sexta-feira, 29 de maio de 2020

No momento em que mais se precisa da SESAI, os povos indígenas se perguntam: CADÊ A ATENÇÃO À SAÚDE?


                                                              
CARTA DAS LIDERANÇAS INDIGENAS KAXINAWÁ AO MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL PARA SOLICITAR PROVIDENCIAS JUNTO A FUNAI, SESAI, SESACRE E OUTROS PARCEIROS SOBRE OS CASOS DE COVID-19 NA TERRA INDÍGENA ALTO RIO PURUS E NA ZONA URBANA DO MUNICÍPIO DE SANTA ROSA DO PURUS EM INDIGENAS.



Nós lideranças Hunikui (Kaxinawá), Organização dos Povos Indígenas Hunikui do Alto Rio Purus - OPIHARP e Associação de Produtores Kaxinawá da Aldeia Nova Fronteira-APKANF, através da Federação Estadual dos Povos Hunikui do Acre- FEPHAC, entidade jurídica sem fins lucrativos que representa todos os interesses do povo acima mencionado, solicitamos providencias imediatas junto a FUNAI/CR-Alto Purus, SESAI/DSEI-Alto Purus, SESACRE e outros parceiros, sobre o surto descontrolado de uma doença denominada COVID-19 que neste momento acomete a população indígena da terra indígena do Alto Rio Purus no município de Santa Rosa do Purus Estado do Acre, onde só este mês já são 10 casos confirmados de COVID-19 em indígenas do povo Hunikui e 02 óbitos em idosos que testaram negativos para COVID- 19, sendo um do povo Hunikui e outro do povo Jaminawa, onde os sinais e sintomas foram parecidos com a tal doença. Sem contar que mais de cem pessoas do povo Hunikui podem está contaminados com o vírus devido a aglomeração durante a um dos velórios, onde na casa que aconteceu o tal velório, todos da família testaram positivo para COVID-19, Isso na zona urbana do município.
A situação neste momento se torna mais agravante, devido uma profissional de saúde da EMSI (Equipe Multidisciplinar de Saúde Indígena), ter adentrado a TI contaminada com o vírus compondo um número de 08 profissionais de saúde, realizando atendimento básico de saúde em mais de 20 aldeias da TI totalizando mais de 300 famílias que tiveram inevitavelmente contato com a profissional contaminada com o vírus, sendo que a tal doença foi comprovada através de teste rápido na profissional mencionada. Neste exato momento às 15 horas do dia 27 do corrente mês e ano recebemos informações verídicas que na base onde se encontram instalada outra equipe da EMSI na aldeia Maronawa, um indígena do povo Kulina testa positivo para COVID-19. Estes denominados povos compõem mais 18 aldeias, sendo considerados nômades e os mais vulneráveis neste momento de pandemia. Agora já não sabemos com precisão quantos estão infectados com o vírus.
Finalizamos pedindo ao Ministério Público Federal a mediação junto aos órgãos de saúde e órgãos indigenistas para ações emergenciais de combate a propagação do vírus entre as famílias indígenas, evitando um genocídio nos Povos tradicionais da Terra Indígena do Alto Purus.

Assinam a carta:

Hulicio Moises Kaxinawa 
Vice presidente da OPIHARP

Nelson Domingos Kaxinawa
Membro sócio da APKANF

Acrescento que o Cimi, Regional Amazônia Ocidental também encaminhou documento ao Ministério Público Federal – MPF; Defensoria Pública da União – DPU; Ministério Público Estadual – MPAC; Defensoria Pública Estadual – DPE; Secretaria de Estado da Saúde do Acre - SESACRE; Secretaria Especial de Saúde Indígena-SESAI e Fundação Nacional do Índio - FUNAI, onde endossa a carta dos indígenas, lamenta que a situação tenha chegado a este ponto e siga piorando ao tempo em que lembra as diversas denúncias feitas por desassistência à saúde indígena..

O momento é grave e não é hora de se fazer políticas menores, jogando notadamente com a imprensa local.

sexta-feira, 1 de maio de 2020

Documento final do Acampamento Terra Livre 2020

Em função da pandemia, encontro aconteceu pela primeira vez em formato virtual   

Entre os dias 27 e 30 de abril, indígenas de todo o Brasil participaram da primeira edição virtual do Acampamento Terra Livre (ATL). Inicialmente adiado em função da pandemia de covid-19, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) optou por realizar o ATL 2020 em formato virtual.

Os painéis, mesas e debates foram transmitidos ao vivo pelas redes socias da Apib, pelas organizações da Mobilização Nacional Indígena (MNI) e por demais organizações parceiras.
No último dia do encontro, foi divulgado o documento final da 16ª edição do ATL, com uma análise do contexto de ataque que os povos indígenas enfrentam no Brasil e uma série de reivindicações ao Estado brasileiro. Baixe o documento ou confira abaixo:

DOCUMENTO FINAL – ACAMPAMENTO TERRA LIVRE 2020

Nós povos, organizações e lideranças indígenas de todas as regiões do Brasil, impossibilitados de nos encontrar pessoalmente na Grande Assembleia Nacional – o Acampamento Terra Livre –  que há 16 anos realizamos na capital federal – em decorrência da necessidade do isolamento social imposto pelo novo coronavírus, a pandemia da Covid-19, realizamos o ATL de modo virtual, com uma grande quantidade de discussões, debates, seminários, depoimentos e lives durante toda essa semana. Resistentes há 520 anos frente a todo tipo invasões, que além da violência física, do trabalho forçado, do esbulho e da usurpação dos nossos territórios, utilizaram-se das doenças como a principal arma biológica para nos exterminar, atacados atualmente pelo pior vírus da nossa história, o Governo Bolsonaro, viemos de público nos manifestar.
Denunciamos perante a opinião pública nacional e internacional, que nós povos indígenas do Brasil, mais de 305 povos, falantes de 274 línguas diferentes, estamos na mira e somos vitimados por um projeto genocida do atual governo de Jair Messias Bolsonaro, que já desde o início de seu mandato nos escolheu como um de seus alvos prioritários, ao dizer que não iria demarcar mais nenhum centímetro de terra indígena, e que as demarcações realizadas até então teriam sido forjadas, e que portanto, seriam revistas.
Bolsonaro, logo que assumiu o governo, editou a medida provisória 870/19, na qual determinava o desmembramento da Fundação Nacional do Índio – FUNAI e suas atribuições, repassando a parte de licenciamento ambiental e de demarcação de terras indígenas ao Ministério de Agricultura, comandado pela bancada ruralista, inimiga de nossos povos, na pessoa da ministra fazendeira Teresa Cristina, a “musa do veneno”. Foi necessário uma grande mobilização da nossa parte e dos nossos aliados para que o Congresso Nacional rejeitasse esse dispositivo administrativo.
Bolsonaro desmontou, por um lado, as políticas públicas e órgãos que até então, ainda que precariamente, atendiam os nossos povos, aparelhando-os com a nomeação de pessoas assumidamente anti-indígenas, como o presidente da Fundação Nacional do Índio, o delegado Marcelo Augusto Xavier da Silva. Este, ex-assessor dos ruralistas na CPI da FUNAI /INCRA, que incriminou servidores públicos, lideranças indígenas, indigenistas e procuradores, publicou no Diário Oficial da União, no último dia 22 de abril de abril a Instrução Normativa n° 09, que “dispõe sobre o requerimento, disciplina e análise para emissão de declaração de reconhecimento de limites em relação a imóveis privados em terras indígenas.” A medida contraria o dever institucional do órgão indigenista de proteger os direitos e territórios dos povos indígenas, uma vez que quer legitimar e permitir a emissão de títulos de propriedade para invasores das terras indígenas. Soma-se a esta determinação do presidente da Funai a decisão de rever ou anular procedimentos administrativos de demarcação de terras indígenas, a exemplo do Tekoha Guasu Guavirá, municípios de Guaíra e Terra Roxa (PR), do povo Avá-Guarani, a substituição ou inviabilização de Grupos de Trabalho de identificação e delimitação, a desarticulação ou desconfiguração de Diretorias do órgão indigenista, a perseguição moral a servidores, a manutenção de políticas públicas somente para terras homologadas e, na atual conjuntura, a irresponsabilidade de não equipar, inclusive financeiramente, as coordenações regionais e equipes de base para proteger os nossos povos e territórios dos avanços da pandemia do coronavírus, além de arquitetar o ingresso de pastores fundamentalistas nos territórios indígenas.
Assim, esse governo, subserviente aos interesses econômicos nacionais e ao capital internacional, quer restringir os nossos direitos, principalmente territoriais, ao incentivar o avanço de práticas ilegais sobre as nossas terras, tais como: o garimpo, o desmatamento, a exploração madeireira, a pecuária, monocultivos e a grilagem, que está para ser legalizada por meio da MP 910/19,  em tramitação no Congresso Nacional, e ainda a grande mineração e diversos empreendimentos de infraestrutura como hidrelétricas, linhas de transmissão e estradas. Tudo isso, numa clara tentativa de transformar as terras públicas em mercadoria.
Todos esses atos ilícitos e inconstitucionais constituem um projeto de morte para os nossos povos. Eles implicam na destruição das nossas matas, dos nossos rios, da biodiversidade, das nossas fontes de vida, enfim, da Natureza, da Mãe Terra; patrimônio preservado há milhares de anos pelos nossos povos e que até hoje contribui estrategicamente para a preservação do equilíbrio ecológico e climático e do bem-estar da humanidade, prestando importantes serviços ambientais ao planeta.
É esse patrimônio que os ruralistas, o agronegócio e as corporações internacionais querem nos roubar, por meio da restrição ou supressão dos nossos diretos constitucionais, alegando que os nossos direitos originários, e a nossa própria existência, constituem um empecilho para os seus empreendimentos e planos de suposto desenvolvimento. Dessa forma tentam reverter a base legal, nacional e internacional, dos nossos direitos, por meio de medidas como o Parecer 01/17, com a tese do marco temporal, que quer limitar o nosso direito às terras que tradicionalmente ocupamos à 5 de outubro de 1988, data de promulgação da Carta Magna, que na verdade, só veio a reconhecer um direito que já era nosso, nato, de origem, antes, portanto, da invasão colonial e do surgimento do Estado nacional brasileiro.
O nosso extermínio parece ser uma questão de honra para o governo Bolsonaro, que se aproveitando da crise da Pandemia, acirrou o descaso para com os nossos povos. Assim, também pôs fim às políticas públicas diferenciadas conquistadas por nós nos últimos 30 anos na área da educação, alternativas econômicas, meio ambiente e principalmente da saúde. Após pretender municipalizar ou privatizar o subsistema de saúde indígena, com o fim da SESAI, com a disseminação do coronavírus nos nossos territórios ficou claro que o governo quer mesmo a nossa extinção: não nos protege de invasores, permitindo que estes contaminem as nossas comunidades, o que pode levar a extinção massiva, a começar pelos nossos anciões, fontes de tradição e sabedoria para os nossos povos, principalmente para as novas gerações. E como se não bastasse, o governo estimula o assédio e a violência de interesses privados sobre os nossos bens naturais e territórios sagrados. A recente demissão do diretor de fiscalização do IBAMA após ações repressão ao garimpo em Tis no sul do Pará é bastante elucidativa das intenções do atual governo.
Diante dessa institucionalização do genocídio por parte do governo Bolsonaro, alertamos a sociedade nacional e internacional, reivindicando:
  1. A imediata demarcação, regularização, fiscalização e proteção de todas as terras indígenas;
  2. A revogação do Parecer 001/17 da Advocacia Geral da União;
  3. A retirada de todos os invasores de terras indígenas – garimpeiros, grileiros, madeireiros, fazendeiros – dado que eles são agentes destruidores dos nossos recursos naturais e de nossas culturas e em especial, neste momento, propagadores de doenças e da COVID-19; constituindo um grave risco para todos os povos, em especial os povos indígenas voluntariamente isolados;
  4. A adoção de medidas que restrinjam o acesso de pessoas estranhas nas comunidades indígenas, dentre eles garimpeiros, comerciantes, madeireiros, bem como de grupos religiosos fundamentalistas proselitistas que propagam, nas terras indígenas, a demonização de modos de vida, espiritualidades, saberes, formas tradicionais de tratar as doenças;
  5. A implementação de ações que visem garantir saneamento básico, água potável, habitação adequada e demais equipamentos que assegurem boa infraestrutura sanitária nas comunidades;
  6. A adoção de medidas que garantam boa situação nutricional em todas as comunidades indígenas e a garantia de um plano permanente de segurança e soberania alimentar para os nossos povos e comunidades;
  7. A viabilização de ingresso e permanência das equipes de saúde em área, assegurando-se com isso, que as ações de prevenção e proteção a pandemia sejam efetivas e continuadas;
  8. A infraestrutura e logística adequadas para as equipes de saúde, destinando-lhes todos os equipamentos necessários para o desenvolvimento das ações de proteção e prevenção às doenças, tais como medicamentos, soros, luvas, máscaras, transporte, combustível;
  9. A garantia de que haja, para além das comunidades – nos municípios e capitais – hospitais de referência para o atendimento de média e alta complexidade, onde se poderá realizar exames clínicos e promover adequada internação para tratamento dos doentes do COVID-19 e de outras doenças;
  10. A destinação de recursos financeiros para a aquisição de materiais de proteção para todas as pessoas das comunidades indígenas, tais como água limpa, sabão, água sanitária, álcool gel, luvas e máscaras, bem como que haja a adequada orientação das pessoas quanto ao uso importância destes materiais neste período de pandemia;
  11. A capacitação dos agentes indígenas de saúde, dos agentes sanitários e ambientais, das parteiras e de todos os que atuam na área da saúde, dentro das comunidades, tendo em vista a proteção e prevenção da COVID-19;
  12. A imediata contratação de profissionais em saúde – médicos, enfermeiros, técnicos em enfermagem, epidemiologistas – para atuarem em áreas indígenas, compondo e ampliando as atuais equipes de saúde;
  13. A contratação, de imediato, de testes, para realização de exames da COVID-19 em todas as comunidades, no maior número possível de pessoas, para com isso se obter um diagnóstico efetivo sobre a atual situação da pandemia dentro das terras indígenas e aprimorar as ações quanto a sua prevenção, controle e tratamento;
  14. A subnotificação de indígenas deve ser interrompida, pois todos os agravos de indígenas devem ser notificados, como um todo, independente de estarem em Terras Indígenas regularizadas, ou não, mesmo morando em áreas urbanas. Que o Ministério da Saúde e o Centro de Operações de Emergência em Saúde Pública garantam que o Boletim Epidemiológico da Covid-19 inclua todos os casos de contaminação e óbitos de todos os indígenas, inclusive a fim de apoiar a inclusão de dados que orientem as políticas públicas;
  15. A formação de um Comitê de Crise Interinstitucional, com assentos assegurados para os povos indígenas, nomeados pela APIB, para definição das estratégias de proteção dos povos indígenas, visando o monitoramento conjunto de ações de proteção territorial, segurança alimentar, auxílios e benefícios, insumos e protocolos contra transmissão, para todos os povos indígenas. Este Comitê não se confunde com o Comitê de Crise Nacional, o qual envolve unicamente a Secretaria Especial de Saúde Indígena, e exclui cuidados junto aos indígenas fora das Terras Indígenas;
  16. Que a FUNAI e a SESAI, assim como as Coordenações Regionais da Funai (CDRs) e os Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs) sejam incorporados nos Centros de Operações de Emergência em Saúde Pública em níveis nacional, estaduais e municipais;
  17. Que o Congresso Nacional arquive todas as iniciativas legislativas que a bancada ruralista e outros segmentos do capital apresentam visando restringir ou suprimir os direitos fundamentais dos nossos povos, principalmente o direito originário as terras que tradicionalmente ocupamos;
18 Que o Judiciário suspenda todas as proposições de reintegração de posse apresentadas por invasores, supostos proprietários ou empreendedores, contra povos indígenas que tomaram a determinação de retomar as suas terras tradicionais;
  1. Que o Supremo Tribunal Federal julgue na maior brevidade a Recurso Extraordinário – RE nº 1017365, com caráter de Repercussão Geral, a fim de consagrar, definitiva e cabalmente, o Indigenato, o direito originário, nato, congênito de ocupação tradicional das nossas terras e territórios, a fim de corrigir a trajetória de agressão aos povos indígenas do Brasil.
  2. Que o governo Bolsonaro suspenda a execução de quaisquer obras de infraestrutura (hidrelétricas, estradas etc) ou agroindustriais que podem impactar os nossos territórios, uma vez que propiciam a presença de não indígenas, potenciais agentes de programação do coronavírus e outras doenças perniciosas para os nossos povos e comunidades.
  3. Por fim, exigimos a revogação da Instrução Normativa 09, de 16 de abril de 2020, publicada pelo presidente da FUNAI, na edição de 22 de abril do Diário Oficial da União (DOU), que permite, de forma ilegal e inconstitucional, o repasse de títulos de terra a particulares dentro de áreas indígenas protegidas pela legislação brasileira. E que o Congresso Nacional arquive a Medida Provisória 910/19, que tenta legalizar o ato criminoso da grilagem nos nossos territórios, Unidades de Conservação e outros territórios de comunidades tradicionais.
Aos nossos povos e organizações dizemos: resistir sempre, com a sabedoria que recebemos dos nossos ancestrais, pelas atuais e futuras gerações dos nossos povos. E que a solidariedade nacional e internacional se intensifique, neste momento de morte, fortalecido pelos descasos do Governo Bolsonaro, e ao mesmo tempo de gestação de um novo tempo para os nossos povos, a sociedade brasileira e a humanidade inteira.
Pelo direito de Viver. Sangue Indígena Nenhuma Gota Mais.
Brasil, 30 de abril de 2020.
XVI Acampamento Terra Livre 2020
Articulação dos Povos Indígenas do Brasil
Mobilização Nacional Indígena

segunda-feira, 27 de abril de 2020

Financeirização e mercantilização da natureza em tempos de Coronavirus

Republico aqui uma entrevista que concedi à jornalista Nayá Fernandes, do EcoDebate, ainda em 2017 cujo título já apontava para os perigos da mercantilização e financeirização da natureza por meio de projetos de REDD (Redução das Emissões por Desmatamento e Degradação florestal ou, em inglês, Reducing Emissions from Deforestation and Forest Degradation), REM (Programa REDD+ para Early Movers, ou REDD para pioneiros), como os que vem sendo adotados no Acre e apontados como "alternativa"  à insana poluição de nosso planeta. Interessante que no combate ao Virus, essa mesma gente que se beneficia desses projetos  ligados ao "mercado do AR" e da natureza nega, ou finge não ver a clara relação entre estes projetos que vendem o "direito de poluir",  e o virus, que sintomaticamente e infelizmente, ataca prioritariamente as vias respiratórias.

Aliás, em matéria publicada ontem , o governo do Acre anunciou mais de 2 milhões para investimentos em REM e, claro, dizendo ser  destinado aos povos indígenas do estado do Acre. Fala mesmo que contemplará, pasmem, 28 terras indígenas. Há que se perguntar às comunidades indígenas quanto dos milhões de EUROS gastos nesses projetos realmente chegou às famílias, às comunidades, ao povo. Os administradores desses recursos tem a obrigação de prestar contas ao povo  já que se trata de recursos públicos.

Eis a minha entrevista:

Pan-Amazônia: ‘Se falta o ar, compremos os pulmões’, entrevista com Lindomar Dias Padilha

Por Nayá Fernandes*
26/04/2017
Lindomar Dias Padilha é graduado em filosofia, especializado em Desenvolvimento e Relações Sociais pela Universidade Nacional de Brasília e formado em Direitos Humanos. Padilha atua junto aos povos indígenas da Amazônia brasileira desde 1991. Casado e pai de dois filhos, trabalha no observatório Pan Amazônico prestando serviços de análises sobre temas relacionados à Amazônia, aos territórios, e à mercantilização e financeirização da natureza. Na entrevista, Padilha, que é também membro do Comitê Brasileiro de Defensoras e Defensores de Direitos Humanos, aprofunda questões relacionadas aos povos da Amazônia e ao bem viver.
* Podemos falar sobre um histórico de violação dos direitos humanos na Amazônia?
Regra geral, os povos indígenas são violados, saqueados e assassinados, física e culturalmente, desde a invasão europeia. O problema de fundo é que estes povos sempre foram “vítimas” de projetos sonhados por outros, e nunca foram considerados sujeitos e propositores de seus próprios projetos. Entretanto, creio que os ciclos que se seguiram após o contato também tiveram e têm papel preponderante na ação de expropriar e mercantilizar a natureza. Tivemos neste caso, aqui no Acre, dois ciclos onde a seringueira era a matéria prima para a produção de borracha para as fábricas que alimentavam a guerra e o “progresso”.
Neste momento, a tese principal tem sido a do uso intensivo do que ainda resta de matéria prima sob o pseudônimo de “sustentabilidade”. Está em curso um perverso modelo de ataque aos territórios indígenas e comunidades tradicionais. Destaco três aspectos deste modelo: um primeiro é o incentivo à produção de peixes em cativeiro (peixes de granja) num claro interesse de alimentar os mercados de ração e atacar a soberania alimentar das comunidades e, claro, criar ainda mais dependência; um segundo é o chamado “manejo” que, no caso do Acre, tem sido mais uma “autorização” para o desmate. Chamam de manejo sustentável, mas na prática, é insustentável porque, entre outras coisas, foca exclusivamente na madeira e desconsidera todos os outros elementos deste complexo bioma Amazônico, por exemplo, as fontes de água e os animais, notadamente as espécies endêmicas. E um terceiro aspecto são os projetos de Pagamentos por Serviços Ambientais (PSA) especialmente os de REDD+ que não são outra coisa que não a autorização para que empresas e países que mais poluem, sigam poluindo por meio da compra de créditos de carbono. Ou seja, os povos indígenas, a título de preservarem seus territórios, estão na verdade vendendo o usufruto destes territórios para empresas que, assim, podem “compensar” a emissão de gases de efeito estufa e outros. A lógica do capitalismo verde é simples: se falta ar, então, compremos os pulmões.
Este é um tema propositadamente envolto a uma nuvem de suposta complexidade, mas na verdade, trata-se simplesmente do comércio do ar que respiramos. Quem pode, compra o direito de seguir poluindo e pronto.
* Que órgãos têm lutado a favor da defesa destes povos?
Teoricamente, temos muitos órgãos na defesa dos povos indígenas. Entretanto, temos que ter muito cuidado porque muitas ONGs, são basicamente “Organizações Neo Governamentais” porque dependem diretamente de recursos públicos. Por outro lado, muitas delas são dependentes de recursos externos, justamente de países ou financiadoras que desenvolvem trabalhos no campo da dita economia verde. Ou seja, empresas e governos se valem dessas ONGs para terem acesso às comunidades e induzi-las à venda de sua autonomia territorial.
Na prática, são pouquíssimas as instituições que, de fato, trabalham na defesa dos interesses dessas comunidades. Para não ser injusto, prefiro não citar nomes de organizações. Entretanto, posso afirmar com toda certeza que as mega ONGs, de atuação internacional, são, na verdade, empresas do capitalismo verde e, portanto, a serviço do grande capital e contra os povos indígenas e comunidades tradicionais. Também essas ONGs/empresas, fazem parte do sofisticado mecanismo de expropriação.
A REPAM (Rede Eclesial Pan Amazônica) tem se apresentado como uma proposta de rede capaz de articular essas entidades, ainda que o campo de atuação seja muito mais ligado à Igreja Católica. Aliás, isso aponta para uma nova etapa , uma etapa pós Laudato Sì. Essa é uma importante iniciativa e traz esperanças para os povos indígenas e comunidades da nossa Pan Amazônia.
* Sobre os casos concretos – de violação dos direitos dos povos – que foram levados aos Estados Unidos da América, há perspectivas de que os responsáveis sejam punidos?
Os sistemas ligados à Organização dos Estados Americanos (OEA), a despeito de sua boa vontade, é lento quando se trata de punição, talvez por ser uma organização financiada e mantida justamente pelos estados, na maioria das vezes, os que mais violam ou deixam violar os direitos. Nossa perspectiva, no entanto, é muito boa, porque mais que punir espera-se dar visibilidade aos casos e criar nos próprios estados, junto à sociedade civil, um clima mais favorável à Amazônia e seus povos, pessoas que vivem, produzem e cuidam desta vasta área riquíssima em bio-sócio-diversidade.
Todos os casos apresentados na Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA por nós, são exemplos da gravíssima situação de violação dos direitos em nossos territórios e, cuja denúncia esperamos, alcance os ouvidos das pessoas de bem e boa vontade para que saiam na defesa desses povos e territórios. No caso do Acre, é preciso que o Brasil e o mundo saibam dessas violações travestidas de sustentáveis e apresentadas como “modelo” ao mundo. É preciso que a cortina se descerre e as pessoas vejam a verdade por trás desses projetos ligados à economia verde para que, assim, possam compreender o que realmente está se passando no Acre e em nossa grande Amazônia.
* Como podemos pensar no equilíbrio entre desenvolvimento econômico e defesa das comunidades tradicionais na Amazônia?
Esta é uma pergunta importante, porque temos que, a partir dela, definir o que estamos chamando de “desenvolvimento” econômico e para quem será este desenvolvimento. Os modelos que até aqui foram apresentados, todos, rigorosamente todos, se dirigiram (e ainda o são) para o desenvolvimento dos grandes conglomerados econômicos e países ligados a estes conglomerados. Assim, todos os projetos foram incompatíveis com a defesa das comunidades e do ambiente. Na cabeça dos que apregoam o “desenvolvimento” vêm uma série de cifrões. Também os seus olhos nada enxergam que não cifrões. Associam desenvolvimento ao consumo, padrão de consumo e poder de acumulação. Ou seja, uma comunidade ou um povo tem seu desenvolvimento medido a partir de sua capacidade de consumir e gerar lixo industrial.
O equilíbrio só será possível se nos libertarmos deste conceito de desenvolvimento e entendermos que o verdadeiro desenvolvimento está no uso sadio do que a natureza nos oferece em primeiro lugar para “vivermos bem” e não simplesmente explorar até a exaustão para satisfazer padrões de consumo. É muito mais desenvolvida uma comunidade onde todos trabalham na geração de vidas, de suas próprias vidas e de outros, onde a natureza é, antes de tudo, uma mãe que ama seus filhos, mas espera que em tempos de velhice estes filhos a amparem. Nossa Amazônia é esta mãe e neste momento se encontra enferma e bastante debilitada. Temos que cessar imediatamente as atividades que a explorem ainda mais e são o motivo de sua enfermidade. Temos que retirar daqui toda exploração madeireira, petroleira, minerações diversas. Por fim, temos que “expulsar” daqui os projetos de morte, ainda que disfarçados de sustentáveis, como os ligados a chamada economia verde, que não são outra coisa que “esverdear” as cinzas da destruição.
E sobre a financeirização da natureza que se contrapõe ao bem viver?
Quando as caravelas europeias aqui chegaram para invadir os territórios e expropriá-los, roubando-lhes o que fosse possível, chamaram a isto “descoberta” e tinham por finalidade comercializar as riquezas não exploradas pelos ignorantes que aqui viviam e, em contrapartida, trazer a civilização. Ou seja, civilizar era colocar no mercado. Por isso, este processo também era chamado de mercantilização. Civilização era o mesmo que mercantilização. Aí está a raiz da financeirização da natureza, bem como de todos os demais projetos de morte que se seguiram. Como eu já o disse, são projetos que enxergam cifrões e não vidas.
As caravelas e suas formas de “civilizar” foram se aperfeiçoando ao longo dos tempos e hoje nos são apresentadas no formato de economia verde ou eco-negócio. Simplesmente a “esverdeação” do velho mercado explorador das riquezas e das pessoas. Vejam a que ponto chegaram: exploração do ar! Sim, isso mesmo. Os mercados de carbono, assentados em projetos do tipo PSA (Pagamento por Serviços Ambientais), notadamente os de REDD+, não tem outra finalidade que não a exploração da capacidade de absorção da poluição gerada pelos gazes nocivos e da geração, portanto, de oxigênio e retenção do CO2. Este processo baseia-se na geração de créditos que funcionam como uma autorização para continuar a poluir em outra parte do planeta. Estes créditos gerados são negociados em bolsas e, quanto maior for a ameaça ao meio ambiente, tanto mais valiosos serão estes créditos.
Assim, os detentores desses créditos lucram, no mínimo, duas vezes. Uma vez porque seguem emitindo gazes nocivos e até aumentando a emissão; e outra vez porque, com o aumento da emissão e da poluição, os créditos adquiridos têm seu valor majorado gerando uma expectativa de lucro futuro. A este processo mais arranjado, sofisticado é que chamo de financeirização. A diferença que saliento é que, neste caso da financeirização, a natureza passa a ter perspectiva meramente financeira, sem os chamados investimentos. Ou seja, o mercado não faz nenhum investimento para adquirir o lucro. O mercado de carbono se porta como mercado de rezes que compra uma fazenda com as porteiras fechadas. Compra tudo que há ali, incluindo o direito à vida e o futuro das pessoas.
Nessas condições, é impossível falarmos em bem viver. Mercado e vida são figuras incompatíveis. Logo, a financeirização é exatamente o oposto ao bem viver.
* Que outros casos (tipos) de violação de direitos acontecem mais frequentemente na Amazônia?
Os projetos de ação direta, ligados às indústrias extrativas, como a petroleira e as de mineração, causam violações mais imediatas e visíveis porque atuam diretamente sobre as pessoas, seja na exploração da mão de obra, seja nos danos à saúde, por exemplo. Estes tipos de violações são mais frequentes porque estas indústrias não tem a sofisticação das ligadas ao comércio verde. Elas se portam como coronéis e para tanto possuem seus jagunços que são os políticos locais e os poderes do Estado como um todo. Os políticos locais e o Estado, se contentam com uma pequena parte do lucro e, em troca, aceitam penalizar à exaustão o ambiente e, claro, as pessoas que ali vivem.
Neste tipo de ambiente, ocorre todo tipo de violação e as denúncias quase sempre não surtem efeitos porque os poderes do Estado estão intimamente ligados às empresas e a serviço delas. Assim, a própria ação dos poderes do Estado, como o judiciário, atua sob constantes violações de direitos humanos. Neste ponto, reside a dificuldade em relação aos mecanismos de punição, se tornando a própria estrutura uma forma de violação dos direitos.
Violências e explorações, por exemplo, das crianças e adolescentes na Amazônia, contam quase sempre com a proteção de uma rede que envolve políticos locais, policiais, advogados e até setores do judiciário, além de pseudo-religiosos das mais diversas denominações. Dizer que a Amazônia é uma terra sem lei não corresponde à verdade. A Amazônia é uma terra cujas leis não protegem os amazônidas e são utilizadas para justificar o roubo, o saque a espoliação, a violação de direitos e finalmente, o assassínio.
*Nayá Fernandes é jornalista, formada em filosofia e teologia e pós-graduada em jornalismo literário. Desenvolveu projetos no Vale do Jequitinhonha (MG) e na Amazônia.
Colaboração da articulista Amyra El Khalili, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 26/04/2017

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quarta-feira, 15 de abril de 2020

“Vejo um novo comunismo, distante do comunismo histórico, brotar do vírus”.

Entrevista com Slavoj Žižek
(Enviada ao blog por Amyra El Khalili - Aliança RECOs)

“...Pelo telefone de sua casa em Liubliana, o filósofo e sociólogo esloveno de 71 anos Slavoj Žižek, autor de ensaios famosos como Em defesa das causas perdidas e L’incontinenza del vuoto, tem repetidos acessos de tosse: "Tenho todos os sintomas da Covid-19, mas não sou positivo. Sinto-me mal há anos." Talvez também por esse motivo ele tenha decidido se questionar como a pandemia está mudando nossas vidas, com uma série de ensaios reunidos na Itália, pela Ponte alle Grazie, em um ebook intitulado, precisamente, Virus. Uma coleção constantemente atualizada com novos acréscimos, para download.
A entrevista é de Anna Lombardi, publicada por La Repubblica, 06-04-2020. A tradução é de Luisa Rabolini..

O filósofo esloveno não acredita que a emergência traga novos totalitarismos. Aliás, os laços da comunidade serão fortalecidos. Porém, apenas se formos capazes de reconstruir a confiança nas instituições: "o que acontece mostra que cabe a nós, aos cidadãos, sujeitar a maior controle aqueles que governam, certamente não o contrário".

"Um novo senso de comunidade: é isso que está emergindo dessa crise. Uma espécie de novo pensamento comunista, distante do comunismo histórico. A banal descoberta de que coordenação e cooperação globais são necessárias para combater o vírus tem um viés revolucionário. Estamos redescobrindo o quanto precisamos uns dos outros. No entanto, a Organização Mundial da Saúde sempre o repetiu: e, em vez disso, não existia nada similar nem mesmo dentro da União Europeia".

Pelo telefone de sua casa em Liubliana, o filósofo e sociólogo esloveno de 71 anos Slavoj Žižek, autor de ensaios famosos como Em defesa das causas perdidas e L’incontinenza del vuoto, tem repetidos acessos de tosse: "Tenho todos os sintomas da Covid-19, mas não sou positivo. Sinto-me mal há anos." Talvez também por esse motivo ele tenha decidido se questionar como a pandemia está mudando nossas vidas, com uma série de ensaios reunidos na Itália, pela Ponte alle Grazie, em um ebook intitulado, precisamente, Virus. Uma coleção constantemente atualizada com novos acréscimos, para download.

A entrevista é de Anna Lombardi, publicada por La Repubblica, 06-04-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

Você escreve: "Receio dormir porque os pesadelos me assaltam sobre a realidade que nos espera". Todos nós sentimos esse medo: o que você prevê?

A realidade já mudou. Vemos governos conservadores adotando medidas que chamaríamos de socialistas em outros tempos: Donald Trump ordena às indústrias privadas o que produzir. Boris Johnson nacionaliza temporariamente as ferrovias. Todos vivemos de uma maneira que seria impensável há poucos meses. Há aqueles que pensam em um mundo em que se aproveitará do vírus para controlar todos nós, e, é claro, é uma possibilidade. Mas não acredito em novos totalitarismos: são precisamente os governos que estão em pânico hoje, incapazes de controlar a situação, e muito menos construir uma sociedade no estilo Big Brother. No máximo, há mais desconfiança em relação às instituições. Mesmo na China, testemunhamos protestos, ainda que modestos. Bem, deveríamos encontrar uma maneira de reconstruir essa confiança. Talvez com novos Assange capazes de desmascarar os abusos. Certamente, o vírus mostra que cabe a nós, aos cidadãos, sujeitar a maior controle aqueles que governam, certamente não o contrário.

Você está dizendo que as pessoas deveriam se envolver mais com a política?

Alguém disse que, no meio dessa crise, deveríamos nos preocupar apenas com a nossa salvação. Penso o contrário: não há momento mais político do que o atual. Apesar das advertências dos cientistas, os governos se descobriram despreparados. Mas agora somos forçados para enfrentar o pior, é claro: não há mais espaço para o "America First" e slogans do tipo. Para sobreviver, os Estados a partir de agora terão que lidar continuamente com o futuro. Precisamos de um novo sistema de saúde pública global e agências internacionais aptas a agir com ações acordadas. Precisamos de salários mínimos garantidos, pagos agora inclusive por Trump. Minha ideia de comunismo não é o sonho de um intelectual: estamos descobrindo na nossa própria pele por que certas medidas devem ser tomadas no interesse geral. Não subestimemos o impulso que o vírus está dando a novos sistemas de solidariedade em nível local e global. Construir um novo modo de viver será o nosso teste. Mas as pessoas precisam retomar as coisas em suas mãos agora: não esperar o fim da crise.

E como fazer isso? Estamos todos trancados em casa.

Nem todo mundo que está em casa passa seu tempo apenas assistindo filmes estúpidos. Todos estão se fazendo perguntas básicas sobre nossa vida cotidiana, questões que em outros momentos definiríamos de metafísicas. Muitos estão usando esse tempo para refletir. E para escolher. É verdade, somos mais isolados, mas também mais dependentes uns dos outros. Vivemos um imperativo paradoxal: demonstramos solidariedade por não nos aproximarmos. Nunca fui um otimista, mas esse respeito pressupõe uma mudança profunda de comportamento que sobreviverá à crise.

Vamos realmente aprender alguma coisa com tudo isso?

O custo psicológico é tremendo. E, é claro, o isolamento também cria novas formas de paranoia: demonstram isso as inúmeras teorias da conspiração na rede, e países como Estados Unidos e China jogando um para o outro a origem do vírus. Mas, repito, estaremos mais conscientes do que significa estar perto dos outros, para o melhor ou para o pior. Reencontrar-se, por exemplo, será uma alegria. Mas teremos mais cuidado. Depois, esta situação tornou bem visíveis as diferenças sociais. Penso no egoísmo dos super ricos fechados em seus bunkers ou em iates. Madonna postou um vídeo na banheira dizendo que estamos todos no mesmo barco. Não é assim e as pessoas veem a situação. Os novos heróis são as pessoas comuns.

Para impedir a propagação do vírus, as fronteiras foram fechadas. Em certo sentido, estamos diante de uma nova forma de nacionalismo. Você não teme uma regurgitação de populismo?

Se algo está sucumbido, é justamente a mensagem populista. Pessoas como Donald Trump e Jair Bolsonaro mostraram sua mesquinharia, dando a ideia de estar pronto para sacrificar os mais fracos. E na Europa não funcionou jogar a culpa nos chineses ou refugiados: quem transportou o vírus foram turistas e empresários. Até a corrida armamentista dos EUA é ingênua. Eles pensam em proteger a casa e ficam doentes porque não lavam as mãos o suficiente. Estamos todos aprendendo que esforços nacionais isolados não são suficientes: os limites do populismo nacionalista que insiste na soberania do Estado estão diante dos olhos de todos. Repito, a solidariedade global e a cooperação são o único caminho racional e até egoísta a seguir. No entanto, teremos de enfrentar o futuro da União Europeia: foi ridiculamente passiva. Poderia ter determinado ações e distribuído ajuda. Não o fez. Falhou.

Ainda não estamos fora da emergência. Como podemos resistir até então?

Vivemos uma experiência excepcional, pode tirar o nosso melhor ou o pior. Não nos tornaremos todos monges budistas ou santos católicos. Para enfrentar com a solidão, talvez o melhor seja continuar estabelecendo rotinas básicas. Uma repetitividade que nos impede de ceder ao caos. Temos que manter uma ordem para estar prontos amanhã.

Do que você mais sente falta, estando fechado em casa?

De ir às livrarias. Os últimos lugares onde você ainda tem possibilidades de escolha cultural. Não suporto os algoritmos da Amazon, da Netflix: eles oferecem o que pensam que você gosta, sem dar a oportunidade de descobrir coisas novas e, portanto, surpreender-te. Na livraria, você vai para procurar algo e muitas vezes volta com outra coisa. As livrarias são insubstituíveis e é muito grave que a crise as esteja colocando em risco.

sábado, 7 de março de 2020

“Palestina livre, mulheres livres”

“....Como expresso pelas jovens ativistas, a resistência das mulheres palestinas explicita ao mundo que elas não estão alheias às lutas anti-imperialistas, anticoloniais. Não são submissas por natureza, uma massa absolutamente uniforme escondida atrás de véus que lhe são impostos, como geralmente a mídia hegemônica as apresenta – e parte do movimento feminista no “Ocidente” corrobora, ao fundar-se em estereótipos...”

“...De acordo com essa representação, como povos atrasados, não podem se autogovernar, devem ser temidos e, portanto, controlados. Ou seja, colonizados. Contra tal caricatura, na Palestina e no mundo árabe como um todo, insurge-se o chamado “feminismo anticolonial”, que trava a luta contra a opressão machista e a colonização simultaneamente. Considera a emancipação de gênero inseparável da libertação da Palestina...”

por Soraya Misleh, no ICArabe

Foto: Soraya Misleh - ICArabe
Suas vozes ecoaram às ruas da Palestina ocupada e na diáspora, em uníssono, desafiando a fragmentação de sua sociedade há 72 anos (desde a Nakba, a catástrofe palestina com a criação do Estado de Israel em 1948 mediante limpeza étnica planejada) e inspirando a luta das mulheres em todo o mundo. Sem poderem se encontrar em sua própria terra, diante do apartheid israelense, extrapolaram as fronteiras coloniais, a partir do chamado: “Palestina livre, mulheres livres.” “Não há honra no assassinato.”

A ação, articulada pelo recém-criado movimento feminista palestino Tal´at, se deu a partir de agosto de 2019, em protesto pelo assassinato da jovem Israa Ghrayeb por familiares. Aos 21 anos de idade, ela é uma das dezenas de vítimas de feminicídio em sua terra ocupada por Israel no ano – os números variam de 18 a 34, a depender das fontes pesquisadas. O movimento, capitaneado por jovens mulheres, ganhou o mundo e arrancou mudanças numa arcaica lei que dificultava a punição para casos como esse, sob o manto de “crimes de honra”. Nas redes sociais, a hashtag “Somos todos Israa” esteve entre as principais no período.

A visibilidade internacional, tão importante para denunciar e exigir o fim do feminicídio, infelizmente nesse caso, contudo, também trouxe distorções. Veio acompanhada de postagens e notícias que reproduziam desconhecimento, falsos estereótipos e caricaturas sobre as mulheres palestinas e árabes em geral, particularmente sobre as muçulmanas.

A resposta vem de Hala Marshood e Riya Alsanah, jovens que integram o Tal´at, em artigo de sua autoria publicado em fevereiro último no site da associação Europe Solidaire Sans Frontières: “Desafiando os estereótipos racistas e orientalistas, as mulheres do Oriente Médio e da região do Norte da África estão na vanguarda da luta pela construção de uma sociedade mais justa e igualitária. (...). Feministas em todo o mundo estão incorporando e articulando movimento que vê a opressão sistemática e estruturalmente enraizada no capitalismo, cruzando-se com raça, sexualidade, colonialismo e ambientalismo. Em suma, um feminismo que vai além das demandas baseadas no gênero individual, instando-nos a lutar por um mundo mais justo e equitativo para todos. Tal’at faz parte dessa tradição feminista revolucionária.”

E acrescentam: “Nosso movimento é moldado por nossa experiência de mais de sete décadas de violência colonial israelense. Como povo, somos despojados de nossos direitos e necessidades mais básicos. (...) Essa realidade nos obriga a analisar as experiências de violência – em suas diversas formas – como uma questão social e política que deve ser tratada na raiz e coletivamente (...).”

Feminismo anticolonial

Como expresso pelas jovens ativistas, a resistência das mulheres palestinas explicita ao mundo que elas não estão alheias às lutas anti-imperialistas, anticoloniais. Não são submissas por natureza, uma massa absolutamente uniforme escondida atrás de véus que lhe são impostos, como geralmente a mídia hegemônica as apresenta – e parte do movimento feminista no “Ocidente” corrobora, ao fundar-se em estereótipos.

Sob o manto de que tais mulheres precisam ser salvas de sua sociedade e cultura natais, acaba por servir à dominação colonial. Um feminismo liberal que não enxerga a relação entre exploração e opressão de gênero. Que enxerga necessariamente um símbolo da opressão no véu islâmico (que apenas muçulmanas usam – e nem todas). O problema não é seu uso, mas sua imposição.

A ideologia que permeia essas ações contrapõe um “ocidente” de civilizados e pacíficos a um “oriente” de bárbaros e violentos por natureza, como denuncia o intelectual palestino Edward Said (1935-2003) em sua obra “Orientalismo – O Oriente como invenção do Ocidente”.

De acordo com essa representação, como povos atrasados, não podem se autogovernar, devem ser temidos e, portanto, controlados. Ou seja, colonizados. Contra tal caricatura, na Palestina e no mundo árabe como um todo, insurge-se o chamado “feminismo anticolonial”, que trava a luta contra a opressão machista e a colonização simultaneamente. Considera a emancipação de gênero inseparável da libertação da Palestina. Critica e desconstrói as representações orientalistas, reducionistas e generalistas, e preenche o vácuo de um movimento que desvia o olhar para as relações de poder que são fundantes à opressão de gênero. Parte da desconstrução proposta pelo feminismo anticolonial – que se coaduna com vertentes como os feminismos antirracista e islâmico – é resgatar o protagonismo das mulheres árabes e muçulmanas na História.

Linha de frente

Como aponta a feminista egípcia Nawal El Saadawi, em “A face oculta de Eva – As mulheres do mundo árabe”, foram elas pioneiras nos protestos contra os primeiros assentamentos sionistas ao final do século XIX – a serviço da colonização de terras e conquista do trabalho, que integravam o projeto sionista de limpeza étnica para constituição de um estado exclusivamente judeu na Palestina (Israel). Já em 1903, período que marca o começo da segunda onda de imigração sionista, criaram uma associação de mulheres.

Nos anos 1920, sua atuação se fortaleceu e formaram vários comitês populares para articular protestos e demais ações de desobediência civil, bem como garantir auxílio a feridos em manifestações. Em 1921, constituíram a primeira União de Mulheres Árabes-Palestinas, que organizou protestos contra o mandato britânico, a colonização sionista e a Declaração Balfour – em que a Inglaterra garantia a constituição de um lar nacional judeu em terras palestinas.

Das letras aos campos de batalha, as mulheres utilizam as armas de que dispõem. Há 73 anos, Nariman Khorsheed (1927-2014) fundou na cidade de Yafa – juntamente com sua irmã Moheeba – a primeira brigada feminina palestina, denominada Al Zahrat al-Uqhuwan (Flores de Crisântemo), para lutar contra a expulsão pelas forças paramilitares sionistas de suas terras. Em 1948, surgiram outras brigadas femininas e inclusive um grupo misto, de 100 combatentes, liderado por Fatma Khaskiyyeh Abu Dayyeh. Na revolução palestina de 1936-1939 contra o mandato britânico e a colonização sionista – cujas causas e análise da derrota estão explicitadas por Ghassan Kanafani em seu livro “A revolta de 1936-1939 na Palestina” (Editora Sundermann)  –, ela esteve no comando do local de armazenagem das armas dos revolucionários.

No período, mulheres organizaram grandes marchas e comitês populares. Além de promoverem protestos, recolhiam fundos para assistência às famílias dos mortos e prisioneiros e auxiliavam no transporte de insumos básicos e armas. Nas aldeias, lutavam lado a lado com os homens para defender suas terras. Uma dessas heroínas é Fatma Ghazal, morta em combate no dia 26 de junho de 1936.

Já diante da consolidação do projeto sionista, em 1965, foi criada a União Geral das Mulheres Palestinas, vinculada à Organização para a Libertação da Palestina (OLP). Ao final dos anos 1960 e início dos 1970, diversas mulheres partiram para a ação direta, diante da omissão internacional à violação cotidiana de direitos humanos e a expansão israelense, que em 1967 resultou na ocupação por parte dessa potência bélica de toda a Palestina histórica. A mais conhecida em todo o mundo é Leila Khaled. Então com apenas 24 anos, participou do sequestro de aviões em troca de prisioneiros políticos e colocou em evidência a causa palestina. Foi detida em uma das ações e saiu após outra operação do gênero.

Nas intifadas (levantes) de 1987-1993 e 2000-2004, novamente as mulheres foram às ruas. Na primeira, para se ter uma ideia, um terço das baixas era da parcela feminina. O número de mulheres detidas passou de centenas do início da década de 1970 para milhares nos anos 1980. Desde 1967, estima-se que 10 mil passaram pelas prisões políticas israelenses – e enfrentaram a tortura institucionalizada, com inclusive ameaças e violência sexual. Hoje são 41, incluindo jovens menores de 18 anos, de um total de cerca de 5 mil palestinos nos cárceres sionistas.

São heroínas desconhecidas e em sua maioria invisibilizadas pela história, como ocorre em todo o mundo, em todos os processos de luta. A opressão ocorre aqui e lá, a serviço de um projeto de dominação capitalista/imperialista. Elas – assim como todo o conjunto da sociedade palestina – precisam da solidariedade internacional ativa, não de “salvamento”.

Os movimentos feministas na região são anteriores aos dos Estados Unidos e da Europa, como nos conta a feminista egípcia Nawal El Saadawi em seu livro “A face oculta de Eva – As mulheres no mundo árabe”. Travam a dupla luta, contra a opressão machista e a colonização. Para que todas sejamos livres.

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Soraya Misleh, membro da Diretoria do ICArabe, jornalista palestino-brasileira, mestre e doutoranda em Estudos Árabes pela Universidade de São Paulo (USP). Autora do livro “Al Nakba – um estudo sobre a catástrofe palestina” (Ed. Sundermann).

Enviado ao blog por Amyra El Khalili  - A quem agradeço e parabenizo pela luta em defesa sobre tudo da vida. Obrigado Amyra, beduína, palestina que me inspira!

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