domingo, 12 de abril de 2026

INDIGENISMOS? – Um olhar para si mesmo.

 

Desenho produzido durante encontro sobre AMACRO, 2023.

    Há alguns anos escrevi sobre os riscos dos diversos indigenismos que eu havia identificado e que tinham forte atuação entre os povos e, noto que ainda estão presentes até hoje e em franca expansão, cada vez aumentando mais sua influência junto aos povos, governos e sociedade em geral. Vou apresentar estes indigenismos aqui a título de recordar aos que já leram meu artigo anterior e para dar a conhecer aos que estão lendo agora, aqui. Refiro-me aos indigenismos:

 

* Indigenismo culturalista.

 

    Este tipo de indigenismo baseia-se apenas em aspectos que julga ser "essencial" nas culturas. Ou seja, é um indigenismo que não se importa com outros aspectos da vida do povo, pauta-se apenas em evidenciar elementos culturais como língua, alguns ritos, pinturas, artesanatos e grafismos. É o tipo de indigenismo que se apresenta como o único e melhor. É capaz de dizer a um povo que está sem território que é preciso "resgatar" a língua materna e os cânticos..., por exemplo. É um indigenismo, muitas das vezes, superficial, chegando mesmo a acreditar na quase imutabilidade cultural, como é o caso do dito resgate da lingua (ou outros aspectos). Outro exemplo da superficialidade é quando se entende o resgate da lingua, por exemplo, como mero exercício de alfabetização por meio de palavras soltas, sem a efetiva aprendizagem da estrutura da lingua. Ou ainda quando "copiam" palavras, cânticos, grafismos, de outros povos, dando um ar de desconexão com a tradicionalidade e ancestralidade. O indigenismo culturalista, na maioria das vezes, é o suporte necessário para o indigenismo turístico. Para este tipo de indigenismo o apoio linguístico é muito necessário para que o povo possa falar algumas palavras e, a partir daí, compor músicas e outros aspectos que possam evidenciar o chamado resgate cultural. O problema é o comércio das culturas!

 

* Indigenismo Turístico.

 

     Como o nome já sugere, trata-se de um indigenismo moldado para agradar os turistas. É um indigenismo que visa basicamente a obtenção de lucro, através da comercialização de uma suposta "cultura exótica", porém montada ou recriada e adaptada ao gosto do freguês. Basicamente é um indigenismo que mercantiliza de forma desbragada o que propõe e produz o indigenismo culturalista. Na verdade, há uma espécie de simbiose entre os culturalistas e os turistas, na perspectiva do indigenismo, onde um alimenta e se alimenta do outro. Este tipo de indigenismo se apresenta na atualidade muito ligado aos chamados festivais de cultura. É o que podemos chamar de uma falsa solução para os povos e uma importante fonte de recursos para empresas que investem neste tipo de turismo. Este tipo de indigenismo também é apoiado por governos porque não questiona a realidade e nem propõe mudanças. É óbvio que os povos indígenas podem e até devem valorizar fortemente sua cultura. Entretanto, quando isso passa a não beneficiar os povos, mas apenas grandes empresas ligadas ao etnoturismo, deve acender uma luz de atenção. O problema é o comércio da cultura associado ao comércio da natureza.

 

* Indigenismo de eventos.

 

        É aquele tipo de indigenismo que vive de promover eventos e levar representantes indígenas como se fossem uma espécie de troféu para dar sentido ao evento. Organizam eventos como palestras em universidades, centros culturais e até mesmo em outros países. Muitas das vezes realizam eventos como encontros de jovens lideranças, encontro de mulheres caciques, encontro de artesãs. Os indigenistas ligados ao indigenismo de eventos, não só promovem esses eventos como se aprimoram para melhor participarem desses eventos. Vivem de um evento para o outro, mesmo que isso não leve a lugar algum. Tem indigenistas e indígenas que vivem assim e sustentam uma máquina de silenciar mentes e corações para fazer parecer que tudo está bem para os povos. O problema é estabelecer eventos como forma de ganhar dinheiro. É o comércio de eventos!

 

* Indigenismo xamânico.

 

        Esse, por vezes, se soma aos demais indigenismos já mencionados aqui, mas neste caso, trata-se de um indigenismo que não busca apenas oferecer um espaço turístico ou cultural, mas oferece um espaço de curas rituais. Está cada vez mais incentivado e procurado nestes tempos de depressão mundial, onde há uma clara percepção de que há sim, curas na natureza e no xamanismo. Porém, a necessidade de lucrar com isso também aí se faz presente, seja por meio de igrejas que se valem de certos conhecimentos dos povos como o uso de ervas e chás, seja por meio da "formação" dos chamados new shamans que recebem os clientes/pacientes/turistas em espaços próprios como em kupixawas nas próprias comunidades ou em espaços fora das comunidades e dos territórios, como em centros culturais, universidades, igrejas, pelo Brasil e pelo mundo. Além da promessa de cura, este tipo de indigenismo promete bem-estar, não demanda renúncias e nem transformações reais na realidade. É um indigenismo altamente individualista! A outra face deste indigenismo é o proselitismo. Igrejas e seitas tentam arrebanhar "fiéis" junto aos doentes da alma com a promessa de cura por meio de rituais e uso de chás e vários outros elementos da natureza. Por essa característica do proselitismo, não por parte dos povos, mas por parte dos indigenistas mesmos e por parte das igrejas e seitas constituídas, que na oposição e dentro das comunidades, tem crescido o neopentecostalismo e o proselitismo cristão em geral. O problema é o comércio da fé!

 

* Indigenismo ambientalista (preservacionista).

 

        O indigenismo ambientalista (preservacionista) também está em voga e cresce exponencialmente em tempos de catástrofe climática. Neste grupo estão os que fraudam, divulgam verdadeiras farsas e apresentam as falsas soluções como se verdadeiras fossem. É o indigenismo do "carbono" e da mercantilização da natureza. Os mercadores da natureza, ao mesmo tempo que pregam que os povos originários são os "guardiões" da natureza, os responsabilizam pela destruição ambiental. É assim, por exemplo que funciona o REDD+ (Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal). Ou seja: os povos e comunidades, defensores e preservadores, são na verdade tratados como os destruidores. Destroem porque caçam, porque pescam, porque fazem roçados e pequenas pastagens baseadas na técnica da coivara. Além do REDD e REM (REDD Early Movers - REDD para pioneiros), os indigenistas ambientalistas (preservacionistas) lançam mão de mecanismos financeiristas como Pagamento por Serviços Ambientais- PSA, Soluções Baseadas na Natureza- SbN e toda a estrutura proposta pelo mercado de carbono, entre outros. Uma verdadeira armadilha para os povos!

                 A este respeito já escrevi alertando para a transferência de responsabilidades e de outras armadilhas como em (PADILHA, 2018, p 48) quando disse que a adoção de conceitos como "gestão" territorial e empreendedorismo como forma de transferir as responsabilidades pelo sucesso, ou fracasso, aos próprios povos indígenas, desresponsabilizando o poder público, ONGs, empresas e governos não nacionais. Quando eu falava sobre isso, deixava claro que a intenção do governo (do Acre à época, liderado por Tião Viana, mas que se iniciou desde ainda na primeira gestão da Frente Popular do Acre - FPA), era de, a partir do conceito de gestão territorial, reservar uma parte da área preservada para dar como garantia, em uma espécie de hipoteca, ao mercado de carbono. Em outras palavras, reservar parte dos territórios para o mercado da natureza. Passaram a chamar a isso de REM (REDD for Early Movers). Lançado na Conferência Rio+20, em junho de 2012, com recursos do Fundo de Energia e Clima do Governo Federal da Alemanha, esse Programa incentiva a conservação das florestas e a redução de emissões de carbono de modo a contribuir para a mitigação das mudanças do clima. (IMC, S. data).

                Quando o IMC fala em incentivar a preservação das florestas, redução de emissão de gases de efeito estufa e, consequentemente, contribuir com a mitigação das mudanças do clima, esconde a verdade. A verdade omitida é a de que o mercado, por meio do REM, REDD, ... exercerá total controle sobre os territórios, dizendo o que o povo pode ou não fazer. No caso, gestão territorial e empreendedorismo são verdadeiras armadilhas montadas para que os povos pensem que são eles que estão decidindo, quando na verdade o mercado é que está decidindo e dizendo o que podem ou não fazer. Se a autonomia dos povos fosse realmente tomada em conta, não precisaria de projetos alheios para convencê-los a realizarem a dita gestão territorial e tão pouco precisariam ser induzidos a adotarem o empreendedorismo.

                Por certo que todos esses indigenismos têm seu valor em certa medida e dão sua parcela de contribuição. Entretanto é preciso que se tenha muito cuidado para que os povos não sejam manipulados e se transformem em presas fáceis para o capital e seus operadores, muitas vezes travestido (o capital) de cordeiro. O capitalismo desenvolvimentista se traveste de indigenistas e se apresenta com feições de antropólogos, religiosos, instituições públicas que atuam junto aos povos, ONGs indigenistas e até indígenas e, claro, ambientalistas que vão do "azul ao vermelho".

*Indigenismo social/político (engajado).

Este tipo de indigenismo é cada vez mais raro. Por isso mesmo, também é difícil encontrar indigenistas adeptos e de fato engajados, ou militantes. É um indigenismo que tem sido fortemente atacado por conta de criticar indigenismos outros que defino, em seu conjunto, como indigenismos de resultado. O indigenismo de resultado, presente nos demais indigenismos, exceto no indigenismo social/político, é o tipo de indigenismo que sustenta que os povos não precisam tanto de terra, mas precisam de empreendedorismo e geração de renda.

O tema do empreendedorismo e geração de renda é especialmente preocupante quando se trata de indigenismo de resultado. E, explico porque deve-se tomar cuidado:

Empreendedorismo: De cara, aparece a questão de “mercado dentro do capitalismo como modelo econômico”. Digo isso para deixar claro que o mercado, como tal, e por si só não é de todo ruim. Ruim é o mercado capitalista. Vejamos o que diz o próprio SEBRAE:

Empreender inclui abrir negócios e gerar empregos, mas vai muito além disso. Empreendedores são agentes de inovação, que melhoram a qualidade de vida das pessoas, que impulsionam o crescimento econômico. (...) podemos dizer que empreender é também saber identificar oportunidades e transformá-las em negócios. Isso pode se dar, por exemplo, a partir de uma solução criada para sanar alguma necessidade dos consumidores, que pode ser um produto ou serviço. (...) empreender também envolve a habilidade de gerenciar recursos, tomar decisões estratégicas e adaptar-se às mudanças no mercado. (SEBRAE, 2025). (grifo meu).

Vejam que a base é mesmo o mercado capitalista. Falam em “abrir negócios”, “crescimento econômico”, “transformar oportunidades em negócios”, “se valer da necessidade dos consumidores” e “adaptar-se ao mercado”.  Portanto, o empreendedorismo visa unicamente satisfazer o mercado e, quase sempre, é uma ação individual. Ora, o mercado capitalista é individualista. Portanto, como que um indigenismo, que por óbvio e historicamente defende o coletivismo, pode defender um modelo individualista? É nessa passagem do coletivo para o individualismo que ocorrem os usos e abusos de elementos da cultura de um povo. Por exemplo: o artesanato que sempre foi resultado de um coletivo cultural, agora é apropriado por um indivíduo que vai comercializá-lo chamando a isso de empreendedorismo. Isso se aplica a pinturas, chás, danças, cantos e, enfim, elementos culturais e tradicionais de um de determinado povo.

Tratei do tema quando escrevi o artigo: A "sebraelização do indigenismo" na Amazônia Ocidental como estratégia para a mercantilização e a financeirização.

A "sebraelização" das relações, a mercantilização da cultura, assim como a financeirização da natureza por meio da 'economia verde' (ou outro nome que soar melhor), têm um vício de origem: não procuram equacionar e resolver os gravíssimos problemas dos povos indígenas, mas apenas, resolver os problemas da falta de políticas públicas por parte do governo, e em vários casos, resolver o problema de caixa de governos e ONGs. (PADILHA, 2018, p. 45)

                Geração de renda: Aqui o foco continua sendo o mercado capitalista, porém, o resultado diretamente esperado recai sobre o indivíduo. Ou seja, o que o indivíduo pode ganhar, ou fazer dinheiro. Trata-se de conseguir dinheiro para o sujeito seguir contribuindo com sua parte para o desenvolvimento infinito do capitalismo.  Vejamos o que diz a Raízes Desenvolvimento Sustentável:

Bufunfa, bolada, grana, trocado, tutu – essas são algumas das muitas gírias, sinônimos para “dinheiro”, encontradas Brasil afora. E é aí que entra a geração de renda. Significa estimular ou permitir que as pessoas iniciem negócios próprios dirigidos ao mercado de forma cooperada, associada ou individualmente. Significa também a geração de atividade econômica, por meio de pequenos negócios individuais ou em associação/cooperação. (RAIZES, 2021). (grifo meu)

Estimular ou permitir significa ainda “se vender como mão de obra”. O mercado nunca fala só em geração de renda. Fala de geração de emprego e renda. Por isso, um senhor que vende picolés pelas ruas da cidade, é um gerador de renda. Isso porque o que ele recebe, ainda que muito pouco, é considerado “renda”. É basicamente a exploração do capital sobre o trabalho. É o fomento da segunda parte do individualismo: “eu é que vendo minha mão de obra, logo, a renda é minha”. É uma interpretação covarde da exploração, que tenta transformar o fruto dessa exploração (salário) em renda. E isso ainda é pior se olharmos para a afirmação de que o mercado “estimula ou permite” essa exploração.

Uma outra questão que se coloca aqui é a infinitude do desenvolvimento capitalista que não considera a finitude das matérias prima e, portanto, do próprio planeta enquanto fornecedor. Este desenvolvimentismo, quando aplicado a povos originários (tribais, portanto, coletivos de acordo com a OIT) em sua organização social, é uma ameaça direta aos territórios, “imprescindíveis à preservação dos recursos ambientais necessários a seu bem-estar e as necessárias à sua reprodução física e cultural, segundo seus usos, costumes e tradições. (CF, Art. 231, § 1º).

Mas, então, o que se está dizendo é que os indigenismos do tipo culturalista, turístico, de eventos, Xamânico e ambientalista (preservacionista) são ruins para os povos?

Não. O que estou dizendo é que estes “indigenismos” são facilmente influenciados pelo capital e tendem a agir em favor deste mesmo capital. É preciso que os povos e suas lideranças estejam atentos. Para seduzir povos, comunidades e lideranças, representantes desses indigenismos utilizam o argumento de que esses mesmos povos e lideranças são autônomos, enquanto agem de outra forma, justamente a negar a autonomia e exercendo a prática do assédio. Senão vejamos:

Se se reconhece a autonomia dos povos, então porque precisa que alguém ou alguma instituição que não o próprio povo com seu jeito próprio de se organizar, para “ajudar a construir seus protocolos de consulta”? Se os protocolos de consulta são a forma que querem ser consultados, não cabe a ninguém dizer como devem ser feitos ou construídos. A nós (aos não indígenas), cabe apenas respeitar os protocolos que eles mesmos tenham.

Se se reconhece que os povos originários, indígenas, são os que mais preservam e são os que sempre realizaram o manejo em seus territórios, que sentido faz buscar ONGs, instituições ou qualquer forma de consultoria para auxiliá-los a construírem um “plano de manejo”?

Esses dois exemplos evidenciam com enorme clareza que a autonomia dos povos, na verdade, não passa de discurso e segue o caminho das falsas soluções apresentadas pelo mercado capitalista apoiado nos mercadores e financeirizadores da natureza.

Os espaços de discussões, debates e luta por direitos, como o direito ao território, estão cada vez mais ocupados por esses mercadores de tudo.

O indigenismo social/político (engajado), por sua vez, ainda entende que a demarcação dos territórios antecede qualquer outro direito em sua forma de ser aplicado, por certo. É, por assim dizer, o indigenismo do indigenato.

 

Referências

 

BRASIL, Constituição Federal. Planalto, 1988. Disponível em: https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra?codteor=469704

IMC, Programa para pioneiros em REDD+ (REM). Disponível em: https://imc.ac.gov.br/programa-para-pioneiros-em-redd-rem/

SEBRAE, Mas afinal, o que é empreendedorismo? Setembro, 2025. Disponível em: https://www.sebrae-sc.com.br/blog/o-que-e-empreendedorismo

RAIZES, Desenvolvimento Sustentável. O que fazemos: projetos de empreendedorismo e geração de renda. Junho de 2021. Disponível em: https://raizesds.com.br/pt/empreendedorismo-e-geracao-de-renda/

PADILHA, Lindomar Dias. A "sebraelização do indigenismo" na Amazônia Ocidental como estratégia para a mercantilização e a financeirização. Revista 30 anos pós assassinato de Chico Mendes e destruição oculta de florestas e vidas no Acre. Rio Branco, AC, 2018.

domingo, 22 de março de 2026

Abril Indígena: Como cantar em terras estranhas?

    

    Escrevi este artigo em 2021, em referência ao mês de abril como mês dos povos indígenas. Reproduzo aqui por considerá-lo muito atual e por considerar, como acréscimo, que governos, entidades de apoio, igrejas e mesmo muitas lideranças (indígenas ou não), estão se curvando ao capital, às ideologias e às facilidades de um indigenismo de resultado. Entendendo o indigenismo de "resultado" como a junção oportunistas de dois e até mais indigenismos, menos, óbvio, o indigenismo político/social engajado.

Lindomar Dias Padilha

Eis o artigo:

Artigo publicado por: IHU

… pois aqueles que nos levaram cativos nos pediam
para entoar belas canções, e os nossos opressores,
que fôssemos alegres, exclamando:
“Entoai-nos algum dos cânticos de Sião!”
Como, porém, haveríamos de cantar as
Canções do Eterno numa terra estranha?

- Salmo 137

Lembrei-me deste Salmo quando um amigo repórter pediu que eu falasse sobre a situação dos povos indígenas no Acre, no dia 19 de abril (dia do índio) de 2021 considerando o contexto de pandemia. Os povos indígenas, mesmo após 1521 anos de invasão oficial de seus territórios, ainda vivem como estrangeiros em sua própria terra e seguem assistindo os seus territórios sendo espoliados e seus direitos negados. Claro que sei que mesmo o governo Federal tomou como aceitável que os indígenas fossem considerados entre os grupos prioritários, até mesmo para o processo de vacinação. Entretanto, os povos originários são vítimas frequentes de desinformação, e é neste ponto que pretendo concentrar o meu parecer e minhas críticas.

Os povos e comunidades são vítimas constantes de prosélitos dos mais diversos e variados grupos. De um lado, há o proselitismo religioso, especialmente advindo de religiões fundamentalistas ditas cristãs. Porém temos que considerar o proselitismo de outras religiões, como por exemplo, as que se baseiam no espiritismo culturalista, que são aquelas religiões que utilizam aspectos da própria cultura indígena como o uso de chás e ervas com destaque para as que fazem uso do chá da Chacrona e do Mariri, ou Caapi, conhecido como ayahuasca[1]. O proselitismo religioso é desrespeitoso para como os povos e culturas originários deste o início da invasão, mesmo que em alguns momentos da história esse proselitismo tenha se apresentado como forma de acorrer estes povos.

Mais recentemente, notamos um grande crescimento do proselitismo político/ideológico, especialmente com o acirramento entre ideologias que tendem aos extremos do que chamamos de “direita e esquerda[2]”. Os povos e comunidades estão sendo bombardeados com falsas notícias vindas de ambos os lados. Isso se dá, por exemplo, na implantação de projetos do tipo REDD+[3] e REM[4] onde as comunidades não são ouvidas, mas recebem informações falsas de que estes projetos são efetivamente a remissão econômico-financeira para estes povos e comunidades. Mais uma vez os espoliadores e saqueadores se apresentam como santos portadores da “boa nova” em um contexto quase bíblico/salvífico. Esse tipo de proselitismo ocorre ábdito das autoridades que deveriam fiscalizar a atuação desses prosélitos em terras indígenas. Como isso se dá, por exemplo, no contexto das vacinas?, me perguntaria você.

O governo Federal e seus seguidores obscurantistas divulgam informações falsas para quebrantar o interesse desses povos no caso da aceitação da vacina. Frases como a já muito conhecida dita pelo próprio presidente da República “se você virar um jacaré, é problema seu”, procuram atuar justamente no campo do imaginário e, sim, podem levar à recusa em receber a vacina. Por outro lado, vimos prosélitos adeptos do culturalismo religioso incentivando esses povos a seguirem ou a adotarem o uso de substâncias já existentes entre os povos como maneira de prevenir e tratar a doença decorrente da contaminação pelo novo Coronavírus. É o caso, por exemplo, do incentivo ao uso do chá da quina, muito utilizado por essas populações no tratamento da malária associando-o a outras substâncias naturais, até mesmo a ayahuasca. No Acre temos até comunidade se recusando a fornecer informações sobre casos de contaminação ludibriados de que se tratam sozinhos e que não registraram nenhum caso. Infelizmente parte da mídia segue divulgando este tipo de suposta notícia sem contudo checar sua veracidade.

Como dizia Antônio Prates: “O fanatismo e a inteligência nunca moraram na mesma casa”. Esta frase explica parcialmente o que tenho dito sobre a atuação dos radicais de direita e de esquerda que atuam nas comunidades indígenas. Tem instituições atuando em favor dos dois extremos e, infelizmente algumas são até tidas como indigenistas. Considero natural que uma pessoa, mesmo ligada a alguma instituição indigenista, tenha preferências políticas. Eu mesmo tenho as minhas. O que considero grave é o proselitismo em favor de uma ou de outra ideologia e mesmo em favor de algum partido político específico. Na história dos povos originários não existe, apenas exemplificando, Lulopetistas versus Bolsonaristas, direita versus esquerda ou qualquer outro tipo de radicalismo ignorante e divisionista. O que existe é o Estado Brasileiro que nasce justamente da espoliação e roubo dos territórios destes povos originários versus estes povos e seus direitos. Portanto, o Estado brasileiro sempre atuará se não contra, pelo menos com desconfiança em relação aos povos originários, seja este Estado governado por quem quer que seja e sob o julgo de qualquer ideologia. Observar a realidade e tentar intervir nesta apenas com um olhar obscurecido pelas eleições gerais previstas para 2022 é seguir condenando essas populações às desinformações e negando-lhes o direito a autodeterminação.

A Constituição brasileira, em seu artigo 231 reafirma o respeito aos direitos desses povos quando diz: “São reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam…”. Reconhecer aos indígenas sua organização social, crenças, línguas e tradições, é reconhecer que o proselitismo de qualquer natureza fere esses direitos, tanto mais se acompanhado de ideologias radicais como o que temos assistido nestes tempos cabulosos em que vivemos. Neste contexto, as organizações indígenas e indigenistas, públicas ou da sociedade civil, deveriam construir seu foco de atuação na garantia desses direitos constitucionais e na fiscalização do cumprimento das obrigações do Estado brasileiro para com esses povos. Considero sempre bom trazer exemplos que possam ilustrar melhor o que digo. Vejamos:

O controle da pandemia, incluindo a vacinação dos povos indígenas, está sob a responsabilidade da SESAI[5]- Secretaria Especial de Saúde Indígena, naturalmente em colaboração e sob fiscalização da Funai – Fundação Nacional do Índio e do MPF – Ministério Público Federal. Ocorre que nem a Funai e nem o MPF contam com servidores preparados e em número suficiente para realizar tal acompanhamento. Por outro lado, as organizações da sociedade civil, estão proibidas ou pelo menos com muita dificuldade para se fazerem presentes nas comunidades e contribuir adequadamente, tanto na fiscalização e denúncias de eventuais práticas irregulares e mesmo omissões, como na orientação adequada e no combate às notícias e informações mentirosas. Isso sem contar que muitas dessas organizações, como já o disse, estão mais a serviço de ideologias que mesmo dos direitos e interesses dos povos. Esse conjunto de fatores traz muita incerteza sobre o que está acontecendo de fato e como estes povos e comunidades estão efetivamente sentindo os efeitos da pandemia.

Com base em informações incertas e inseguras de que os povos indígenas estão se recusando, em larga medida, a tomarem a vacina, muitas prefeituras no Acre já estão pedindo o remanejamento de parte das doses de vacinas destinadas aos povos indígenas para outros grupos, como os trabalhadores em segurança pública. Esta constatação demonstra claramente o que a desinformação ou informação incompleta pode acarretar nas comunidades. Admitir que os povos indígenas estejam se recusando a se vacinar por causa de mentiras como a de que poderão virar jacaré, é também e ao mesmo tempo, não reconhecer nesses povos a capacidade de discernirem. É não reconhecer que estes povos são plenamente capazes e que a eles são reconhecidos os direitos às suas organizações sociais, crenças, línguas e tradições. Entre os oportunistas de direita e de esquerda, estão os povos com seu modo de enxergar e de se autodeterminarem. Neste momento, cabe às instituições realmente sérias, zelar para que as informações cheguem de forma correta, esclarecedora e, claro, que sejam verdadeiras.

Nenhuma instituição sabe dizer ao certo o que realmente está acontecendo nas comunidades. As informações são sempre vagas e incompletas por um lado. Por outro, não há uma fiscalização adequada capaz de reagir a eventuais práticas nocivas e mesmo às mentiras e desinformações deliberadas. Creio que demorará muitos anos para que possamos realmente saber o está de fato acontecendo neste momento. Pesquisadores terão ainda que realizar muitos estudos e pesquisas para se aproximarem da verdade do que está ocorrendo. Creio que demoraremos algo em torno de uns sete a oito anos, isso se conseguirmos superar o divisionismo político/ideológico, sempre obscurantista.

Eu poderia citar aqui números de casos e mesmo de mortos por causa de complicações da Covid divulgados oficialmente ou por ONGs, mas seriam sempre apenas casos, números e ainda assim, subnotificados. A Covid entre as populações indígenas é muito mais grave que supõem as autoridades. Os casos de morte são muito maiores que os informados, no dia de hoje, por exemplo, o Cimi registrou que lamentavelmente ultrapassamos 2.500 casos tendo sido mais de 47 casos fatais[6]. Além das inúmeras mortes evitáveis, outras consequências decorrentes da pandemia parecem-me que não estão sendo consideradas. Constatamos um aumento e consequente agravamento do uso abusivo de substâncias como álcool e gasolina entre alguns desses povos. Constatamos ainda o aumento dos casos de suicídios. Suicídios à letra ou por descaso com a própria vida, como em vários casos de afogamento registrados como sendo em decorrência de embriaguez. Grave também é a constatação de casos de suicídios ocorridos em povos onde nunca fora registrada tal prática. Cresceram também os registros de aumento de violências intracomunitárias e o sentimento de impotência frente ao descaso das autoridades.

Que 19 de abril sirva para que, pelo menos, possamos avaliar nossa atuação em relação aos povos originários que, deste o início da invasão, foram impedidos de se autodenominarem como Apolima-Arara, Huni Kui, Xixinawa, Sharanawa (…) e outros tantos.

Além de verem seus territórios espoliados e seus direitos negligenciados, para falar o mínimo, ainda hoje vêm seus direitos aos territórios e a autoafirmação negados sob pretexto de serem menos, inferiores e até incapazes.

Ou superamos todos esses preconceitos e conceitos incorretos e nos mobilizemos para que os direitos dos povos originários sejam efetivados e respeitados, ou seguiremos escrevendo lamentos sobre a sorte (má sorte) desses povos por vários 19 de abril. Quero que o 19 de abril seja o dia do grito de liberdade preso nas gargantas de mulheres e homens, de todas as raças, crenças e orientações sexuais, juntando seus gritos aos dos povos originários e, assim, faremos juntos a festa da libertação, a festa do que poderemos finalmente chamar de humanidade. Parabéns aos povos indígenas, não apenas por este dia, mas por nos ensinarem a resistência e a crença, que é certeza, de que haverá um novo dia apesar destes tempos absconsos e estranhos!

 

Notas:

[1] Bebida alucinógena preparada com o caule do caapi (Banisteriopsis caapi) e folhas de chacrona (Psychotria viridis), us. ritualmente por populações amazônicas e milhares de adeptos de diversas seitas em todo o Brasil e no exterior; auasca, daime, iagê, mariri, uasca.

[2] Durante o processo revolucionário começado em 1789, na França, os girondinos, considerados mais moderados e conciliadores, ocupavam o lado direito da Assembleia Nacional Constituinte, enquanto os jacobinos, mais radicais e exaltados, ocupavam o lado esquerdo. Essa é a origem da nomenclatura política que categoriza os posicionamentos políticos no interior dos sistemas políticos contemporâneos. Essa polarização tem suscitado inúmeros problemas e demasiadas polêmicas, sobretudo porque, a partir do século XIX, houve uma radicalização ideológica tanto de um lado quanto do outro. O desenvolvimento das ideias de autores considerados de direita, como Donoso Cortez e Charles Maurras, bem como o daqueles considerados de esquerda, como Karl Marx e Bakunin, entre outros, estimulou gerações de intelectuais, movimentos políticos e ativistas que levaram às últimas consequências a crença em sua ideologia. Disponível aqui.

[3] REDD significa Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação. Alterado para REDD+ ou REDD-plus, o conceito inclui conservação de florestas, manejo florestal sustentável e o carbono que possa ser armazenado por “reflorestamento”, inclusive através de plantações industriais de árvores. Apesar de estar diretamente relacionado às florestas e ao desmatamento tropical, o REDD+ está sendo debatido pela ONU no âmbito da Convenção sobre Mudança do Clima (UNFCCC) e considerado pelos países do Norte como uma opção importante para que eles “reduzam” as emissões de carbono pagando a alguém para fazer a redução real por eles, e é considerado pelos países do Sul como uma oportunidade de obter dinheiro para a conservação da floresta. Os projetos-piloto de REDD+ mostram claramente que o mecanismo é uma mais uma grave ameaça para as populações florestais. Disponível aqui.

[4] O relatório REDD Early Movers (REM) no Acre, Brasil compara a promessa da redução das emissões de carbono causadas pelo desmatamento mediante incentivos financeiros com a implementação de medidas REDD+ no âmbito do programa REM (REDD Early Movers) no Brasil. Disponível aqui.

[5] A Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI) é responsável por coordenar e executar a Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas e todo o processo de gestão do Subsistema de Atenção à Saúde Indígena (SasiSUS) no Sistema Único de Saúde (SUS). Disponível aqui.

[6] O Cimi, Regional Amazônia Ocidental, registra os casos ocorridos não apenas entre os indígenas aldeados, mas todas as mortes informadas.

domingo, 22 de fevereiro de 2026

NAWA (Naua): Vitória parcial, mas, a história se constrói, não bastam narrativas.

 Semana passada tivemos a grata informação de que finalmente a Funai, depois de 26 anos, aprovou o relatório circunstanciado de identificação e delimitação da Terra Indígena Nawa. Embora tenha sido uma notícia boa, o relatório aprovado peca por ter deixado fora dos limites da terra delimitada importantes áreas frequentadas pelos Nawa. Inicialmente a terra teria 83 mil hectares e não apenas 65 mil. Peca ainda por acrescentar “Kapanawa” ao etnônimo, uma vez que todos os estudos até aqui consideraram apenas o etnônimo “Nawa”. Tanto é que historicamente o nome do povo tem sido empregado para valorizar marcas, produtos e mesmo lugares. Por exemplo café Naua, Guaraná Nauense e teatro dos Nawa.

            Mesmo que os Nawa se reconheçam como tendo origem comum com os Kapanawa, e isso é legítimo, ao acrescentar o etnônimo Kapanawa se tenta apagar a história de massacres e de quase extermínio do povo. Afinal, os Kapanawa sempre existiram e, portanto, os Nawa, igualmente. Assim, o estado brasileiro, mais uma vez, tenta ocultar e deturpar a verdade histórica ao invés de assumir sua responsabilidade e, eu diria, até mesmo foge e se nega a patrocinar os reparos e consequente indenização a este povo vítima de etnocídio (genocídio). Vejamos o que diz a matéria em um determinado trech:

 "A Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) aprovou, na sexta-feira (13), as conclusões do Relatório Circunstanciado de Identificação e Delimitação (RCID) da Terra Indígena (TI) Nawa, de ocupação tradicional indígena Nawa/Kapanawa, localizada nos municípios de Mâncio Lima e Rodrigues Alves, no Acre. A aprovação se deu por meio da assinatura do Despacho Decisório pela presidenta da autarquia indigenista, Joenia Wapichana, com a presença online de lideranças e representantes do povo Nawa/Kapanawa". (https://www.gov.br/funai/pt-br/assuntos/noticias/2026/funai-aprova-relatorio-de-identificacao-e-delimitacao-da-terra-indigena-nawa-no-acre). (grifo meu).

            Por certo os Nawa saberão como lidar com essa situação e eles, sim, somente eles podem se autodeclarar. Esperamos, no entanto, que o Estado brasileiro assuma seu papel e promova a devida indenização do povo pelos massacres sofridos e, assim, reestabeleça a verdade. Me vejo na obrigação de falar sobre isso porque acompanhei todo o processo de etnogênese e ressurgimento. Vejamos como se deu à época:

"Já era final da Assembleia do povo Inu Kuî (Nukini), em 2000, na Aldeia República, quando Rosenilda (Rose) e Lindomar Padilha foram convidados pelo líder Paulo Nukini para visitar a Serra do Divisor, um dos pontos turísticos do Acre. Os dois, que trabalham no Conselho Indigenista Missionário (Cimi) - organização vinculada à Igreja Católica que apoia o protagonismo dos povos indígenas - estavam animados com a participação e a discussão política que aconteceu numa das aldeias no extremo oeste do Brasil, na divisa com o Peru. Rose e Lindomar voltaram do passeio no Rio Moa e resolveram parar, a pedido da liderança Inu Kuî, na casa de Dona Chica do Celso (Francisca Nazaré da Costa), de 64 anos, cabelos grisalhos, rosto com marcas de anos de trabalho sob o sol da roça e de esforços com a produção da borracha.
Desembarcaram na "colocação" 7 de Setembro - hoje aldeia - do lado direito do Rio Moa e dentro do Parque Nacional da Serra do Divisor (PNSD), a bajola (barco) foi amarrada para não ser levada pelas águas barrentas. No caminho para chegar à casa de dona Chica, uma supressa para a indigenista do Cimi: vários túmulos eram visíveis no quintal. A receptividade do ribeirinho é regra e dona Chica convidou os visitantes para entrar. Ofereceu café e os indigenistas perguntaram o que significavam aquelas sepulturas. "Ah, isso é coisa de índio", exclamou a senhora. Eles, então, admiraram-se com a resposta da anfitriã: "Minha filha, nós somos Nawa!" Falava de um povo silenciado". (
https://terrasindigenas.org.br/pt-br/noticia/219443).

        Trata-se ainda de uma vitória parcial porque muito ainda há que ser feito e, convenhamos, a luta não é de hoje. Desde o início da luta pelo reconhecimento, a partir de 1999, o povo Nawa vem sofrendo preconceitos e tentativas de anulação de sua história. Por exemplo, logo de cara, o IBAMA e uma ONG que estava a seu serviço, exigiram um laudo (estudo) que comprovasse que eram indígenas e, espalharam com auxílio inclusive de um antropólogo, que eles, os Naua (era assim que grafávamos à época) eram apenas "uma invenção da equipe do Cimi que atuava em Cruzeiro do Sul.

A afirmação de que os Nawa (ou Naua) são uma "invenção" do Cimi (Conselho Indigenista Missionário) é um posicionamento polêmico, frequentemente levantado por setores contrários à demarcação de suas terras no Acre, que argumentam que o grupo não manteria costumes tradicionais. No entanto, os registros históricos e antropológicos indicam que o povo Nawa é real, sobreviveu a massacres no período da borracha, foi considerado extinto e, posteriormente, reconhecido oficialmente pela Funai após um processo de retomada de identidade. (Meta, IA)

Temos que desconfiar quando aquela mesma gente que era contra o povo Nawa agora aparece tentando “reescrever” a história segundo seus interesses. Além de desconfiar, temos que fazer justiça aqueles e aquelas que sempre lutaram juntos e mesmo os que faleceram sem ver a terra demarcada, como é o caso do seu Chicon, Dona Chica e seu Milton Peba.  Também temos que fazer justiça ao falecido Antônio Pereira Neto, administrador da Funai à época e com toda sua força saiu em defesa do povo. Assim fala o cacique Railson, em entrevista concedida Cloude de Souza Correia.

nós vivíamos assim numa região tranqüila, trabalhando, tinha nossa sobrevivência. E aí foi quando começou a aparecer as visitas, as autoridades passando. E começaram a mexer com a gente. Falaram olha, isso aqui não é mais o que vocês pensam que era. Isso aqui é outra atividade diferente. Isso aqui é o Parque Nacional da Serra do Divisor. Aí a gente já foi ficando mais... Assim, eu pensando, agora a gente já vai começar a andar com as próprias pernas da gente, porque já que nós não estamos mais sendo dirigido pela nossa própria pessoa a gente vai procurar um rumo. Aí a gente conversa, nossos parentes Nukini aqui também sempre faz parte de reuniões em Mâncio Lima, Cruzeiro do Sul, e conversa vai eles soltaram que aqui dentro do Parque Nacional da Serra do Divisor tinha um povo diferenciado do deles. Então, a dona Rose veio aqui, mais o seu Lindomar, veio só mesmo nos ver, ver o que nós éramos. Ela veio diretamente na casa da dona Francisca do Celso, porque nem lá em casa ela passou. Chegou: - dona Francisca nós temos notícias que vocês são povos indígenas, que nós somos missionários do CIMI que trabalham com povos indígenas, então é obrigação nossa saber se vocês são índios ou não. Falou: - nós somos índios e nós somos índios Nawa. Aí ela ficou toda surpresa disso. Ela andou no cemitério, bateu foto da dona Francisca e voltou novamente. Nesse intervalo ela já passou e a gente já mandou uma carta diretamente pedindo o apoio do CIMI, para que ele mandasse essa carta até a FUNAI, ou entregasse para o próprio IBAMA mesmo para ter o reconhecimento (Railson, 2003, Novo Recreio).

            A afirmação de dona Francisca de que eram indígenas e que pertenciam ao povo Nawa, viria a mudar a história do indigenismo no na Amazônia Ocidental e foi, e ainda é, por medo de perder a primazia do indigenismo que tanto lá como agora, os que se julgam “donos” da história se apressam a desqualificar as ações de muitos outros que não eles. Fizeram o mesmo em relação aos Apolima-Arara, Kuntanawa e agora também em relação aos Sharanawa. Primeiro negam com veemência a existência e, sem conseguir fazer a mentira prevalecer, recuam, mas dizem que a história não foi bem assim.

            O fato é que a história do indigenismo no Acre sempre será lembrada e contada antes e depois do ressurgimento dos Nawa. O reconhecimento e a demarcação do território, quando ocorrer, não será mérito de ninguém, mas mérito do próprio povo que tem lutado incansavelmente na busca por seus direitos.

PARABÉNS AO POVO NAWA!

Em memória aos que tombaram lutando!

 

Referências

CORREIA, Cloude de Sauza. ETNOZONEAMENTO, ETNOMAPEAMENTO E DIAGNÓSTICO ETNOAMBIENTAL: Representações Cartográficas e Gestão Territorial em Terras Indígenas no Estado do Acre. Tese de doutorado. Universidade de Brasília, UNB, 2007.

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Para que nunca nos esqueçamos de onde surgiu a luta contra a AMACRO

 

Carta do Acre - Em defesa da vida, da integridade dos povos e de seus territórios e contra o REDD e a mercantilização da natureza.

Rio Branco, Acre, 07 de outubro de 2011.

Estivemos reunidos em Rio Branco - AC, entre os dias 3 a 7 de outubro de 2011 na Oficina: Serviços Ambientais, REDD e Fundos Verdes do BNDES: Salvação da Amazônia ou Armadilha do Capitalismo Verde?

Estávamos presentes, organizações socioambientais, de trabalhadoras e trabalhadores da agricultura familiar, organizações de Resex e Assentamentos Extrativistas, de direitos humanos (nacionais e internacionais), organizações indígenas, organizações de mulheres, pastorais sociais, professores, estudantes e pessoas da sociedade civil comprometidas com a luta “dos de baixo”.

Percebemos a formação de um consenso em torno da ideia de que, desde 1999, com a eleição do governo da Frente Popular do Acre (FPA), foram tomadas iniciativas para a implantação de um “novo modelo” de desenvolvimento. Desde então, tal modelo é celebrado como primor de harmonia entre desenvolvimento econômico e conservação da floresta, de seus bens naturais e do modo de vida de seus habitantes. Com forte apoio dos meios de comunicação , de sindicatos, de ONGs promotoras do capitalismo verde na região amazônica, de bancos multilaterais, de oligarquias locais, de organizações internacionais, ele é apresentado como “modelo exitoso” a ser seguido por outras regiões do Brasil e do mundo.

Nesses dias, tivemos oportunidade de conhecer, em campo, algumas iniciativas tidas como referência no Acre. Vimos de perto os impactos sociais e ambientais do “desenvolvimento sustentável” em curso no estado. Visitamos o Projeto de Assentamento Agroextrativista Chico Mendes, Fábrica de Preservativos NATEX e o Seringal São Bernardo (Projeto de Manejo Florestal Sustentável das Fazendas Ranchão I e II). As visitas nos colocaram diante de um cenário bastante distinto daquilo que é propagandeado nacional e internacionalmente.

No Seringal São Bernardo, pudemos constatar que o atendimento dos interesses das madeireiras se faz em detrimento dos interesses das populações locais e da conservação da natureza. Mesmo as questionáveis regras dos planos de manejo são desrespeitadas e, segundo dizem os moradores, com conivência de gestores estatais. No caso do Projeto de Assentamento Agroextrativista Chico Mendes Cachoeira (em Xapuri), constatamos que os moradores continuam subjugados ao domínio monopolista, atualmente vendem a madeira para a empresa “Laminados Triunfo” a R$90,00 m3, quando a mesma quantidade de madeira chega a valer até R$1200 na cidade. Por isso, endossamos a reivindicação de diversas comunidades pela suspensão dos famigerados projetos de manejo. Solicitamos a apuração de todas as irregularidades e exigimos a punição dos culpados pela destruição criminosa dos bens naturais.

Os dias em que tivemos reunidos foram dedicados ainda ao estudo sobre Serviços Ambientais, REDD e Fundos Verdes do BNDES. Compreendemos o papel dos Bancos (Banco Mundial, FMI, BID e BNDES), ONG´s comprometidas com o capitalismo verde, tais como WWF, TNC e CI; bem como o papel de outras instituições como ITTO, FSC e USAID, setores da sociedade civil e Governos Estadual e Federal que têm se aliado ao capital internacional na intenção de mercantilizar o patrimônio natural da Amazônia.

Ressaltamos que, além de desprovida de amparo constitucional, a Lei N° 2.308, de 22 de outubro de 2010, que regulamenta o Sistema Estadual de Incentivo a Serviços Ambientais foi criada sem o devido debate com os setores da sociedade diretamente impactados por ela, isto é, os homens e mulheres dos campos e floresta. Reproduzindo servilmente os argumentos dos países centrais, os gestores estatais locais a apresentam como uma forma eficaz de contribuir com o equilíbrio do clima, proteger a floresta e melhorar a qualidade de vida daqueles que nela habitam. Deve-se dizer, entretanto, que a referida lei gera “ativos ambientais” para negociar os bens naturais no mercado de "serviços ambientais", como o mercado de carbono . Trata-se de um desdobramento da atual fase do capitalismo cujos defensores, no intuito de assegurar sua reprodução ampliada, lançam mão do discurso ambiental para mercantilizar a vida, privatizar a natureza e espoliar as populações do campo e da cidade. Pela lei, a beleza natural, a polinização de insetos, a regulação de chuvas, a cultura, os valores espirituais, os saberes tradicionais, a água, plantas e até o próprio imaginário popular, tudo passa a ser mercadoria. A atual proposta de modificação do Código Florestal complementa esta nova estratégia de acumulação do capital, ao autorizar a negociação das florestas no mercado financeiro, com a emissão de "papéis verdes", a chamada Certidão de Cotas de Reserva Ambiental (CCRA). Desse modo, tudo é colocado no âmbito do mercado para ser gerido por bancos e empresas privadas.

Embora apresentada como solução para o aquecimento global e para as mudanças climáticas, a proposta do REDD permite aos países centrais do capitalismo manterem seus padrões de produção, consumo e, portanto, também de poluição. Eles continuarão consumindo energia de fontes que produzem mais e mais emissões de carbono. Historicamente responsáveis pela criação do problema, agora propõe m a “solução” que mais atende a seus interesses. Possibilitando a compra do “direito de poluir”, mecanismos como o REDD forçam as denominadas “populações tradicionais”is (ribeirinhos, indígenas, quilombolas, quebradeiras de coco, seringueiros etc.) a renunciarem a autonomia na gestão de seus territórios.

Com isso, embaralham-se os papeis. O capitalismo, civilização mais predadora da história da humanidade, não representaria nenhum problema. Ao contrário, seria a solução. Os destruidores seriam agora os grandes defensores da natureza. E aqueles que historicamente garantiram a conservação natural são, agora, encarados como predadores e por isso mesmo são criminalizados. Não surpreende, portanto, que recentemente o Estado tenha tornado mais ostensiva a repressão, a perseguição e até expulsão das populações locais de seus territórios. Tudo para assegurar a livre expansão do mercado dos bens naturais.

Com o indisfarçável apoio estatal, por esse e outros projetos o capital hoje promove e conjuga duas formas de re-territorialização na região amazônica. De um lado, expulsa povos e comunidades do território (como é o caso dos grandes projetos como as hidrelétricas), privando-os das condições de sobrevivência. De outro, tira a relativa autonomia daqueles que permanecem em seus territórios, como é o caso das áreas de conservação ambiental. Tais populações até podem permanecer na terra, mas já não podem utilizá-la segundo seu modo de vida.Sua sobrevivência não seria mais garantida pelo roçado de subsistência - convertido em ameaça ao bom funcionamento do clima do planeta -, mas por “bolsas verdes”, que, além de insuficientes, são pagas para a manutenção da civilização do petróleo.

Cientes dos riscos que tais projetos trazem, rechaçamos o acordo de REDD entre Califórnia, Chiapas, Acre que já tem causado sérios problemas a comunidades indígenas e tradicionais, como na região de Amador Hernández, em Chiapas, México. Por isso nos solidarizamos com as populações pobres da Califórnia e Chiapas que já têm sofrido com as consequências. Solidarizamo-nos também com os povos indígenas do TIPNIS, na Bolívia, sob ameaça de terem seu território violado pela estrada que liga Cochabamba a Beni financiada pelo BNDES.

Estamos num estado que, nos anos de 1970-80, foi palco de lutas históricas contra a expansão predatória do capital e pela defesa dos territórios ocupados por povos indígenas e populações camponesas da floresta. Lutas que inspiraram muitas outras no Brasil e no mundo. Convertido, porém, a partir do final da década de 1990, em laboratório do BID e do Banco Mundial para experimentos de mercantilização e privatização da natureza, o Acre é hoje um estado “intoxicado” pelo discurso verde e vitimado pela prática do “capitalismo verde”. Dentre os mecanismos utilizados a fim de legitimar essa ordem de coisas, ganha destaque a manipulação da figura de Chico Mendes. A crer no que nos apresentam, deveríamos considerá-lo o patrono do capitalismo verde. Em nome do seringueiro, defende-se a exploração de petróleo, o monocultivo da cana-de-açúcar, a exploração madeireira em larga escala e a venda do ar que se respira.

Ante tal quadro, cumpre perguntar o que mais não caberia nesse modelo de “desenvolvimento sustentável”. Talvez em nenhum outro momento os pecuaristas e madeireiros tenham encontrado cenário mais favorável. É por essa razão que cremos necessário e urgente combatê-lo posto que, sob aparência de algo novo e virtuoso, ele reproduz as velhas e perversas estratégias de dominação e exploração do homem e da natureza.
Por fim deixamos aqui nossa reivindicação pelo atendimento das seguintes demandas: reforma agrária, homologação de terras indígenas, investimentos em agroecologia e economia solidária, autonomia de gestão dos territórios, saúde e educação para todos, democratização dos meios de comunicação. Em defesa da Amazônia, da vida, da integridade dos povos e de seus territórios e contra o REDD e a mercantilização da natureza.

Estamos em luta.
Rio Branco, Acre, 07 de outubro de 2011.

Assinam esta carta:
Assentamento de Produção Agro-Extrativista Limoeiro-Floresta
Pública do Antimary (APAEPL)
Amazonlink
Cáritas - Manaus
Centro de Defesa dos Direitos Humanos e Educação Popular do Acre (CDDHEP/AC)
Centro de Estudos e Pesquisas para o Desenvolvimento do Extremo Sul da Bahia (CEPEDES)
Comissão Pastoral da Terra – CPT Acre
Conselho Indigenista Missionário – CIMI Regional Amazônia Ocidental
Conselho de Missão entre Índios – COMIN Assessoria Acre e Sul do Amazonas
Coordenação da União dos Povos Indígenas de Rondônia, Sul do Amazonas e Noroeste do Mato Grosso - CUNPIR
FERN
Fórum da Amazônia Ocidental (FAOC)
Global Justice Ecology Project
Grupo de Estudo sobre Fronteira e Identidade - Universidade Federal do Acre
Instituto Madeira Vivo (IMV-Rondônia)
Instituto Mais Democracia
Movimento Anticapitalista Amazônico - MACA
Movimento de Mulheres Camponesas (MMC - Roraima)
Nós Existimos - Roraima
Núcleo Amigos da Terra Brasil
Núcleo de Pesquisa Estado, Sociedade e Desenvolvimento na Amazônia Ocidental -Universidade Federal do Acre.
Oposição Sindical do STTR de Brasiléia
Rede Alerta Contra o Deserto Verde
Rede Brasil sobre Instituições Financeiras Multilaterais
Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Bujarí (STTR - Bujarí)
Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri (STTR- Xapuri)
Terra de Direitos
União de Mulheres Indígenas da Amazonia Brasileira
World Rainforest Movement (WRM)

sexta-feira, 24 de outubro de 2025

A TERRA NÃO ESTÁ À VENDA

 Por rupturas sistêmicas diante do colapso climático e em defesa da Terra e dos Povos

O Brasil vai sediar em novembro, na cidade de Belém (PA), a COP 30. Este processo de negociação entre países, iniciado em 1995 pela Conferência das Partes (COP), no âmbito da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), não conseguiu até o momento assegurar compromissos e soluções eficazes para combater as mudanças climáticas. O motivo principal está nas resistências dos Estados e dos poderes econômicos globais em enfrentar as causas estruturais do colapso ambiental que ameaça a vida no planeta.

O colapso ambiental tem raiz histórica e tem causa principal. Ele é resultado da lógica predatória do modelo econômico capitalista, cujas condições de existência emergiram a partir do processo de invasão colonial do que hoje conhecemos como América. O projeto mercantilista imposto pelos colonizadores e suas matrizes nasceu sob o signo da violência, da expropriação territorial, da destruição da natureza, da mão de obra escrava e do genocídio de povos. Com sua falsa perspectiva de crescimento ilimitado em um planeta finito, está provocando a exaustão de todas as fontes da vida. Esse é o marco que precisa ser enfrentado por toda a humanidade e, principalmente, pelos Estados, através de decisões políticas, éticas e econômicas firmes e que passam pela necessidade urgente de rupturas sistêmicas.

Está suficientemente demonstrado que as mudanças profundas nas condições do clima têm uma relação direta com a forma do uso do solo e do subsolo. A expansão do agronegócio e da economia de extração de hidrocarbonetos, gás e minérios, com toda a malha de projetos de infraestrutura energética e de transportes a eles associada, transformou os modos de ocupação e de apropriação da terra, em continuidade ao processo colonial, enquanto os territórios dos povos indígenas e de comunidades tradicionais foram, e continuam sendo, sistematicamente assediados e esbulhados.

Atualmente, em uma nova fase de expansão do Capitalismo, novos mercados de ações tingidos de verde trazem falsas soluções a partir da financeirização da natureza e da vida como um todo. “A estratégia de compra-venda de ‘créditos de emissão’ pode levar a uma nova forma de especulação, que não ajudaria a reduzir a emissão global de gases poluentes. Este sistema parece ser uma solução rápida e fácil, com a aparência dum certo compromisso com o meio ambiente, mas que não implica de forma alguma uma mudança radical à altura das circunstâncias. Pelo contrário, pode tornar-se um diversivo que permite sustentar o consumo excessivo de alguns países e setores”, já nos alertava o Papa Francisco, uma década atrás, na encíclica Laudato Si’ (LS, 171).

Da mesma forma, o que os Estados e as grandes corporações apresentam como “transição energética” não é mais do que uma nova forma de transação de energia do Sul Global para os centros de poder econômico e uma substituição da dependência do petróleo por uma nova fase de exploração mineral intensiva, afetando novamente os territórios dos povos originários, quilombolas e comunidades tradicionais.

O Brasil chega à COP 30 no momento de maior retrocesso na política indigenista e na política ambiental desde a Constituição de 1988. A demarcação dos territórios indígenas, política fundamental para o enfrentamento do colapso ambiental, permanece estagnada pela vigência da Lei 14.701, flagrantemente inconstitucional, que inviabiliza as demarcações e abre os territórios à exploração econômica de terceiros. Ao mesmo tempo, o avanço no Congresso do PL 2159/2021, o chamado “PL da Devastação”, desmantela a política de proteção ambiental. A COP 30 se instala, justamente, neste contexto de profunda e inaudita desconfiguração dos direitos territoriais dos povos indígenas, conquistados na Constituição Federal de 1988 e balizados em instrumentos internacionais de direitos humanos.

A escolha de Belém do Pará, no coração da Amazônia brasileira, para sediar a COP 30 em 2025 carrega um profundo paradoxo que não pode ser invisibilizado. A Amazônia real dos territórios continua a sangrar sob a pressão da grilagem, do garimpo, do desmatamento e dos grandes projetos de infraestrutura que seguem validando a mesma lógica desenvolvimentista de sempre.  É sobre esta região que as frentes econômicas do agronegócio, a mineração e a exploração de petróleo continuam avançando, rasgando os territórios com estradas de ferro e de asfalto para o escoamento das commodities que o mercado internacional almeja. Os grandes rios da bacia amazônica estão hoje comprometidos com projetos de hidrelétricas, hidrovias e pela contaminação do mercúrio. E as falsas soluções do mercado de carbono e a financeirização da Natureza se configuram como a nova forma da apropriação dos territórios pelo capital.

A COP 30 não pode ser mais um momento perdido. Precisamos de decisões urgentes, ousadas e enérgicas que promovam uma mudança radical de rumo. Não existem duas crises, uma social e outra ambiental, mas uma única crise socioambiental, como afirmou o Papa Francisco. Uma crise civilizacional que exige de todos, e particularmente dos Estados e das grandes corporações, as medidas necessárias e a ruptura sistêmica imprescindível.

É fundamental uma ampla mobilização crítica da sociedade civil, das organizações sociais e dos movimentos populares, do mundo acadêmico e das Igrejas que permita uma participação efetiva na tomada de decisões. É imprescindível que o Estado brasileiro e todos os Estados participantes apresentem compromissos concretos em suas Contribuições Determinadas em nível Nacional (NDCs). Diante desta encruzilhada histórica, o Cimi se une aos povos e a toda a sociedade comprometida com a justiça para defender ações firmes e estruturantes. Essa transformação exige rupturas profundas, como:

  • A demarcação integral de todos os Territórios Indígenas, Quilombolas e Tradicionais.
  • Uma transição energética que seja verdadeiramente justa, construída desde os povos, dos povos e para os povos.
  • A criação de mecanismos transparentes para a restituição financeira das dívidas históricas ligadas à exploração de pessoas e territórios.
  • A implementação de políticas públicas robustas para a proteção ambiental e a regularização e distribuição agrária.
  • A garantia da primazia dos direitos humanos e da natureza sobre os interesses corporativos.
  • A reparação histórica integral pela violência colonial, incluindo a anulação das dívidas externas ilegítimas destes povos e a transferência dessa responsabilidade ao Norte Global, como parte de suas dívidas ecológicas.
  • O engajamento do Estado brasileiro no reconhecimento do Ecocídio como crime junto aos Tribunais Internacionais, para que os destruidores do planeta sejam responsabilizados.
  • Reafirmamos a soberania alimentar e a agroecologia como o único caminho possível para um futuro com comida de verdade, justiça no campo e respeito aos ciclos da natureza.

Este é um chamado à peregrina rebeldia e à insurgência da Esperança. Um apelo a todos e todas que se recusam a aceitar um futuro de cinzas. É hora de construir nas ruas, nas praças, nas aldeias e nos territórios a força popular capaz de fazer acontecer uma agenda real de ruptura e transformação. A resposta não virá dos palácios nem dos acordos corporativos. Ela está sendo semeada historicamente na resistência dos povos que defendem seus territórios com o próprio corpo e na sabedoria ancestral que nos ensina a coexistir com a Terra.

A Terra é Mãe. A ela pertencemos, e não está à venda!

 Conselho Indigenista Missionário – Cimi

13 de outubro de 2025

quarta-feira, 23 de abril de 2025

A CANOA, UM POVO

 

                                                                                                       

Lindomar Dias Padilha[1]                                                                                                      

I.             Introdução

A proposta deste trabalho é inicialmente apresentar ao leitor parte do tema sobre o qual me propus a discorrer em minha tese de doutorado que versará sobre a relação entre as conquistas territoriais do povo Apolima-Arara e a importância de suas manifestações míticas e espirituais neste processo. Para isso entendo, e este é o centro do atual trabalho, ser necessário narrar um pouco de como se deu o primeiro contato meu com este povo. Procurarei descrever o principal fato, o encontro, a partir da canoa e, em seguida, a vida vivida naqueles primeiros anos onde a escassez era a regra e os conflitos eram intensos, mas a história se fazia. A partir da visualização da canoa, posteriormente, pudemos visualizar o povo. Essa passagem da canoa ao povo é muito importante para que possamos compreender como isso resultou no, digamos, reencontro de um povo com seu território na busca por direitos. O trabalho está dividido em três momentos que se entrelaçam na construção do evento como todo. A canoa, que nos permitiu acessar o povo, quem são os Apolima-Arara e finalmente, a reconquista do território, sendo esta terceira parte um fechar como considerações. Pelo certo, dado que farei uma recuperação histórica, devo considerar que segundo BOAS (1896, p. 37) investigação histórica deve ser o teste crítico demandado pela ciência antes que ela admita os fatos como evidências, tomarei por base histórica as próprias pesquisas e conclusões apresentadas no relatório de identificação e delimitação do território.

Além de dados históricos, por certo farei uso de minhas próprias observações sempre considerando o que diz MALINOWSK (1978, p. 22) que um trabalho etnográfico só terá valor científico irrefutável se nos permitir distinguir claramente de um lado, os resultados da observação direta e das declarações e interpretações nativas e, de outro, as inferências do autor. Pelo fato de eu me fazer presente no processo desde o primeiro contato com o Povo Apolima-Arara, se torna impossível não recorrer às minhas memórias e outros registros pessoais.

Considero a escrita deste trabalho um revisitar os anos compreendidos entre 1998 e 2023, ano em que a terra dos Apolima-Arara foi finalmente homologada, mesmo que por lá ainda estejam algumas famílias de nawá, não indígena na língua Apolima-Arara. Porém, farei um recorte temporal menor, de 1999 a 2009 por ser o tempo em que ocorreram os principais acontecimentos. Tomarei por base os princípios da observação participativa nos termos de Malinowsk

Os princípios metodológicos podem ser agrupados em três unidades: em primeiro lugar. é lógico, o pesquisador deve possuir objetivos genuinamente científicos e conhecer os valores e critérios da etnografia moderna. Em segundo lugar, deve o pesquisador assegurar boas condições de trabalho, o que significa, basicamente, viver mesmo catre os nativos, sem depender de outros brancos. Finalmente, deve ele aplicar certos métodos especiais de coleta, manipulação e registro da evidência. (MALINOWSK, 1978, p.24).

Na atualidade, apresentarei apenas entrevistas realizadas com o cacique, via rede social, quando este se encontrava na cidade. Saliento que, como tratarei de fatos pretéritos, há uma dificuldade adicional que é aplicar e relacionar teoria sobre fados dados. Mas, aqui trago uma outra perspectiva: “o lugar da militância”. O lugar de minha formação militante foi que me possibilitou realizar tais observações e construir essas narrativas, sobretudo porque a base teórica só a estou podendo vislumbrar agora. Ao final retornarei a esta ideia.

 

II         A canoa

 

            O ano era 1999. No dia 09 de setembro daquele ano, iniciamos a histórica viagem e expedição rumo ao Alto Rio Juruá e seus afluentes, a partir da cidade de Cruzeiro do sul, estado do Acre até a fronteira com o Peru. Digo que foi histórica porque foi nesta viagem que encontramos o povo Apolima-Arara. Nossa modesta expedição contava comigo, Rose, Rosildo que era indígena pertencente ao povo Jaminawa Arara e Sr. Raimundo, barqueiro e comandante do batelão[2] de nome ajurí[3] de posse da equipe do Cimi. Também levávamos uma pequena canoa para ser utilizada nos igarapés onde o batelão não conseguisse entrar.

            A viagem, em seus primeiros dias principalmente, apresentou inúmeras dificuldade decorrentes sobretudo de nosso desconhecimento da região e, como arigós[4] que éramos, não imaginávamos encontrar tais obstáculos. O pior deles, porém, foi a severa seca do Rio Juruá naquele mês de setembro.

            Era 23 de setembro, uma quinta feira. Após quatorze dias de viagem, nos encontrávamos já próximo à sede do município de Marechal Thaumaturgo, cerca de oito praias, quando Rose avistou uma canoa que lhe pareceu diferenciar das que os ribeirinhos normalmente utilizam e me convidou para também observar a tal canoa. Fiz sinal para que o comandante parasse o batelão e retornasse para o local onde tínhamos avistado a canoa, o que ele fez de pronto. Ancoramos o batelão no barranco próximo à canoa e constatamos que de fato era muito diferente das demais que conhecíamos na região.

            A canoa era construída de um único tronco tendo suas proa e polpa arredondadas. Medindo cerca de cinco metros de cumprimento e a parte mais larga cerca de 80 centímetros, com madeira claramente cavada como que escupida. No interior da canoa três pequenos paus roliços serviam de banco. Um design inconfundível e uma verdadeira obra de engenharia aeronáutica. Na proa da canoa um cipó cujo nome não me fora dito, voltava-se para o alto do barrando até uma pequena árvore onde se encontrava cuidadosamente amarrado, uma âncora em direção oposta à água. Em relação a madeira utilizada e o processo de confecção daquele modelo de canoa o cacique Francisco me informou por meio de entrevista, via mensagens de áudio em rede social, que:

Outra coisa, seu Lindomar, referente a madeira que o senhor perguntou que a gente faz de um pau só é utilizado, às vezes, o Cumarú. Principalmente o Cumarú que é um pau melhor de abrir no fogo e a Guariúba. Esses dois são os pau melhor que tem para trabalhar aquele tipo de canoa. A gente abre no fogo. Primeiramente a gente cava, né? E aí quando tá cavada a gente abre ela no fogo. Tem dois tipos de fazer ela. Já diretamente cavada, sem ser preciso abrir no fogo e também ela já feita para abrir no fogo. Ela fica mais moldeada, né? Boleada. Mas a madeira mais utilizada mesmo é o Cumarú e a Guariúba. (SIQUEIRA, entrevista concedida em 26/07/24).

            Embora eu já soubesse o nome da madeira usada na fabricação daquele modelo de canoa, e o leitor saberá como eu soube do nome mais ao final, optei por consultar o cacique para maior legitimidade e atualização deste tipo de informação. Nesta entrevista, o cacique Francisco, também conhecido como Chiquinho Arara, explica o tipo de madeira utilizada para a construção daquele modelo de canoa e ainda explica, mesmo que de forma rápida, o processo de confecção da canoa. A entrevista indica ainda que eles continuam fazendo este tipo de canoa, digamos, tradicional e de forma artesanal. Ao final apresentarei uma foto que fiz de uma dessas canoas em 2023.

Decidimos subir o barranco, eu e Rose porque os demais permaneceram no batelão, para ver se encontrávamos o dono da canoa. O barranco estava muito alto porque o nível das águas do rio estava muito baixo em razão da seca já mencionada. Assim que subimos o barranco, nos deparamos com uma pequenina casa de madeira e coberta com palhas, elevada cerca de 1,30 metros do chão, típicas da região. Avistamos um senhor com traços marcadamente indígenas aparentando ter seus 70 anos, mais ou menos, de bermuda e sem camisa que ao nos ver apenas se acocorou em uma espécie de trapiche que avia logo na frente da casa, como se fosse uma pequena varanda sem cobertura. Atrás dele havia uma menina moça aparentando uns 15 anos de idade, que ao nos ver tratou de fugir pelos fundos da casa e esconder-se na mata.

Depois de longos segundos de silêncio total, resolvemos iniciar uma conversa. Iniciamos por nos apresentar. Dissemos quem éramos, para quem trabalhávamos e qual era o nosso interesse naquela região pouco visitada. Diante da dificuldade de estabelecermos um diálogo, perguntei se aquela canoa no rio era dele e aí sim, ele respondeu que sim. Então, indagamos a razão de ser uma canoa tão diferente das demais? Neste momento aparece uma terceira pessoa, também um senhor aparentando ter 70 anos mais ou menos. Este, porém, estava de bermudas, com camisa e ainda um boné de cor acinzentada. Somente com a chegada deste segundo senhor é que a conversa pode fluir melhor, tanto que depois de alguns minutos a menina foi chamada a retornar à casa.

O primeiro senhor finalmente se apresentou e em seguida tratou de apresentar os demais. Ele era Thaumaturgo de Azevedo, a moça chamava-se Celiene e era neta de seu Thaumaturgo. O outro senhor era chamado por Zé do Basílio. Seu Thaumaturgo falava misturando o português com espanhol e outra língua que não era possível identificar, mas foi possível a compreensão. Inicialmente seu Thaumaturgo, com muita desconfiança de nós, procurou desqualificar nosso trabalho associando-nos à Fundação Nacional do Índio – Funai, que hoje se chama Fundação Nacional dos Povos Indígenas. Ao ler Gluckman pude entender melhor o sentimento do senhor Thaumaturgo.

Contudo, como Fortes já salientou, "os agentes de contato" são "em larga escala, personalidades socialmente estereotipadas, tanto do ponto de vista dos nativos quanto do ponto de vista dos órgãos da civilização europeia, para quem funcionam como instrumentos". (GLUCKMAN, 2010, p. 332).

Os “agentes de contato”, lá como neste caso com os primeiros Apolima-Arara, fomos tratados como representantes do governo e isso criava uma barreira enorme entre nós. Todavia, com o tempo e com algumas intervenções do Sr. Zé do Basílio, seu Thaumaturgo foi se acalmando e pude finalmente perguntar a ele se eu podia tomar nota de algumas coisas sobre sua história e o porquê de estarem ali, ao que hesitante, disse sim, mas não via em nós possibilidade de ajudá-los. Então começamos a fazer anotações em nossos diários de campo lembrando aqui do que dizia Malinowsk:

devemos não só anotar os acontecimentos e detalhes ditados pela tradição como pertencentes à própria essência do ato, mas também registrar as atitudes de atores e espectadores, umas após as outras. (MALINOWSK, 1978, p. 35).

Quase lacrimejando, seu Thaumaturgo passou a contar a sua história, a história de dor e desterritorialização de seu povo. Quando terminei de anotar o seu relato perguntei se poderia levar aquelas informações às autoridades e ele disse sim, recobrando o semblante com uma leve expressão de esperança. Tanto que pedi para tirar uma foto deles e ele permitiu, não sem antes trocar umas poucas palavras com o Zé do Basílio e passar as mãos pelo rosto por umas duas vezes. Aquela atitude me fez pensar que ele ainda estava sob sentimentos ambíguos ou dúvidas. Então fiz a foto! Estávamos diante não apenas de três pessoas, mas de um povo que se revelava a nós, ao estado do Acre e ao Brasil. Sublime alegria a minha! E tudo por causa de uma canoa!

 

II.     Os Apolima-Arara

 

Em minha dissertação de mestrado PADILHA (2021, p. 69) destaco que as primeiras referências conhecidas aos Arara (Xawanáwa) do alto Juruá foram feitas no início do século XX, e que segundo PEREIRA NETO (2004, p. 26), é possível que naquele tempo mais de um grupo fosse chamado do mesmo modo ou de forma semelhante, localizando-se alguns deles, inclusive, na região do rio Tarauacá. Importa explicar aqui que o Rio Tarauacá, embora não seja afluente do Rio Juruá, àquela época era considerado um rio pertencente à administração do Alto Juruá.

um relatório da Prefeitura do Alto Juruá mencionava a existência de numerosas malocas indígenas naquele departamento citando na bacia dos rios Tarauacá e Envira as tribos dos aninauás, ararapinas, ararauás, canamaris, capanáuas, caiuquinas, caxinauás, contanauás, curinas, curinas espinhos e bocas pretas, aninauás, marinauás e tuxinauás. (MENDONÇA, 1998, p. 194).

Talvez seja justamente por isso que no povo Apolima-Arara há uma predominância dos ditos “Arara” pois, na verdade há uma miscigenação muito grande entre outros povos, especificamente, segundo COUTINHO (2003, p. 1) os Amawáka, Koníbo, Santa Rosa, Kampa e Kaxinawá. Esta miscigenação se deveu por algumas razões, mas especialmente pelo recrutamento forçado de indígenas para trabalharem no corte da seringa nos seringais por meio de ataques conhecidos como correrias[5] em toda a região.

Tentativas de retornarem ao território de origem foram feitas, mas a Funai, quando fez a demarcação do território para os Ashaninka do Rio Amônia, território contiguo ao hoje território dos Apolima-Arara, não procurou demarcar também a terra dos Apolima-Arara o que resultou em uma nova dispersão do povo que, mais uma vez foi expulso de seu território. Essa foi a segunda explicação mais dolorida que ouvi de própria boca de seu Thaumaturgo

Aparentemente, a FUNAI não se deu conta do que tinha ocorrido no rio Amônia até o ano de 1999. Nessa época, a equipe do Conselho Indigenista Missionário (CIMI) de Cruzeiro do Sul, nas pessoas de Lindomar Dias Padilha e Rosenilda Nunes Padilha, dirigiu ao chefe do Posto Indígena da FUNAI naquela cidade, Hudson de Melo Barros, um expediente datado de 18.11.1999 afirmando, entre outros assuntos, que durante uma viagem pelo alto Juruá nos dias 13 e 14 daquele mês haviam constatado a presença de um agrupamento indígena que denominaram 'Apolima'. (PEREIRA NETO, 2003, p. 56).

 

Aquele primeiro encontro com seu Thaumaturgo, Celiene e Zé do Basílio e a visita aos demais membros do povo que ficaram espalhados ao longo do Rio Amônia, afluente da margem esquerda do Rio Juruá, resultou em um relatório com fotos e textos apresentados à Funai que se comprometeu conosco a criar um grupo de trabalho para proceder à identificação do povo. Aqui cabe lembrar GEERTZ (2008, p. 14) quando diz que o etnógrafo "inscreve" o discurso social: ele o anota. Ao fazê-lo, ele o transforma de acontecimento passado, que existe apenas em seu próprio momento de ocorrência, em um relato, que existe em sua inscrição e que pode ser consultado novamente. A data apresentada pelo funcionário da Funai, à época chamado de “chefe de posto” em função do cargo, Sr. Hudson de Melo Barros, é bastante incerta.

A partir daquele primeiro encontro e após visitar os demais indígenas do povo espalhados pela região, nos programamos para realizar viagens mais frequentes e com maior permanência entre eles. Em menos de um ano decidiram retornar ao território de origem e passaram a viver em conjunto em uma só aldeia a qual denominaram Novo Destino. Inclusive seu Thaumaturgo que inicialmente estava descrente, voltou e foi morar na nova aldeia. Com o retorno ao território e a formação da aldeia, passamos a permanecer por dias e até meses morando com o povo para aprender melhor a história e a forma de viverem sua cultura. Além do aprendizado de minha parte, a convivência com eles também os ajudava a acreditar e lutar pela reconquista do território que se encontrava totalmente invadido.

 

III.    Considerações:

 

A partir da reconstituição da aldeia, além da esperança, aumentaram os conflitos e, portanto, aumentou muito a necessidade de me fazer presente por mais vezes e permanecer por mais tempo em cada uma dessas idas à aldeia. Aumento também a confiança deles em mim. Os cinco primeiros anos, enquanto me dedicava a escrever a história deles, fui também me apropriando de seu jeito de ser, de pensar de sonhar e pude, nesse processo, participar de diversos rituais. Não consegui refletir muito sobre os rituais porque a demanda para produzir documentos para encaminhar às autoridades e ainda o cuidado com a própria vida me consumia bastante.

Para produzir documentos confiáveis tínhamos, eu e os meus narradores, que centrar muito na condução histórica do processo e na formalidade. Não é fácil fazer registros sob forte pressão. Interessante que ao ler Malinowsk pude perceber com maior clareza aquilo que eu vivia e sentia quase que como uma intuição. Mas, ali também estava presente as informações adquiridas a partir da militância, o meu lugar. Me refiro mais especificamente à angústia de ter que fazer história, escrever no campo das leis, do direito e ainda fazer registros etnográficos.

Nas ciências históricas, como já foi dito, ninguém pode ser visto com seriedade se fizer mistério de suas fontes e falar do passado como se o conhecesse por adivinhação. Na etnografia, o autor é, ao mesmo tempo, o seu próprio cronista e historiador; suas fontes de informação são, indubitavelmente, bastante acessíveis, mas também extremamente enganosas e complexas, não estão incorporadas a documentos materiais fixos, mas sim ao comportamento e memória de seres humanos. (MALINOWSK, 1978, p. 23)

            Fazer essa referência a Malinowsk não significa necessariamente confirmar e simplesmente reafirmar o método, mas é unicamente colocar-me diante da experiência. Certa feita, quando eu estava na mata acompanhando um grupo de homens que ao mesmo tempo que caçavam fiscalizavam o território. Pela hora do almoço nos reunimos todos no acampamento. Enquanto comíamos uma carne de veado que que Assis havia matado, o próprio Assis começou a falar sobre uma árvore que ele havia visto ali pelas redondezas. Ele descreveu a árvore com tanta precisão e interesse que eu tive que perguntar o porquê aquela árvore era tão importante para ele? Ele respondeu com uma espécie de devoção à árvore: “aquela árvore é Cumarú. O Cumarú anda na terra e na água, por isso ele é muito importante para nós”. Eu não entendi e resolvi acrescentar mais uma pergunta: como ele anda na água? Como isso é possível? “seu Lindomar, é com o Cumarú que fazemos nossas canoas”.

A única coisa que historiadores e etnógrafos conseguem fazer, e a única coisa que se pode pedir que façam, é expandir uma experiência particular para as dimensões de uma experiência geral ou mais geral, de modo que ela se torne, por essa razão, acessível enquanto experiência a homens de outras terras ou outro tempo. (GEERTZ,2008, P. 32).

Com essa fala de Geertz quero retornar ao ponto onde iniciei para reforçar minha convicção pessoal de que o grande encontro que tive com os Apolima-Arara foi na verdade conduzido inteiramente pelo “espírito do Cumarú”, a canoa!

 

Referências

 

Boas, Franz, 1858-1942. Antropologia cultural / Franz Boas; textos selecionados, apresentação e tradução, Celso Castro. - 2.ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005

 

COUTINHO, Walter JR. Relatório de Identificação e Delimitação da Terra Indígena Arara do Rio Amônia, Fundação Nacional do Índio – FUNAI, Brasília 2003.

 

GEERTZ, Clifford, A interpretação das culturas (1926) 1ª Ed. LTC, Rio de Janeiro, 2008.

 

GLUCKMAN, Max. Análise de uma situação social na Zululândia moderna. In: FELDMAN-BIANCO, Bela (org.). Antropologia das sociedades contemporâneas. 2. ed. São Paulo: Editora UNESP, 2010. p. 237-265.

 

MALINOWSKI, B. Argonautas do Pacífico Ocidental: um relato do empreendimento e da aventura dos nativos nos arquipélagos da Nova Guiné melanésia. São Paulo: Abril Cultural, 1978. (Coleção Os Pensadores).

 

MENDONÇA, Belarmino. Reconhecimento do Rio Juruá (1905). Ed. Italiana e Fundação Cultural do Estado do Acre, coleção Reconquista do Brasil, vol. 152, Acre, 1989.

 

PADILHA, Lindomar Dias. Dissertação de mestrado. Direitos humanos e povos originários na Amazônia Ocidental: Demarcação dos territórios como fundamento para um modelo baseado no Bem Viver – O caso Apolima-Arara. UCP,2020

 

PEREIRA NETO, Antônio “Relatório de conclusão da delimitação da terra indígena Arara do rio Amônia, município e Marechal Thaumaturgo-AC, em cumprimento à I.E. no 165/DAF de 04/12/03”. Brasília: FUNAI, 19 de janeiro, 2004.

 

SIQUEIRA, Francisco. Cacique do povo Apolima-Arara: entrevista concedida a Lindomar Padilha em 26 de julho de 2024.



[1] Doutorando em Antropologia pela Universidade Federal de Pelotas (PPGANT/UFPEL), mestre em Direito pela Universidade Católica de Petrópolis (UCP), Pós-graduado em Desenvolvimento Social no Campo: Povos Indígenas, Quilombolas e Comunidades Tradicionais pela Universidade de Brasília (UnB), Filósofo indigenista.

[2] Nome dado na região embarcações de médio e grande porte, mas que têm o fundo chato e pequeno calado para facilitar a navegação em águas mais rasas, como era o caso no Alto Juruá.

[3] Significa “eu vim ajudar ou simplesmente mutirão. Palavra muito utilizada na Região Amazônica para designar a forma de produção das comunidades.

[4] No acre “arigó” inicialmente se referia aos nordestinos que vinham trabalhar no corte da borracha e, por não conhecerem a região, tinham dificuldade para locomoção entre as estradas de seringa.

[5] As correrias eram perseguições armadas aos povos indígenas que acompanharam a abertura e a instalação dos seringais no Acre, no final do século XIX e início do século XX.  Disponível em: https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Kuntanawa#:~:text=%5BAs%20correrias%20eram%20persegui%C3%A7%C3%B5es%20armadas,e%20in%C3%ADcio%20do%20s%C3%A9culo%20XX%5D. Acessado em: 27/07/24.