex-presidente Lula “nunca antes na história deste país” se viveu um período em que a pecuária e a agricultura (setor agrário) esteve tão fortemente articulado em âmbito nacional. Nunca, como agora, os maiores latifundiários, os grandes arrendatários e grileiros de terras situadas no Centro-Oeste e Norte do Brasil tiveram tanto poder e influência política. Eles pressionam e atuam decisivamente, pela defesa do agronegócio e do latifúndio, junto aos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. Os ruralistas, como são chamados no Congresso Nacional têm a maior bancada parlamentar, mais de 240 deputados e senadores e, para além, conquistaram a simpatia da quase totalidade dos congressistas.

Não bastasse essa força no parlamento eles conduzem o governo e suas políticas para a direção que melhor lhes convier. Não é a toa que a senadora Katia Abreu, apesar das denúncias de grilagem de terras e de que em suas propriedades ou de seus familiares há a exploração de trabalho análogo à escravidão, tem trânsito livre em todas as instâncias dos poderes, especialmente junto à Presidência da República. Também na grande mídia ela tem espaço garantido, inclusive com coluna semanal no jornal Folha de S. Paulo, onde ocupa o espaço para divulgar as ambições do agronegócio e ao mesmo tempo para questionar e responder aos que fazem oposição ao modo de produção agrícola, suas consequências e o método autoritário de impor suas ideias. 

A força ideológica do agronegócio

A força do agronegócio é mais do que econômica, ela é ideológica. O pensamento daqueles que defendem que a terra deve ser útil na medida em que ela tem capacidade de gerar lucro, ou seja, enquanto ela tiver condições de ser economicamente viável, é difundido como uma verdade absoluta através da mídia, do parlamento e nas políticas públicas. Está nesta lógica de pensamento o grande “nó” entre os direitos indígenas e as decisões que o governo vai tomando. O desenvolvimentismo concebido neste governo pela presidente Dilma e pelos que a cercam e a assessoram é uma confissão de fé ao capitalismo predatório. Portanto, eles não têm intenção e nem interesse em discutir e observar alternativas que não a que confessam como um fundamentalismo religioso. Como afirma Iara Tatiana Bonin, no artigo intitulado “Premissas Universais do Reino do Agronegócio” , “vemos emergir também aqui um tipo particular de fundamentalismo – vinculado a um único ponto de vista sobre o desenvolvimento nacional, tomado então como absoluto, inquestionável, verdadeiro e bom em si mesmo. Esse novo ‘desenvolvimentismo’ emerge como uma urgência, que deveria ser assumida como prioridade política e pública, acima de qualquer outro aspecto da vida social ou, melhor ainda, submetendo tudo o que é social ao plano das métricas e equações econômicas”.

Os direitos indígenas, os direitos ambientais, dos quilombolas são os entraves a essas concepções. Não é por acaso que o ex-presidente Lula se posicionava, em diversas circunstâncias, favorável ao agronegócio, desafiando inclusive os pequenos agricultores e o MST a produzirem em quantidade e “qualidade” compatível com a de fazendeiros de Mato Grosso (como se isso fosse possível, considerando-se a desigualdade em termos de proporção de terras, de financiamento e de concessões públicas). Também não foi por acaso que ele questionou os militantes e ambientalistas, tentando ridicularizar suas lutas em defesa do meio ambiente e contra as barragens. Não foi por acaso que ele, também em discurso público, recomendou que os “índios deveriam deixar de pescar e caçar com arco e flecha e passassem a pescar em tanques e açudes”, numa clara referência de que o governo não quer e não vai demarcar terras indígenas.

Demarcações paralisadas

A presidente Dilma, através de seus ministros, assessores e servidores, especialmente da Funai, tem deixado claro que as demarcações de terras vão continuar paralisadas. A presidente não quer problemas com sua base de sustentação, especialmente com “a turma” do PMDB e “a turma” da CNA, coordenada pela senadora Kátia Abreu. É por conta dessas decisões que as terras do Povo Guarani-Kaiowá não estão sendo demarcadas e muitas famílias continuam submetidas a uma vida de riscos e violências à beira de rodovias ou em áreas de confinamento populacional. É também por isso que os fazendeiros e latifundiários daquela região se sentem cada vez mais empoderados e autorizados a declarar seu desprezo e aversão aos povos que habitam tradicionalmente as terras que muitos deles são proprietários e exploram.

Neste contexto, o direito à terra tem sido não apenas negligenciado, mas veementemente contestado, especialmente em estados que afirmam ter vocação para a produção agropecuária e que, por isso, buscam estender ao máximo os limites dos latifúndios. É o que ocorre hoje, por exemplo, em Mato Grosso do Sul, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Os principais argumentos utilizados para colocar em questão o direito dos povos indígenas – e particularmente dos Guarani-Kaiowá e dos Guarani – às terras tradicionais podem ser resumidos em quatro enunciados, sendo dois deles herança do ideário ditatorial dos anos 1970, reeditados hoje com uma nova roupagem: o primeiro é o de que seria muita terra (produtiva) para pouco índio – tese retomada para dizer que não haveria interesse em assegurar o direito de usufruto exclusivo sobre as terras, posto que estas são pretendidas para a produção em larga escala. A menção a dados estatísticos e quantificações é uma das principais estratégias usadas para conferir legitimidade aos discursos de setores ruralistas, que tem na senadora Kátia Abreu uma das principais porta-vozes. Em seus últimos pronunciamentos, a parlamentar, que é também presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, faz questão de divulgar dados sobre a população indígena brasileira e extensão de terras demarcadas e a demarcar, reativando a tese de que se trata de “muita terra para pouco índio”. 

Direito originário e inalienável

O segundo argumento usado para contestar o direito indígena apregoa que os procedimentos de demarcação das terras destes povos ferem o estado democrático de direito e criam insegurança jurídica, já que os títulos de propriedade sobre certas terras (indígenas) foram adquiridos por terceiros antes da promulgação da Constituição. Vale lembrar que os povos indígenas têm direito originário e inalienável sobre suas terras, e mesmo que tal direito tenha sido reconhecido na Constituição de 1988, diz respeito a algo que antecede a formação do Estado nacional. O terceiro argumento é o de que os indígenas estariam sendo manipulados por ONGs e pela Funai, o que reacende a tese da incapacidade destes povos para definir suas demandas e reivindicações e para traçar com autonomia as estratégias de luta pela garantia de seus direitos. Por fim, o quarto argumento é o de que a Fundação Nacional do Índio seria incapaz de interpretar os “verdadeiros” anseios destes povos e comunidades, que reivindicariam assistência e benevolência e não a demarcação de suas terras. Tal reivindicação se fosse real, seria equivalente a dizer que os índios abrem mão do controle de seus territórios para viver do assistencialismo e das migalhas deixadas para eles.

Os povos indígenas têm sido, mais do que nunca, considerados entraves ao modelo desenvolvimentista que se pretende implantar. Não é à toa que, há anos, no Mato Grosso do Sul são registrados os maiores índices de assassinatos, atropelamentos com mortes e lesões corporais e suicídios. Aliás, um dos efeitos mais visíveis da precarização das condições de vida dos Guarani-Kaiowá é o alarmante aumento no número de suicídios, praticados por uma parcela muito jovem da população. Para além da questão dos suicídios há suspeitas de casos que aparentemente foram suicídios, na verdade são assassinatos. Sobre os atropelamentos, que ocorrem quase que cotidianamente, o Conselho da Aty Guasu denuncia que são assassinatos disfarçados. Normalmente os atropelamentos ocorrem com a fuga do condutor do veículo.
Enquanto eu respondia a essa entrevista, fomos comunicados pelos Guarani-Kaiowá que uma criança de quatro anos foi atropelada e morta na BR-463, km 06, em Dourados-MS, nas proximidades da terra Apikay , onde nos últimos dois anos cinco pessoas morreram vítimas de atropelamentos. A terra referida é utilizada para o plantio de cana de açúcar e onde há constantes ameaças às lideranças da comunidade que reivindicam a demarcação da terra, que está em estudo pela Funai há mais de cinco anos. 

A escassez de terra e a morosidade nos procedimentos de demarcação são a causa principal das violências praticadas contra os indígenas. Nos governos petistas dos últimos anos registram-se os menores investimentos e ações para a garantia desse direito. Especificamente para os Guarani-Kaiowá, em Mato Grosso do Sul, entre 2004 e 2009 o governo Lula demarcou apenas quatro áreas, correspondendo apenas a 17.164 hectares. Nos quase dois anos do governo Dilma, nenhuma área foi demarcada. Isso demonstra, por um lado, a conduta do Governo Federal de desrespeito sistemático aos direitos indígenas e, por outro lado, a tendência de fortalecimento do agronegócio, que se esparrama sobre as áreas indígenas que o mesmo governo recusa-se a demarcar. O resultado dessa relação governo-agronegócio é o agravamento dos conflitos e das violências.  
IHU On-Line - O que os dados da execução do orçamento indigenista, ao longo da última década, demonstram sobre a posição do PT em relação aos povos em questão?

Roberto Antonio Liebgott - A análise dos dados orçamentários dos últimos dez anos tem demonstrado uma diminuição de rubricas importantes do Orçamento Indigenista, aliada à baixa execução dos recursos aprovados, o que revela que os direitos indígenas não são prioridades para o governo federal. Há rubricas do orçamento indigenista que apresentam, ao final de cada ano, uma execução menor que 50%, a exemplo daquela que se destina à demarcação das terras indígenas e, no quesito da atenção à saúde indígena, também deixam de ser aplicadas parcelas significativas de recursos no tópico saneamento básico. Enquanto isso, as 1.060 terras indígenas, apenas 364 estão devidamente regularizadas, portanto não se justifica a falta de execução orçamentária. Além disso, povos como os Xavante tem sido vítimas de epidemias e mortalidade infantil decorrente de desnutrição e desidratação, aspectos que poderiam ser adequadamente tratados com recursos de saneamento básico.

A falta de execução do orçamento destinado à temática indígena – que fica contingenciado – tem conduzido ao sucateamento do órgão indigenista, que funciona de forma precária em várias regiões do país, até mesmo em sua sede nacional, em Brasília, onde já esteve ameaçado de interdição pela Defesa Civil. Em várias localidades nos chegam informações de funcionários do órgão indigenista que deixam de visitar as comunidades indígenas por falta de combustível. Além do sucateamento através do enxugamento orçamentário, vimos também a Funai sofrer um intenso processo de “restruturação” sem nenhum tipo de consulta aos mais interessados, os povos indígenas. Até hoje, as chamadas CTLs (Coordenações Técnicas Locais) estão desestruturadas e sem orçamento.

IHU On-Line - Quais os caminhos para se discutir políticas públicas aos povos indígenas, para que não sejam tratados como "entraves" no modelo de desenvolvimento capitaneado pelo governo federal?  

Roberto Antonio Liebgott - Inicialmente é preciso destacar que muitos caminhos já foram pensados e propostos pelo movimento indígena nestas últimas décadas. Em suas mais variadas manifestações, em diferentes contextos e regiões brasileiras, os povos indígenas tem reiteradamente afirmado que o primeiro passo é a garantia das terras, via demarcação – o que implica numa firme posição do poder público em direção ao cumprimento de determinações constitucionais sem subterfúgios e sem ceder a pressões políticas contrárias a esta determinação. Em relação a uma atenção diferenciada em educação, saúde, subsistência, entre outros aspectos, também os povos indígenas tem apresentado proposições contextualizadas e condizentes com as diversas realidades socioculturais existentes, nas quais o respeito à diferença é sempre fundamental. 

Para que uma verdadeira política de respeito aos povos indígenas seja construída neste país, é preciso rever a forma como se tem investido na “participação indígena”.  Nestes dez anos de governo petista, a participação indígena se deu na criação de instâncias nas quais as decisões governamentais são comunicadas aos representantes indígenas, portanto como fatos consumados (para que acatem e se beneficiem das ações compensatórias de obras ou políticas que seriam implementadas com ou sem a concordância das comunidades e povos afetados). É necessário, portanto, assegurar a estes povos uma efetiva participação na definição e no controle social de políticas e ações que lhes dizem respeito. O que se espera, afinal de contas, desse governo, é que respeite o sólido conjunto de princípios estabelecidos tanto na Constituição, quanto em convenções internacionais das quais o Brasil é signatário, a exemplo da 169.

O que precisa mudar também é o lugar social atribuído aos povos indígenas, aos quilombolas e outras comunidades tradicionais – não podem mais ser vistos como residuais, não podem ser entendidos como obstáculos a algo maior. Qualquer projeto econômico, político e social precisa incluir essas comunidades e povos por seu potencial sociocultural, com respeito e consideração aos seus modos de viver. Enfim, é a premissa de um modelo único de desenvolvimento, que somente olha para os aspectos econômicos, que precisa ser problematizada e desconstruída. E se essa é uma tarefa que compete ao governo, não é de sua exclusiva responsabilidade, posto que é a valorização social de certos aspectos da vida que avalizam ou desautorizam ações do governo. Cabe a todos nós, portanto, um envolvimento na discussão e definição de princípios para um governo respeitoso para com todos os segmentos sociais, incluindo os povos indígenas. Cabe também a todos nós manifestações veementes de desaprovação e de descontentamento para com os rumos das políticas públicas, das quais todos participamos, como contribuintes, arcando, portanto com os custos.

02 de abril, dia do AUTISTA


Estou escrevendo este post em azul porque a cor foi escolhida como sendo representativa para os portadores de autismo e hoje, dia 02 de abril, é o dia dedicado às pessoas portadores deste transtorno/síndrome.

O autista é assim (clik) como qualquer outro, mas diferente. Segundo Dr, Drauzio:

Autismo é um transtorno global do desenvolvimento marcado por três características fundamentais:
* Inabilidade para interagir socialmente;
* Dificuldade no domínio da linguagem para comunicar-se ou lidar com jogos simbólicos;
* Padrão de comportamento restritivo e repetitivo.
O grau de comprometimento é de intensidade variável: vai desde quadros mais leves, como a síndrome de Asperger (na qual não há comprometimento da fala e da inteligência), até formas graves em que o paciente se mostra incapaz de manter qualquer tipo de contato interpessoal e é portador de comportamento agressivo e retardo mental.
Os estudos iniciais consideravam o transtorno resultado de dinâmica familiar problemática e de condições de ordem psicológica alteradas, hipótese que se mostrou improcedente. A tendência atual é admitir a existência de múltiplas causas para o autismo, entre eles, fatores genéticos e biológicos.
Sintomas
O autismo acomete pessoas de todas as classes sociais e etnias, mais os meninos do que as meninas. Os sintomas podem aparecer nos primeiros meses de vida, mas dificilmente são identificados precocemente. O mais comum é os sinais ficarem evidentes antes de a criança completar três anos. De acordo com o quadro clínico, eles podem ser divididos em 3 grupos:
1) ausência completa de qualquer contato interpessoal, incapacidade de aprender a falar, incidência de movimentos estereotipados e repetitivos, deficiência mental;
2) o portador é voltado para si mesmo, não estabelece contato visual com as pessoas nem com o ambiente; consegue falar, mas não usa a fala como ferramenta de comunicação (chega a repetir frases inteiras fora do contexto) e tem comprometimento da compreensão;
3) domínio da linguagem, inteligência normal ou até superior, menor dificuldade de interação social que permite aos portadores levar vida próxima do normal.
Na adolescência e vida adulta, as manifestações do autismo dependem de como as pessoas conseguiram aprender as regras sociais e desenvolver comportamentos que favoreceram sua adaptação e auto-suficiência.
Diagnóstico
O diagnóstico é essencialmente clínico. Leva em conta o comprometimento e o histórico do paciente e norteia-se pelos critérios estabelecidos por DSM–IV (Manual de Diagnóstico e Estatística da Sociedade Norte-Americana de Psiquiatria) e pelo CID-10 (Classificação Internacional de Doenças da OMS).
Tratamento
Até o momento, autismo é um distúrbio crônico, mas que conta com esquemas de tratamento que devem ser introduzidos tão logo seja feito o diagnóstico e aplicados por equipe multidisciplinar.

Não existe tratamento padrão que possa ser utilizado. Cada paciente exige acompanhamento individual, de acordo com suas necessidades e deficiências. Alguns podem beneficiar-se com o uso de medicamentos, especialmente quando existem co-morbidades associadas.
Recomendações
* Ter em casa uma pessoa com formas graves de autismo pode representar um fator de desequilíbrio para toda a família. Por isso, todos os envolvidos precisam de atendimento e orientação especializados;
* É fundamental descobrir um meio ou técnica, não importam quais, que possibilitem estabelecer algum tipo de comunicação com o autista;
* Autistas têm dificuldade de lidar com mudanças, por menores que sejam; por isso é importante manter o seu mundo organizado e dentro da rotina;
* Apesar de a tendência atual ser a inclusão de alunos com deficiência em escolas regulares, as limitações que o distúrbio provoca devem ser respeitadas. Há casos em que o melhor é procurar uma instituição que ofereça atendimento mais individualizado;
* Autistas de bom rendimento podem apresentar desempenho em determinadas áreas do conhecimento com características de genialidade.
Meu pequeno Ian é autista e hoje quero prestar uma grande homenagem a ele, não por ser autista mas por ser o Ianzinho, figura carismática e cativadora. Quero dizer o quanto o amo e estender meu amor a todos os portadores deste transtorno/sindrome, e aos pais para que saibam lhe dar com a situação e que seus corações transbordem de amor por essas belíssimas criaturas, presente de DEUS!

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Rondônia supera PA no número de mortes por disputas de terras


Assassinatos no Estado aumentaram 350% em 2012 em relação a 2011, segundo balanço da CPT. Pela primeira vez em 25 anos, Rondônia superou o Pará em número de mortes por disputa de terra. Foram nove casos em 2012, contra dois no ano anterior - aumento de 350%.


(Folha de São Paulo)
Os números da violência no campo em 2012 integram um balanço preliminar e inédito da CPT (Comissão Pastoral da Terra), braço agrário da Igreja Católica no Brasil.
Em todo o país, segundo a comissão, houve 36 homicídios em 2012 em conflitos agrários -avanço de 24% em relação aos 29 casos de 2011.
O Pará registrou seis mortes por disputa agrária em 2012, um dos números mais baixos desde o início dos registros da CPT, em 1985. Apenas em 1986 o Estado não liderou a estatística da violência no campo, perdendo naquele ano para Mato Grosso.
Em Rondônia, especialistas relacionam a violência a três fatores: expansão do agronegócio no sul do Estado (divisa com MT), presença de madeireiros no norte (divisa com AM) e, principalmente, grilagem (apropriação indevida de terras públicas).
As mortes no Estado foram sobretudo de integrantes de acampamentos que reivindicam terras. Houve também assassinatos de pessoas que denunciavam extração ilegal de madeira.
Em Seringueiras, leste do Estado, região da fronteira com a Bolívia, uma disputa por terra terminou com dois mortos: um líder de acampamento e uma pessoa confundida com ele, segundo a CPT.
Um grupo de cerca de 80 famílias invadiu em 2010 uma fazenda na região, montando o acampamento Paulo Freire 3, pressionando pela desapropriação da área. Isso criou uma situação de tensão.
Em maio de 2012, um agricultor foi morto a tiros na rodoviária de Seringueiras. Segundo a CPT, ele foi confundido com um líder do acampamento. Em setembro, as famílias foram expulsas da fazenda após ordem da Justiça. Dois meses depois, um dos líderes do grupo foi morto.
Para Gercino da Silva Filho, da Ouvidoria Agrária Nacional (ligada ao Ministério do Desenvolvimento Agrário), uma das causas das disputas no Estado é a grilagem. "Rondônia tem muita terra pública federal e muita grilagem."
Ele diz ainda que falta infraestrutura policial ao Estado para investigar e punir os crimes agrários.
Os dados da ouvidoria diferem dos registros da CPT. O órgão registrou 11 mortes em 2012 relacionadas a disputas fundiárias e 11 em 2011. 
Procurado para comentar os números, o governo de Rondônia não respondeu.